quarta-feira, 25 de outubro de 2017

FLAMMARION E O ESPIRITISMO - PRIMEIRO CONTATO (I)


Foto de Camille Flammarion quando conheceu Allan Kardec


No livro "Mémoires biographiques et philosophiques d'un astronome", de Camille Flammarion (1842-1925), lançado em 1911, o autor relata, de forma muitas vezes descontraída, fatos de sua vida, do nascimento até a Guerra Franco-Prussiana, ocorrida em 1870, da qual ele participou como capitão, com a idade de 28 anos. Sua participação na guerra, juntamente com outros astrônomos transformados em tenentes, era calcular a posição dos canhões alemães que bombardeavam Paris, fornecendo as coordenadas para a artilharia francesa. Em postagens anteriores disponibilizamos vários trechos do livro. Em suas exéquias, a 6 de junho de 1925, três dias após sua morte, discursaram diversas celebridades intelectuais, científicas, políticas e sociais de diversas partes do mundo, entre elas o Jean Meyer (1855-1931), então presidente da União Espírita Francesa e do Instituto Internacional de Metapsíquica. O Bulletin da Societé Astronomique de France de julho de 1925 traz o relato dessas exéquias, juntamente com um relato de sua vida e obras cujo autor, Emile Touchet, informa sobre vários textos e livros quase prontos, alguns em fase de provas, entre eles o Tomo II das Memórias e um livro com o título "Les fantômes e les ciences d'observacion", que seriam publicados pela sua viúva, Gabrielle Renaudot Flammarion (1877-1962), com quem se casara em 1919 após a morte da primeira esposa, e que prometera dar continuidade à sua obra. No que se refere à astronomia, à administração do Observatório de Juvisy, da Societé, dos Cursos, ela foi fiel à sua promessa. Porém, certamente desejando preservar apenas seu testamento de homem de ciência e de astronomia ela não se interessou pelas publicações citadas. Em 2005 o "Les fantômes..." foi publicado pela primeira vez em Paris pelo editor Jmg, na coleção "Temoin D'au-Dela". Mas não temos notícia do Tomo II das Memórias.

Adiante, publicamos mais um trecho do "Memoires", precisamente o Capítulo XIII, onde Flammarion fala de Allan Kardec, Victor Hugo, Madame Girardin, Auguste Vacquerie, Eugene Nus, Victorien Sardou...



CAPÍTULO XIII

Este livro agita mais de uma ideia.
Veremos a seguir, dentre os capítulos, a conclusão da que se refere a Allan Kardec.
Naquela época, 1862, o estudo do espiritismo tomava um grande número de minhas horas de laser. Relatei, mais acima, minhas inquietações, minhas angústias, sobre nossos destinos depois da morte. Tendo ouvido falar de experiências que pareciam trazer um elemento novo a esta grave busca, precipitei-me nesta investigação. Em novembro de 1861 encontrei sob as galerias do Odeon uma obra intitulada "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, na qual a vida futura e os outros mundos são supostamente descritos pelos espíritos que os conhecem. Após folheá-la admirado, comprei-a, li avidamente e, desejando inteirar-me dos fatos expostos entrei logo em contato com o autor, passando a assistir inúmeras sessões da Sociedade Espírita que ele presidia. Ao mesmo tempo, conheci um médium de efeitos físicos, Senhorita Huet, cuja casa era frequentada por homens de alta distinção, como os Senhores de Courtépée, Émile de Bonnechose, Théophile Gautier, Arsene Houssaye, Louis de Noiron, Henry Delaage, d'Escodeca de Boise, diretor da imprensa imperial, Oscar Commettant (incrédulo convicto), Victorien Sardou, convencido há bastante tempo, P.F.Mathieu, escritor e poeta, o editor Didier, etc. Havia também lá um jornalista bastante espiritual, Jules Lecomte, porém muito indiscreto, pois todo mundo sabia que ele havia sucedido momentaneamente a Neipperg nas boas graças da volúvel Marie Louise.
Nessas sessões se podia ver uma mesa de sala de jantar elevar-se inteiramente ou receber pancadas, sem causa aparente, choques sonoros e rítmicos seguindo diferentes árias; pelo mesmo procedimento de pancadas recebia-se ditados sobre diferentes assuntos, que não se podiam explicar pelos atos voluntários das pessoas presentes. Esse novo mundo me intrigava; e eu mesmo redigia os processos verbais das sessões em duas pequenas brochuras. Durante vários anos segui com grande interesse tais experiências.
Tais pesquisas, como o sabem meus leitores, não resolveram até o presente o grande problema; mas elas nos conduzem a admitir a existência de forças desconhecidas e de faculdades da alma ainda inexplicadas.
Sem voltar aos fatos e às teorias publicadas em várias de minhas obras, pode ser aqui o lugar de me referir a algumas experiências da mesma ordem feitas por Victor Hugo em Jersey, sobre as quais jamais pude me estender. Elas completarão o que já escrevi sobre o assunto, interessarão especialmente uma classe particular de leitores e mostrarão que há verdadeiramente um estudo digno de atenção, tanto do ponto de vista psicológico, como do ponto de vista físico.
Eis o resumo, segundo Auguste Vacquerie ("Les Miettes de l'Histoire", Paris, 1863):

"No outono de 1853,Madame de Girardin veio passar dez dias na casa de Victor Hugo, em Jersey.
Seria sua morte próxima que fazia reviver seu interesse na vida extra-terrestre? Ela estava bastante preocupada com as mesas falantes. Acreditava firmemente e passava suas tardes evocando os mortos. Sua preocupação foi refletida, com sua vinda, no seu trabalho. O assunto de "La joie fait peur" ("A alegria assustadora") não é um morto que retorna?
Ela insistia em que se cresse nela. No dia mesmo de sua chegada, foi difícil fazê-la esperar o fim do jantar. Logo após a sobremesa ela se levanta e provoca um dos convidados no salão; juntos atormentam uma mesa que, não obstante, continua muda. A culpa é da mesa cuja forma quadrada contraria o fluido (???).
No outro dia ela mesma compra, numa loja de jogos infantis, uma pequena mesa redonda, com um só pé que termina em três garras, e a mete sobre a mesa grande. Elaboraram questões e a mesa respondeu. A resposta era breve: uma ou duas palavras, no máximo, hesitantes, indecisas, às vezes ininteligíveis. Seríamos nós que não a compreendíamos? O modo de tradução das respostas se prestava ao erro. Eis como se procedia: se nomeava uma letra do alfabeto - A, B, C, etc. -, a cada golpe do pé da mesa; quando a mesa parava, se marcava a última letra nomeada. Mas, seguidamente a mesa não parava claramente sobre uma letra; confundia-se, anotando a precedente ou a seguinte. A inexperiência se misturando, e Madame de Girardin intervindo o menos possível para que o resultado fosse menos suspeito, tudo se embaralhava.
Eu não passara até então de simples testemunha. Era preciso ser ator a meu turno. Eu estava tão pouco convencido, que tratava o milagre como um burro que "se torna a menina mais comportada da sociedade"; eu disse à mesa: "Adivinha a palavra que penso". Para vigiar a resposta bem de perto, meti-me junto à mesa com Madame de Girardin. A mesa dita uma palavra: é a minha! Minha tenacidade, porém, não fora dobrada. Eu disse a mim mesmo que o acaso poderia soprar a palavra a Madame de Girardin, Madame de Girardin a soprar à mesa. Aconteceu a mim mesmo, num baile da Ópera, de dizer a uma mulher no dominó que a conhecia e, como ela me perguntou seu nome de batismo, de dizer ao acaso um nome qualquer, que acabou sendo o verdadeiro. Sem mesmo invocar o acaso, eu bem podia, na passagem das letras da palavra, ter, sem o querer, pelos olhos ou pelos dedos, por um estremecimento, me denunciado. Recomecei a prova. Mas, para ter certeza de não trair a passagem das letras - seja por uma pressão mecânica, seja por um olhar involuntário -, afastei-me da mesa e perguntei-lhe, não a palavra que eu pensava, mas sua tradução. A mesa dita: "Você quer dizer sofrimento". Eu tinha pensado amor!"

TO BE CONTINUED...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PRIMEIRA (E ÚNICA) TRADUÇÃO PORTUGUESA DO LIVRO DOS ESPÍRITOS



A primeira tradução para a língua portuguesa de um livro de Allan Kardec foi feita em 1862, pelo francês Alexandre Canu, secretário nas sessões da Societé Spirite. Trata-se do “O Espiritismo em sua mais simples expressão”, publicado em Paris pelo editor autorizado pelas duas coroas, brasileira e portuguesa, que bastante influenciou a entrada do espiritismo no Rio de Janeiro, segundo o próprio Kardec.

Depois disso, iniciaram-se as traduções das obras de Kardec para o português feitas por brasileiros e lançadas no Brasil. Posteriormente, edições dessas traduções passaram a ser feitas também em Portugal, com as costumeiras adaptações quanto às peculiaridades regionais do idioma. Adaptações feitas em toda a literatura. Só o Saramago não permitiu; por isso, suas obras são lidas no Brasil tal como escritas em Portugal.

Mas essa lacuna (a falta de uma tradução para o português de Portugal das obras de Kardec) começa agora a ser suprida pelo casal José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, com a publicação de “O Livro dos Espíritos”. Eu disse “começa”, porque o desafio é lançado, a ser cumprido por eles ou por outros, para que a tradução das demais obras de Kardec também se faça ao som da beleza original do nosso idioma, “última flor do Lácio, inculta e bela” como lembra Olavo Bilac em seu imortal soneto.

E, podemos dizê-lo sem medo de exageros, lacuna preenchida de forma brilhante. Costa Brites e Maria da Conceição (ou, simplesmente São, como ela simpaticamente se coloca numa rede social) têm um excelente domínio do francês e perfeita consciência da dinâmica histórica a influenciar constantemente uma língua, de forma que, não fizeram apenas uma tradução para o português: fizeram uma tradução para o Século XXI. O cuidado com a expressão correta, clara e precisa dos conceitos transmitidos nesta obra (que se insere no rol das grandes obras sintetizadoras da cultura ocidental) norteou seu trabalho. Um elucidativo, instigador e inteligente prefácio, somado às oportunas “Notas Finais” (que são referenciadas ao longo do texto em negrito e entre colchetes), tornam a leitura desta tradução perfeitamente digerível pelo iniciante no conhecimento espírita e, imprescindível para o estudioso aplicado da doutrina.

A proposta de Costa Brites se resume num brado: “OLE – obra viva, obra aberta!” Pois, segundo ele me disse num e-mail: “a cultura espírita, os espíritas, sobretudo aqueles que têm o privilégio de falar com os Espíritos, nunca deveriam ter parado de avançar na pesquisa mediúnica, abrindo cada vez mais o património das informações”. E finaliza com um vibrante e oportuno desafio que, aliás, é também a minha opinião: “quem não estiver de acordo com o nosso trabalho, tem uma proposta antecipada que lhe apresentamos: façam uma tradução para proveito próprio, com todo o empenho e interesse cultural" (...) "No dia em que todos os espíritas tiverem feito uma tradução para seu próprio uso, talvez se tenham dados passos em frente, que nos expliquem de forma consistente ‘a natureza, origem e destino dos Espíritos e as suas relações com o mundo material’, com todas as respetivas facetas e horizontes”.

Enfim, eis a obra. “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, tradução de José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, Luz da Razão Editora, www.luzdarazao.pt, geral@luzdarazao.pt, Portugal, 2017.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

MORTE DE ALLAN KARDEC - Por Camille Flammarion



Trecho do livro "Mémoires biographiques et philosophiques d'un astronome", 1911, Capítulo XXVI.


