sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

EM BUSCA DO SANTO GRAAL.



"Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme?..." (Allan Kardec; G, I, 52, N.1).


Onde está essa "amplíssima correspondência"? Onde foram parar esses "arquivos preciosos" de "documentos autênticos" com os quais a posteridade poderia "julgar os homens"?

Os documentos históricos do espiritismo sofreram as consequencias de terem sido, os negócios da doutrina, tratados sempre como algo de família, constituindo heranças e, consequentemente, dependendo de herdeiros.

Kardec pretendia criar uma sociedade impessoal, mas não deu tempo. Morreu antes de concretizar seus planos e, tudo o que era do espiritismo (sociedade, obras, revista, documentos) tornaram-se a herança de sua esposa, Amelie Boudet.

De início, ela disse que ia tudo gerir; mas, talvez pela idade ou a solidão, acabou por entregar tudo nas mãos do Pierre-Gaëtan Leymarie, que criou uma tal "sociedade para continuar a obra de Allan Kardec".

Após a morte da herdeira, Amelie, em 1883, e como único remanescente da tal sociedade, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos documentos de Kardec. Uma parte, ele foi publicando na Revue, e acabou por usar em "Obras Póstumas"; outra parte, segundo uma lenda, ele teria enviado para a FEB, onde se encontra sepultado num cofre-forte. É bom lembrar que Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente o Rio; ele esteve exilado aqui em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

O que sobrou na França foi herdado (novamente em família!) pelo filho dele, o Paul Leymarie. Este, após um breve intervalo de três anos em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, dono absoluto dos destinos do espiritismo até 1914, quando, em função da I Guerra Mundial, desistiu. O que não foi de todo mal, pois o Paul Leymarie vendia até bolas de cristal pela Revue.

Antes mesmo de terminar a I Guerra, em 1916, um rico empresário francês, o Jean Meyer, assumiu o movimento órfão (Denis e Delanne eram sumidades intelectuais; eram referências; mas alguém tinha que cuidar dos negócios). As pessoas malvadas, como eu, imaginamos o Meyer compensando regiamente o Paul.

Meyer criou a Casa dos Espíritas, para onde levou os documentos e objetos pessoais de Kardec. Este mesmo mecenas fundou o Instituto de Metapsíquica, sob o comando inicial do Gustave Geley, e, onde foi gerado o Tratado de Metapsíquica, no qual o Richet diz que o "espiritismo é inimigo da ciência". Jean Meyer foi o dono do movimento até sua morte em 1931. Foi ele quem inaugurou a vocação assistencialista do espiritismo.

Bem, até aí os jacobinos; a partir daí, os xenófobos.

Assume Hubert Forestier, e torna-se tão particularmente dono que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Morre em 1971, deixando um movimento mais que anêmico, agonizante mesmo.

Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para o André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. O resto -- muito pouco: o nome da Revue e da Societé --, ficou nas mãos do Dumas.

André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestigio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da Revue Spirite para "Renaitre 2000", e a societé para uma tal "sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência", colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o "espiritismo francês".

Dizem que os brasileiros tentaram recuperar o nome da Revue Spirite,uma vez que o cidadão não pretendia mais publicá-la, mas o Dumas não aceitou. Alegou que o movimento no Brasil se desviara para o religiosismo e não abriu mão.

Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se comunicou no grupo dele, o Cercle Spirite Allan Kardec, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. Ele o tenta até hoje.

Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias, resolveu, certamente com o patrocínio da FEB, retomar as coisas. Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela Federação Espírita Francesa e Francofônica, da qual é fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI - Conselho Espírita Internacional.

E os documentos de Kadec, suficientes para comprovar ou desmentir o famoso "controle universal" num julgamento pela posteridade, não deveriam acompanhar toda essa trajetória de mandos e poderes, acondicionados num majestoso baú?

Deveriam, mas o baú transformou-se num "cálice sagrado", num Santo Graal, ou seja, numa lenda.

Conta Wallace Leal que quando tentava aproximação com o Forestier (aquele que foi dono de 1931 a 1971) para saber dos documentos, ele respondia friamente que a Maison tinha sido pillé pelos alemães. Dizem que os papéis de Kardec foram queimados para aquecer os soldados alemães, aquartelados na Casa dos Espíritas, por uns quatro invernos, os mais rigorosos do século.

Mas, existe outra saga. Em 1939, Canuto Abreu seria um adido na embaixada brasileira em Paris, quando foi procurado por algumas pessoas que se diziam a mando dos espíritos -- que por certo realizaram escutas espirituais no gabinete do Hitler e souberam da iminente invasão alemã à Cidade Luz -- e lhe entregaram valiosos documentos de Kardec, para que ele os salvasse trazendo para o Brasil. Para que não se fuja à regra lendária, tais documentos, "salvos dos alemães", acabaram transformando-se numa herança, ora sepultada em mãos dos descendentes do Canuto.

Assim, a lenda divide os famosos documentos tão cuidadosamente arquivados e citados por Kardec em três conjuntos: um nos porões da FEB; outro com os herdeiros do Canuto; e, o que ficou na França, queimado como combustível pelos nazistas.

Consideremos perdido este último lote. O que está em poder da FEB, segundo a lenda, foi-lhe dado pelo Leymarie, na época legítimo proprietário dos mesmos, legitimando, dessa forma, sua apropriação por essa entidade. Mas, e o lote em poder dos descendentes do Canuto? Ao Wallace, Forestier teria dito que foram "pilhados", sem se referir à história do Canuto. Teriam, aquelas misteriosas figuras, entregue ao Canuto sem o conhecimento do Forestier, seu proprietário no momento? Não teria havido, assim, uma apropriação indébita?

Por outro lado, considerando as simpatias do governo brasileiro por Hitler -- o que só mudaria com as mudanças no rumo da guerra, lá por 1942 --, e os agrados despendidos pelas grandes potências no jogo político internacional, se um adido da embaixada brasileira em Paris se dirigisse à autoridade militar alemã, invasora, e solicitasse permissão para "retirar alguns documentos daquela Maison que seus soldados ocuparam", seria prontamente atendido. Daí, a "pilhagem" não teria sido feita propriamente pelos nazistas.

Mas, e as datas? Os tais et's teriam aparecido em 1939, e a invasão alemã ocorreu em junho de 1940. Bem, se esta for uma história dispersiva surgida duas ou três décadas após o ocorrido, um deslocamento de seis meses é bastante viável.

Neste caso -- e considerando-se a moda atual de buscarem, os países, nos foros internacionais, documentos, relíquias e artefatos arqueológicos que lhes foram pilhados durantes séculos de guerras e colonizações --, o que poderia acontecer se o Roger Perez, ou o Estado Francês -- ou mesmo um franco-atirador -- se dessem conta de que importantes documentos franceses, pilhados durante a ocupação alemã, se encontram escondidos em São Paulo?

Porque, se esta historia for verdadeira -- e, não, apenas uma lenda, como parece ser --, há uma diferença em relação às cartas de Kardec que temos visto em leilões. Uma carta, uma vez enviada e recebida, passa a integrar o acervo do destinatário. Portanto, se o Freud tivesse escrito uma carta à minha bisavó, e agora ela me coubesse por herança, eu faria dela o que quisesse.

Enfim, como em toda lenda, aqui há mais perguntas que respostas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DO ESPIRITISMO, FORA DOS CATECISMOS.

