domingo, 9 de junho de 2019

OBRAS PÓSTUMAS


Todos sabemos que a última obra redigida por Kardec foi a Revista Espírita de Abril de 1869.  Porém, não sei se ela já estava impressa no momento em que ele morreu em 31 de março, se foi ele quem a distribuiu e se realmente anexou, ou anexaram, o tal catálogo das obras para formação de uma biblioteca espírita que ele promete no editorial.  Ainda no editorial da Revista de Abril ele anuncia a nova sede do espiritismo -- à rue de Lille, 7 --, onde funcionará a Sociedade e a Livraria Espírita, administrada por um gerente, enquanto a sede da redação continuaria com ele, em sua residência à Avenida e Vila Segur, 39, atrás dos Inválidos.  Como se costuma dizer: o homem põe e Deus dispõe.  Morreu, segundo o editorial da Revista de Maio, no momento mesmo em que fazia essas mudanças de endereços.  A Revista de Maio torna-se, então, o panegírico do mestre estimado e respeitado pelo mundo cultural.  Além disto, este número da Revista nos traz informações importantes sobre o futuro do movimento espírita.  A nova Diretoria da Sociedade de Paris para o biênio 1869/1870 é composta pelos senhores Levent (vice-presidente de Kardec na anterior), Malet (presidente na atual), Canaguier, Ravan, Desliens, Delanne e Tailleur. A Revista Espírita será administrada pelo Sr. Bittard e redigida pelo Sr. Desliens.  A Senhora Allan Kardec  (como todos sabem, Amelie Gabrielle Boudet) única proprietária legal das obras e da Revista, decide doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes dos livros e da Revista, mas pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas e regular todos os gastos.  

Conforme estabelecido,  um mês depois, junho de 1869, a Revista  já está sob a direção do Desliens.  E, ele a inicia, em seu editorial, com o anúncio da publicação em série, nas próximas edições, das obras póstumas de Allan Kardec:
"Para os assinantes da Revista
Até hoje, a Revista Espírita tem sido essencialmente o trabalho, a criação do Sr. Allan Kardec, como de resto,  todas as obras doutrinárias que ele publicou.
No momento em que a morte o surpreendeu, a multiplicidade de suas ocupações e a nova fase em que o Espiritismo entrava, fizeram com que ele desejasse unir-se a alguns colaboradores convictos, para executar, sob sua direção, obras para as quais já não se julgava suficiente.
Faremos o possível para não nos desviarmos do caminho que ele nos traçou. Mas parece-nos nosso dever consagrar aos trabalhos do mestre, sob o título de obras póstumas, algumas páginas que ele teria reservado se permanecesse corporalmente entre nós. A abundância de documentos acumulados em seu gabinete de trabalho, nos permitirá, por vários anos, publicar em cada edição, além das instruções que ele achar por bem nos dar como Espírito, um desses artigos interessantes que ele sabia como tornar tão bem compreensíveis para todos.
Temos a certeza de satisfazer, assim, os desejos de todos os que a filosofia espírita reuniu em nossas fileiras, e sabem estimar no autor do Livro dos Espíritos, o homem de bem, o trabalhador infatigável e dedicado, o espírita convicto, se esforçando em suas vidas privadas para pôr em prática os princípios que ele ensinou em suas obras." 

Ainda nesta edição é anunciado o Museu do Espiritismo, com o qual sonhara Kardec, assim como as decisões sobre a pedra tumular.



A Revista de Agosto de 1869 traz a criação da Sociedade Anônima, preconizada por Allan Kardec em seu artigo na Revista de Dezembro de 1868:

Sobre os objetivos desta Sociedade prefiro servir-me do texto de Berthe Froppo, em seu opusculo "Muita Luz":

"É bom, penso eu, colocar diante dos olhos dos meus irmãos de fé os artigos e os estatutos da Sociedade anônima. (Ver a Revista do mês de agosto de 1869, página 237).

SOCIEDADE ANÔNIMA

A Sociedade anônima fundada pela Sra. Allan Kardec tem por objetivo tornar conhecido o espiritismo por todos os meios autorizados pelas leis.   Ela tem por base a continuação da Revista Espírita fundada por Allan Kardec, a publicação das obras deste, incluindo suas obras póstumas e todas as obras que tratam do espiritismo".



A Revista e a Sociedade manifestavam, portanto, claramente seu desiderato de publicar postumamente os resultados do trabalho de Kardec.  O que era e é perfeitamente legal. Tanto na legislação incipiente da França na época, como internacionalmente hoje em dia, pela Convenção de Berna -- um texto muito citado mas pouco lido -- que, em seu Artigo 6º, alínea 1, preconiza que os direitos do autor à integridade de seu trabalho se estendem após a morte e, neste caso, segundo a alínea 2 do mesmo artigo, tal direito será exercido "pelas pessoas ou instituições às quais a legislação nacional do país onde a proteção é reclamada atribui qualidade para tal".  Portanto, Amelie, a legítima herdeira, era a pessoa legitimamente credenciada para levar à publicação qualquer trabalho póstumo de Kardec.
Não obstante, alguns "graduados" tupiniquins são de "parecer" que tal procedimento só seria válido se o autor deixasse assinado uma autorização para publicação de suas revisões ou textos inéditos!  Isto não "ecziste", como diria aquele padre falecido.  Nem nunca existiu.  O autor trabalha seus textos, faz suas revisões, sem se preocupar com a morte.  Ninguém sabe quando vai morrer;  ninguém quer morrer.  Todos nós, enquanto vivos, não vamos morrer nunca;  pois a morte, do ponto de vista positivo, só é vivenciada pelos outros.  Existem, claro, alguns que se preocupam com testamentos; mas sobre coisas já definidas e escrituradas. Imaginar-se em alguma época, em algum lugar,  um autor trabalhando, em processo criador e, a cada revisão interrompendo para escrever que autoriza este ou aquele a publicar se ele morrer daí a pouco, é não saber nada, não só dos processos criativos como editoriais.  Ou é "chutar" sem ter o trabalho de imaginar a situação concretamente.  Sempre que um autor morre debruçam-se sobre seu baú em busca de textos inéditos; sempre sob a batuta do herdeiro legítimo.  Se não fosse assim não teríamos a obra prima do Pascal, não teríamos muita coisa de Nietzsche, de Leminski e muitos outros.  Não teríamos um texto do Jaci Régis encontrado em seu computador pessoal e divulgado amplamente.  
Mas, vamos lá. Vamos supor que alguém, mais de século depois de  Kardec, resolva questionar na justiça uma determinada obra (afinal, as teorias conspiratórios rastreadoras de holofotes questionam tanto a existência de um Shakespeare há quinhentos anos, quanto uma descida na Lua há cinquenta!) e ocorra a tragédia (e a tragédia moderna é um certo tipo de juiz) de encontrarmos pela frente, juiz da causa, um desses autores de pareceres.  Daí, para contentá-lo poderíamos mostrar alguma preocupação de Kardec (ainda que remota pois não sabia que morreria em poucos meses) sobre isto.  No artigo já citado, dezembro de 1868, justificando a criação de um "comitê central", ele escreve: "Para completar a obra doutrinária, resta-nos publicar várias obras, que não são a parte menos difícil, nem menos penosa".  E, logo adiante, citando as atribuições do comitê: "8º - A publicação das obras fundamentais da Doutrina, nas condições mais adequadas à sua valorização.  A confecção e a publicação das que nós daremos o plano e que não tivermos tempo de fazer em nossa vida".  Servindo-nos dos malabarismos retóricos de algumas seitas do movimento espírita: "obras" de um autor é igual ao "trabalho" do autor;  qualquer trabalho, completado ou não.

Esta é a história do livro "Obras Póstumas", de Allan Kardec que, apesar de editado somente em 1890, teve toda sua parte doutrinária publicada logo em seguida ao desenlace do autor, pela sua esposa e legítima herdeira juntamente com o "comitê", em seguidas edições da Revista, durante os próximos dois anos.
Quanto ao "livro das previsões concernentes ao Espiritismo", inserido no mesmo livro... teríamos que iniciar outra história...

quarta-feira, 29 de maio de 2019

TRADUTTORE TRADITORE?