Em 31 de março de 1869 o chefe da escola espírita, Allan Kardec, morreu subitamente, com a idade de 65 anos e, em dois de abril foi sepultado no Cimetière du Nord. Eu contei mais acima como iniciei relações com ele em novembro de 1861 (1). Embora meus trabalhos não me permitissem nenhuma assiduidade às reuniões da Sociedade Espírita da qual ele era o presidente-fundador, o comitê dessa Sociedade convidou-me, em seu nome e no da Senhora Allan Kardec, para presidir as exéquias e proferir um discurso. Eu vinha me mantendo afastado desde algum tempo, sobretudo por não admitir que o espiritismo pudesse tornar-se a base de uma religião antes que os fenômenos fossem cientificamente demonstrados e explicados. Contudo, rendi-me ao honroso convite e pronunciei um discurso do qual é oportuno citar certas passagens. Eis alguns extratos. Pode-se ver quanto fiz questão, diante do caixão do próprio fundador, de estabelecer o valor fundamental do caráter científico a ser dado a esses estudos.

"Ao aceitar, com deferência, o convite simpático dos amigos do pensador laborioso cujo corpo terreno jaz agora aos nossos pés, lembrei-me de um triste dia do mês de dezembro de 1865. Pronunciei, então, as supremas palavras do adeus sobre o túmulo do fundador da Livraria Acadêmica, Didier, que foi, como editor, o colaborador convicto de Allan Kardec durante a publicação das obras fundamentais de uma doutrina que lhe foi cara, e que morreu também subitamente, como se o Céu desejasse evitar a esses dois espíritos íntegros as agonias dolorosas da última hora.
"Hoje, minha tarefa é maior ainda, porque desejaria poder representar ao pensamento daqueles que me ouvem, e dos milhares de homens que na Europa inteira e no Novo Mundo se ocupam do problema ainda misterioso dos fenômenos denominados espíritas; - gostaria, disse, poder lhes representar o interesse científico e o futuro filosófico do estudo desses fenômenos (ao qual se dedicam, ninguém ignora, homens eminentes dentre os nossos contemporâneos). Gostaria de lhes fazer entrever os horizontes desconhecidos que o pensamento humano verá se abrir diante de si à medida que aumentar seu conhecimento positivo das forças naturais em ação em torno de nós.
"Este seria, com efeito, um ato importante de se estabelecer aqui, diante desta tumba eloquente: que o exame metódico dos fenômenos chamados equivocadamente de sobrenaturais, longe de renovarem o espírito supersticioso e de enfraquecer a energia da razão, afastam, ao contrário, os erros e as ilusões da ignorância, e serve melhor ao progresso do que a negação ilegítima dos que acham perda de tempo observá-los.
"Como o próprio organizador desta pesquisa lenta e difícil previu, este complexo estudo deve entrar agora no período científico. Os fenômenos físicos, sobre os quais não se insistiu inicialmente, devem tornar-se objeto da crítica experimental, sem a qual nenhuma constatação válida é possível. O método experimental, ao qual nós devemos a glória do progresso moderno e as maravilhas da eletricidade e do vapor, esse método deve apoderar-se dos fenômenos de ordem ainda misteriosa aos quais nós assistimos, dissecá-los, medi-los e defini-los.
"Porque, Senhores, o espiritismo não é uma religião, mas uma ciência; ciência da qual mal conhecemos o a, b, c. Os tempos dos dogmas acabaram. A Natureza abrange todo o Universo, e o próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, não pode ser considerado pela metafísica moderna senão como um Espírito na Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas por intermédio dos mediuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural, e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma ciência desconhecida. Quem poderá prever a quais consequências conduzirá no mundo do pensamento o estudo positivo dessa nova psicologia."

Prossegui, expondo as grandes descobertas da Astronomia e da Fisica, insistindo sobre as diferentes espécies de raios do espectro solar, sobre os invisíveis nomeadamente infra-vermelhos e ultra-violetas, sobre a força psíquica e a circulação dos átomos e terminei convidando todos os amigos da verdade a observar os fatos sem nenhuma idéia preconcebida.

Este discurso marcou uma data na história do espiritismo. O Comitê me ofereceu suceder Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Recusei, sabendo que nove entre dez de seus discípulos continuariam a ver lá, durante muito tempo ainda, uma religião mais que uma ciência e, que a identidade dos "espíritos" está longe de ser comprovada.

Isto foi há mais de quarenta anos. Os discipulos de Allan Kardec pouco mudaram sua fé; a maior parte recusa ainda a análise científica, única, entretanto, que pode nos instruir exatamente. Minhas obras sucessivas mostram que segui constantemente o mesmo método, e que para mim, malgrado a ironia de vários dos meus colegas de estudo das ciências positivas, os fenômenos psíquicos devem, daqui em diante, formar um ramo importante da árvore dos conhecimentos humanos.

A propósito dos meus discursos nas exéquias de Allan Kardec e de seu editor, devo declarar que, como já disse em outra circunstância (2), jamais recebi deles qualquer comunicação de além túmulo.

Continuei a me ocupar dessas interessantes questões que tocam de perto o conhecimento do nosso ser; no entanto, eu não poderia negligenciar meus trabalhos essenciais: a astronomia e sua propagação pelos escritos e pela palavra. Minha colaboração no Siècle me forçava, de outra parte, a estudar mais ou menos todos os assuntos da atualidade e a me manter sempre ao corrente dos progressos, cada vez mais rápidos, da ciência.

(1) O blogueiro promete publicar isso mais tarde.
(2) Em trecho anterior o autor conta que Didier prometeu se comunicar, mas nunca o fez.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

OS IMIGRANTES DE CAPELA

Talvez uma das indicações do caráter de religião do Espiritismo seja o grau de passionalidade que atingem as polêmicas entre seus adeptos.
Uma dessas, gira em torno das migrações planetárias, mais especificamente de uma "tese" que ousou localizar com exatidão a origem de uma leva de refugiados que teriam aportado em nosso planeta na infância da humanidade (hoje estaríamos da adolescência? ou na decrepitude?).

Sem dúvida, não é digna de ser levada a sério, como se fosse expressão de uma realidade passada, a historinha do Emmanuel ("A Caminho da Luz") ou as teorizações racistas do Edgard Armond ("Os Exilados de Capela"). Mas, por outro lado, a rápida evolução das pesquisas na questão dos exoplanetas tornam temerária qualquer negação da possibilidade de vida num sistema múltiplo, por mais instável nos pareça.

Há uns três anos, sites espíritas festejavam a opinião de alguns cientistas de que estrelas múltiplas dificilmente gerariam planetas; no entanto, há alguns meses descobriram um planeta no sistema de Alfa Centauri, um sistema triplo de estrelas. E, ainda, há vários sites de divulgação científica que dão conta da possibilidade de existência de uma zona habitável em torno de Capela A e Capela B.

É, realmente, temerária a atitude desses médiuns e espiritos que detalham coisas que o homem ainda não tem condições de verificar. Chega a ser um tiro no escuro. Mas, eles já faziam isto desde os tempos de Kardec, detalhando vida em tudo quanto é pedra do Sistema Solar. Kardec dizia que eram opiniões, teorias sem comprovação, e tal, mas... publicava! Inclusive os desenhos das casas de celebridades! O resultado é que, se ele e seus seguidores mais equilibrados não recebiam como verdade, a maioria dos leitores, esperando apenas um gatilho para suas fantasias, o faziam. Como hoje em dia, no caso dos exilados de Capela. Se alguns acham muito detalhamento sem meios de comprovação para que se acredite, outros já tomam como verdade por ter sido "revelada".

Daí a responsabilidade na análise. Se faço afirmações considerando "dados positivos" o que não o seja, e, dois ou três anos depois, tais "dados positivos" são enfraquecidos por novas descobertas, eu acabo é reforçando as crenças. O crédulo diz: "Viu, você disse que era impossivel, e agora estamos vendo que é possível!" E usa isto para reforçar sua crença.

Voltando ao Sistema Capela, os conhecimentos que hoje vão se acumulando vertiginosamente -- graças aos telescópios em órbita, como Hubble, Chandra, Kepler e outros, associados a outros enormes da superfície -- e disseminados pelos sites de divulgação científica, nos permitem imaginar um modelo aproximado desse sistema. Recentemente vi no site da NASA um professor mineiro perguntando ao diretor que coordena os projetos de exoplanetas, e este informava que não houve, até agora, nenhum programa voltado para Capela. Os projetos de busca são caros, envolvem participação de vários cientistas em vários observatórios, são planejados criteriosamente e, claro, acabam cobrindo uma área muito pequena do céu. O homem não atingiu ainda uma época de fartura que lhe permita encontrar planetas em todo canto ou onde queira.

O modelo aproximado seria este: colocamos duas bolas de basquete, a três metros uma da outra, e temos a imagem das duas gigantes amarelas Capela A e B (ou, também, Aa e Ab). Pegamos duas bolinhas de gude (no interior a gente dizia, "de vidro"), colocamos ambas a trinta quilômetros das duas primeiras e, numa distância de cem metros uma da outra -- teremos as Capela C e D, duas anãs vermelhas. Segundo ainda sites e publicaçoes de divulgação, há possibilidade de uma zona habitável numa órbita em torno das duas gigantes amarelas, uma outra zona habitável em torno de Capela C, e outra em torno de Capela D. Os cientistas envolvidos nas buscas de exoplanetas ainda não se interessaram em localizar planetas nessas zonas; e, talvez eles nem existam. Não temos elementos, no estágio atual dos conhecimentos, nem para afirmar, nem para negar a existência deles. Por enquanto, temos apenas as pretensões de Emmanuel e Armond, e a ficção de Camile Flammarion compartilhada por Kardec na Revista Espírita.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

FILOSOFIA ESPIRITUALISTA

(Publicado em fevereiro 2005 no site http://www.carlosparchen.net)

O termo "espiritualismo" foi colocado no jargão filosófico no século XIX, por Victor Cousin, quando elaborou o programa dessa filosofia no prefácio de sua obra "Du vrai, du beau e du bien". Ele assim se expressou: "A nossa verdadeira doutrina, a nossa verdadeira bandeira é o Espiritualismo, essa filosofia tão sólida como generosa, que começou em Sócrates e Platão, que o Evangelho difundiu no mundo, que Descartes colocou nas formas severas do gênio moderno, ... que no princípio deste século (XIX) Royer Collard veio reabilitar no ensino público ao passo que Chateaubriand e Madame de Staël a transportaram para a literatura e para a arte ... Essa filosofia ensina a espiritualidade da alma, a liberdade e a responsabilidade das ações humanas, as obrigações morais, a virtude desinteressada, a dignidade da justiça, a beleza da caridade; e além dos limites desse mundo, ela mostra um Deus, autor e modelo da humanidade ... Essa filosofia é a aliada natural de todas as causas justas". (1)

Victor Cousin nasceu em Paris em 1792. Foi sucessor de Royer Collard na cátedra de história da filosofia na faculdade de letras de sua cidade e exerceu enorme influência na filosofia francesa da primeira metade do século XIX. Foi considerado durante muito tempo o filósofo ditador do pensamento francês, até que bateu de frente com um ditador de verdade, o Napoleão III, e retirou-se para Cannes, onde morreu em 1867. Em sua juventude foi um entusiasta do idealismo alemão, tornando-se bom divulgador de Kant, Fichte, Schlling e Hegel na França. Mas o cerne de sua filosofia é o ecletismo. Ele acreditava que nenhum dos sistemas filosóficos detém toda a verdade, assim como, nenhum deles pode ser descartado como falso. São verdades incompletas. Trata-se pois, de se buscar uma conciliação, aproveitando-se o que há de certo em cada um deles. (2)

A filosofia espiritualista francesa do século XIX surgiu como reação ao exagerado materialismo pós-revolucionário, que no momento se manifestava no cientificismo positivista. Teve representantes em vários países, começando por Maine de Biran (1766-1824), na própria França, passando pelos italianos Mazzini, Gioberti e outros, pelo alemão Lotze, entrando pelo século XX com Henry Bérgson (1859-1941). Na França vamos encontrar, ainda, em uma vertente tradicionalista católica do espiritualismo, Joseph De Maistre e Felicité De Lamennais.