Comecemos pelo neologismo espiritismo. Segundo a primeira edição do Houaiss vem do francês spiritisme (1857), que por sua vez vem do inglês spiritism (1856). Pesquisas recentes recuam sua utilização em livros e revistas de língua inglesa de 1853 e 1854. A trajetória do neologismo indica o caminho da idéia: o espiritismo é um movimento que surgiu nos Estados Unidos da América sob os nomes de new-spiritualism e spiritism (o primeiro acabou por adquirir predominância), foi trazido pelos seus entusiastas para a Inglaterra, onde se disseminou sob o nome de spiritualism, e, logo a seguir, para a Europa Continental, onde atingiu várias camadas da sociedade sob os nomes franceses de spiritualisme e spiritisme (este último adquiriu predominância no continente). Na França o movimento encontrou-se com a filosofia. Havia uma certa disponibilidade de filósofos ociosos provocada pela ditadura de Luís Napoleão Bonaparte. Aliaram-se os órfãos do até então "ditador filósofo", o espiritualista e eclético Victor Cousin, com alguns socialistas utópicos impedidos em suas tertúlias políticas, e passaram a interrogar os espíritos de forma mais consistente. O escritor Victorien Sardou juntou toda a produção resultante desses diálogos e solicitou ao Professor Rivail, talvez o mais sério e maduro do grupo, que a pusesse em ordem. Rivail construiu com o material toda uma metafísica, ainda que no estilo literário do diálogo com a manifesta intenção de fugir ao espírito de sistema, e a publicou sob o título de "O Livro dos Espíritos", tendo como subtítulo "Filosofia Espiritualista" -- o que denuncia a influência eclética do Cousin. Reinvindicou para esse corpo doutrinário o nome de spiritisme, identificou os espiritos dialogantes como grandes nomes do passado -- São João, São Luís, Santo Agostinho, Sócrates, Platão, Lammenais, etc. --, e ultrapassou a vã filosofia enveredando para o terreno tipicamente religioso, declarando que tais espíritos tinham sido enviados pelo próprio Deus para inaugurar uma nova era para a humanidade, inserindo-o na sequencia das revelações ocidentais: o judaísmo, o cristianismo e, agora, o espiritismo -- como se fora o primeiro, o segundo e, agora, o terceiro testamento. Iniciou dessa forma o grande movimento do espiritismo filosófico; ou, espiritismo moral, segundo Sudre; ou, espiritismo religioso, segundo Flammarion, Aksakof, Richet, e outros; ou, simplesmente, espiritismo kardecista, segundo Sausse, Leymarie, e todos os citados anteriormente -- e todo mundo. Este Espiritismo sobreviveu aos demais. Os demais foram: o espiritismo científico, representado por Aksakof, Flammarion, Delanne, Bozzano, Lombroso e Geley, desaparecido com a morte deste último; o espiritismo místico do Roustaing; e o espiritismo envergonhado que se chamou de "pesquisa psíquica", "metapsíquica" e "parapsicologia", de Crookes, Richet, Rhine e outros. Hoje em dia, graças à democracia, à crescente liberdade individual e à ausência de qualquer direito autoral sobre o nome, existem, ao lado do espiritismo kardecista, uma série de espiritismo à moda da casa ou do sujeito. Fim.
Fontes: "A Mesa, o Livro e os Espíritos", de Aubrèe e Laplantine; "Revista Espírita", de Kardec; "Memórias Biográficas e Filosóficas de um Astrônomo", Flammarion; "História da Filosofia", de Padovani e Castagnoli; mais pesquisas citadas neste mesmo blog, sob o título "Da-auto-geracao-de-mitos-ou-da-geracao de auto-mitos, etc." sendo imprescindível não ignorar o comentário corretivo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

SOBRE O DIÁLOGO COM OS ANTI-RELIGIOSOS II

Mais algumas considerações que me surgiram nas conversas facebookeanas. A coisa é tão simples e tão fácil de compreender. Vamos nos abstrair, por alguns momentos, de toda esta discussão falaciosa, cheia de piadinhas desconectadas e de respostas de efeito plagiadas dos gurus orientais. Vamos a um acontecimento recente, conhecido de todos, para entender as diferenças entre a ciência e o espiritismo pretendido pelos ortodoxos kardecianos. Todos conhecem a NASA. Uma instituição respeitadíssima nos meios acadêmicos, industriais e tecnológicos de todo o mundo, responsável pelos inúmeros avanços da comodidade moderna, conseguidos como sub-produtos de sua exitosa corrida espacial que na semana passada conquistou mais uma vitória colocando um novo equipamento de pesquisa no solo marciano. Pois bem, em dezembro do ano passado a NASA manifestou-se em canais de comunicação que cobriam todo o mundo -- e conseguiu a atenção de todo o mundo --, para comunicar que descobrira uma nova forma de vida num lago americano, vida essa que incorporara em seu DNA o arsênio em lugar do fósforo. Apesar de toda a autoridade conquistada no trabalho árduo anterior, não posaram -- e nem seriam aceitas se tal -- como reveladores cujos conteúdos deveriam ser incontinenti incorporados aos anais doutrinários da ciência. Não. Expuseram ao vivo a síntese do trabalho, e, numa publicação científica -- Science -- detalharam a metodologia empregada, as fundamentações, os testes, os resultados, etc. Imediatamente, vários outros laboratórios e centros de pesquisas puseram-se a reproduzir seus experimentos, a fazer a necessária análise e crítica ao método, a, enfim, tentar confirmar ou refutar os resultados. Dois centros de pesquisas, dois estudos independentes, puseram por terra as afirmações dos eminentes cientistas da NASA, demonstrando exatamente onde estava o erro: a presença mínima de fósforo, tão mínima que desprezada pelos cientistas, era suficiente para manter a forma de vida e sua resistência ao arsênio, tornando-a um extremófilo. Bem, vamos ao espiritismo ortodoxo kardeciano. Seus adeptos (como afirmam categoricamente se tratar de uma ciência, poderíamos dizer: seus "cientistas"), afirmam com ares de certeza que os conteúdos filosóficos e morais de sua doutrina foram transmitidos a Kardec -- rebaixado à condição de simples secretário -- pelos Espíritos Superiores comandados pelo Espírito de Verdade. Quais as fundamentações epistemológicas, a metodologia empregada, os testes, etc., para chegar-se a este resultado? Ah, o Controle Universal do Ensino dos Espíritos! Pulando certas verdades inconvenientes, como o fato de que ciência não se faz de "ensino" e, sim de pesquisa -- a educação é que se faz de "ensino", mas o educador, como dizia o próprio Kardec, é um "revelador secundário", e a ciência é feita pelo "revelador de ponta" -- , ou, ainda, o fato de que um princípio não se torna verdadeiro por eleição ou plebiscito, vamos, por obséquio, aos detalhes da metodologia. É mister uma crítica ao método, a fim de superar suas falhas. Como reproduzimos os experimentos, para verificarmos os resultados? Quais os passos necessários? Foram seguidos? Por quem? Ah, por Kardec. Ele disse que fez assim, que tinha mil centros e coisa e tal, e Kardec é um homem honrado, a sociedade espírita de Paris é respeitável, merecem credibilidade. (Alguém aqui duvida da respeitabilidade da NASA e da honradez das meninas que fizeram o experimento?). Bem, então, por mais honrado que ele seja, suas alegações no Item II da Introdução do ESE não podem ser tomadas como conhecimento científico, uma vez que não há a menor demonstração do método utilizado. Vamos, então, tentar reproduzí-lo? Hoje é difícil, diriam, os médiuns são todos religiosos, têm idéias divergentes, muita liberdade. Será que Kardec os tinha totalmente homogeneizados numa unanimidade nelsonrodrigueana? Não, é que os planos de Deus previam a revelação ali, naquele momento, por isso as condições foram divinamente reunidas; a nós, pobres pósteros, resta o consolo de aceitarmos, acreditarmos, estudarmos humildemente as obviedades ditadas pelos espíritos superiores, e, com isso, "evoluirmos" -- seja lá o que isto signifique. Igualzinho ao caso do Moisés, a quem Deus concedeu apenas duas audiências, e a partir daí a humanidade é que engolisse e praticasse religiosamente suas leis machistas e capitalistas. Ufa! Precisa escrever mais para discorrer sobre as diferenças práticas entre ciência e religião; entre espiritismo e ciência?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

SOBRE O DIÁLOGO COM OS "ANTI-RELIGIOSOS"