Segundo alguns a expressão acima irrita os tradutores e, seguramente, posso tê-los perdido como leitores apenas pelo fato de usá-la.  Isto porque ela é injusta quando generalizada.  Aliás, toda generalização é injusta.  Mas, comigo aconteceu.  Precisei preparar uma aulinha no último centro que frequentei sobre o primeiro capítulo do livro "A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo" e, como costumo colecionar traduções, fui logo servir-me da mais pretensiosa, a que faz questão de ostentar na capa o epíteto de "autêntica".  Trata-se da tradução do ilustre professor Carlos de Brito Imbassahy, publicada pela Fundação Espírita André Luiz e, segundo a folha de rosto, feita conforme a "1ª edição francesa".  Qual não foi minha surpresa quando, já no início,  dou de cara com uma traição!
Kardec nomeou o primeiro capítulo de "Caractères de la révélation spirite".  Eu já havia  me entristecido há cerca de uns dez anos quando vi a tradutora Albertina Seco, pela editora CELD, traduzir para "Fundamentos da revelação espírita".  Mas, a tradução da Seco tem o mérito de avisar lealmente sobre suas alterações que, aliás, não são aleatórias mas seguem um critério pré-estabelecido que é o de trazer o texto para uma linguagem mais atual o que, nas suas expectativas,  facilitaria a compreensão da obra.  Já o tradutor Imbassahy traduz para "Natureza da revelação espírita" sem apresentar justificativa.  Será que estão pretendendo corrigir o estilo de Kardec?  Vá lá que ele não é nenhum Racine, como disse um amigo meu.  Mas o estilo é o homem, deve ser respeitado.  E não foi justamente disto que Henri Sausse acusou Pierre-Gaëtan Leymarie no Século XIX?  De tentar "melhorar" os escritos de Kardec?  "Ah, mas isto não tem importância", dirão.  "São sinônimos".  Sim, são sinônimos.  Mas a sinonímia nunca é perfeita, aprendi em minha juventude num curso de linguística.  Se dois vocábulos fossem sinônimos perfeitos a língua eliminaria um deles ou o relegaria a um desuso tão grande que seria encontrado apenas em escavações de eruditos.  Costumávamos ilustrar a relação de sinonímia através de círculos sobrepostos, como na figura 1. 

No espaço em hachuras é onde as três palavras são sinônimas;  nos espaços em branco dos círculos é onde cada uma delas guarda seus próprios significados.  Escrever é justamente escolher palavras.  O autor escolhe a palavra que melhor traduz o seu pensamento dentre os sinônimos disponíveis.  E, essas três palavras têm os mesmos significados no português e no francês. O que não permite alegar-se que numa língua uma fique melhor  que a outra.  Acrescente-se o fato interessante de que, na Introdução da Obra, onde Kardec justifica o título, a tradução mantém o "Caracteres".  O que deixou-a com uma aparência um tanto deformada:  uma explicação sobre um título que surge logo depois alterado.  
Mas não foi o único caso.  Mais adiante, no item 6, quando Kardec fala sobre os gênios, escreve: "Se Deus suscita ("suscite", no original) reveladores para as verdades científicas, pode, com mais razão, suscitá-los para as verdades morais".  Nosso tradutor achou de melhor estilo trocar "suscitar" por "promover".  Neste caso o espaço hachurado da ilustração seria ainda mais diminuto.
"Ora", dirão, "o tradutor tem liberdade de escolha".  Afinal, ele traduz o pensamento do autor.  Só que, às vezes, as escolhas do tradutor Imbassahy (ou de seus revisores) mudam o sentido.  Como no item 5, onde Kardec diz que os homens de gênio "apportent en naissant des facultés transcendants et des connaissances innés" e todo mundo traduziu por "trazem ao nascer", o que está em perfeita sintonia com o pensamento reencarnacionista do autor; no entanto, Imbassahy pretende nos convencer que Kardec teria dito  que o homem de gênio "possui desde o nascimento" tais faculdades.  Ora, há muita diferença entre "trazer ao nascer" e "possuir desde o nascimento".
Tem mais. Folheando aleatoriamente encontrei no Capítulo XIV, "Os fluidos", logo no item 2, onde Kardec diz que os estados de imponderabilidade e de ponderabilidade da matéria elementar primitiva são "consecutivos", Imbassahy corrige colocando que o segundo é "consequência" do primeiro.  Seja sutil ou não, há diferença entre dois estados serem "consecutivos" e "consequência um do outro".
O mais interessante de tudo é que na primeira versão da tradução do Imbassahy, aquela que ele nos disponibilizou gratuitamente na internet há mais de dez anos, não existem essas traições.  Lá ele traduz direitinho e até se orgulha de registrar que "e
m virtude das contradições existentes nas diversas traduções da obra 'A Gênese'  de Allan Kardec, teve o cuidado de traduzir esta obra ao pé da letra, a fim de que fosse o mais fiel possível conforme o original da 3ª edição de 1868" (que, como todos sabem, é idêntica à primeira).  Agora, no texto revisado e colocado no mercado, vemos as discrepâncias.  Terão sido os revisores que adulteraram a tradução ou o tradutor que adulterou o original?
Importante ou não, temos o caso famoso da pergunta 625 de "O Livros dos Espíritos".  Em resposta à pergunta sobre qual o principal modelo para o homem, Kardec coloca como resposta "Voyez Jésus", "Vêde Jesus".  Guillon -- e Noleto o segue, o que faz parecer um vício da editora -- traduz para uma única palavra: "Jesus".  Laudas e teses foram destinadas a ilações sobre as consequências dessa diferença.  No orkut um jovem doutor e profundo conhecedor do francês disse,  certamente por ser filiado à entidade que editou Guillon,  que não há diferença alguma entre as escolhas.  Tudo bem.  Só que não interessa:  se Kardec optou por escrever "Voyez Jésus" ao invés de simplesmente "Jésus", sua escolha tem que ser respeitada.  O mesmo deve o bom senso exigir aqui.  Principalmente porque aqui se pretende a "restauração" do texto original.
Pensando em continuar a leitura da tradução a fim de ver se haviam outros erros (pois me é permitido supor que devem existir aos montes) resolvi começar do começo.  Desisti em função das afirmações do apresentador.  Segundo ele esta pretensiosa tradução "autêntica" se deve porque "em 2018 veio à tona relevante debate" (como se já não tivesse vindo em 1884, 1999, 2012, e etc.) sobre uma quinta edição feita "de forma oculta, sem conhecimento até mesmo da esposa e única herdeira de Kardec".  Bem, na postagem anterior deste blog (Restos de uma Réplica) e em muitas outras pelos diversos grupos do facebook já demonstrei à exaustão o absurdo de alguém fazer uma edição "de forma oculta" e ao mesmo tempo escrever na folha de rosto um aviso em destaque que a mesma foi "revisada, corrigida e aumentada".  O saber ou não de algo é uma coisa tão subjetiva que somente a própria pessoa pode dizer.  Três anos antes do ocorrido Madame Kardec anunciou em ata sua intenção de acompanhar de perto as reedições do marido e não existe nenhuma declaração sua em contrário bem como não há nenhuma manifestação sua de ignorância da revisão.  O que indica que ela mesma, a legítima herdeira acompanhou a edição; procedimento legal posteriormente consagrado na Convenção de Berna.  Também mostrei para uma porção de avestruzes (porque preferiram esconder a cabeça na areia) um Catálogo das publicações francesas de 1876 consignando a quinta edição da Gênese em 1873, desmentindo, portanto, "a forma oculta". 