De Maistre, nascido na Sabóia em 1753 e falecido em Turim em 1821, teve enorme projeção filosófica na França, mas sua vida política foi ligada à Itália. A idéia central de sua filosofia era a existência da providência divina manifestando-se na história e provocando a evolução da humanidade. Tal como Lamennais (1782-1854), De Maistre acredita que a razão individual é incapaz de conhecer a verdade plena, necessitando da fé e da razão universal. Por suas posições religiosas chegou a ser chamado de "profeta do passado". Mas, ao menos em um de seus discursos, em sua obra "Soirées de Saint-Petersbourg", de quando era embaixador do rei Vitor Emanuel I na Rússia, publicada em 1821, faz profecias futuristas. E Kardec as transcreve na Revista Espírita de abril de 1867. Vejamos alguns trechos de De Maistre: "Várias profecias contidas no Apocalipse se referiam a nossos tempos modernos. Um desses escritores, até chegou a dizer que o acontecimento estava começando, e que a mão francesa deveria ser o grande instrumento da maior das revelações... Deus fala uma primeira vez aos homens no Monte Sinai e esta revelação foi concentrada, por motivos que ignoramos, nos estreitos limites de um só povo e de um só país. Após quinze séculos, uma segunda revelação se dirigiu a todos os homens sem distinção, e é a que desfrutamos... juntai a espera dos homens escolhidos e vereis se os iluminados estão errados ao encarar como mais ou menos próxima uma terceira explosão da onipotente bondade em favor do gênero humano..."

Logo após a leitura desse discurso, em sessão da Sociedade de Paris de 22 de março de 1867, Kardec invocou o espírito De Maistre, que confirmou sua previsão sobre a terceira revelação e disse participar ativamente dela, ainda que anônimo, do plano espiritual.

O outro expoente do espiritualismo já citado, Lammenais, é o campeão de comunicações mediúnicas em toda a história kardequiana da Revista Espírita, quase sempre pela mediunidade do Sr. Didier. Enquanto que Madame de Staël é, também, uma das entidades que mais se comunicam, e Chateaubriand faz ali sua aparição em 1860.

Quanto a Cousin, não o encontramos citado na Revista Espírita, mas não podemos negar que Kardec professe um ecletismo semelhante ao dele pois adota na ciência, encarada como vestíbulo da filosofia, um rigoroso positivismo, e na própria filosofia, um espiritualismo aliado a todas as justas causas da humanidade.

Em outro discurso, inserido na mesma edição da Revista em que aborda DeMaistre, Kardec diz: "Moisés e o Cristo tiveram sua função moralizadora. A gênios de uma outra ordem são deferidas as missões científicas. Ora, como as leis morais e as leis da ciência são leis divinas, a religião e a filosofia não podem ser verdadeiras senão pela aliança destas leis". E, a seguir, faz um brilhante resumo do espiritualismo espírita: "O Espiritismo é baseado na existência do princípio espiritual, como elemento constitutivo do universo; repousa sobre a universalidade e a perpetuidade dos seres inteligentes, sobre seu progresso indefinido, através dos mundos e das gerações; sobre a pluralidade das existências corporais, necessárias ao seu progresso individual; sobre sua cooperação relativa, como incarnados e desincarnados, na obra geral, na medida do progresso realizado; na solidariedade que une todos os seres de um mesmo mundo e dos mundos entre si".

Uma manifestação mais explícita do ecletismo de Cousin está na Revista Espírita de março de 1862, onde o pintor seiscentista Nicolas Poussin, através da psicografia do mesmo Sr. Didier, propõe uma aliança entre o realismo e o idealismo para salvar a pintura do século XIX.

Talvez por todas estas conexões Kardec tenha colocado no frontispício das edições atualizadas do Livro dos Espíritos a expressão "Filosofia Espiritualista".



(1)Nicola Abbagnano; Dicionário de Filosofia; verbete "espiritualismo"; Editora Mestre Jou.
(2)Luís Castagnola; História da Filosofia; 5a. parte, Cap. III; Edições Melhoramentos.

(JAVD)


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

CURIOSIDADE HISTÓRICA - Os atentados aos documentos de Kardec.



“Nossa expectativa não foi em vão, e a circulação foi precariamente restabelecida; os Correios ainda estão desorganizados, mas as cartas chegam de todas as partes ao nosso escritório na Rue de Lille, salvo das chamas pela vigilância inquieta de um espírita, o Senhor X., tenente de embarcação. Diga-se de passagem que o Senhor X., ocupando a área com os seus marinheiros, frustrou, por meio de um monitoramento constante, duas tentativas de incêndio contra o que ainda restava da Rue de Lille, o que teria por resultado condenar à aniquilação o que foi possível salvar desse maravilhoso ‘quartier’. Estamos felizes em fazer, nesta circunstância, junto ao Senhor X., eco aos agradecimentos do mundo espírita europeu pelo papel que ele desempenhou no salvamento dos nossos documentos.”

Quem já leu os percalços pelos quais passaram os documentos de Kardec no texto “Em busca do Santo Graal”, pode acrescentar mais este aí, relatado pelo Desliens na Revista Espírita de Julho de 1871.

Em 19 de julho de 1870, cerca de quinze meses após o decesso de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia. A batalha decisiva ocorreu em 2 de setembro, quando os franceses foram derrotados e o Imperador aprisionado pelos prussianos. Mas Bismarck estendeu a guerra até o final de janeiro do ano próximo com o fim de enfraquecer bastante a França e ficar em definitivo com a Alsácia-Lorena. Os alemães só deixarão a França em 1873, cobrando pesadas compensações de guerra ("Levando nossas riquezas, a Prússia leva uma parte dos nossos vícios; pois ao ficarmos menos ricos, por certo ficaremos mais virtuosos", diz uma das cartas recebidas pela Revue). Em 8 de fevereiro de 1871, a recém-instalada III República realiza eleições para a Assembléia Nacional. O interior vota nos conservadores e enrustidos monarquistas; Paris, vota nos socialistas, anarquistas, liberais e republicanos autênticos. O líder da assembléia, Thiers, instala o governo em Bordéus, depois em Versalhes. A cidade luz se revolta: é instalada a Comuna de Paris. Thiers tenta, em 18 de março, tomar os canhões da Guarda Nacional; o povo reage e fuzila os generais. Então, Bismarck liberta e arma os cem mil prisioneiros de guerra para que se unam ao pequeno exército de Thiers e reprimam a Comuna. O cerco se inicia em 21 de maio. Dada a superioridade dos conservadores, a população provoca incêndios na tentativa de conter os soldados. Paris em chamas! É a “semana sangrenta”, que dura até 28 de maio, quando a Comuna se extingue em meio a vinte mil mortos e dez mil prisioneiros ou exilados. O último reduto caiu em Menilmontant, próximo à porta por onde eu e minha esposa entramos no Père Lachaise quando lá estivemos.

É interessante como os preciosos arquivos, com os quais "a posteridade poderia julgar os homens", correm o risco de extinção desde o começo de sua existência.
Terá valido a pena, o arriscado esforço do valoroso marinheiro espírita e seus comandados, dando uma sobrevida a este "quadro único da história do espiritismo moderno"?
Dizem que alguns anos depois, Leymarie, então todo-poderoso gerente do espólio kardeciano, enviou vários desses documentos aos seus amigos do Brasil. O restante do acervo foi novamente ameaçado quando seu filho, assustado com uma "reentrée" dos canhões germânicos e franceses ameaçou abandoná-los à própria sorte. Foram salvos, desta vez, pelo Jean Meyer, que os recolheu na Maison des Spirites, onde distribuíram suas luzes por um quarto de século, até a Maison virar quartel de tropas, novamente germânicas, e serem pilhados e sepultados impunemente nos porões dos descendentes de quem os retirou de seu devido lugar.
Seria a força do destino tentando se contrapor à força das coisas?

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"NOUS DIRONS QUE..."




É o estilo de Kardec para definir o Espiritismo: "Diremos que..."
A primeira vez foi em 1857, em O Livro dos Espíritos:

"Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o espiritismo consiste na crença nas relações do mundo material com os espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do espiritismo serão os espíritas, ou se o quiserem, os espiritanos".

A palavra "crença" não fica bem num texto com pretensões científicas, assim como o qualificativo escolhido não foi muito feliz, então, em 1860, na segunda edição de O Livro dos Espíritos, ele mudou para:

"Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o espiritismo tem por principio as relações do mundo material com os espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do espiritismo serão os espíritas ou, se o quiserem, os espiritistas".

Mas, antes disso, em 1859, na primeira edição de O que é o Espiritismo, ele escreve:

"Para responder desde agora à questão formulada em nosso título, diremos que: o Espiritismo é a doutrina fundada sobre a existência dos Espíritos, ou seres incorpóreos do mundo invisível, e suas relações com o mundo corporal. Podemos ainda dizer que: o Espiritismo é a ciência de tudo o que se refere ao conhecimento dos Espíritos ou do mundo invisível".

Três anos depois -- portanto, em 1862 --, na terceira edição do seu O que é o Espiritismo, encontramos:

"Para responder desde agora à questão formulada em nosso título, diremos que: O Espiritismo é a ciência de tudo o que se refere ao conhecimento das almas ou Espíritos e do mundo invisível, e às suas manifestações".

Mesma coisa ele repete em 1863, por ocasião da quarta edição.

Já em 1865, na sexta edição de O que é o Espiritismo, encontramos a versão definitiva da definição:

"Para responder desde agora e sumariamente à questão formulada no título deste opúsculo, diremos que:
O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se pode estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações
.

"Pode-se defini-lo assim:
"O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal".

Além disso, talvez em virtude do lançamento um ano antes de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ele passa a colocar na capa e na folha de rosto de O que é o Espiritismo a frase: Fora da caridade não há salvação.

Apenas curiosidades... Existem várias outras diferenças interessantes entre as primeiras edições do livro O que é o Espiritismo, que talvez abordemos em outra oportunidade.

(Com exceção da primeira edição do LE -- que tenho em fac-símile publicado em 1957 pelo Canuto Abreu -- os demais livros foram consultados, também em fac-símile -- ou em imagem, ou, ainda, em fotografia, se o preferirem -- disponibilizados no site do IPEAK).



segunda-feira, 27 de maio de 2013

PASSEIOS BIBLIOGRÁFICOS: LALANDE, CASTELLAN, HERCULANO...


Quando "O Livro dos Espíritos" completou o centenário do lançamento, Herculano Pires publicou sua tradução com uma digestiva "Introdução", onde aborda, de forma rápida porém abrangente, os variados aspectos da doutrina que nos auxiliam na compreensão de sua identidade.