Eu peço perdão se minha argumentação inadvertidamente ofende alguém. Mas, minha intenção é apenas demonstrar a alguns nossos irmãos de humanidade o quanto são religiosos sem o saberem. A diferença entre certos espíritas que se consideram laicos e aqueles outros que se assumem religiosos é a mesma diferença existente entre o luteranismo e a igreja católica. Lutero deu uma limpada no cristianismo da igreja católica, excessivamente influenciado por elementos paganistas, mas continuou defendendo as mesmas crenças básicas. Certos espíritas que arremetem, às vezes até colericamente, contra o movimento espírita, apenas o limpam de um excesso de práticas místicas acrescentadas ao longo do tempo, mas continuam defendendo religiosamente certas crenças básicas, como a missão divina do espiritismo e a eficácia de um controle de "ensinos" do qual nem mesmo a aplicação foi demonstrada historicamente. E reagem a qualquer tentativa de questionamento ou falseamento, tanto quanto o reagem os religiosos. A única diferença entre os seguidores da reforma protestantes e certos espíritas auto-denominados "não religiosos", é que o reformador daqueles não afirmou que estava fazendo uma "ciência". Na verdade, quem teima em manter o espiritismo como uma religião, são os que se aferram a uma "Codificação" transformada em cânone sagrado: inquestionável e irrefutável. É possível transformar o espiritismo em ciência. Mas, prá isto seria necessário entender a contribuição de Kardec como importante, porém cheia de falhas e anacronismos que precisam ser substituídos pela livre e descontraída discussão, tanto quanto pela pesquisa e refutação. O Espiritismo baseado em crenças, tal como professado pelos ortodoxos religiosos ou ortodoxos laicos, é religião. "Duela a quin duela", como disse certo presidente. E Kardec identificou isto claramente quando relacionou as crenças espíritas no famoso discurso da RE-dez-1868, finalizado com a afirmação categórica, porque expressão da realidade: "eis o Credo, a religião do Espiritismo". Esta é a mais pura e cristalina realidade que qualquer inteligência mediana retira da kardequiana ou publicações posteriores e que nenhum discurso eivado de insinuações sobre a ignorância doutrinária do interlocutor, ou ancha de piadinhas cuja relação com o texto é difícil estabelecer, irá obscurecer. Agora, saindo do terreno das crenças dogmáticas, colocando-se Kardec e os Espíritos Superiores no seu devido lugar -- apenas uma escola da filosofia espírita --, e ampliando-se a abrangência do espiritismo para outras contribuições, teorias, pesquisas e experimentações, teremos conseguido guindá-lo à condição de ciência ou filosofia. Não sou contra ou a favor deste ou daquele; apenas constato a realidade. É preciso ter consciência das coisas. O Espiritismo entendido e praticado como religião encontra respaldo na própria kardequiana; já demonstrei isto à exaustão. Por isso, as pessoas que assim o praticam têm o direito de serem respeitadas em suas louváveis e consequentes crenças. Os que o querem "puramente" filosófico e científico, laico e sem crenças, que saibam vivenciarem-no assim.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MAIS UMA OBSERVAÇÃO À EPISTEMOLOGIA ESPÍRITA

Veja este trecho de Kardec, na Gênese, no capitulo "Caráter da Revelação Espírita", onde ele trata das formas de aquisição e acumulação do conhecimento espírita, o que, em termos técnicos, seria a epistemologia:
"Em filosofia, em psicologia, em moral e em religião, só é verdadeiro o que não se afaste, nem um iota, das qualidades essenciais da Divindade". Kardec, G,II,19.

Mais adiante, no capítulo III do mesmo livro, quando ele discute sobre o instinto,apresenta várias hipóteses e, depois, diz com muita propriedade:
"Todas essas maneiras de encarar o instinto são necessariamente hipotéticas e nenhuma tem uma característica suficiente de autenticidade para ser tida como a solução definitiva. A questão, por certo, será resolvida, um dia, quando estiverem reunidos os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, é preciso nos limitarmos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça."

Científico? Então vejamos como ele finaliza:
"A solução que mais se aproxima da verdade será, com certeza, a que melhor corresponda aos atributos de Deus, isto é, à soberana bondade e à soberana justiça". Kardec, G,III,17.

Talvez resida em coisas assim a rejeição de muitos acadêmicos ao espiritismo: o medo de que, pela generalização do kardecismo, toda a ciência e a filosofia se vejam obrigadas a subordinar-se a princípios como estes. A ciência -- ou o que a ela se assemelhava na época --, já esteve subordinada à religião, à fé, à crença em coisas reveladas estabelecidas como verdades incontestáveis. E o saldo foi de atrasos e dores. Quando a ciência conseguiu o direito a ser laica, cética e irreverente, permitiu ao homem acesso a conhecimentos importantes na física, química, astronomia, saúde, etc. Agora, aparece uma revelaçao que, dizendo-se ciência, ameaça subordinar a pesquisa a premissas sobre atributos de uma divindade que nem todos aceitam.
Não me estranha que, dez meses após ter publicado isto, Kardec baixou a bola e reconheceu que o espiritismo é "religião em certo sentido".

quinta-feira, 31 de maio de 2012

LINHA DO TEMPO ESCLARECE EDIÇÕES DA "GÊNESE"

(Texto revisado da postagem de 14.7.2010, com o título "A Gênese, os Milagres e as Predições, e as espiritices brasilianas II).


Ante a polêmica a respeito das alterações feitas na Gênese de Kardec (as autorizadas, do autor, e as desautorizadas, dos que querem "atualizá-lo"; vejam postagem de 11.7.2010)), tentei elaborar uma LINHA DO TEMPO, que aqui disponibilizo para que completem, corrijam, critiquem ou desprezem...

06.01.1868 - Lançamento do livro A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, pela Librairie Internationale - A. Lacroix, Verboeckhoven et Co. Editeurs. Segundo Desliens - secretário de Kardec, médium da Sociedade Espírita de Paris e, posteriormente, membro da Comissão Central que sucedeu o fundador -, o contrato inicial previa uma tiragem com três edições; as fôrmas de impressão seriam de propriedade de Kardec. (Revista Espírita, jan/1868; mar/1885). OBS.: A Rouge Frères, Dunon et Fresné, citada por alguns articulista como "editores" é, na verdade, a tipografia onde foram impressas as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, bem como, a quinta edição de 1872, já então da Librairie Spirite.

xx.02.1868 - Kardec determina uma tiragem em brochura à parte do capítulo Caracteres da Revelação Espírita. (Revista Espírita, fev/1868).

xx.02.1868 - Kardec inicia a tiragem da segunda edição. (Revista Espírita, fev/1868).

22.02.1868 - Os espíritos apoiam Kardec na intenção de promover alterações na Gênese e o alertam para que conte com o esgotamento rápido dos volumes. (Obras Póstumas).

04.07.1868 - Os guias de Kardec o incitam a apressar o trabalho de remodelação da Gênese: "Acréscimos em diversos pontos (...) e condensação aqui e ali para não tornar mais extenso o volume". E, ante a possibilidade do esgotamento das edições no mercado, dizem: "Não perca tempo: é preferível que os volumes esperem pelo público, do que este por eles". (Obras Póstumas)

xx.07.1868 - Artigo na Revue sobre a "Geração Espontânea e a Gênese".

xx.09.1868 - Correspondência na Revue sobre o capítulo "Aumento e diminuição do volume da Terra" e publicaçao do texto "A alma da Terra", que Kardec incluiria na revisão da obra, e sairia apenas na 5a. edição.

xx.10.1868 - Última alusão na Revue à Librairie Internationale, por ocasião do lançamento da brochura contendo a correspondência de Lavater.

xx.xx.1868 - Antes que o ano termine a Librairie Internationale, de A.Lacroix, Verboeckhoven et Co.Editeurs, vai à falência! (Revista Espírita, mar/1885).

xx.xx.1869 - Ano novo, mudança total. Kardec planeja entregar os encargos do movimento espírita a uma Comissão Central e dedicar-se apenas a atividades intelectuais em sua residência na Avenue et Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos. Cria a Librairie Spirite, que passará a publicar e distribuir a Revue e suas demais obras, na rue de Lille, 7. O Sr. Bittard, antigo funcionário da falida Librairie Internationale é indicado para ser o gerente. A Sociedade Espírita de Paris também se transfere provisoriamente para o mesmo endereço. Tudo isso é planejado por Kardec para ter início em 01.04.1869.
Em meio à mudança de coisas para sua casa na Avenue et Villa Ségur e coisas para a rue de Lille, no já quase deserto escritório da Passage Saint'Anne, em 31 de março, Kardec morre! A Sra. Allan Kardec, única proprietária legal de suas obras e da Revue, após uma tentativa frustrada de convencer Camille Flammarion a sucedê-lo, decide:

"Primeiro: Doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes da venda dos livros espíritas e das assinaturas da Revue, isto é, das operações da Livraria Espírita; mas com a condição expressa de que ninguém, a título de membro da Comissão Central ou outro, tenha o direito de imiscuir-se neste negócio industrial, e que os recebimentos, sejam quais forem, sejam recolhidos sem observação, desde que ela pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas, regular a seu critério os emolumentos de seus empregados, o aluguel, as despesas futuras, numa palavra, todos os gastos gerais;
Segundo: A Revue está aberta à publicação dos artigos que a Comissão Central julgar úteis à causa do Espiritismo, mas com a condição expressa de serem previamente sancionados pela proprietária e a Comissão de Redação, o mesmo se dando com todas as publicações, sejam quais forem;
Terceiro: A Caixa Geral do Espiritismo é confiada a um tesoureiro, encarregado da gerência dos fundos, sob a supervisão da Comissão Diretora. Até que seja o caso de usá-los, esses fundos serão empregados na aquisição de propriedades imobiliárias para enfrentar todas as eventualidades. Anualmente o tesoureiro fará uma detalhada prestação de contas da situação da Caixa, que será publicada na Revue."
. (Revista Espírita, 1868/1869; Obras Póstumas)Por incrível que pareça, ela "foi objeto de felicitações unânimes".

xx.xx.1870 - Segundo seus biógrafos, Pierre-Gaetan Leymarie assume a direção do movimento espírita (Sociedade, Revista e Livraria). Leymarie conviveu e colaborou com Kardec, como médium e como divulgador do espiritismo, recebendo total confiança de Amelie Boudet. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

01.06.1871 - Segundo informação de Desliens, esta é a data limite em que a Sociedade, a Revista e as impressões das obras de Kardec estiveram diretamente a cargo de Bittard, Tailleur e Desliens. Presume-se que só a partir desta data Leymarie tenha assumido efetivamente tal mister. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1872 - Lançamento da QUINTA EDIÇÃO da Gênese, agora pela Librairie Spirite (conforme se pode verificar por noticie bibliographique da Bibliothèque Nationale de France). A BNF mantém esta edição em seu acervo com a identificação: FRBNF30010935.
A quarta edição foi, ainda, publicada pela Librairie Internationale.
Aliás, hoje em dia, pela internet, pode-se encontrar o original de todas essas edições (1a2a3a4a5a) em várias bibliotecas francesas, assim como disponibilizadas em sites brasileiros.

xx.xx.1883 - Fundição dos clichês da Gênese. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1884 - Henri Sausse, espírita, polemista, biógrafo de Kardec e iniciador da utilização midiática da expressão "espiritismo kardecista", após comparar o texto das edições da Librairie Internationale com o texto da edição da Libraire Spirite, acusa Leymarie de ter feito alterações na Gênese, gerando ruidosa celeuma no meio espírita. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

15.03.1885 - Desliens, que estava afastado do movimento espírita desde 1871, escreve uma carta à Sociedade com a intenção de defender Leymarie.
Segundo ele, Kardec contratou com a Librairie Internationale as três primeiras edições, e, ainda em 1868, autorizou a 4a, 5a. e 6a. E que as matrizes destas três últimas serviram para as edições de 1869 a 187l (período em que ele esteve à frente do negócio) "e em diante". E sugere que Kardec tenha feito as alterações objeto da celeuma nestas placas, uma vez que eram fôrmas de letras soltas. Diz ainda que a última edição de 1868 era idêntica à primeira. (Revista Espírita, 1885). OBS.: Esta última afirmação de Desliens pode, hoje, ser comprovada por qualquer pessoa que se disponha a cotejar as edições de 1868.

Contradições: Segundo fac-simile apresentado pela Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, a 4a. edição é de 1868 e da Librairie Internationale. Segundo notice bibliographique da BNF, a 5a. edição é de 1872 e da Libraire Spirite. Não encontramos outras 5a. e 6a. edições de responsabilidade de Desliens; aliás, não encontramos ainda nenhuma edição entre 1869 e 1871!

xx.xx.1911 - Guillon Ribeiro torna-se espírita, vindo a ocupar a presidência da FEB e a produzir inúmeras traduções, incluindo a Gênese de Kardec, que ele diz ter traduzido a partir do original da QUINTA EDIÇÃO. (Sites brasileiros, encontrados via Google).
É evidente que a tradução de Guillon Ribeiro foi feita após 1911; portanto, no mínimo, 27 anos após as denúncias de Henri Sausse, 38 anos após a publicação da edição que lhe serviu de base, e 41 anos após as alterações objeto das denúncias.

Século XXI - Carlos Brito Imbassahy, espírita brasileiro, refaz, cento e tantos anos depois, o caminho de Henri Sausse: compara o texto da terceira edição francesa da Gênese, de 1868 (da qual afirma possuir um exemplar), com a atual edição brasileira da FEB; constata as diferenças e acusa, inexplicavelmente, o tradutor brasileiro, Guillon Ribeiro, de ter feito as alterações. (Sites e blogs brasileiros, encontrados via Google).

xx.xx.2007 - A empresa Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, publica uma tradução da Gênese, de Albertina Escudeiro Sêco, afirmando ser baseada na QUARTA EDIÇÂO, de 1868, ainda da Librairie Internationale, da qual exibe fac-simile apenas da folha de rosto. Ousadamente, perpetra uma série de alterações no texto de Kardec, a pretexto de "atualizá-lo". (A Gênese, Léon Denis Gráfica e Editora).

Assim, temos atualmente duas versões da Gênese disponíveis no mercado editorial brasileiro. Uma, baseada na versão francesa fixada desde a quinta edição de 1872, traduzida por Guillon Ribeiro, Herculano Pires, Salvador Gentille, e outros. Outra, baseada na versão primitiva de 1868, traduzida e alterada por Albertina Escudeiro Sêco. Além dessas, existe a tradução de Carlos Brito Imbassahy, baseada, segundo ele, na terceira edição, de 1868, e disponibilizada gratuitamente na internet.

Bem, penso que esta linha do tempo absolve o Guillon Ribeiro. Quando as alterações foram feitas, seja por Kardec ou por Leymarie, ele não havia nem nascido. Quando ele fez sua tradução, passados quarenta anos dos fatos, ele só poderia agir como todos os outros tradutores, de todos os idiomas: utilizar a versão definitiva, disponibilizada pelos que ainda detinham seus direitos autorais.
Dispensam absolvição, porque não foram acusados, os demais tradutores brasileiros, bem como os vários editores franceses, que utilizam a versão fixada a partir da quinta edição.
Quando eu publiquei este post a primeira vez, eu disse que "nossas conclusões seriam enormemente facilitadas se fossem disponibilizadas ao público, em fac-simile, "escaneados", os originais da terceira edição (pelo Carlos Imbassahy), da quarta edição (pela LDGE) e da quinta edição (pela FEB)". Vejam como as coisas evoluem rapidamente na web: não precisamos mais disto. O historiador Felipe Gonçalves gentilmente me forneceu cópia da 4a. edição francesa; e, por informação dele, consegui junto ao site do IPEAK - Instituto de Pesquisa Espírita Allan Kardec, a 1a., 3a. e 5a. edições francesas. Tais fac-similes originais fazem referência aos locais onde estão armazenados e disponíveis.

Fiz a pretendida comparação, o cotejo, das edições francesas entre si, e delas com as traduções brasileiras -- de forma completa nos trechos polêmicos; mais rapidamente nos demais capítulos --, e posso afirmar que:

a) as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, tal como disse Desliens, SÃO IDÊNTICAS, o que demonstra que NENHUMA FOI REVISADA POR KARDEC.

b) a tradução do Guillon Ribeiro está rigorosamente fiel à 5a edição francesa de 1872, o que demonstra que ele NÃO É RESPONSÁVEL POR ALTERAÇÃO ALGUMA NA GÊNESE.

