segunda-feira, 2 de julho de 2018

O BAÚ DO AUTOR

(Publicado em 07.03.2018, no Facebook)

"Lutar com as palavras é a luta mais vã
Entanto lutamos mal rompe a manhã"

Bon jour.
Após a prece inicial do Drummond, permitam-me tricotar um pouco com as palavras...
Quando morre um intelectual famoso, seja um poeta, um cientista, um político, um jurista, um barrista, um foguista, etc., seus amigos, colaboradores, parentes, fãs, debruçam-se sobre o seu baú. "Vamos abrir o baú do fulano!", ouve-se. É evidente que o baú entra nessas histórias simbolicamente. Até há uns vinte anos abriam gavetas, caixas, hoje, abrem seu computador. E, lá encontram textos acabados e inacabados, muitos terminam publicados, outros são contestados, publicados com explicações, afetivamente sonegados pela esposa, e por aí vai. Uma vez divulgados ou não, os manuscritos tomam destinos diversos: cuidadosamente guardados, roubados, desviados, destruídos ou, simplesmente, desaparecidos, principalmente quando submetidos a contingências históricas mais dramáticas. Quanto mais distante vai ficando o evento, quanto mais os acontecimentos vão sendo moídos nas impiedosas "calhas de roda" do tempo, mais os textos publicados se tornam prisioneiros da história, custodiados em sua integridade. Alguns casos são emblemáticos. Hoje se discute se, e até que ponto, os textos do Shakespeare são dele mesmo ou de um certo Conde. Nesta toada, quando a revisão de uma obra é retirada do "baú" do autor e publicada e, principalmente, não contestada (ou contestada doze anos depois porque um "amigo disse que disse", mas cuja contestação não prospera), ela se torna um produto da história. A versão anterior pode e deve ser resgatada para que os fatos históricos vivam da luz; mas, a versão revisada adquire foros de cidadania, permanece e resiste a qualquer tentativa de destruição, por mais se revolvam as paixões. Os fatos têm demonstrado que quando o ocorrido se dá nas áreas da literatura, das artes, da ciência ou da filosofia, dificilmente afloram as paixões. Mas, quando se dá no campo religioso, onde as crenças costumam ser mais viscerais, a versão escolhida é sacralizada como verdade inconcussa e, a "apócrifa" deve ser imolada nas fogueiras dos autos de fé; pois a fé o exige. Quando o fundamentalismo turva a razão, o simples resgate de uma edição anterior se transforma numa guerra santa pela restauração da verdadeira palavra do profeta.
Por isso vejo como manifestações perfeitamente válidas, pois que de acordo com a natureza humana, os esforços maciços em prol de uma restauração e de uma destruição. Mas, tendo em vista o estágio da nossa civilização, são esforços vãos. Certos juristas concebem o inconcebível, que seria a contestação da autoria de uma obra cento e cinquenta nos depois de ter ela sido publicada sem contestação. Malabarismo mentais que podem gerar ótimos "power-points"; mas, nada passará disto...
(João Donha)

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