Em defesa da existência de uma filosofia espírita ele cita Yvone Castellan, no livro "O Espiritismo", editado pela Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1961, como parte da coleção "Saber Atual". Na França o livro foi publicado em 1955, como parte da coleção "Que sais-je?", contendo, da mesma autora, "A Metapsíquica" e "A Parapsicologia". É um livro interessante para o estudioso do Espiritismo e, hoje em dia, pode ser encontrado em sebos, bastando uma busca pelo Google.

Outro livro de que se serve Herculano para justificar uma filosofia espírita -- conforme ele o faz em sua "Introdução à Filosofia Espírita", Paideia, São Paulo, 1983 -- é o "Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia", de André Lalande (o meu exemplar, e provavelmente o de Herculano é da Librairie Felix Alcan, Paris, 1932, de onde retiro as citações. Parece-me, porém, que desde os anos 90 existe em português, onde, portanto, minhas "criminosas" traduções poderão ser conferidas). Herculano diz que Lalande "consigna a filosofia espírita". Será que também o kardecismo?

O livro de Yvone Castellan tem pouco mais de cem páginas onde se discorre de forma recorrente sobre a história do espiritismo, os médiuns, a filosofia com Kardec, os movimentos concorrentes, e o espiritismo ante a ciência, a Igreja, o ocultismo e a medicina. O que Herculano destaca é o fato dela, ao contrário da literatura oficial de filosofia, concordar com a existência de uma filosofia espirita: "O sistema é completo e compreende uma metafísica inteiramente repleta de considerações físicas ou genéticas, e uma moral".

Sobre Lalande, o Vocabulário possui mais de mil páginas e é uma obra bastante conceituada entre os estudantes de filosofia. Vejamos o que ali se diz sobre o assunto:


"ESPIRITISMO - Alemão Spiritismus; Inglês Spiritism, Spiritualism; Italiano Spiritismo. E, claro, Francês Spiritisme.

Doutrina segundo a qual os espíritos dos mortos sobrevivem conservando um corpo material, extremamente tênue (perispírito) e, se bem que ordinariamente invisíveis, podem entrar em comunicação com os vivos graças a certas circunstâncias, notadamente graças à ação dos médiuns.
A esta tese fundamental se agrega todo um conjunto de crenças, que passam por serem reveladas pelos próprios espíritos, e que são expostas dogmaticamente em diversas obras, das quais a mais célebre é: Allan Kardec, (H.Rivail), O Livro dos Espíritos, 1853 (sic).

Radical internacional: Spiritism."



Na palavra "espíritos" há um asterisco remetendo ao verbete correspondente onde, na acepção B, diz: "Princípio da vida e, consequentemente, alma individual... -- Deus, os anjos, os demônios, as almas dos homens desencarnados depois da morte são os espíritos".

No verbete ESPIRITUALISMO o dicionarista volta a falar em Espiritismo quando, na acepção D, faz a distinção entre as duas palavras (o que também é referido por Herculano em uma das vezes que citou Lalande). Vamos ao texto do Vocabulaire:


"D. Impropriamente, por espiritismo. Diz-se, algumas vezes, neste caso, 'novo espiritualismo', 'espiritualismo experimental'. Esta acepção é mais frequente em inglês, onde ela pertence, segundo Jastrow, à linguagem popular. (Baldwin's Dictionary, vº Spiritism, 585 B). No entanto, o artigo da Enciclopédia Britânica consagrado ao espiritismo, e devido a Henry Sidgwick, é intitulado 'Espiritualismo'. -- Immanuel Hermann Fichte escreveu uma obra sobre o espiritismo tendo por título: 'Der neuere Spiritualismus'."


Abrindo um parênteses. No sentido A o dicionarista dá a acepção de espiritualismo como a doutrina que sustenta, do ponto de vista psicológico, que as representações, as operações intelectuais e os atos da vontade não são inteiramente explicáveis pelos fenômenos fisiológicos; e, do ponto de vista ético e sociológico, que há no homem e na sociedade dois sistemas de fins diferentes -- ou, mesmo, em conflito -- sendo que um representa os interesses da natureza animal e outro os interesses da vida propriamente humana. A acepção B é colocada do ponto de vista filosófico, como sendo a doutrina segundo a qual existem duas substâncias distintas por seus atributos: o espírito, tendo por caracteres essenciais o pensamento e a liberdade; e a matéria, cujos caracteres são a extensão e o movimento. No C, ele registra a doutrina de que tudo é espírito, de uma forma mais ou menos platônica. E aqui fecho este parênteses.

Mas a discussão filosófica envolvendo o espiritismo ocorre mesmo nas observações sobre espiritualismo colocadas no rodapé das páginas. O Vocabulaire do Lalande foi construído ao longo de vários anos através de fascículos nas publicações da Société Française de Philosophie, e cada verbete ensejava um debate entre os membros e correspondentes dessa Sociedade. Quando foi editado em livro (a primeira edição foi em 1926), o Vocabulaire incorporou todas essas revisões, correções e observações.

Assim, no rodapé, L. Brunschvicg observa que, primeiro, a questão se a vida depende da matéria ou somente da alma, importante para o desenvolvimento e aplicação do espiritualismo, não é decisiva para o princípio mesmo da doutrina; e, segundo, a conexão de espiritualismo e sociologismo deriva, lhe parece, do novo-espiritualismo que ocupa cada vez mais lugar no pensamento de Comte. Mais diretamente sobre o espiritismo é a sua terceira observação, que coloco na íntegra: "3º Não vejo a menor razão para eliminar o espiritismo como uma das significações próprias do espiritualismo. Você desconsidera, assim, a influência profunda e persistente das crenças e das práticas espiritas nas crenças e nas práticas religiosas, desde as mais distantes ou rudimentares, até as mais recentes. Se os comentadores de W. James não tivessem velado a franca confissão que termina a "Experiência Religiosa", teriam visto que a evolução do novo-espiritualismo de Comte para o neo-fetichismo é semelhante à evolução do neo-espiritualismo de W. James para aquilo que ele chama, creio, supernaturalismo grosseiro". Depois, ele tece várias considerações conciliando as acepções A e B, terminando por dizer: "A verdade é que elas recobrem uma imaginação tão realista, tão material como a noção dos espíritos animais. Com isto se vê aparecer à luz do dia o que a literatura clássica da filosofia tem tanto trabalho em esconder: o parentesco secular do espiritualismo no sentido A e do espiritismo".

Lalande finaliza as notas sobre o termo espiritualismo dizendo que não há como fugir do que foi consagrado pelo uso ou, "se a acharmos imprópria ou equívoca, renunciar a dela nos servirmos", e cita uma decisão determinada neste sentido por Maurice Blondel, em sua "Lettre sur l'Apologétique": "Apenas no Século XVII se encontra este termo (espiritualismo) na linguagem dos teólogos, em um sentido pejorativo, para designar um abuso da espiritualidade e uma falsa mística. Colocado em voga pelo Ecletismo para designar seu dualismo superficial, ele evoca, por uma natural associação de idéias, a lembrança dessa escola, e partilha o descrédito assaz justificado em que ela tombou. É aqui, agora, que, por aventura, esse termo de origem equívoca e de sentido suspeito parece confiscado por alguns dos que comerciam com os "espíritos" e não se contentam mais em serem espíritas, porque talvez o título de espiritualistas seja melhor aceito. Havia se deixado de usar esta palavra até Cousin para designar coisas melhores que aquelas que ele resumia. É tempo de ver que não é senão uma etiqueta de escola".

Bem, fico feliz de constatar que, tal como eu já colocara em um artigo, também os filósofos estabelecem uma relação de descendência entre o espiritualismo de Cousin e o espiritismo.

Podemos, então, concluir com Herculano que, de certa forma, Lalande "consigna" o espiritismo numa discussão filosófica. Porém, o espiritismo kardecista é tratado como um conjunto de crenças expostas dogmaticamente.

Já em nosso país, Jorge Jaime, em sua extensa "História da Filosofia no Brasil", Editora Vozes, em quatro volumes, dedica duas páginas ao Herculano, chamando-o de "o filósofo do espiritismo", o que, indiretamente, confirma o espiritismo como filosofia. Apesar disto, é comum encontrarmos nos diálogos das redes sociais estudantes, bacharéis ou licenciados em filosofia que não engolem o Herculano como filósofo. No entanto, Herculano se enquadra em algumas das acepções de Lalande no verbete "filósofo"; enquanto que o mesmo não se poderia dizer deles:


"FILÓSOFO. ...E - Aquele que se ocupa profissionalmente da filosofia enquanto professor, estudante, etc. Este uso da palavra não é de boa linguagem, a não ser quando implica uma nuance de ironia."

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Alguns apontamentos para posterior desenvolvimento.

Qual a relação entre Abrahão/Moisés e o "Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho"?

Do ponto de vista espírita (que, queiramos ou não, é o nosso ponto de vista sectário) o livro citado é uma obra cheia de erros doutrinários, tendente a gerar e alimentar um misticismo condenado na kardequiana, além de enaltecer nosso demonizado Roustaing.
Porém, de um ponto de vista puramente humano (eu diria antropológico, se não fosse este um termo corporativo), é a obra mais importante já aparecida no Brasil; e, em si, um fato inédito em nossa história cultural. Pois representa a primeira (e, talvez, pelas mudanças culturais dos últimos tempos, permaneça a única) tentativa de construção de uma brasilidade mitológica, tal como o foi a construção de todas as civilizações. Assim, ele equivale, numa perspectiva histórica e cultural, à Iliada, à Eneida, aos Lusíadas e ao Velho Testamento em relação ao povo judeu. É o mito de origem do Brasil. E, como todos os mitos de origem, insere nossa civilização nas intenções e planos de Deus. Aliás, isto até sugere que tenhamos uma civilização. Será que temos?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Algumas rápidas e iniciais considerações sobre as “Reflexões sobre a Ciência Espírita” feitas por A.Xavier.

https://docs.google.com/file/d/0BwP5l2F8N4s3RnBKaW9idHl4RVE/edit?pli=1


Logo de início o autor parece abdicar da possibilidade de uma “ciência espírita” ao exigir a aceitação da existência do Espirito como um “princípio”, dada a inexistência de evidências “diretas” desse novo elemento. A seguir afirma que Kardec se antecipa várias décadas às considerações epistêmicas de seus contemporâneos apenas por dizer que “a ciência é incompetente para tratar do espiritismo”; sem dúvida nenhuma, uma afirmação dogmática, fundamentada apenas no fato de que os cientistas da época queriam reduzir todos os fenomenos a interações dos átomos e princípios elementares da matéria. E, não é exclusivamente neste campo que encontramos as consequencias do fenômeno mediúnico, portanto onde apenas poderemos lidar com ele?
É verdade que o Euclides chegou no barzinho do cais em Alexandria com uma série de “princípios” e disse aos amigos que aceitassem aquilo como verdade axiomática e sobre eles poderiam construir uma ciência. Mas, construíram efetivamente uma ciência que resolveu os problemas geométricos que os homens suscitavam. O “método kardecista” não consegue resolver em definitivo uma coisa tão simples como a existência de colônias no plano espiritual.
Veja o caso dos ovnis e das civilizações extra-terrestres. A ciência “propriamente dita” (para me valer de uma expressão kardeciana), considera que é possível existirem civilizações extra-terrestres. E, em cima deste princípio – que é, na verdade, uma possibilidade – saem procurando as tais civilizações. Você pode efetivamente fundar uma ciência sobre isto. Agora, veja uma outra consideração: existem civilizações extra-terrestres. Em cima deste novo princípio você só pode construir uma ciência hipotética, daquelas que costumam chamar arrogantemente de pseudociência. O primeiro princípio ("é possível que existam") gerou a exobiologia e sei lá que outras ciências. O segundo princípio ("claro que existem") gerou a ufologia. Eu penso que seja mais ou menos essa a diferença que se formou, no início do século XX, entre metapsíquica e espiritismo. De qualquer forma, em termos epistêmicos atualmente disseminados no meio acadêmico, estas duas últimas podem ser encaradas como protociências, que poderão quiçá um dia se tornarem ciências.
Enfim, tanto espiritismo como ufologia exigem crenças; partem de uma certeza; não são buscas, são o estudo de coisas já encontradas. Daí, permanecem válidas para aqueles que viram tais coisas; quem ainda não viu, fica de fora. Como não conseguem fazer ver à maioria dos cientistas, permanecem, na maior concessão, como protociências.