Agora, a situação do Leymarie complica um pouco, tendo em vista as inconsistências no depoimento do Desliens, feito 14 anos após os fatos.
A seu favor temos os inúmeros escritos e publicações de Kardec anunciando que preparava várias alterações na Gênese: acréscimos e supressões. Considere-se também o trabalhão que Leymarie teria para fazer todas as alterações no curto espaço de tempo entre o dia 01 de junho de 1871 e o dia do início da impressão, provavelmente já em 1872. Pergunte-se também, qual seria a motivação (o velho "a quem interessaria o crime?") que lhe justificasse tanto trabalho.
O mais provável, que ressalta da presente linha do tempo e da leitura e comparação das edições francesas e traduçoes brasileiras, é que Kardec, após autorizar que Bittard usasse a massa falida da Librairie Internationale para, em fins de 1868, fazer uma quarta edição a toque de caixa e antes mesmo que se esgotassem as demais, reuniu-se com ele e fez as alterações anunciadas diretamente nas matrizes, a fim de imprimir com elas uma quinta edição, definitiva, e já em casa, na Livraria Espírita. A morte, entretanto, interrompeu seus planos, e a natural confusão estabelecida entre esse trágico episódio e a assunção das edições pelo Leymarie, período em que este último segundo Desliens não teve acesso às matrizes, foi suficiente para que esquecessem as alterações, até que o Sausse as identificasse muitos anos depois. Isto só será definitivamente esclarecido se aparecer algum exemplar da suposta 5a. e 6a. edições feitas pelo Desliens: se elas forem iguais à 5a. de 1872, fica provado que a revisão foi feita por Kardec; se elas forem iguais às anteriores (1a2a3a4a de 1868), a suspeita volta sobre o Leymarie.

Bem, aí está o resultado de uma pesquisa histórica orientada por princípios científicos. Qualquer pessoa poderá comprovar ou refutar minhas afirmações acessando todo o material correspondente, hoje disponibilizado em bibliotecas e sites, conforme detalhei ao longo do texto.
Evidentemente, tal pesquisa contraria toda a mitologia estabelecida nas redes sociais sobre o assunto. Mas, isto é porque toda essa boataria foi motivada mais por disposições ideológicas do que pela pesquisa e análise racional dos fatos.
A 5a. edição, definitiva, está, em alguns pontos, muito melhor redigida que as anteriores. Algumas revisões foram, sem dúvida, para melhor. Outras, não se mostram à altura de Kardec. Os trechos suprimidos no Capítulo XV não enfraquecem em nada a posição anti-roustainguista deixada clara por Kardec no item anterior. Tanto é que Guillon e a FEB obrigaram-se a notas de pé de página defendendo suas posições. Neste ponto, a revisão de Kardec atende ao princípio de que "não há nada menos convincente do que insistir ou exagerar um bom argumento".

sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS SEITAS

Não é fácil definirmos uma seita.
Respeitáveis religiões constituídas, associadas a governos ou a impérios universitários, foram, em sua origem, seitas.
No final do milênio, quando algumas dessas coisas assustaram o mundo com pactos suicidas e loucuras do gênero, houve uma mobilização da ONU e de governos, preocupados em protegerem a sociedade e o indivíduo. Esbarraram nessas dificuldades.
Afinal, como o constataram os deputados franceses que, em 1995, se debruçaram sobre o assunto, não é fácil distinguir, seja pelos estudiosos ou pelos próprios adeptos:

- a livre associação - do grupo coercitivo;
- a convicção - da certeza essencial;
- o engajamento - do fanatismo;
- o prestígio do líder - do culto ao guru;
- as decisões voluntárias - das escolhas completamente induzidas;
- a integração leal a um grupo - da fidelidade incondicional;
- a hábil persuasão - da manipulação programada;
- o discurso motivador - da lavagem cerebral;
- o espírito de equipe - da fusão do grupo.


Se nos socorrermos na filosofia, vamos encontrar em Lalande uma definição sintética de "secte", semelhante ao conceito hoje generalizado: um grupo de pessoas que aderem estritamente a uma doutrina bem definida, e cuja adesão provoca uma forte união entre elas, ao mesmo tempo que as separa dos outros espíritos.

Os espíritas tendem a definir com inusitado rigor o rol de suas crenças. Fixam-se em posições cientificas, laicas, religiosas, agnósticas, teístas, deístas, cristãs, ecléticas, ortodoxas; e uma série de outras derivadas das inúmeras combinações possíveis entre estas.
Infensos ao diálogo, nas redes sociais temos visto a tendência em se reunirem por tais afinidades, segregando os que apresentam qualquer mínimo desvio da matriz eleita pelo grupo.
Estaremos nos dividindo, nas redes sociais, literalmente falando, em seitas?

Seria bom que verificássemos se não podemos identificar os critérios de Lalande ou as dificuldades dos deputados franceses nos diversos grupos que integramos.

domingo, 15 de abril de 2012

A DECISÃO SOBRE OS ANENCÉFALOS À LUZ DO ESPIRITISMO

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal, permitindo à mulher, se o quiser, interromper a gestação de um feto anencéfalo, não contraria a Doutrina Espírita.
Ao contrário, a Doutrina Espírita a antecipou como um dos momentos na evolução da humanidade a caminho da regeneração.
De tal forma estavam os ministros sintonizados com a Filosofia Espírita que pareciam, em suas justificativas e votos, verdadeiros médiuns da equipe de Espíritos superiores que coordenaram a Codificação Kardequiana.

No Livro dos Espíritos, cuja primeira versão foi publicada por Allan Kardec em 1857, nas abordagens sobre o aborto, a par de considerá-lo uma transgressão das leis de Deus quando praticado voluntaria e desnecessariamente, é dada uma atenção especial aos natimortos, considerando-os "crianças sem espíritos", conforme podemos constatar pelo diálogo na Questão 356:

"- Existem natimortos que não foram destinados à encarnação de um Espírito?
- Sim, há os que jamais tiveram um Espírito designado para os seus corpos: nada deviam realizar por eles. É, então, somente pelos pais que essa criança veio.
- Um ser dessa natureza pode chegar a termo?
- Sim, algumas vezes, mas não vive.
- Toda criança que sobrevive ao nascimento, necessariamente tem um espírito nela encarnado?
- Que seria sem ele? Não seria um ser humano.
"

A expressão "essa criança veio", é um detalhe nos indicando que eles estão se referindo a uma criança, a um corpo de criança, semelhante a todas as crianças e, não, como poderia alguém supor, a uma massa disforme. Então, podemos ver que, mesmo sem um espírito -- e, consequentemente, sem um perispírito --, os mecanismos da codificação genética são suficientes por si mesmos para gerarem um corpo. (Não vem ao caso, neste artigo, discutirmos a integração entre estes dois fatores -- código genético e perispírito -- na formação do corpo).
Na sequência, Kardec pergunta aos Espíritos se "um ser dessa natureza pode chegar a termo", e estes confirmam, indicando claramente que, por natimorto, apesar do termo, não se entende necessariamente uma criança que tenha morrido "antes" de nascer. Conceituação que coincide com o léxico, como podemos constatar servindo-nos do dicionário mais divulgado da Língua Portuguesa, o popular Aurélio:

"Natimorto, s.m. Aquele que nasceu morto ou que, vindo à luz com sinais de vida logo morreu."

Esta sobrevida deve-se, talvez, a uma energia residual decorrente do próprio metabolismo que o entreteve durante a gestação; ou, olhando-se pelo lado espiritual, ao fluido vital da mãe que retorna ao manancial primitivo.