Mas, como eu disse acima, desisti da leitura integral da tradução assim como desisto de alertar sobre a precipitação da conclusão tão apaixonadamente defendida
Nada disto adianta para quem não tem, perdeu, ou nunca teve senso crítico.  Como diz um  texto atribuído a Vargas Llosa (sendo ou não dele, a verdade do texto é clara): "cuando una de esas ficciones malignas (ahora diríamos posverdades) se encarna en la historia sustituyendo a la verdad, alcanza una solidez y realidad que resiste a todas las críticas y desmentidos y prevalece siempre sobre ellos".  
Além do quê, não pretendo ser o algoz das crenças alheias.  Cada um crê no que lhe apetece e, como diz o Marcelo Gleiser,  "o descontente, mais do que qualquer outro, precisa acreditar".

P.S. Eu deixei passar a frase: "Estes, ao falar em nome dele, têm podido ocasionalmente influenciado pelo próprio Deus", no item 9 do primeiro Capítulo.  Desafio qualquer um a entendê-la.  Ah, "erro de imprensa"? Mas, com tantos revisores?!...  O mais provável é que, no afã de corrigir Kardec e menosprezando a inteligência do leitor --  que poderia entender que Kardec está justificando o fato de serem certos mensageiros tomados pelo próprio Deus --   temeram repetir a solução encetada pelo Imbassahy na tradução original na internet:  "Estes, falando em nome de Deus, têm podido perfeitamente ser tomados pelo próprio Deus".

terça-feira, 28 de maio de 2019

RESTOS DE UMA RÉPLICA.

RESTOS DE UMA RÉPLICA.  VALE PELOS DADOS QUE CONTÉM.

Caríssimo e operoso articulista espírita, antes de mais nada quero agradecer sua atenção respondendo ao meu texto.
A resposta não foi bem a que eu esperava, pois essa questão de que se foi ou não Kardec quem fez a revisão me parece esgotada no âmbito das pesquisas e discussões isentas.  Hoje, uma vez solta, tal questão tomou seu rumo próprio, como  a tragédia desvendada pelo Marco Antonio do Shakespeare na peça Julio Cesar. Tornou-se uma guerra entre  os "adeptos da Gênese Reformada" e os "adeptos da Gênese Restaurada" e, como em todas as guerras,  a primeira baixa é a verdade.
Meu texto não entrou neste mérito.  Mas sua resposta foi neste sentido.
Meu texto reflete minha opinião de que o fato de apenas uma Genese ser original ou não se torna um fato pequeno ante a pretensão de transformar o espiritismo numa ciência, refutando constantemente através de experimentações suas teorias a fim de apresentá-las ao restante da Ciência (uma vez que seria ele uma delas) em acordo com os conhecimentos acumulados no século e meio decorrido sobre sua publicação;  e refutar pela experimentação o seria sobre qualquer texto de qualquer versão.  Ou seja, sobrepor a realidade ao texto (se não "sagrado", ao menos "sacralizado"), de Kardec ou qualquer outro autor.
Por isso eu não pretendia mais entrar nesta querela, o que me levaria a não replicar sua resposta.  Mas, como você foi gentil respondendo-me, retribuirei da mesma forma respondendo-lhe.

As falácias, caríssimo e dedicado escritor espírita, e a inversão do ônus da prova, militam a seu favor e dos seus companheiros nessa luta, válida pela recuperação de uma versão do livro em questão, porém, inglória pela pretensão de realizar um auto-de-fé com a outra.

A revisão da Gênese feita pelo Kardec (todos nós sabemos que ele iniciava a revisão de  suas obras  logo que publicadas o que nos tornaria ingênuos em acreditar que justamente  a última, aquela que mais pretendia dialogar com a ciência, dormitaria mais de ano sem uma revisão) foi entregue à publicação por quem de direito, no caso, sua esposa e colaboradora Amelie Boudet.  Direito consagrado posteriormente na Convenção de Berna pois, se você buscar o texto desta convenção na web, verá que, no artigo em que consagra a sobrevivência ao autor do direito à integridade de seu pensamento, estabelece que tal direito deverá ser exercido (uma vez que, evidentemente, ele não poderá mais fazê-lo) pelo seu testamenteiro ou, não havendo este, pelos herdeiros de fato e direito de acordo com a legislação de cada país.  Ora, a herdeira de Kardec era a Madame Kardec.  E ela deixou claramente consignada em uma ata sua intenção de zelar pelas edições das obras do seu esposo.  Portanto, ela era a única pessoa credenciada (mesmo pela legislação incipiente da época, porém, como já disse, consagrada em convenção posterior) a apresentar à publicação o fruto do árduo trabalho do seu esposo.  E, aqui, encontramos a primeira falácia dos adeptos da Gênese Restaurada:  apresentam, para tentar difamar Madame Kardec, colocando-a como verdadeira pascóvia nas mãos ardilosas de terríveis conspiradores, fatos e estados de alma muito posteriores ao momento em que foi publicada a Gênese Revisada.  Aliás, esta mesma falácia estendem ao excomungado conspirador, que foi seduzido pela teosofia e tornou-se displicente em relação ao roustainguismo também em data posterior.  Colocam a relação de causalidade na máquina de Wells: um fato e uma situação posterior, deram causa a um fato anterior.  Entre  maio de 1869, quando ela declarou que se responsabilizaria pelas edições das obras, e dezembro de 1872, quando foi solicitada a publicação da quinta edição, conhece-se alguma manifestação clara de Madame Kardec renunciando a  tal responsabilidade, mudando tal disposição?  E posteriormente, conhece-se alguma declaração dela própria dizendo que não sabia da quinta edição?  Afinal, saber ou não de um fato é algo puramente subjetivo que só pode ser afirmado ou atestado pela própria pessoa.
A Gênese Revisada foi, assim, publicada em dezembro de 1872, sem nenhum escamoteamento, às claras, com um aviso que só não chegou a ser luminoso mas gritava ao leitor que era uma edição "revisada, corrigida e aumentada".  Publicada por quem detinha o direito e o dever de garantir a integridade e permanência dos frutos do trabalho de Kardec.  Foi um ato público e notório, tanto é que um pesquisador independente colocou em seu catálogo: o "Catalogue général de la librairie française depuis 1840"; de Otto Lorenz; Tome Cinquième, 1866-1875, publicado em 1876 (portanto, como continuar afirmando que "ninguém sabia).  E, ninguém contestou.  A esposa contestaria, se não fosse ela própria a apresentar o texto.  Denis e, alguns anos depois, Delanne, a contestaria se julgasse necessário.  O próprio Henri Sausse a contestaria em tempo mais hábil.  Berthe Froppo escreveu um dramático libelo contra o "excomungado conspirador" e não se refere à Gênese.  Ou seja, quem contesta é quem deve provar que a Amelie agiu de má fé ou teria renunciado à sua responsabilidade; que Leymarie ou outro qualquer agiram de má fé.  O fato consumado é que eles, legitimamente credenciados para tal, apresentaram à cultura francesa a Gênese Revisada de Kardec.  Repito, quem contesta, tem o ônus de apresentar  as provas suficientes.  E, quem contestou?  Henri Sausse, doze anos depois, quando a principal testemunha havia falecido, quando já se tornaria improvável que tivessem guardado por tanto tempo as provas da impressão.  E, não logrou provar nada!  Tanto é que, apesar de lhe franquear as páginas do seu jornal, Delanne não encetou nenhuma luta pela "Restauração".  Nem Dennis.  E, o próprio acusador, Sausse, abandonou a luta, retomando o bom relacionamento com Leymarie, o que pode ser verificado  pela troca de publicidades e elogios nas respectivas divulgações de ambos e pelo acesso ao baú de Kardec que este último deu ao primeiro por ocasião da redação de sua biografia do autor.