Mais adiante vai aparecer a constatação (desde Kardec) que o método (CUEE) só se aplica aos princípios, não a coisas secundárias. Então, torna-se necessária uma relação exata daquilo que seja princípio, na Doutrina Espírita, e daquilo que seja secundário; penso que esta demanda ainda não foi atendida. E isto tem permitido uma saída pelos fundos: quando se demonstra que a aplicação do método falhou em algum ponto, imediatamente os “cientistas/crentes” retrucam que aquilo não era Doutrina Espírita, eram coisas secundárias. O “ensino” dos espíritos de que a sociedade não pode dar à mulher profissões “rudes”, pois que ela tem que cuidar do “interior”, não é Doutrina; o “ensino” de que a espécie humana surgiu em lugares e épocas diferentes, em “fornadas”, também não é Doutrina. E assim vai, lembrando bem o caso do “dragão na garagem” do Sagan. Então, qualquer discussão sobre a validade do método, ou sobre a atualidade dos princípios espíritas, exige, antes, a definição exata desses princípios.

Voltaremos ao assunto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ATUALIZAÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA


Um título como este causa apreensão em muitos espíritas. Pura bobagem.

As atualização e a incorporação de contribuições, sejam ou não de ateus e materialistas, já ocorre, à revelia de quem as crê inconvenientes. Hoje em dia não há espírita que defenda que a mulher deve cuidar do interior e o homem do exterior, ou que os trabalhos rudes são para os homens e os leves para as mulheres, como pregam os instrutores no Livro dos Espíritos. Homens e mulheres trabalham onde querem e possam, ao mesmo tempo que ambos devem se comprometer tanto com o exterior como com o interior.

Também, nenhum espírita com um minimo de conhecimento de biologia vai acreditar que a espécie humana surgiu em diversos pontos do globo e em várias fornadas, como, também aqui, afirmam os mesmos instrutores na mesma obra. Nem mesmo vão achar louco quem tenta conhecer a idade da Terra e a época do aparecimento da espécie humana, como, ainda, afirmam os Espíritos.

Enfim, como podemos ver, a Doutrina Espírita se atualiza. A diferença ocorre apenas no posicionamento frente a isto. Alguns preferem a racionalização, a exegese, que nos leva a ficar procurando subterfúgios -- quando não sofismas -- para continuar acreditando que os espíritos disseram o que diz a ciência de hoje, é "só questão de interpretarmos". Outros, observam o contexto histórico em que a Codificação se deu, reconhecem as limitações de médiuns, espíritos e filósofos, e remetem à história o que lhe é devido, seguindo adiante com o progresso do conhecimento humano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

EM BUSCA DO SANTO GRAAL.



"Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se refletem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme?..." (Allan Kardec; G, I, 52, N.1).


Onde está essa "amplíssima correspondência"? Onde foram parar esses "arquivos preciosos" de "documentos autênticos" com os quais a posteridade poderia "julgar os homens"?

Os documentos históricos do espiritismo sofreram as consequencias de terem sido, os negócios da doutrina, tratados sempre como algo de família, constituindo heranças e, consequentemente, dependendo de herdeiros.

Kardec pretendia criar uma sociedade impessoal, mas não deu tempo. Morreu antes de concretizar seus planos e, tudo o que era do espiritismo (sociedade, obras, revista, documentos) tornaram-se a herança de sua esposa, Amelie Boudet.

De início, ela disse que ia tudo gerir; mas, talvez pela idade ou a solidão, acabou por entregar tudo nas mãos do Pierre-Gaëtan Leymarie, que criou uma tal "sociedade para continuar a obra de Allan Kardec".

Após a morte da herdeira, Amelie, em 1883, e como único remanescente da tal sociedade, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos documentos de Kardec. Uma parte, ele foi publicando na Revue, e acabou por usar em "Obras Póstumas"; outra parte, segundo uma lenda, ele teria enviado para a FEB, onde se encontra sepultado num cofre-forte. É bom lembrar que Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente o Rio; ele esteve exilado aqui em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

O que sobrou na França foi herdado (novamente em família!) pelo filho dele, o Paul Leymarie. Este, após um breve intervalo de três anos em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, dono absoluto dos destinos do espiritismo até 1914, quando, em função da I Guerra Mundial, desistiu. O que não foi de todo mal, pois o Paul Leymarie vendia até bolas de cristal pela Revue.

Antes mesmo de terminar a I Guerra, em 1916, um rico empresário francês, o Jean Meyer, assumiu o movimento órfão (Denis e Delanne eram sumidades intelectuais; eram referências; mas alguém tinha que cuidar dos negócios). As pessoas malvadas, como eu, imaginamos o Meyer compensando regiamente o Paul.

Meyer criou a Casa dos Espíritas, para onde levou os documentos e objetos pessoais de Kardec. Este mesmo mecenas fundou o Instituto de Metapsíquica, sob o comando inicial do Gustave Geley, e, onde foi gerado o Tratado de Metapsíquica, no qual o Richet diz que o "espiritismo é inimigo da ciência". Jean Meyer foi o dono do movimento até sua morte em 1931. Foi ele quem inaugurou a vocação assistencialista do espiritismo.

Bem, até aí os jacobinos; a partir daí, os xenófobos.

Assume Hubert Forestier, e torna-se tão particularmente dono que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Morre em 1971, deixando um movimento mais que anêmico, agonizante mesmo.

Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para o André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. O resto -- muito pouco: o nome da Revue e da Societé --, ficou nas mãos do Dumas.

André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestigio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da Revue Spirite para "Renaitre 2000", e a societé para uma tal "sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência", colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o "espiritismo francês".

Dizem que os brasileiros tentaram recuperar o nome da Revue Spirite,uma vez que o cidadão não pretendia mais publicá-la, mas o Dumas não aceitou. Alegou que o movimento no Brasil se desviara para o religiosismo e não abriu mão.

Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se comunicou no grupo dele, o Cercle Spirite Allan Kardec, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. Ele o tenta até hoje.

Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, nos anos oitenta, resolveu, certamente com o patrocínio da FEB, retomar as coisas. Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela Federação Espírita Francesa e Francofônica, da qual é fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI - Conselho Espírita Internacional.

E os documentos de Kadec, suficientes para comprovar ou desmentir o famoso "controle universal" num julgamento pela posteridade, não deveriam acompanhar toda essa trajetória de mandos e poderes, acondicionados num majestoso baú?

Deveriam, mas o baú transformou-se num "cálice sagrado", num Santo Graal, ou seja, numa lenda.

Conta Wallace Leal que quando tentava aproximação com o Forestier (aquele que foi dono de 1931 a 1971) para saber dos documentos, ele respondia friamente que a Maison tinha sido pillé pelos alemães. Dizem que os papéis de Kardec foram queimados para aquecer os soldados alemães, aquartelados na Casa dos Espíritas, por uns quatro invernos, os mais rigorosos do século.

Mas, existe outra saga. Em 1939, Canuto Abreu seria um adido na embaixada brasileira em Paris, quando foi procurado por algumas pessoas que se diziam a mando dos espíritos -- que por certo realizaram escutas espirituais no gabinete do Hitler e souberam da iminente invasão alemã à Cidade Luz -- e lhe entregaram valiosos documentos de Kardec, para que ele os salvasse trazendo para o Brasil. Para que não se fuja à regra lendária, tais documentos, "salvos dos alemães", acabaram transformando-se numa herança, ora sepultada em mãos dos descendentes do Canuto.

Assim, a lenda divide os famosos documentos tão cuidadosamente arquivados e citados por Kardec em três conjuntos: um nos porões da FEB; outro com os herdeiros do Canuto; e, o que ficou na França, queimado como combustível pelos nazistas.

Consideremos perdido este último lote. O que está em poder da FEB, segundo a lenda, foi-lhe dado pelo Leymarie, na época legítimo proprietário dos mesmos, legitimando, dessa forma, sua apropriação por essa entidade. Mas, e o lote em poder dos descendentes do Canuto? Ao Wallace, Forestier teria dito que foram "pilhados", sem se referir à história do Canuto. Teriam, aquelas misteriosas figuras, entregue ao Canuto sem o conhecimento do Forestier, seu proprietário no momento? Não teria havido, assim, uma apropriação indébita?

Por outro lado, considerando as simpatias do governo brasileiro por Hitler -- o que só mudaria com as mudanças no rumo da guerra, lá por 1942 --, e os agrados despendidos pelas grandes potências no jogo político internacional, se um adido da embaixada brasileira em Paris se dirigisse à autoridade militar alemã, invasora, e solicitasse permissão para "retirar alguns documentos daquela Maison que seus soldados ocuparam", seria prontamente atendido. Daí, a "pilhagem" não teria sido feita propriamente pelos nazistas.

Mas, e as datas? Os tais et's teriam aparecido em 1939, e a invasão alemã ocorreu em junho de 1940. Bem, se esta for uma história dispersiva surgida duas ou três décadas após o ocorrido, um deslocamento de seis meses é bastante viável.

Neste caso -- e considerando-se a moda atual de buscarem, os países, nos foros internacionais, documentos, relíquias e artefatos arqueológicos que lhes foram pilhados durantes séculos de guerras e colonizações --, o que poderia acontecer se o Roger Perez, ou o Estado Francês -- ou mesmo um franco-atirador -- se dessem conta de que importantes documentos franceses, pilhados durante a ocupação alemã, se encontram escondidos em São Paulo?

Porque, se esta historia for verdadeira -- e, não, apenas uma lenda, como parece ser --, há uma diferença em relação às cartas de Kardec que temos visto em leilões. Uma carta, uma vez enviada e recebida, passa a integrar o acervo do destinatário. Portanto, se o Freud tivesse escrito uma carta à minha bisavó, e agora ela me coubesse por herança, eu faria dela o que quisesse.

Enfim, como em toda lenda, aqui há mais perguntas que respostas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DO ESPIRITISMO, FORA DOS CATECISMOS.