O Ministro Marco Aurélio Mello, relator do processo de legalização da interrupção da gravidez do feto anencéfalo explicou muito bem, amparado nos pareceres dos especialistas, que se trata de um natimorto: não há ninguém ali para nascer; aquele ser não tem condições de estar no mundo; e nasce morto ou sobrevive apenas algumas horas. Segundo ainda o ministro -- neste caso amparado não apenas nos especialistas, mas também no Ministro da Saúde --, qualquer médico, minimamente preparado, munido de uma ecografia, consegue diagnosticar precocemente o anencéfalo.
O relator, ainda, descreveu o feto anencéfalo; disse o quanto do cérebro deve faltar para que realmente "não tenha ninguém ali" (aspas e expressão minhas), e o quanto são diferentes os casos que podem ser encarados como simples deficiências, as quais permitem ao recém-nascido "estar no mundo", ainda que com limitações.
Os casos apresentados com estardalhaço pelos ativistas contrários à liberação não se enquandram, segundos os professores médicos consultados, em anencefalia.

Portanto, baseado nos pareceres dos doutores médicos especialistas no assunto, referendados pelos Ministros do Supremo, podemos ter a certeza de que o anencéfalo se enquadra naqueles casos em que O Livro dos Espíritos nos diz que não havia espírito reencarnante.

Os espíritos dizem que Deus permite uma gestação inútil, com um natimorto, para provação e expiação dos pais.
Kardec define "provas e expiações" como a suportação das vicissitudes da vida. Diz também que nosso planeta é um mundo de provas e expiações. Mas, diz que não ficaremos eternamente nesta condição. Estamos prestes, segundo ele, a galgar um degrau na escala dos mundos e nos tornarmos um mundo de regeneração; onde seguramente as vicissitudes da vida serão mais brandas.
Entre as vicissitudes que nos serviram de expiação nós já tivemos a peste bubônica, a poliomielite, a varíola, e outras doenças; sem falar das inúmeras gestações frustradas por incompatibilidade sanguinea. Com a descoberta das vacinas, e a detecção prévia de muitos desses males, estas coisas foram afastadas como mecanismos de expiação.
Podemos afirmar, no caso em discussão, que o progresso científico que permitiu a detecção do natimorto ainda no ventre materno, só pode ter sido permitido por Deus (caso contrário, não ocorreria).
Logo, temos forte razão para pensar que, pela vontade de Deus, extinguiu-se na humanidade a provação e expiação através da gestação dos natimortos, tal como foram extintas aquelas outras. Isto porque os homens responderam à altura aos desafios impostos por Deus, inventando os diagnósticos e os tratamentos adequados, e, dessa forma, aproximando cada vez mais nosso planeta da condição de um mundo regenerador.

quarta-feira, 21 de março de 2012

KARDEC E A TERAPÊUTICA ESPÍRITA.

Tenho lido, repetidas vezes, afirmações de que as práticas terapêuticas disseminadas pelos nossos centros (água fluidificada, passe e desobsessão) seriam criações do espiritismo brasileiro. Não. Como muitas outras coisas cujas origens são questionadas, essas práticas são também de responsabilidade de Kardec. Senão, vejâmo-las em citações do mestre lionês.

Justificativa da terapia espírita

"As doenças fazem parte das provas e das vicissitudes da vida terrena; são inerentes à grosseria da nossa natureza material e à inferioridade do mundo que habitamos. As paixões e os excessos de toda ordem semeiam em nós germens malsãos, às vezes hereditários. Nos mundos mais adiantados, física ou moralmente, o organismo humano, mais depurado e menos material, não está sujeito às mesmas enfermidades e o corpo não é minado surdamente pelo corrosivo das paixões. (Cap. III, n° 9.) Temos, assim, de nos resignar às conseqüências do meio onde nos coloca a nossa inferioridade, até que mereçamos passar a outro. Isso, no entanto, não é de molde a impedir que, esperando tal se dê, façamos o que de nós depende para melhorar as nossas condições atuais. Se, porém, mau grado aos nossos esforços, não o conseguirmos, o Espiritismo nos ensina a suportar com resignação os nossos passageiros males. Se Deus não houvesse querido que os sofrimentos corporais se dissipassem ou abrandassem em certos casos, não houvera posto ao nosso alcance meios de cura. A esse respeito, a sua solicitude, em conformidade com o instinto de conservação, indica que é dever nosso procurar esses meios e aplicá-los.A par da medicação ordinária, elaborada pela Ciência, o magnetismo nos dá a conhecer o poder da ação fluídica e o Espiritismo nos revela outra força poderosa na mediunidade curadora e a influência da prece. (Ver, no Cap. XXVI, a notícia sobre a mediunidade curadora.)"(1)

Fluidoterapia: água fluidificada e passe

"Pode (o Espírito), pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. A existência de uma matéria elementar única está hoje quase geralmente admitida pela Ciência, e os Espíritos, como se acaba de ver, a confirmam. Todos os corpos da Natureza nascem dessa matéria que, pelas transformações por que passa,também produz as diversas propriedades desses mesmos corpos. Daí vem que uma substância salutar pode, por efeito de simples modificação, tornar-se venenosa, fato deque a Química nos oferece numerosos exemplos. Toda gente sabe que, combinadas em certas proporções, duas substâncias inocentes podem dar origem a uma que seja deletéria. Uma parte de oxigênio e duas de hidrogênio, ambos inofensivos, formam a água. Juntai um átomo de oxigênio e tereis um liquido corrosivo.Sem mudança nenhuma das proporções, às vezes, a simples alteração no modo de agregação molecular basta para mudar as propriedades. Assim é que um corpo opaco pode tornar-se transparente e vice-versa. Pois que ao Espírito é possível tão grande ação sobre a matéria elementar, concebe-se que lhe seja dado não só formar substâncias, mas também modificar-lhes as propriedades, fazendo para isto a sua vontade o efeito de reativo.Esta teoria nos fornece a solução de um fato bem conhecido em magnetismo, mas inexplicado até hoje: o da mudança das propriedades da água, por obra da vontade. O Espírito atuante é o do magnetizador, quase sempre assistido por outro Espírito.Ele opera uma transmutação por meio do fluido magnético que, como atrás dissemos, é a substância que mais se aproxima da matéria cósmica, ou elemento universal. Ora, desde que ele pode operar uma modificação nas propriedades da água,pode também produzir um fenômeno análogo com os fluidos do organismo, donde o efeito curativo da ação magnética, convenientemente dirigida.Sabe-se que papel capital desempenha a vontade em todos os fenômenos do magnetismo. Porém, como se há de explicar a ação material de tão sutil agente? A vontade não é um ser, uma substância qualquer; não é, sequer, uma propriedade da matéria mais etérea que exista. A vontade é atributo essencial do Espírito, isto é, do ser pensante. Com o auxílio dessa alavanca, ele atua sobre a matéria elementar e, por uma ação consecutiva, reage sobre seus compostos, cujas propriedades íntimas vêm assim a ficar transformadas.Tanto quanto do Espírito errante, a vontade é igualmente atributo do Espírito encarnado; daí o poder do magnetizador, poder que se sabe estar na razão direta da força de vontade. Podendo o Espírito encarnado atuar sobre a matéria elementar, pode do mesmo modo mudar-lhe as propriedades, dentro de certos limites. Assim se explica a faculdade de cura pelo contacto e pela imposição das mãos, faculdade que algumas pessoas possuem em grau mais ou menos elevado. (Veja-se, no capítulo dos Médiuns, o parágrafo referente aos Médiuns curadores. Veja-se também a Revue Spirite, de julho de 1859, págs. 184 e 189: O zuavo de Magenta; Um oficial do exército da Itália.)" (2)

Costumam argumentar que tais citações referem-se aos magnetizadores e, não, aos espíritas comuns, trabalhadores de nossos centros. De novo, não. Além dessa profissão de "magnetizador", existente no tempo de Kardec, ter desaparecido, e sua prática ter sido historicamente absorvida pelos espíritas, temos afirmações dele próprio que justificam tal acontecimento:

"Médiuns curadores. Os que têm o poder de curar ou aliviar pela imposição das mãos ou pela prece. 'Esta faculdade não é essencialmente mediúnica: pertence a todos os verdadeiros crentes, sejam médiuns ou não; muitas vezes não passa de uma exaltação da força magnética fortificada, caso necessário, pelo concurso dos bons Espíritos.' (n.175)." (3)

Desobsessão

Pelas citações abaixo, vemos que Kardec, ao contrário do que se acredita, não preconiza o tratamento da obsessão apenas em relação aos médiuns, mas, sim, para todo e qualquer indivíduo que o necessite. E os passos são aqueles conhecidos dos espíritas da atualidade: esclarecimento do obsidiado, fluidoterapia ("mediante ação idêntica à do médium curador") e, esclarecimento e convencimento do espírito obsessor, "em evocações particulares".