Outra falácia é a constante evocação de Herculano Pires, dando ao leitor menos avisado a impressão de que o filósofo brasileiro do espiritismo integra as fileiras dos batalhadores pela "restauração".  Muito ao contrário!  Herculano Pires referendou a Gênese Revisada, dirigindo e apresentando uma de suas traduções, além de utilizá-la em todas suas comentações da obra de Kardec.  Defendeu também, enfaticamente, a autenticidade de Obras Póstumas, onde consta textos de Kardec confirmando seu trabalho de revisão da Gênese.  E não adianta sacar de outra falácia desmerecendo o Herculano ao dizerem que ele, um pesquisador experiente,  desconheceria  a denúncia do Sausse ou a pesquisa do Wantuil.

Outra falácia é a insistência de que uma edição contradita a outra.  Essa questão eu deixaria a cada um que se dispusesse a ler e comparar item a item ambas as edições, como eu fiz.  Mas, como eu sei que grande parte dos espíritas não irão ler nenhuma das versões (pois que, em décadas de adesão ao espiritismo, muitos não leram  a quinta edição, o que é atestado pela baixíssima vendagem desta obra, uma das menos lidas da kardequiana), preferindo  ouvir ou ler o que dizem a respeito, eu peço apenas que leiam com atenção os comentários  feitos com retóricas que tanto se aplicariam a uma versão como a outra (como,aliás, a inúmeros outros textos), mas que têm sido apresentados como se fossem conjecturas permitidas exclusivamente pelo texto que têm em mãos.

E, a principal das falácias, a de que essa jihad se baseia em "descobertas e documentos recentes".  Nada de novo foi encontrado.  Todos os dados, todas as datas apresentadas, eram de conhecimento do Henri  Sausse tanto quando dos pesquisadores "modernos".  E, tais datas nada dizem senão que se faziam reedições da primeira versão enquanto se fazia a revisão da outra, tal como Kardec colocou em seus apontamentos durante o ano de 1868, publicados (novamente sem contestação; e com o referendo de pessoas como o Herculano) em 1890.  Nada de novo há, a não ser uma espúria relação de causalidade entre uma coisa e outra:  um pedido de publicação é prova de que o autor contrariou seus hábitos não revisando uma de suas obras!

Não descarto a hipótese de mais alguém, além de Kardec, ter posto as mãos nas matrizes, rascunhos, minutas ou o que quer que constituísse a Gênese aguardando publicação.  Há também a possibilidade de acidentes que teriam provocado principalmente a confusão na ordem dos itens em alguns capítulos.  Afinal, o baú de Kardec sofreu os mesmos percalços que toda a França naqueles tempos.  Mas, aqui, ninguém está isento de suspeição, muito menos o Desliens que teve poder sobre os documentos de Kardec durante o dobro do tempo que teve o Leymarie.  O que me causa estranheza são as paixões com que certas pessoas defendem suas posições, de forma até mesmo irracional, apelando para difamações, rotulações, argumentos ad hominen, ao invés de pesquisarem de maneira serena e correta.

Quanto ao restante da argumentação, merece mais lamentação do que refutação.  É lamentável como apelam para um exercício de adivinhação das intenções do interlocutor. Não só aqui, mas alhures.  Quem pede pesquisa e experimentação visando o necessário teste e refutação das teorias  para que o espiritismo adquira elementos de status científico está querendo desacreditar as "recentes pesquisas" (que não trouxeram nada de novo sobre as supostas adulterações).  Quem ousa parar à frente da cruzada em prol da restauração, está com o orgulho ferido porque teria "apressadamente"  concluído por esta ou aquela.  Não deve ser a mim esta última referência.  Porque sempre propugnei pela dúvida.  Se me insurjo contra esta campanha midiática encetada sofrega e decididamente por adeptos aguerridos e sustentada por poderosas instituições da unificação espírita, é porque não concordo que os fatos até então conhecidos tenham realmente, numa análise isenta, comprovado que houve adulteração.  Por outro lado, não tenho nenhum orgulho para ser ferido:  não tenho livros no mercado, não viajo fazendo palestras, não participo de congressos, não tenho cargos nem  vaidades a sustentar.  Apenas faço meus estudos, frequento meu centrinho;  mas, não sonego minhas opiniões.  Agradeço quem as lê, mais ainda quem as responde, mas absolvo completamente quem as ignora. 

Por último, a insistência em aliar à FEB todo e qualquer que ouse contestar a cruzada em prol da "restauração".  Também não deve ser pra mim, pois abandonei o movimento federativo em 1979 e, desde então, como disse acima, tenho sido um palpiteiro independente de qualquer instituição.  Não sei nem mesmo o nome do presidente da federação do meu Estado, menos ainda  do País todo.
Porém, com minhas sinceras desculpas, mas essa referência -- obsessiva por parte de alguns --  do nobre respondedor à referida instituição me autoriza a imitá-lo em seu raciocínio de adivinhar as intenções do interlocutor e me permite supor que não é bem uma "restauração da verdadeira palavra do profeta" o que se busca, mas, um cavalo de batalha na guerra contra a instituição citada ou pela recuperação de postos nela perdidos.

Grato pela atenção à minha prolixa e senil réplica, finalizo lembrando que a maior defesa de uma verdade é o seu constante questionamento e confrontação.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

ESTUDOS SOBRE "A GÊNESE" DE KARDEC



"Em filosofia, em psicologia, em moral e em religião, só é verdadeiro o que não se afaste, nem um iota, das qualidades essenciais da Divindade". Kardec, G,II,19.

"Todas essas maneiras de encarar o instinto são necessariamente hipotéticas e nenhuma tem uma característica suficiente de autenticidade para ser tida como a solução definitiva. A questão, por certo, será resolvida, um dia, quando estiverem reunidos os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, é preciso nos limitarmos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da verdade será, com certeza, a que melhor corresponda aos atributos de Deus, isto é, à soberana bondade e à soberana justiça". Kardec, G,III,17.

Será que podemos tomar este método como científico?
Sem dúvida nenhuma, é um bom critério aceitarmos como verdadeiro apenas aquilo que não se afaste das "qualidades essenciais da Divindade". Mas, na Religião! É perfeitamente factível que um crente, ao decidir se suas conjecturas sobre o sexo dos anjos (ou sobre o dragão na garagem do Sagan) são verdadeiras consulte seu guru, seu livro sagrado ou, mesmo, sua imaginação (já que os fenômenos religiosos habitam esta esfera do pensamento). Afinal, religião, assim como seus elementos, no caso "as qualidades da Divindade", é uma questão de foro íntimo. Religião, cada um tem a sua.
Na filosofia também, afinal, uma terra de ninguém que levou certo pensador a notar que não há absurdo sobre a face da terra que já não tenha sido defendido por algum filósofo.
Agora, quando a coisa começa a se aproximar de instâncias práticas, como a moral e a psicologia, penso que devemos buscar critérios mais objetivos. Principalmente nesta última, onde seria ridículo exigirmos do pesquisador de um fenômeno qualquer na psicologia que consultasse as determinações do Aiatolá Kamenei, do Pastor Malafaia ou do nobre Papa antes de concluir pela sua hipótese (não digo por "uma verdade", porque não acredito que a ciência busque "a verdade"; acredito mais que ela busque o "conhecimento").
Poderíamos tentar uma defesa de Kardec (já que somos movidos pelo desejo religioso de que ele, como porta-voz dos espíritos superiores, como encarregado da terceira revelação de Deus aos homens, esteja sempre certo) dizendo que tal critério de verdade deve ser estudado à luz de sua concepção das "qualidades da Divindade", colocadas no início do LE e, à altura de qualquer Spinoza. Mas, sabemos que tais concepções, por mais nobres que o sejam, estão longe de serem universais. O que nos levaria à necessidade de, primeiro, convencer os cientistas de que existe um Deus e suas qualidades são aquelas relacionadas no LE, para que, só então, pudéssemos considerar válido o resultado de suas pesquisas na área da psicologia. Ora, não é bem mais fácil deixarmos tal critério para os assuntos religiosos -- ou, quando muito, para os filosóficos --, e voltarmos aos protocolos de pesquisa, teste, elaboração de hipóteses, verificação, refutação, etc., ainda não abandonados pela ciência?
Vale lembrar aqui de uma anedota histórica. Dizem que quando Laplace demonstrou ao Napoleão sua teoria sobre a formação da Terra e do Sistema Solar, o Imperador, impressionado, perguntou: "E Deus, onde entra aí nessa história?" Ao que Laplace respondeu: "Majestade, não precisei dessa hipótese". Portanto, Deus, suas qualidades, sua infinita bondade, seus atributos, etc., é uma hipótese desnecessária à ciência. Só é necessária aos pobres cientistas que vivem em Estados teocráticos. Foi necessária na Idade Média da Europa; é necessária no Oriente Médio; está sendo cada vez mais necessária no Brasil Evangélico; e, se tornará necessária quando o espiritismo kardecista tornar-se hegemônico, pois, ao menos na moral e na psicologia, "só será verdadeiro o que não se afaste, nem um iota, das qualidades essenciais da Divindade".