Comecemos pelo neologismo espiritismo. Segundo a primeira edição do Houaiss vem do francês spiritisme (1857), que por sua vez vem do inglês spiritism (1856). Pesquisas recentes recuam sua utilização em livros e revistas de língua inglesa de 1853 e 1854. A trajetória do neologismo indica o caminho da idéia: o espiritismo é um movimento que surgiu nos Estados Unidos da América sob os nomes de new-spiritualism e spiritism (o primeiro acabou por adquirir predominância), foi trazido pelos seus entusiastas para a Inglaterra, onde se disseminou sob o nome de spiritualism, e, logo a seguir, para a Europa Continental, onde atingiu várias camadas da sociedade sob os nomes franceses de spiritualisme e spiritisme (este último adquiriu predominância no continente). Na França o movimento encontrou-se com a filosofia. Havia uma certa disponibilidade de filósofos ociosos provocada pela ditadura de Luís Napoleão Bonaparte. Aliaram-se os órfãos do até então "ditador filósofo", o espiritualista e eclético Victor Cousin, com alguns socialistas utópicos impedidos em suas tertúlias políticas, e passaram a interrogar os espíritos de forma mais consistente. O escritor Victorien Sardou juntou toda a produção resultante desses diálogos e solicitou ao Professor Rivail, talvez o mais sério e maduro do grupo, que a pusesse em ordem. Rivail construiu com o material toda uma metafísica, ainda que no estilo literário do diálogo com a manifesta intenção de fugir ao espírito de sistema, e a publicou sob o título de "O Livro dos Espíritos", tendo como subtítulo "Filosofia Espiritualista" -- o que denuncia a influência eclética do Cousin. Reinvindicou para esse corpo doutrinário o nome de spiritisme, identificou os espiritos dialogantes como grandes nomes do passado -- São João, São Luís, Santo Agostinho, Sócrates, Platão, Lammenais, etc. --, e ultrapassou a vã filosofia enveredando para o terreno tipicamente religioso, declarando que tais espíritos tinham sido enviados pelo próprio Deus para inaugurar uma nova era para a humanidade, inserindo-o na sequencia das revelações ocidentais: o judaísmo, o cristianismo e, agora, o espiritismo -- como se fora o primeiro, o segundo e, agora, o terceiro testamento. Iniciou dessa forma o grande movimento do espiritismo filosófico; ou, espiritismo moral, segundo Sudre; ou, espiritismo religioso, segundo Flammarion, Aksakof, Richet, e outros; ou, simplesmente, espiritismo kardecista, segundo Sausse, Leymarie, e todos os citados anteriormente -- e todo mundo. Este Espiritismo sobreviveu aos demais. Os demais foram: o espiritismo científico, representado por Aksakof, Flammarion, Delanne, Bozzano, Lombroso e Geley, desaparecido com a morte deste último; o espiritismo místico do Roustaing; e o espiritismo envergonhado que se chamou de "pesquisa psíquica", "metapsíquica" e "parapsicologia", de Crookes, Richet, Rhine e outros. Hoje em dia, graças à democracia, à crescente liberdade individual e à ausência de qualquer direito autoral sobre o nome, existem, ao lado do espiritismo kardecista, uma série de espiritismo à moda da casa ou do sujeito. Fim.
Fontes: "A Mesa, o Livro e os Espíritos", de Aubrèe e Laplantine; "Revista Espírita", de Kardec; "Memórias Biográficas e Filosóficas de um Astrônomo", Flammarion; "História da Filosofia", de Padovani e Castagnoli; mais pesquisas citadas neste mesmo blog, sob o título "Da-auto-geracao-de-mitos-ou-da-geracao de auto-mitos, etc." sendo imprescindível não ignorar o comentário corretivo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

SOBRE O DIÁLOGO COM OS ANTI-RELIGIOSOS II

Mais algumas considerações que me surgiram nas conversas facebookeanas. A coisa é tão simples e tão fácil de compreender. Vamos nos abstrair, por alguns momentos, de toda esta discussão falaciosa, cheia de piadinhas desconectadas e de respostas de efeito plagiadas dos gurus orientais. Vamos a um acontecimento recente, conhecido de todos, para entender as diferenças entre a ciência e o espiritismo pretendido pelos ortodoxos kardecianos. Todos conhecem a NASA. Uma instituição respeitadíssima nos meios acadêmicos, industriais e tecnológicos de todo o mundo, responsável pelos inúmeros avanços da comodidade moderna, conseguidos como sub-produtos de sua exitosa corrida espacial que na semana passada conquistou mais uma vitória colocando um novo equipamento de pesquisa no solo marciano. Pois bem, em dezembro do ano passado a NASA manifestou-se em canais de comunicação que cobriam todo o mundo -- e conseguiu a atenção de todo o mundo --, para comunicar que descobrira uma nova forma de vida num lago americano, vida essa que incorporara em seu DNA o arsênio em lugar do fósforo. Apesar de toda a autoridade conquistada no trabalho árduo anterior, não posaram -- e nem seriam aceitas se tal -- como reveladores cujos conteúdos deveriam ser incontinenti incorporados aos anais doutrinários da ciência. Não. Expuseram ao vivo a síntese do trabalho, e, numa publicação científica -- Science -- detalharam a metodologia empregada, as fundamentações, os testes, os resultados, etc. Imediatamente, vários outros laboratórios e centros de pesquisas puseram-se a reproduzir seus experimentos, a fazer a necessária análise e crítica ao método, a, enfim, tentar confirmar ou refutar os resultados. Dois centros de pesquisas, dois estudos independentes, puseram por terra as afirmações dos eminentes cientistas da NASA, demonstrando exatamente onde estava o erro: a presença mínima de fósforo, tão mínima que desprezada pelos cientistas, era suficiente para manter a forma de vida e sua resistência ao arsênio, tornando-a um extremófilo. Bem, vamos ao espiritismo ortodoxo kardeciano. Seus adeptos (como afirmam categoricamente se tratar de uma ciência, poderíamos dizer: seus "cientistas"), afirmam com ares de certeza que os conteúdos filosóficos e morais de sua doutrina foram transmitidos a Kardec -- rebaixado à condição de simples secretário -- pelos Espíritos Superiores comandados pelo Espírito de Verdade. Quais as fundamentações epistemológicas, a metodologia empregada, os testes, etc., para chegar-se a este resultado? Ah, o Controle Universal do Ensino dos Espíritos! Pulando certas verdades inconvenientes, como o fato de que ciência não se faz de "ensino" e, sim de pesquisa -- a educação é que se faz de "ensino", mas o educador, como dizia o próprio Kardec, é um "revelador secundário", e a ciência é feita pelo "revelador de ponta" -- , ou, ainda, o fato de que um princípio não se torna verdadeiro por eleição ou plebiscito, vamos, por obséquio, aos detalhes da metodologia. É mister uma crítica ao método, a fim de superar suas falhas. Como reproduzimos os experimentos, para verificarmos os resultados? Quais os passos necessários? Foram seguidos? Por quem? Ah, por Kardec. Ele disse que fez assim, que tinha mil centros e coisa e tal, e Kardec é um homem honrado, a sociedade espírita de Paris é respeitável, merecem credibilidade. (Alguém aqui duvida da respeitabilidade da NASA e da honradez das meninas que fizeram o experimento?). Bem, então, por mais honrado que ele seja, suas alegações no Item II da Introdução do ESE não podem ser tomadas como conhecimento científico, uma vez que não há a menor demonstração do método utilizado. Vamos, então, tentar reproduzí-lo? Hoje é difícil, diriam, os médiuns são todos religiosos, têm idéias divergentes, muita liberdade. Será que Kardec os tinha totalmente homogeneizados numa unanimidade nelsonrodrigueana? Não, é que os planos de Deus previam a revelação ali, naquele momento, por isso as condições foram divinamente reunidas; a nós, pobres pósteros, resta o consolo de aceitarmos, acreditarmos, estudarmos humildemente as obviedades ditadas pelos espíritos superiores, e, com isso, "evoluirmos" -- seja lá o que isto signifique. Igualzinho ao caso do Moisés, a quem Deus concedeu apenas duas audiências, e a partir daí a humanidade é que engolisse e praticasse religiosamente suas leis machistas e capitalistas. Ufa! Precisa escrever mais para discorrer sobre as diferenças práticas entre ciência e religião; entre espiritismo e ciência?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

SOBRE O DIÁLOGO COM OS "ANTI-RELIGIOSOS"

Eu peço perdão se minha argumentação inadvertidamente ofende alguém. Mas, minha intenção é apenas demonstrar a alguns nossos irmãos de humanidade o quanto são religiosos sem o saberem. A diferença entre certos espíritas que se consideram laicos e aqueles outros que se assumem religiosos é a mesma diferença existente entre o luteranismo e a igreja católica. Lutero deu uma limpada no cristianismo da igreja católica, excessivamente influenciado por elementos paganistas, mas continuou defendendo as mesmas crenças básicas. Certos espíritas que arremetem, às vezes até colericamente, contra o movimento espírita, apenas o limpam de um excesso de práticas místicas acrescentadas ao longo do tempo, mas continuam defendendo religiosamente certas crenças básicas, como a missão divina do espiritismo e a eficácia de um controle de "ensinos" do qual nem mesmo a aplicação foi demonstrada historicamente. E reagem a qualquer tentativa de questionamento ou falseamento, tanto quanto o reagem os religiosos. A única diferença entre os seguidores da reforma protestantes e certos espíritas auto-denominados "não religiosos", é que o reformador daqueles não afirmou que estava fazendo uma "ciência". Na verdade, quem teima em manter o espiritismo como uma religião, são os que se aferram a uma "Codificação" transformada em cânone sagrado: inquestionável e irrefutável. É possível transformar o espiritismo em ciência. Mas, prá isto seria necessário entender a contribuição de Kardec como importante, porém cheia de falhas e anacronismos que precisam ser substituídos pela livre e descontraída discussão, tanto quanto pela pesquisa e refutação. O Espiritismo baseado em crenças, tal como professado pelos ortodoxos religiosos ou ortodoxos laicos, é religião. "Duela a quin duela", como disse certo presidente. E Kardec identificou isto claramente quando relacionou as crenças espíritas no famoso discurso da RE-dez-1868, finalizado com a afirmação categórica, porque expressão da realidade: "eis o Credo, a religião do Espiritismo". Esta é a mais pura e cristalina realidade que qualquer inteligência mediana retira da kardequiana ou publicações posteriores e que nenhum discurso eivado de insinuações sobre a ignorância doutrinária do interlocutor, ou ancha de piadinhas cuja relação com o texto é difícil estabelecer, irá obscurecer. Agora, saindo do terreno das crenças dogmáticas, colocando-se Kardec e os Espíritos Superiores no seu devido lugar -- apenas uma escola da filosofia espírita --, e ampliando-se a abrangência do espiritismo para outras contribuições, teorias, pesquisas e experimentações, teremos conseguido guindá-lo à condição de ciência ou filosofia. Não sou contra ou a favor deste ou daquele; apenas constato a realidade. É preciso ter consciência das coisas. O Espiritismo entendido e praticado como religião encontra respaldo na própria kardequiana; já demonstrei isto à exaustão. Por isso, as pessoas que assim o praticam têm o direito de serem respeitadas em suas louváveis e consequentes crenças. Os que o querem "puramente" filosófico e científico, laico e sem crenças, que saibam vivenciarem-no assim.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MAIS UMA OBSERVAÇÃO À EPISTEMOLOGIA ESPÍRITA

Veja este trecho de Kardec, na Gênese, no capitulo "Caráter da Revelação Espírita", onde ele trata das formas de aquisição e acumulação do conhecimento espírita, o que, em termos técnicos, seria a epistemologia:
"Em filosofia, em psicologia, em moral e em religião, só é verdadeiro o que não se afaste, nem um iota, das qualidades essenciais da Divindade". Kardec, G,II,19.

Mais adiante, no capítulo III do mesmo livro, quando ele discute sobre o instinto,apresenta várias hipóteses e, depois, diz com muita propriedade:
"Todas essas maneiras de encarar o instinto são necessariamente hipotéticas e nenhuma tem uma característica suficiente de autenticidade para ser tida como a solução definitiva. A questão, por certo, será resolvida, um dia, quando estiverem reunidos os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, é preciso nos limitarmos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça."