"A obsessão é a ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diversos, desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. Oblitera todas as faculdades mediúnicas; traduz-se, na mediunidade escrevente, pela obstinação de um Espírito em se manifestar, com exclusão de todos os outros.Os Espíritos maus pululam em torno da Terra, em virtude da inferioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja que eles desenvolvem faz parte dos flagelos com que a Humanidade se vê a braços neste mundo. A obsessão, como as enfermidades e todas as tribulações da vida, deve ser considerada prova ou expiação e como tal aceita.Do mesmo modo que as doenças resultam das imperfeições físicas, que tornam o corpo acessível às influências perniciosas exteriores, a obsessão é sempre o resultado de uma imperfeição moral, que dá acesso a um Espírito mau. A causas físicas se opõem forças físicas; a uma causa moral, tem-se de opor uma força moral. Para preservá-lo das enfermidades, fortifica-se o corpo; para isentá-lo da obsessão, é preciso fortificar a alma, pelo que necessário se torna que o obsidiado trabalhe pela sua própria melhoria, o que as mais das vezes basta para o livrar do obsessor, sem recorrer a terceiros. O auxílio destes se faz indispensável, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, porque aí não raro o paciente perde a vontade e o livre-arbítrio. Quase sempre, a obsessão exprime a vingança que um Espírito tira e que com freqüência se radica nas relações que o obsidiado manteve com ele em precedente existência. (Veja-se: Cap. X, n° 6; cap. XII, n° 5 e n° 6.)Nos casos de obsessão grave, o obsidiado se acha como que envolvido e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É desse fluido que importa desembaraçá-lo. Ora, um fluido mau não pode ser eliminado por outro fluido mau. Mediante ação idêntica à do médium curador nos casos de enfermidade, cumpre se elimine o fluido mau com o auxílio de um fluido melhor, que produz, de certo modo, o efeito de um reativo. Esta a ação mecânica, mas que não basta; necessário, sobretudo, é que se atue sobre o ser inteligente, ao qual importa se possa falar com autoridade, que só existe onde há superioridade moral. Quanto maior for esta, tanto maior será igualmente a autoridade. E não é tudo: para garantir-se a libertação, cumpre induzir o Espírito perverso a renunciar aos seus maus desígnios; fazer que nele despontem o arrependimento e o desejo do bem, por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações particulares, objetivando a sua educação moral. Pode-se então lograr a dupla satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito.A tarefa se apresenta mais fácil quando o obsidiado, compreendendo a sua situação,presta o concurso da sua vontade e da sua prece. O mesmo não se dá, quando, seduzido pelo Espírito embusteiro, ele se ilude no tocante às qualidades daquele que o domina e se compraz no erro em que este último o lança, visto que, então, longe de secundar, repele toda assistência, É o caso da fascinação, infinitamente mais rebelde do que a mais violenta subjugação. (O Livro aos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXIII.)Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso auxiliar de quem haja de atuar sobre o Espírito obsessor."
"Observação. - A cura das obsessões graves requer muita paciência, perseverança e devotamento. Exige também tato e habilidade, a fim de encaminhar para o bem Espíritos muitas vezes perversos, endurecidos e astuciosos, porquanto há-os rebeldes ao extremo. Na maioria dos casos, temos de nos guiar pelas circunstâncias. Qualquer que seja, porém, o caráter do Espírito, nada se obtém, é isto um fato incontestável pelo constrangimento ou pela ameaça. Toda influência reside no ascendente moral. Outra verdade igualmente comprovada pela experiência tanto quanto pela lógica, é a completa ineficácia dos exorcismos, fórmulas, palavras sacramentais, amuletos, talismãs, práticas exteriores, ou quaisquer sinais materiais. A obsessão muito prolongada pode ocasionar desordens patológicas e reclama, por vezes, tratamento simultâneo ou consecutivo, quer magnético, quer médico, para restabelecer a saúde do organismo. Destruída a causa, resta combater os efeitos. (Veja-se: O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXIII - "Da obsessão". - Revue Spirite, fevereiro e março de 1864; abril de 1865: exemplos de curas de obsessões.)" (4)

(1) ESE, XXVIII, 77.
(2) LM, 129, 130, 131.
(3) LM, 189.
(4) ESE, XXVIII, 81.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A FILOSOFIA ESPÍRITA

Apesar de não ter, ou mesmo aparentar, a menor pretensão em tornar-se uma "escola filosófica", o espiritismo é, sem sombra de dúvida, uma filosofia. O filósofo espírita J. Herculano Pires demonstrou isto fartamente em toda sua obra, mas, principalmente, na "Introdução à Filosofia Espírita", em "Ciência Espírita", e, na sua "Introdução ao Livro dos Espíritos". Kardec coloca sobre o título de "O Livro dos Espíritos" a identificação "Filosofia Espiritualista", e inicia "O Evangelho Segundo do Espiritismo" com um resumo da doutrina de Sócrates e Platão, pretendendo, segundo o Herculano, inseri-lo na tradição filosófica do espiritualismo. Mas, eu diria mais: apesar do intenso diálogo travado por Kardec com o positivismo dominante na filosofia francesa de sua época, acredito que sua filiação se dá mais intimamente com o espiritualismo de Victor Cousin, o eclético "ditador filósofo" que dominou as cátedras correspondentes em Paris durante grande parte do século. E, já em sua fase juvenil, o espiritismo, levado por Gustave Geley, retoma uma trajetória em sintonia com o espiritualismo restaurado no século XX pelo filósofo e prêmio Nobel Henry Bergson. Chegando ao final do século como uma filosofia da ética -- cuja praxis é tanto individual como social --, cuja vivencia é buscada expontânea e naturalmente pelos seus adeptos, mas sistematizada pelo próprio Herculano e mais o filósofo argentino Humberto Mariotti. Não é surpresa essa evolução constante no período, com a contribuição de várias mentes, pois Lalande já observava que Kardec não é o único, mas apenas "le plus célèbre".
E as credenciais filosóficas do Herculano para iniciar -- e avançar razoavelmente -- nessa sistematização, caso não fossem confirmadas pelo Professor Jorge Jaime em sua extensa "História da Filosofia no Brasil", o seriam pelo seu enquadramento nas diversas acepções do verbete "philosophe", do "Vocabulaire" do Lalande, principalmente a acepção "E" (Herculano bacharelou-se e licenciou-se em filosofia pela USP), apesar da advertência do dicionarista francês de que "cet usage du mot n'est pas d'une bonne langue, si ce n'est quand il implique une nuance d'ironie" (ou seja, o uso do termo filósofo para profissionais professores e estudantes, comum em nosso país, só se justifica quando implica uma nuance de ironia).
Herculano faz uma afirmação ousada em sua "Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas", de 1978, que tem recebido crítica de alguns estudantes de filosofia: "A Filosofia Espírita foi reconhecida pelo Instituto de França e figura no 'Dicionário Técnico da Filosofia', de Lalande".
Este dicionário é o "Vocabulaire Technique et Critique de la Philosophie", que André Lalande elaborou e publicou em fascículos durante as duas primeiras décadas do século XX. Não elaborou só. Travou profícua correspondência com vários filósofos contemporâneos -- Henri Bergson, Émile Meyerson, Édouard Le Roy, Maurice Blondel, Jules Lachelier, Léon Brunschvicg, Henri Delacroix, Frédéric Rauh, Georges Sorel, Pierre Janet, Edmond Goblot, Louis Couturat, Victor Delbos, e outros --, cujas contribuições se transformaram em notas de pé de página na edição definitiva. Herculano, sem dúvida, teve acesso à edição francesa, publicada apartir de 1926, em dois tomos (um terceiro, "Nouveau Supplement", foi acrescentado a partir de 1932), totalizando mais de mil páginas, uma vez que ainda não havia a edição brasileira, utilizada agora pelos seus críticos. No momento, tenho acesso à edição francesa de 1928, e à edição argentina de 1953, contendo, ambas, toda a discussão com os filósofos.
O verbete "spiritisme" já seria suficiente para permitir ao Herculano sua afirmação de que "figura no dicionário". Mas, é no verbete "spiritualisme" e, principalmente, na discussão entre os filósofos, ao pé da página, que a doutrina espírita ganha status de assunto filosófico.
Na acepção "D", Lalande repete a distinção feita por kardec entre "espiritismo" e "espiritualismo". Nas discussões, Brunschvicg, depois de observar que a conexão entre espiritualismo e sociologismo lhe parece derivar do "novo espiritualismo, que ocupa cada vez mais lugar no pensamento de Comte", escreve: "Não vejo, de forma alguma, que haja a menor razão para eliminar o espiritismo como uma das significações próprias do espiritualismo. Desconhece você assim a influência profunda e persistentes das crenças e das práticas espiritistas nas crenças e práticas religiosas, desde as mais antigas e rudimentares até as mais recentes". Mas, na sequência, Maurice Blondel acusa "alguns dos que comerciam com os espíritos" de confiscarem a acepção eclética do termo "porque não se contentam em ser espiritistas, ou porque o título de espiritualista é melhor aceito".
E Andre Lalande finaliza dizendo que ultimamente a palavra voltou a ter prestígio, mas "unicamente o uso que dela se tem feito anteriormente e os interesses filosóficos que ela representa em nossos dias podem determinar sua significação".