(A propósito, tais critérios de verdade cogitados por Kardec constam das duas versões da sua Gênese: a "Gênese Restaurada" e a "Gênese Reformada")

segunda-feira, 2 de julho de 2018

O BAÚ DO AUTOR

(Publicado em 07.03.2018, no Facebook)

"Lutar com as palavras é a luta mais vã
Entanto lutamos mal rompe a manhã"

Bon jour.
Após a prece inicial do Drummond, permitam-me tricotar um pouco com as palavras...
Quando morre um intelectual famoso, seja um poeta, um cientista, um político, um jurista, um barrista, um foguista, etc., seus amigos, colaboradores, parentes, fãs, debruçam-se sobre o seu baú. "Vamos abrir o baú do fulano!", ouve-se. É evidente que o baú entra nessas histórias simbolicamente. Até há uns vinte anos abriam gavetas, caixas, hoje, abrem seu computador. E, lá encontram textos acabados e inacabados, muitos terminam publicados, outros são contestados, publicados com explicações, afetivamente sonegados pela esposa, e por aí vai. Uma vez divulgados ou não, os manuscritos tomam destinos diversos: cuidadosamente guardados, roubados, desviados, destruídos ou, simplesmente, desaparecidos, principalmente quando submetidos a contingências históricas mais dramáticas. Quanto mais distante vai ficando o evento, quanto mais os acontecimentos vão sendo moídos nas impiedosas "calhas de roda" do tempo, mais os textos publicados se tornam prisioneiros da história, custodiados em sua integridade. Alguns casos são emblemáticos. Hoje se discute se, e até que ponto, os textos do Shakespeare são dele mesmo ou de um certo Conde. Nesta toada, quando a revisão de uma obra é retirada do "baú" do autor e publicada e, principalmente, não contestada (ou contestada doze anos depois porque um "amigo disse que disse", mas cuja contestação não prospera), ela se torna um produto da história. A versão anterior pode e deve ser resgatada para que os fatos históricos vivam da luz; mas, a versão revisada adquire foros de cidadania, permanece e resiste a qualquer tentativa de destruição, por mais se revolvam as paixões. Os fatos têm demonstrado que quando o ocorrido se dá nas áreas da literatura, das artes, da ciência ou da filosofia, dificilmente afloram as paixões. Mas, quando se dá no campo religioso, onde as crenças costumam ser mais viscerais, a versão escolhida é sacralizada como verdade inconcussa e, a "apócrifa" deve ser imolada nas fogueiras dos autos de fé; pois a fé o exige. Quando o fundamentalismo turva a razão, o simples resgate de uma edição anterior se transforma numa guerra santa pela restauração da verdadeira palavra do profeta.
Por isso vejo como manifestações perfeitamente válidas, pois que de acordo com a natureza humana, os esforços maciços em prol de uma restauração e de uma destruição. Mas, tendo em vista o estágio da nossa civilização, são esforços vãos. Certos juristas concebem o inconcebível, que seria a contestação da autoria de uma obra cento e cinquenta anos depois de ter ela sido publicada sem contestação. Malabarismo mentais que podem gerar ótimos "power-points"; mas, nada passará disto...
(João Donha)

A HISTÓRIA NOS BRINDOU COM DUAS VERSÕES DA "GÊNESE" DE KARDEC

(Publicado em 10.03.2018, no grupo "Espiritismo - Estudos Avançados", do Facebook)

Estabeleceu-se um falso paradigma: "já está comprovado que houve adulteração ilegítima na Gênese!"
E julgando-se de posse da verdade definitiva pretendem escrever a história futura sobre este suposto paradigma.
No entanto, se há uma verdade, é que não há qualquer comprovação de que a Gênese tenha sido alterada por Leymarie ou alguém da comissão central. E, ausência de provas não prova nada!
O que há de fato é que (e isto se levanta até com a ajuda da última pesquisa): assim que os dramáticos acontecimentos políticos, sociais e financeiros na França do início dos anos 1870 o permitiram, os continuadores de Kardec (isoladamente ou em conjunto - esposa, gerentes, etc. - isto não há como saber; não haviam câmaras nas ruas nem nas casas) pegaram o calhamaço da Genese "revisada, corrigida e aumentada", que eles criam ou supunham deixado pelo autor, fizeram o depósito legal no Ministério do Interior, sem contestação, fizeram o depósito legal na BNF, sem contestação, imprimiram, venderam e divulgaram, sem contestação, um pesquisador colocou em seu catálogo das edições francesas, sem contestação e, doze anos depois da publicação, após a morte da principal testemunha e colaboradora do autor, após o envelhecimento de outras testemunhas, quando evidentemente não se esperava ainda existir qualquer rascunho ou manuscrito, Henri Sausse, no calor de uma intensa peleja contra o Pierre-Gaëtan Leymarie, contesta! Porém, sua contestação foi contestada. Se a contestação da contestação foi canhestra, torta, risível, etc., foi, ao menos, eficaz: todos os espíritas e toda a cultura da época se acomodaram com a quinta edição como definitiva. O único fato posterior a este, antes da mudança de Século, foi a publicação de "Obras Póstumas", em 1890, com duas anotações de Kardec feitas durante o ano de 1868, dizendo que estava fazendo "acréscimos e supressões" em sua Gênese. Isto também ninguém contestou na época, quando seria (ou foi) possível a apresentação de documentos comprobatórios, como manuscritos ou assemelhados. A história se consumou, todo o mundo passou a editar e traduzir a versão "revisada, corrigida e aumentada", a outra versão foi esquecida e adormeceu, enquanto o mundo deslizava para o Século mais violento, veloz e estonteante de toda a saga humana. Até que, ao fecharem-se as cortinas do Século XX, Carlos Brito Imbassahy, por razões equivocadas mas num ato isolado de determinação e coragem, resgatou a primeira versão da Gênese, numa tradução disponibilizada gratuitamente na internet.
As circunstâncias históricas irreversíveis do final do Século XIX enriqueceram a cultura humana com uma segunda versão da Gênese de Kardec. Ficamos com duas ótimas versões, cada uma com suas qualidades e defeitos, porém, equivalentes em importância e direito de cidadania. Intensos debates surgiram após o resgate da versão esquecida, seguidos de pesquisas serenas e imparciais, que não lograram estabelecer um conhecimento preciso dos fatos ocorridos há século e meio.
Não houve nenhum fato novo, não se descobriu nenhuma novidade que fizesse pender a balança em favor de qualquer das duas partes em conflito no século XIX, quando o Sausse afirmava que houve uma infamante adulteração da obra, e o Leymarie dizia que a infâmia recaía sobre quem acusava sem provas.
Agora, surge uma campanha massiva e maciça, apoiada por tradicionais instituições espíritas, com adesões entusiasmadas de espíritas que, muitos deles, isto não se pode negar, não mergulharam na história e nunca chegaram a comparar as duas versões (oxalá tenham lido inteiramente uma delas que seja) e, baseados numa pesquisa que, se bem tenha sido árdua, sacrificiosa, desinteressada e heróica, foi, ao mesmo tempo, equivocada, ingenuamente falaciosa e precipitada em afirmar uma certeza sem nenhum fato novo que a justifique e, pretende (a campanha, não a pesquisa), anatematizar, destruir, rejeitar e lançar no esquecimento uma das versões. Como se houvesse senso em uma vingança: resgatar a edição esquecida por um século e aplicar o mesmo castigo do esquecimento à outra.
Ora, a história nos brindou com duas versões; como tributo, dissolveu em suas brumas do tempo todo e qualquer fato, documental ou não, que nos permitisse negar com certeza que o autor empenhou horas de trabalho revisando sua obra.
Não. Não haverá um retardatário e nostálgico auto de fé para a imolação de nenhuma das duas versões.
Não se muda a história ao prazer de grupos ou ao sabor de embates políticos intra-institucionais. A história, forjada por todos os homens é maior e mais forte do que cada um deles ou de qualquer grupo em separado. E, a história gerou duas versões de uma mesma obra. Ninguém vai mudar isto. Não haverá um "Fahrenheit 451" para nenhuma obra em especial. Biblioclastas "no pasarán"!
(João Donha)