Científico? Então vejamos como ele finaliza:
"A solução que mais se aproxima da verdade será, com certeza, a que melhor corresponda aos atributos de Deus, isto é, à soberana bondade e à soberana justiça". Kardec, G,III,17.

Talvez resida em coisas assim a rejeição de muitos acadêmicos ao espiritismo: o medo de que, pela generalização do kardecismo, toda a ciência e a filosofia se vejam obrigadas a subordinar-se a princípios como estes. A ciência -- ou o que a ela se assemelhava na época --, já esteve subordinada à religião, à fé, à crença em coisas reveladas estabelecidas como verdades incontestáveis. E o saldo foi de atrasos e dores. Quando a ciência conseguiu o direito a ser laica, cética e irreverente, permitiu ao homem acesso a conhecimentos importantes na física, química, astronomia, saúde, etc. Agora, aparece uma revelaçao que, dizendo-se ciência, ameaça subordinar a pesquisa a premissas sobre atributos de uma divindade que nem todos aceitam.
Não me estranha que, dez meses após ter publicado isto, Kardec baixou a bola e reconheceu que o espiritismo é "religião em certo sentido".

quinta-feira, 31 de maio de 2012

LINHA DO TEMPO ESCLARECE EDIÇÕES DA "GÊNESE"

(Texto revisado da postagem de 14.7.2010, com o título "A Gênese, os Milagres e as Predições, e as espiritices brasilianas II).


Ante a polêmica a respeito das alterações feitas na Gênese de Kardec (as autorizadas, do autor, e as desautorizadas, dos que querem "atualizá-lo"; vejam postagem de 11.7.2010)), tentei elaborar uma LINHA DO TEMPO, que aqui disponibilizo para que completem, corrijam, critiquem ou desprezem...

06.01.1868 - Lançamento do livro A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, pela Librairie Internationale - A. Lacroix, Verboeckhoven et Co. Editeurs. Segundo Desliens - secretário de Kardec, médium da Sociedade Espírita de Paris e, posteriormente, membro da Comissão Central que sucedeu o fundador -, o contrato inicial previa uma tiragem com três edições; as fôrmas de impressão seriam de propriedade de Kardec. (Revista Espírita, jan/1868; mar/1885). OBS.: A Rouge Frères, Dunon et Fresné, citada por alguns articulista como "editores" é, na verdade, a tipografia onde foram impressas as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, bem como, a quinta edição de 1872, já então da Librairie Spirite.

xx.02.1868 - Kardec determina uma tiragem em brochura à parte do capítulo Caracteres da Revelação Espírita. (Revista Espírita, fev/1868).

xx.02.1868 - Kardec inicia a tiragem da segunda edição. (Revista Espírita, fev/1868).

22.02.1868 - Os espíritos apoiam Kardec na intenção de promover alterações na Gênese e o alertam para que conte com o esgotamento rápido dos volumes. (Obras Póstumas).

04.07.1868 - Os guias de Kardec o incitam a apressar o trabalho de remodelação da Gênese: "Acréscimos em diversos pontos (...) e condensação aqui e ali para não tornar mais extenso o volume". E, ante a possibilidade do esgotamento das edições no mercado, dizem: "Não perca tempo: é preferível que os volumes esperem pelo público, do que este por eles". (Obras Póstumas)

xx.07.1868 - Artigo na Revue sobre a "Geração Espontânea e a Gênese".

xx.09.1868 - Correspondência na Revue sobre o capítulo "Aumento e diminuição do volume da Terra" e publicaçao do texto "A alma da Terra", que Kardec incluiria na revisão da obra, e sairia apenas na 5a. edição.

xx.10.1868 - Última alusão na Revue à Librairie Internationale, por ocasião do lançamento da brochura contendo a correspondência de Lavater.

xx.xx.1868 - Antes que o ano termine a Librairie Internationale, de A.Lacroix, Verboeckhoven et Co.Editeurs, vai à falência! (Revista Espírita, mar/1885).

xx.xx.1869 - Ano novo, mudança total. Kardec planeja entregar os encargos do movimento espírita a uma Comissão Central e dedicar-se apenas a atividades intelectuais em sua residência na Avenue et Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos. Cria a Librairie Spirite, que passará a publicar e distribuir a Revue e suas demais obras, na rue de Lille, 7. O Sr. Bittard, antigo funcionário da falida Librairie Internationale é indicado para ser o gerente. A Sociedade Espírita de Paris também se transfere provisoriamente para o mesmo endereço. Tudo isso é planejado por Kardec para ter início em 01.04.1869.
Em meio à mudança de coisas para sua casa na Avenue et Villa Ségur e coisas para a rue de Lille, no já quase deserto escritório da Passage Saint'Anne, em 31 de março, Kardec morre! A Sra. Allan Kardec, única proprietária legal de suas obras e da Revue, após uma tentativa frustrada de convencer Camille Flammarion a sucedê-lo, decide:

"Primeiro: Doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes da venda dos livros espíritas e das assinaturas da Revue, isto é, das operações da Livraria Espírita; mas com a condição expressa de que ninguém, a título de membro da Comissão Central ou outro, tenha o direito de imiscuir-se neste negócio industrial, e que os recebimentos, sejam quais forem, sejam recolhidos sem observação, desde que ela pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas, regular a seu critério os emolumentos de seus empregados, o aluguel, as despesas futuras, numa palavra, todos os gastos gerais;
Segundo: A Revue está aberta à publicação dos artigos que a Comissão Central julgar úteis à causa do Espiritismo, mas com a condição expressa de serem previamente sancionados pela proprietária e a Comissão de Redação, o mesmo se dando com todas as publicações, sejam quais forem;
Terceiro: A Caixa Geral do Espiritismo é confiada a um tesoureiro, encarregado da gerência dos fundos, sob a supervisão da Comissão Diretora. Até que seja o caso de usá-los, esses fundos serão empregados na aquisição de propriedades imobiliárias para enfrentar todas as eventualidades. Anualmente o tesoureiro fará uma detalhada prestação de contas da situação da Caixa, que será publicada na Revue."
. (Revista Espírita, 1868/1869; Obras Póstumas).
Por incrível que pareça, ela "foi objeto de felicitações unânimes".

xx.xx.1870 - Segundo seus biógrafos, Pierre-Gaetan Leymarie assume a direção do movimento espírita (Sociedade, Revista e Livraria). Leymarie conviveu e colaborou com Kardec, como médium e como divulgador do espiritismo, recebendo total confiança de Amelie Boudet. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

01.06.1871 - Segundo informação de Desliens, esta é a data limite em que a Sociedade, a Revista e as impressões das obras de Kardec estiveram diretamente a cargo de Bittard, Tailleur e Desliens. Presume-se que só a partir desta data Leymarie tenha assumido efetivamente tal mister. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1872 - Lançamento da QUINTA EDIÇÃO da Gênese, agora pela Librairie Spirite (conforme se pode verificar por noticie bibliographique da Bibliothèque Nationale de France). A BNF mantém esta edição em seu acervo com a identificação: FRBNF30010935.
A quarta edição tinha sido, ainda, publicada pela Librairie Internationale.
Aliás, hoje em dia, pela internet, pode-se encontrar o original de todas essas edições (1a2a3a4a5a) em várias bibliotecas francesas, assim como disponibilizadas em sites brasileiros.

xx.xx.1883 - Fundição dos clichês da Gênese. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1884 - Henri Sausse, espírita, polemista, biógrafo de Kardec e iniciador da utilização midiática da expressão "espiritismo kardecista", após comparar o texto das edições da Librairie Internationale com o texto da edição da Libraire Spirite, acusa Leymarie de ter feito alterações na Gênese, gerando ruidosa celeuma no meio espírita. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

15.03.1885 - Desliens, que estava afastado do movimento espírita desde 1871, escreve uma carta à Sociedade com a intenção de defender Leymarie.
Segundo ele, Kardec contratou com a Librairie Internationale as três primeiras edições, e, ainda em 1868, autorizou a 4a, 5a. e 6a. E que as matrizes destas três últimas serviram para as edições de 1869 a 187l (período em que ele esteve à frente do negócio) "e em diante". E sugere que Kardec tenha feito as alterações objeto da celeuma nestas placas, uma vez que eram fôrmas de letras soltas. Diz ainda que a última edição de 1868 era idêntica à primeira. (Revista Espírita, 1885). OBS.: Esta última afirmação de Desliens pode, hoje, ser comprovada por qualquer pessoa que se disponha a cotejar as edições de 1868.

Contradições: Segundo fac-simile apresentado pela Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, a 4a. edição é de 1868 e da Librairie Internationale. Segundo notice bibliographique da BNF, a 5a. edição é de 1872 e da Libraire Spirite. Não encontramos outras 5a. e 6a. edições de responsabilidade de Desliens; aliás, não encontramos ainda nenhuma edição entre 1869 e 1871!

xx.xx.1911 - Guillon Ribeiro torna-se espírita, vindo a ocupar a presidência da FEB e a produzir inúmeras traduções, incluindo a Gênese de Kardec, que ele diz ter traduzido a partir do original da QUINTA EDIÇÃO. (Sites brasileiros, encontrados via Google).
É evidente que a tradução de Guillon Ribeiro foi feita após 1911; portanto, no mínimo, 27 anos após as denúncias de Henri Sausse, 38 anos após a publicação da edição que lhe serviu de base, e 41 anos após as alterações objeto das denúncias.

Século XXI - Carlos Brito Imbassahy, espírita brasileiro, refaz, cento e tantos anos depois, o caminho de Henri Sausse: compara o texto da terceira edição francesa da Gênese, de 1868 (da qual afirma possuir um exemplar), com a atual edição brasileira da FEB; constata as diferenças e acusa, inexplicavelmente, o tradutor brasileiro, Guillon Ribeiro, de ter feito as alterações. (Sites e blogs brasileiros, encontrados via Google).

xx.xx.2007 - A empresa Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, publica uma tradução da Gênese, de Albertina Escudeiro Sêco, afirmando ser baseada na QUARTA EDIÇÂO, de 1868, ainda da Librairie Internationale, da qual exibe fac-simile apenas da folha de rosto. Ousadamente, perpetra uma série de alterações no texto de Kardec, a pretexto de "atualizá-lo". (A Gênese, Léon Denis Gráfica e Editora).

Assim, temos atualmente duas versões da Gênese disponíveis no mercado editorial brasileiro. Uma, baseada na versão francesa fixada desde a quinta edição de 1872, traduzida por Guillon Ribeiro, Julio Abreu Filho, Salvador Gentille, e outros. Outra, baseada na versão primitiva de 1868, traduzida e alterada por Albertina Escudeiro Sêco. Além dessas, existe a tradução de Carlos Brito Imbassahy, baseada, segundo ele, na terceira edição, de 1868, e disponibilizada gratuitamente na internet.