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A PREOCUPAÇÃO COM A QUALIDADE DA PRODUÇÃO MEDIUNICA

No final dos anos 60 e começo dos 70, os ares no movimento espírita eram outros. Ainda não tínhamos visto o "despertar dos magos" que já coloria a Europa e os EUA, e nossas manifestações culturais populares, de matrizes indígenas ou africanas, eram vistas com preconceitos. O espiritismo era, então, a mais procurada oferta em termos de espiritualidade. Eclodiam manifestações mediúnicas fantásticas, surrealistas, curadoras ou de efeitos físicos; os centros organizavam-se em torno de médiuns queridos em suas comunidades porém, duvidosos quanto à autenticidade do fenômeno; todos distanciados da abordagem sistemática da teoria, da doutrina ou do conhecimento. Para complicar as coisas, a FEB -- que por força do Pacto Áureo e de uma tendência centralizadora e autoritária que tomava conta da sociedade brasileira da época coordenava o movimento espírita com forte influência sobre o comportamento das federadas --, tinha, como seus dirigentes, pessoas refratárias a qualquer sistematização do ensino ou do aprendizado espírita; pessoas que combatiam mesmo iniciativas como cursos e escolas, fossem de doutrina espírita, ou de educação e orientação da mediunidade. Diziam temer a academização e a perda da singeleza buscada nas primícias do cristianismo
Em consequencia dessa situação, restava aos espíritas o aprendizado pelo esforço individual; pois nos centros raramente se ofereciam programas sistematizados; na imensa maioria deles os estudos era feitos aleatoriamente, com leituras de textos, conversas, etc.
Para o aprendizado teórico da doutrina espírita as consequencias não eram tão danosas, pois o estudo individual supria as deficiências de sistematização. Mas, para a prática mediúnica os efeitos eram realmente danosos. Os interessados no desenvolvimento mediúnico, os que viam-se às voltas com a emersão dos fenômenos, e até os obsedados, todos eram geralmente lançados em sessões de quase duas horas de duração, para que desenvolvessem a mediunidade na prática, na observação dos mais antigos. Se o candidato tivesse a sorte de integrar um bom grupo, com bons médiuns, feliz dele: pela imitação chegaria a um bom resultado. Mas, caso contrário, ele fatalmente assimilaria os condicionamentos, a falta de critério na identificação dos espíritos, as megalomanias, enfim, todas as viciações que costumam assediar a prática mediúnica. Some-se a isso uma crença errônea que ameaçava se generalizar, de que os médiuns eram seres privilegiados por conviverem com os espíritos, estando, portanto, dispensados das necessidades de estudo imposta aos demais mortais.
Neste cenário, um grupo de espíritas paranaenses resolveu seguir as sugestões de Kardec de que se fizessem cursos de espiritismo, enfim, que se sistematizasse o ensino. Como integravam órgãos federados, evitaram choques usando sempre denominações alternativas: cursos doutrinários eram "programas"; cursos de educação mediúnica eram "centros de educação mediúnica"; aulas eram "sessões".
Criaram, então, o Centro de Orientação e Educação Mediúnica - COEM, um programa composto de 30 sessões teóricas e 30 sessões práticas, intercaladas. As sessões teóricas contêm todo o conhecimento reunido sobre mediunidade nas diversas obras publicadas; as sessões práticas, como o próprio nome evoca, reúnem conhecimentos sobre as atividades práticas como concentração, passe, irradiação, sensações, psicografia, psicofonia, etc. Mas, a grande sacada foi o desenvolvimento gradativo nas sessões práticas. Estas sessões se iniciavam com uma rápida preleção sobre o assunto do dia, seguindo-se o exercício, que apresentava complexidade e duração crescentes. Nas primeiras práticas as pessoas se concentravam durante cinco minutos, depois passavam para dez, quinze, e assim sucessivamente,até um ponto em que se iam introduzindo as práticas citadas, chegando-se, ao final do curso, com sessões mediúnica completas, com vários minutos de duração. Ao final de cada sessão prática os participantes contavam suas sensações, percepções e, nos estágios mais avançados, liam suas produções mediúnicas. Este simples esforço de verbalização da experiência permitia a conscientização sobre suas reais potencialidades. A crítica, ostensiva, velada ou sugerida pelos companheiros, permitia a auto-crítica e a separação do joio do bom trigo. Por isso que uma prática corriqueira em todos os centros que aplicaram o COEM era a suspensão de todos os trabalhos práticos da casa, para que todos os médiuns participassem do programa. Após o término do programa, que durava no máximo dois anos, reorganizava-se os trabalhos da casa, agora embasados na consciência e conhecimentos adquiridos.
Na década de 70 esse programa teve uma aceitação muita grande. Centenas de centros, no Brasil e no exterior, o desenvolveram, coordenados pelo núcleo gerador sediado no Centro Espírita Luz Eterna, em Curitiba. A disseminação do programa foi tanta que um jornalista espírita chegou a separar o movimento espírita em "antes" e "depois" do COEM. E esta sigla tornou-se sinônimo de programas de desenvolvimento mediúnico, mesmo que redigidos por outras equipes que nem conhecem sua história, e aplicado das mais diversas maneiras, à revelia de seus criadores.
Ainda na década de 70 o programa passou por turbulências provocadas pela política interna do movimento espírita. Um dos expoentes da equipe chocou-se com um dos expoentes do movimento espírita, a coisa cindiu-se, quem antes divulgava o programa passou a combatê-lo. As novas gerações foram se formando dentro dessas facções, aceitando ou rejeitando o programa. Os que passaram a combatê-lo alegavam que o programa inibia os médiuns; não formava novos médiuns. Na verdade, o programa se contrapunha a uma prática que os deformava. O fato é que os Centros que o aplicaram naquela época, e as dezenas que até hoje o aplicam, vacinaram-se contra as aberrações, viciações e megalomanias surgidas da prática mediúnica desorientada.
Eu não participei da elaboração do COEM. Era muito jovem, tinha lá meus dezenove anos quando o elaboraram. Foram os "mais velhos", já na faixa dos trinta. Mas, eu participei do primeiro experimento; e da sua divulgação. Além disso, coordenei, mais recentemente,uma aferição que resultou na elaboração de uma nova versão, o COEM II. Hoje, o Centro Espírita Luz Eterna disponibiliza as duas versões do programa. A primeira, o COEM, propriamente dito, se bem que revisto, corrigido e atualizado pela equipe autora, é oferecido de forma impressa, através do site do CELE: www.cele.org.br. E o COEM II - a nova versão -, disponbilizado gratuitamente no site www.carlosparchen.net/coem2.html.