CURSOS DE ESPIRITISMO EM "BANNER"

(Publicado em 01.05.2018, no grupo "Espiritismo - Estudos Avançados" do Facebook.


Refiro-me a essas frases pinçadas da kardequiana e colocadas - totalmente fora do contexto, claro - em bandeirolas coloridas nos diversos grupos desta rede.
Houve uma época em que proliferaram os "cursos de espiritismo em apostilas".
Se há mercado, por que não a mercadoria?
A maioria das pessoas não gosta de ler livros. Acham-nos extensos demais. E, quando lêem o fazem muito mal. Ou seja, até conseguem unir as letrinhas e reconstruir as palavrinhas; mas, não sabem interpretar. Não digo que o seja por ignorância; talvez pela pressa.
Daí, o sucesso das apostilas e, agora em rede, dos "banners".
Que não seja o próximo passo o simples grito, como alertou Saramago. É preciso observar ainda que o tom dogmático dos "banners" toca o cantinho medieval mal adormecido da alma. O problema é que facilita aos autores (dos "banners" e das "apostilas") as falácias fúteis, fluidas e fáceis, para ficarmos na "efelogia" do saudoso MalbaTahan.
Recentemente vi um caso emblemático dessa tragédia.
Todos sabemos da discussão bizantina que sempre houve no movimento espírita quanto ao caráter da doutrina: "é religião", "é apenas religiosa", "tem religiosidade", "é religião em sentido filosófico", "não é religião", "não tem nada de religião", e por aí afora vão desenrolando as mais variadas opiniões.
Nada contra nenhuma opinião. Confesso minha indecisão (ou ignorância) quanto ao assunto.
Mas vai daí, um operoso militante da opinião de que não deve ter nada de religião, lança um "banner" com uma frase bombástica, letras negras em fundo claro: "O ESPIRITISMO É UMA CIÊNCIA PURAMENTE FILOSÓFICA; NÃO SÓ NÃO É UMA RELIGIÃO, COMO NÃO DEVE TER NENHUM CARÁTER RELIGIOSO. Allan Kardec. RE 1866". Estas aspas são minhas, para delimitar o que estava no "banner".
Em face desta frase e, sem o cuidado de ler (com atenção) o texto completo, o que se entende? Que Kardec expressou, em algum momento, a opinião de que o "espiritismo é uma ciência puramente filosófica" e que "não deve ter nenhum caráter religioso" (atentem para o "puramente" e o "nenhum", palavras que conferem o tom radical e dogmático à frase). E, pois, foi justamente assim que a frase foi entendida, o que se nota pelos comentários subsequentes.
Afinal, tal frase existe? Sim, existe. Está na RE 1866? A resposta também é sim. Foi escrita por Kardec? Mais uma vez, sim. Então, onde está a falácia? A falácia está em que a frase, fora do contexto, foi apresentada e recebida como uma opinião de Kardec. E, Kardec nunca expressou tal opinião!
No texto em questão Kardec está defendendo a utilidade da prece, inclusive nas reuniões espíritas. Procurando discutir a opinião dos que acham inútil a prece no espiritismo, ele resume os três principais argumentos dos que assim pensam. Essa frase, colocada por ele entre aspas em sua publicação original, resume, portanto, um dos argumentos dos que combatem o uso da prece. Assim, esta frase representa, na verdade, uma opinião contrária à de Kardec. Opinião que ele contesta na sequencia do seu artigo, dizendo que o espiritismo faz "filosofia experimental e não especulativa" - o que se contrapõe a "ciência puramente filosófica" - além de, aqui como alhures, conferir "algum" caráter religioso, por menor que seja, à sua doutrina: "religião em sentido filosófico", "assembleias feitas religiosamente sem que isto a torne religião", e outras colocações semelhantes.
Nossa intenção não é criticar ou afrontar este ou aquele, mas, simplesmente, chamar a atenção para a necessidade da leitura das obras de um autor para conhecer realmente seu pensamento. Ao mesmo tempo, alertar para o fato de que, se é temerário aprender espiritismo por apostila, por "banner" é pior ainda.
(João Donha)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

FLAMMARION E O ESPIRITISMO - PRIMEIRO CONTATO (I)


Foto de Camille Flammarion quando conheceu Allan Kardec


No livro "Mémoires biographiques et philosophiques d'un astronome", de Camille Flammarion (1842-1925), lançado em 1911, o autor relata, de forma muitas vezes descontraída, fatos de sua vida, do nascimento até a Guerra Franco-Prussiana, ocorrida em 1870, da qual ele participou como capitão, com a idade de 28 anos. Sua participação na guerra, juntamente com outros astrônomos transformados em tenentes, era calcular a posição dos canhões alemães que bombardeavam Paris, fornecendo as coordenadas para a artilharia francesa. Em postagens anteriores disponibilizamos vários trechos do livro. Em suas exéquias, a 6 de junho de 1925, três dias após sua morte, discursaram diversas celebridades intelectuais, científicas, políticas e sociais de diversas partes do mundo, entre elas o Jean Meyer (1855-1931), então presidente da União Espírita Francesa e do Instituto Internacional de Metapsíquica. O Bulletin da Societé Astronomique de France de julho de 1925 traz o relato dessas exéquias, juntamente com um relato de sua vida e obras cujo autor, Emile Touchet, informa sobre vários textos e livros quase prontos, alguns em fase de provas, entre eles o Tomo II das Memórias e um livro com o título "Les fantômes e les ciences d'observacion", que seriam publicados pela sua viúva, Gabrielle Renaudot Flammarion (1877-1962), com quem se casara em 1919 após a morte da primeira esposa, e que prometera dar continuidade à sua obra. No que se refere à astronomia, à administração do Observatório de Juvisy, da Societé, dos Cursos, ela foi fiel à sua promessa. Porém, certamente desejando preservar apenas seu testamento de homem de ciência e de astronomia ela não se interessou pelas publicações citadas. Em 2005 o "Les fantômes..." foi publicado pela primeira vez em Paris pelo editor Jmg, na coleção "Temoin D'au-Dela". Mas não temos notícia do Tomo II das Memórias.

Adiante, publicamos mais um trecho do "Memoires", precisamente o Capítulo XIII, onde Flammarion fala de Allan Kardec, Victor Hugo, Madame Girardin, Auguste Vacquerie, Eugene Nus, Victorien Sardou...