Bem, penso que esta linha do tempo absolve o Guillon Ribeiro. Quando as alterações foram feitas, seja por Kardec ou por Leymarie, ele não havia nem nascido. Quando ele fez sua tradução, passados quarenta anos dos fatos, ele só poderia agir como todos os outros tradutores, de todos os idiomas: utilizar a versão definitiva, disponibilizada pelos que ainda detinham seus direitos autorais.
Dispensam absolvição, porque não foram acusados, os demais tradutores brasileiros, bem como os vários editores franceses, que utilizam a versão fixada a partir da quinta edição.
Quando eu publiquei este post a primeira vez, eu disse que "nossas conclusões seriam enormemente facilitadas se fossem disponibilizadas ao público, em fac-simile, "escaneados", os originais da terceira edição (pelo Carlos Imbassahy), da quarta edição (pela LDGE) e da quinta edição (pela FEB)". Vejam como as coisas evoluem rapidamente na web: não precisamos mais disto. O historiador Felipe Gonçalves gentilmente me forneceu cópia da 4a. edição francesa; e, por informação dele, consegui junto ao site do IPEAK - Instituto de Pesquisa Espírita Allan Kardec, a 1a., 3a. e 5a. edições francesas. Tais fac-similes originais fazem referência aos locais onde estão armazenados e disponíveis.

Fiz a pretendida comparação, o cotejo, das edições francesas entre si, e delas com as traduções brasileiras -- de forma completa nos trechos polêmicos; mais rapidamente nos demais capítulos --, e posso afirmar que:

a) as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, tal como disse Desliens, SÃO IDÊNTICAS, o que demonstra que NENHUMA FOI REVISADA POR KARDEC.

b) a tradução do Guillon Ribeiro está rigorosamente fiel à 5a edição francesa de 1872, o que demonstra que ele NÃO É RESPONSÁVEL POR ALTERAÇÃO ALGUMA NA GÊNESE.

Agora, a situação do Leymarie complica um pouco, tendo em vista as inconsistências no depoimento do Desliens, feito 14 anos após os fatos.
A seu favor temos os inúmeros escritos e publicações de Kardec anunciando que preparava várias alterações na Gênese: acréscimos e supressões. Considere-se também o trabalhão que Leymarie teria para fazer todas as alterações no curto espaço de tempo entre o dia 01 de junho de 1871 e o dia do início da impressão, provavelmente já em 1872. Pergunte-se também, qual seria a motivação (o velho "a quem interessaria o crime?") que lhe justificasse tanto trabalho.
O mais provável, que ressalta da presente linha do tempo e da leitura e comparação das edições francesas e traduçoes brasileiras, é que Kardec, após autorizar que Bittard usasse a massa falida da Librairie Internationale para, em fins de 1868, fazer uma quarta edição a toque de caixa e antes mesmo que se esgotassem as demais, reuniu-se com ele e fez as alterações anunciadas diretamente nas matrizes, a fim de imprimir com elas uma quinta edição, definitiva, e já em casa, na Livraria Espírita. A morte, entretanto, interrompeu seus planos, e a natural confusão estabelecida entre esse trágico episódio e a assunção das edições pelo Leymarie, período em que este último segundo Desliens não teve acesso às matrizes, foi suficiente para que esquecessem as alterações, até que o Sausse as identificasse muitos anos depois. Isto só será definitivamente esclarecido se aparecer algum exemplar da suposta 5a. e 6a. edições feitas pelo Desliens: se elas forem iguais à 5a. de 1872, fica provado que a revisão foi feita por Kardec; se elas forem iguais às anteriores (1a2a3a4a de 1868), a suspeita volta sobre o Leymarie.

Bem, aí está o resultado de uma pesquisa histórica orientada por princípios científicos. Qualquer pessoa poderá comprovar ou refutar minhas afirmações acessando todo o material correspondente, hoje disponibilizado em bibliotecas e sites, conforme detalhei ao longo do texto.
Evidentemente, tal pesquisa contraria toda a mitologia estabelecida nas redes sociais sobre o assunto. Mas, isto é porque toda essa boataria foi motivada mais por disposições ideológicas do que pela pesquisa e análise racional dos fatos.
A 5a. edição, definitiva, está, em alguns pontos, muito melhor redigida que as anteriores. Algumas revisões foram, sem dúvida, para melhor. Outras, não se mostram à altura de Kardec. Os trechos suprimidos no Capítulo XV não enfraquecem em nada a posição anti-roustainguista deixada clara por Kardec no item anterior. Tanto é que Guillon e a FEB obrigaram-se a notas de pé de página defendendo suas posições. Neste ponto, a revisão de Kardec atende ao princípio de que "não há nada menos convincente do que insistir ou exagerar um bom argumento".

sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS SEITAS

Não é fácil definirmos uma seita.
Respeitáveis religiões constituídas, associadas a governos ou a impérios universitários, foram, em sua origem, seitas.
No final do milênio, quando algumas dessas coisas assustaram o mundo com pactos suicidas e loucuras do gênero, houve uma mobilização da ONU e de governos, preocupados em protegerem a sociedade e o indivíduo. Esbarraram nessas dificuldades.
Afinal, como o constataram os deputados franceses que, em 1995, se debruçaram sobre o assunto, não é fácil distinguir, seja pelos estudiosos ou pelos próprios adeptos:

- a livre associação - do grupo coercitivo;
- a convicção - da certeza essencial;
- o engajamento - do fanatismo;
- o prestígio do líder - do culto ao guru;
- as decisões voluntárias - das escolhas completamente induzidas;
- a integração leal a um grupo - da fidelidade incondicional;
- a hábil persuasão - da manipulação programada;
- o discurso motivador - da lavagem cerebral;
- o espírito de equipe - da fusão do grupo.


Se nos socorrermos na filosofia, vamos encontrar em Lalande uma definição sintética de "secte", semelhante ao conceito hoje generalizado: um grupo de pessoas que aderem estritamente a uma doutrina bem definida, e cuja adesão provoca uma forte união entre elas, ao mesmo tempo que as separa dos outros espíritos.

Os espíritas tendem a definir com inusitado rigor o rol de suas crenças. Fixam-se em posições cientificas, laicas, religiosas, agnósticas, teístas, deístas, cristãs, ecléticas, ortodoxas; e uma série de outras derivadas das inúmeras combinações possíveis entre estas.
Infensos ao diálogo, nas redes sociais temos visto a tendência em se reunirem por tais afinidades, segregando os que apresentam qualquer mínimo desvio da matriz eleita pelo grupo.
Estaremos nos dividindo, nas redes sociais, literalmente falando, em seitas?

Seria bom que verificássemos se não podemos identificar os critérios de Lalande ou as dificuldades dos deputados franceses nos diversos grupos que integramos.

domingo, 15 de abril de 2012

A DECISÃO SOBRE OS ANENCÉFALOS À LUZ DO ESPIRITISMO

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal, permitindo à mulher, se o quiser, interromper a gestação de um feto anencéfalo, não contraria a Doutrina Espírita.
Ao contrário, a Doutrina Espírita a antecipou como um dos momentos na evolução da humanidade a caminho da regeneração.
De tal forma estavam os ministros sintonizados com a Filosofia Espírita que pareciam, em suas justificativas e votos, verdadeiros médiuns da equipe de Espíritos superiores que coordenaram a Codificação Kardequiana.

No Livro dos Espíritos, cuja primeira versão foi publicada por Allan Kardec em 1857, nas abordagens sobre o aborto, a par de considerá-lo uma transgressão das leis de Deus quando praticado voluntaria e desnecessariamente, é dada uma atenção especial aos natimortos, considerando-os "crianças sem espíritos", conforme podemos constatar pelo diálogo na Questão 356:

"- Existem natimortos que não foram destinados à encarnação de um Espírito?
- Sim, há os que jamais tiveram um Espírito designado para os seus corpos: nada deviam realizar por eles. É, então, somente pelos pais que essa criança veio.
- Um ser dessa natureza pode chegar a termo?
- Sim, algumas vezes, mas não vive.
- Toda criança que sobrevive ao nascimento, necessariamente tem um espírito nela encarnado?
- Que seria sem ele? Não seria um ser humano.
"

A expressão "essa criança veio", é um detalhe nos indicando que eles estão se referindo a uma criança, a um corpo de criança, semelhante a todas as crianças e, não, como poderia alguém supor, a uma massa disforme. Então, podemos ver que, mesmo sem um espírito -- e, consequentemente, sem um perispírito --, os mecanismos da codificação genética são suficientes por si mesmos para gerarem um corpo. (Não vem ao caso, neste artigo, discutirmos a integração entre estes dois fatores -- código genético e perispírito -- na formação do corpo).
Na sequência, Kardec pergunta aos Espíritos se "um ser dessa natureza pode chegar a termo", e estes confirmam, indicando claramente que, por natimorto, apesar do termo, não se entende necessariamente uma criança que tenha morrido "antes" de nascer. Conceituação que coincide com o léxico, como podemos constatar servindo-nos do dicionário mais divulgado da Língua Portuguesa, o popular Aurélio:

"Natimorto, s.m. Aquele que nasceu morto ou que, vindo à luz com sinais de vida logo morreu."

Esta sobrevida deve-se, talvez, a uma energia residual decorrente do próprio metabolismo que o entreteve durante a gestação; ou, olhando-se pelo lado espiritual, ao fluido vital da mãe que retorna ao manancial primitivo.

O Ministro Marco Aurélio Mello, relator do processo de legalização da interrupção da gravidez do feto anencéfalo explicou muito bem, amparado nos pareceres dos especialistas, que se trata de um natimorto: não há ninguém ali para nascer; aquele ser não tem condições de estar no mundo; e nasce morto ou sobrevive apenas algumas horas. Segundo ainda o ministro -- neste caso amparado não apenas nos especialistas, mas também no Ministro da Saúde --, qualquer médico, minimamente preparado, munido de uma ecografia, consegue diagnosticar precocemente o anencéfalo.
O relator, ainda, descreveu o feto anencéfalo; disse o quanto do cérebro deve faltar para que realmente "não tenha ninguém ali" (aspas e expressão minhas), e o quanto são diferentes os casos que podem ser encarados como simples deficiências, as quais permitem ao recém-nascido "estar no mundo", ainda que com limitações.
Os casos apresentados com estardalhaço pelos ativistas contrários à liberação não se enquandram, segundos os professores médicos consultados, em anencefalia.

Portanto, baseado nos pareceres dos doutores médicos especialistas no assunto, referendados pelos Ministros do Supremo, podemos ter a certeza de que o anencéfalo se enquadra naqueles casos em que O Livro dos Espíritos nos diz que não havia espírito reencarnante.

Os espíritos dizem que Deus permite uma gestação inútil, com um natimorto, para provação e expiação dos pais.
Kardec define "provas e expiações" como a suportação das vicissitudes da vida. Diz também que nosso planeta é um mundo de provas e expiações. Mas, diz que não ficaremos eternamente nesta condição. Estamos prestes, segundo ele, a galgar um degrau na escala dos mundos e nos tornarmos um mundo de regeneração; onde seguramente as vicissitudes da vida serão mais brandas.
Entre as vicissitudes que nos serviram de expiação nós já tivemos a peste bubônica, a poliomielite, a varíola, e outras doenças; sem falar das inúmeras gestações frustradas por incompatibilidade sanguinea. Com a descoberta das vacinas, e a detecção prévia de muitos desses males, estas coisas foram afastadas como mecanismos de expiação.
Podemos afirmar, no caso em discussão, que o progresso científico que permitiu a detecção do natimorto ainda no ventre materno, só pode ter sido permitido por Deus (caso contrário, não ocorreria).
Logo, temos forte razão para pensar que, pela vontade de Deus, extinguiu-se na humanidade a provação e expiação através da gestação dos natimortos, tal como foram extintas aquelas outras. Isto porque os homens responderam à altura aos desafios impostos por Deus, inventando os diagnósticos e os tratamentos adequados, e, dessa forma, aproximando cada vez mais nosso planeta da condição de um mundo regenerador.