CAPÍTULO XIII

Este livro agita mais de uma ideia.
Veremos a seguir, dentre os capítulos, a conclusão da que se refere a Allan Kardec.
Naquela época, 1862, o estudo do espiritismo tomava um grande número de minhas horas de laser. Relatei, mais acima, minhas inquietações, minhas angústias, sobre nossos destinos depois da morte. Tendo ouvido falar de experiências que pareciam trazer um elemento novo a esta grave busca, precipitei-me nesta investigação. Em novembro de 1861 encontrei sob as galerias do Odeon uma obra intitulada "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, na qual a vida futura e os outros mundos são supostamente descritos pelos espíritos que os conhecem. Após folheá-la admirado, comprei-a, li avidamente e, desejando inteirar-me dos fatos expostos entrei logo em contato com o autor, passando a assistir inúmeras sessões da Sociedade Espírita que ele presidia. Ao mesmo tempo, conheci um médium de efeitos físicos, Senhorita Huet, cuja casa era frequentada por homens de alta distinção, como os Senhores de Courtépée, Émile de Bonnechose, Théophile Gautier, Arsene Houssaye, Louis de Noiron, Henry Delaage, d'Escodeca de Boise, diretor da imprensa imperial, Oscar Commettant (incrédulo convicto), Victorien Sardou, convencido há bastante tempo, P.F.Mathieu, escritor e poeta, o editor Didier, etc. Havia também lá um jornalista bastante espiritual, Jules Lecomte, porém muito indiscreto, pois todo mundo sabia que ele havia sucedido momentaneamente a Neipperg nas boas graças da volúvel Marie Louise.
Nessas sessões se podia ver uma mesa de sala de jantar elevar-se inteiramente ou receber pancadas, sem causa aparente, choques sonoros e rítmicos seguindo diferentes árias; pelo mesmo procedimento de pancadas recebia-se ditados sobre diferentes assuntos, que não se podiam explicar pelos atos voluntários das pessoas presentes. Esse novo mundo me intrigava; e eu mesmo redigia os processos verbais das sessões em duas pequenas brochuras. Durante vários anos segui com grande interesse tais experiências.
Tais pesquisas, como o sabem meus leitores, não resolveram até o presente o grande problema; mas elas nos conduzem a admitir a existência de forças desconhecidas e de faculdades da alma ainda inexplicadas.
Sem voltar aos fatos e às teorias publicadas em várias de minhas obras, pode ser aqui o lugar de me referir a algumas experiências da mesma ordem feitas por Victor Hugo em Jersey, sobre as quais jamais pude me estender. Elas completarão o que já escrevi sobre o assunto, interessarão especialmente uma classe particular de leitores e mostrarão que há verdadeiramente um estudo digno de atenção, tanto do ponto de vista psicológico, como do ponto de vista físico.
Eis o resumo, segundo Auguste Vacquerie ("Les Miettes de l'Histoire", Paris, 1863):

"No outono de 1853,Madame de Girardin veio passar dez dias na casa de Victor Hugo, em Jersey.
Seria sua morte próxima que fazia reviver seu interesse na vida extra-terrestre? Ela estava bastante preocupada com as mesas falantes. Acreditava firmemente e passava suas tardes evocando os mortos. Sua preocupação foi refletida, com sua vinda, no seu trabalho. O assunto de "La joie fait peur" ("A alegria assustadora") não é um morto que retorna?
Ela insistia em que se cresse nela. No dia mesmo de sua chegada, foi difícil fazê-la esperar o fim do jantar. Logo após a sobremesa ela se levanta e provoca um dos convidados no salão; juntos atormentam uma mesa que, não obstante, continua muda. A culpa é da mesa cuja forma quadrada contraria o fluido (???).
No outro dia ela mesma compra, numa loja de jogos infantis, uma pequena mesa redonda, com um só pé que termina em três garras, e a mete sobre a mesa grande. Elaboraram questões e a mesa respondeu. A resposta era breve: uma ou duas palavras, no máximo, hesitantes, indecisas, às vezes ininteligíveis. Seríamos nós que não a compreendíamos? O modo de tradução das respostas se prestava ao erro. Eis como se procedia: se nomeava uma letra do alfabeto - A, B, C, etc. -, a cada golpe do pé da mesa; quando a mesa parava, se marcava a última letra nomeada. Mas, seguidamente a mesa não parava claramente sobre uma letra; confundia-se, anotando a precedente ou a seguinte. A inexperiência se misturando, e Madame de Girardin intervindo o menos possível para que o resultado fosse menos suspeito, tudo se embaralhava.
Eu não passara até então de simples testemunha. Era preciso ser ator a meu turno. Eu estava tão pouco convencido, que tratava o milagre como um burro que "se torna a menina mais comportada da sociedade"; eu disse à mesa: "Adivinha a palavra que penso". Para vigiar a resposta bem de perto, meti-me junto à mesa com Madame de Girardin. A mesa dita uma palavra: é a minha! Minha tenacidade, porém, não fora dobrada. Eu disse a mim mesmo que o acaso poderia soprar a palavra a Madame de Girardin, Madame de Girardin a soprar à mesa. Aconteceu a mim mesmo, num baile da Ópera, de dizer a uma mulher no dominó que a conhecia e, como ela me perguntou seu nome de batismo, de dizer ao acaso um nome qualquer, que acabou sendo o verdadeiro. Sem mesmo invocar o acaso, eu bem podia, na passagem das letras da palavra, ter, sem o querer, pelos olhos ou pelos dedos, por um estremecimento, me denunciado. Recomecei a prova. Mas, para ter certeza de não trair a passagem das letras - seja por uma pressão mecânica, seja por um olhar involuntário -, afastei-me da mesa e perguntei-lhe, não a palavra que eu pensava, mas sua tradução. A mesa dita: "Você quer dizer sofrimento". Eu tinha pensado amor!"

TO BE CONTINUED...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PRIMEIRA (E ÚNICA) TRADUÇÃO PORTUGUESA DO LIVRO DOS ESPÍRITOS



A primeira tradução para a língua portuguesa de um livro de Allan Kardec foi feita em 1862, pelo francês Alexandre Canu, secretário nas sessões da Societé Spirite. Trata-se do “O Espiritismo em sua mais simples expressão”, publicado em Paris pelo editor autorizado pelas duas coroas, brasileira e portuguesa, que bastante influenciou a entrada do espiritismo no Rio de Janeiro, segundo o próprio Kardec.

Depois disso, iniciaram-se as traduções das obras de Kardec para o português feitas por brasileiros e lançadas no Brasil. Posteriormente, edições dessas traduções passaram a ser feitas também em Portugal, com as costumeiras adaptações quanto às peculiaridades regionais do idioma. Adaptações feitas em toda a literatura. Só o Saramago não permitiu; por isso, suas obras são lidas no Brasil tal como escritas em Portugal.

Mas essa lacuna (a falta de uma tradução para o português de Portugal das obras de Kardec) começa agora a ser suprida pelo casal José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, com a publicação de “O Livro dos Espíritos”. Eu disse “começa”, porque o desafio é lançado, a ser cumprido por eles ou por outros, para que a tradução das demais obras de Kardec também se faça ao som da beleza original do nosso idioma, “última flor do Lácio, inculta e bela” como lembra Olavo Bilac em seu imortal soneto.

E, podemos dizê-lo sem medo de exageros, lacuna preenchida de forma brilhante. Costa Brites e Maria da Conceição (ou, simplesmente São, como ela simpaticamente se coloca numa rede social) têm um excelente domínio do francês e perfeita consciência da dinâmica histórica a influenciar constantemente uma língua, de forma que, não fizeram apenas uma tradução para o português: fizeram uma tradução para o Século XXI. O cuidado com a expressão correta, clara e precisa dos conceitos transmitidos nesta obra (que se insere no rol das grandes obras sintetizadoras da cultura ocidental) norteou seu trabalho. Um elucidativo, instigador e inteligente prefácio, somado às oportunas “Notas Finais” (que são referenciadas ao longo do texto em negrito e entre colchetes), tornam a leitura desta tradução perfeitamente digerível pelo iniciante no conhecimento espírita e, imprescindível para o estudioso aplicado da doutrina.

A proposta de Costa Brites se resume num brado: “OLE – obra viva, obra aberta!” Pois, segundo ele me disse num e-mail: “a cultura espírita, os espíritas, sobretudo aqueles que têm o privilégio de falar com os Espíritos, nunca deveriam ter parado de avançar na pesquisa mediúnica, abrindo cada vez mais o património das informações”. E finaliza com um vibrante e oportuno desafio que, aliás, é também a minha opinião: “quem não estiver de acordo com o nosso trabalho, tem uma proposta antecipada que lhe apresentamos: façam uma tradução para proveito próprio, com todo o empenho e interesse cultural" (...) "No dia em que todos os espíritas tiverem feito uma tradução para seu próprio uso, talvez se tenham dados passos em frente, que nos expliquem de forma consistente ‘a natureza, origem e destino dos Espíritos e as suas relações com o mundo material’, com todas as respetivas facetas e horizontes”.

Enfim, eis a obra. “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, tradução de José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, Luz da Razão Editora, www.luzdarazao.pt, geral@luzdarazao.pt, Portugal, 2017.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

MORTE DE ALLAN KARDEC - Por Camille Flammarion



Trecho do livro "Mémoires biographiques et philosophiques d'un astronome", 1911, Capítulo XXVI.


Em 31 de março de 1869 o chefe da escola espírita, Allan Kardec, morreu subitamente, com a idade de 65 anos e, em dois de abril foi sepultado no Cimetière du Nord. Eu contei mais acima como iniciei relações com ele em novembro de 1861 (1). Embora meus trabalhos não me permitissem nenhuma assiduidade às reuniões da Sociedade Espírita da qual ele era o presidente-fundador, o comitê dessa Sociedade convidou-me, em seu nome e no da Senhora Allan Kardec, para presidir as exéquias e proferir um discurso. Eu vinha me mantendo afastado desde algum tempo, sobretudo por não admitir que o espiritismo pudesse tornar-se a base de uma religião antes que os fenômenos fossem cientificamente demonstrados e explicados. Contudo, rendi-me ao honroso convite e pronunciei um discurso do qual é oportuno citar certas passagens. Eis alguns extratos. Pode-se ver quanto fiz questão, diante do caixão do próprio fundador, de estabelecer o valor fundamental do caráter científico a ser dado a esses estudos.

"Ao aceitar, com deferência, o convite simpático dos amigos do pensador laborioso cujo corpo terreno jaz agora aos nossos pés, lembrei-me de um triste dia do mês de dezembro de 1865. Pronunciei, então, as supremas palavras do adeus sobre o túmulo do fundador da Livraria Acadêmica, Didier, que foi, como editor, o colaborador convicto de Allan Kardec durante a publicação das obras fundamentais de uma doutrina que lhe foi cara, e que morreu também subitamente, como se o Céu desejasse evitar a esses dois espíritos íntegros as agonias dolorosas da última hora.
"Hoje, minha tarefa é maior ainda, porque desejaria poder representar ao pensamento daqueles que me ouvem, e dos milhares de homens que na Europa inteira e no Novo Mundo se ocupam do problema ainda misterioso dos fenômenos denominados espíritas; - gostaria, disse, poder lhes representar o interesse científico e o futuro filosófico do estudo desses fenômenos (ao qual se dedicam, ninguém ignora, homens eminentes dentre os nossos contemporâneos). Gostaria de lhes fazer entrever os horizontes desconhecidos que o pensamento humano verá se abrir diante de si à medida que aumentar seu conhecimento positivo das forças naturais em ação em torno de nós.
"Este seria, com efeito, um ato importante de se estabelecer aqui, diante desta tumba eloquente: que o exame metódico dos fenômenos chamados equivocadamente de sobrenaturais, longe de renovarem o espírito supersticioso e de enfraquecer a energia da razão, afastam, ao contrário, os erros e as ilusões da ignorância, e serve melhor ao progresso do que a negação ilegítima dos que acham perda de tempo observá-los.
"Como o próprio organizador desta pesquisa lenta e difícil previu, este complexo estudo deve entrar agora no período científico. Os fenômenos físicos, sobre os quais não se insistiu inicialmente, devem tornar-se objeto da crítica experimental, sem a qual nenhuma constatação válida é possível. O método experimental, ao qual nós devemos a glória do progresso moderno e as maravilhas da eletricidade e do vapor, esse método deve apoderar-se dos fenômenos de ordem ainda misteriosa aos quais nós assistimos, dissecá-los, medi-los e defini-los.
"Porque, Senhores, o espiritismo não é uma religião, mas uma ciência; ciência da qual mal conhecemos o a, b, c. Os tempos dos dogmas acabaram. A Natureza abrange todo o Universo, e o próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, não pode ser considerado pela metafísica moderna senão como um Espírito na Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas por intermédio dos mediuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural, e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma ciência desconhecida. Quem poderá prever a quais consequências conduzirá no mundo do pensamento o estudo positivo dessa nova psicologia."

Prossegui, expondo as grandes descobertas da Astronomia e da Fisica, insistindo sobre as diferentes espécies de raios do espectro solar, sobre os invisíveis nomeadamente infra-vermelhos e ultra-violetas, sobre a força psíquica e a circulação dos átomos e terminei convidando todos os amigos da verdade a observar os fatos sem nenhuma idéia preconcebida.

Este discurso marcou uma data na história do espiritismo. O Comitê me ofereceu suceder Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Recusei, sabendo que nove entre dez de seus discípulos continuariam a ver lá, durante muito tempo ainda, uma religião mais que uma ciência e, que a identidade dos "espíritos" está longe de ser comprovada.

Isto foi há mais de quarenta anos. Os discipulos de Allan Kardec pouco mudaram sua fé; a maior parte recusa ainda a análise científica, única, entretanto, que pode nos instruir exatamente. Minhas obras sucessivas mostram que segui constantemente o mesmo método, e que para mim, malgrado a ironia de vários dos meus colegas de estudo das ciências positivas, os fenômenos psíquicos devem, daqui em diante, formar um ramo importante da árvore dos conhecimentos humanos.

A propósito dos meus discursos nas exéquias de Allan Kardec e de seu editor, devo declarar que, como já disse em outra circunstância (2), jamais recebi deles qualquer comunicação de além túmulo.

Continuei a me ocupar dessas interessantes questões que tocam de perto o conhecimento do nosso ser; no entanto, eu não poderia negligenciar meus trabalhos essenciais: a astronomia e sua propagação pelos escritos e pela palavra. Minha colaboração no Siècle me forçava, de outra parte, a estudar mais ou menos todos os assuntos da atualidade e a me manter sempre ao corrente dos progressos, cada vez mais rápidos, da ciência.

(1) O blogueiro promete publicar isso mais tarde.
(2) Em trecho anterior o autor conta que Didier prometeu se comunicar, mas nunca o fez.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

OS IMIGRANTES DE CAPELA

Talvez uma das indicações do caráter de religião do Espiritismo seja o grau de passionalidade que atingem as polêmicas entre seus adeptos.
Uma dessas, gira em torno das migrações planetárias, mais especificamente de uma "tese" que ousou localizar com exatidão a origem de uma leva de refugiados que teriam aportado em nosso planeta na infância da humanidade (hoje estaríamos da adolescência? ou na decrepitude?).

Sem dúvida, não é digna de ser levada a sério, como se fosse expressão de uma realidade passada, a historinha do Emmanuel ("A Caminho da Luz") ou as teorizações racistas do Edgard Armond ("Os Exilados de Capela"). Mas, por outro lado, a rápida evolução das pesquisas na questão dos exoplanetas tornam temerária qualquer negação da possibilidade de vida num sistema múltiplo, por mais instável nos pareça.

Há uns três anos, sites espíritas festejavam a opinião de alguns cientistas de que estrelas múltiplas dificilmente gerariam planetas; no entanto, há alguns meses descobriram um planeta no sistema de Alfa Centauri, um sistema triplo de estrelas. E, ainda, há vários sites de divulgação científica que dão conta da possibilidade de existência de uma zona habitável em torno de Capela A e Capela B.

É, realmente, temerária a atitude desses médiuns e espiritos que detalham coisas que o homem ainda não tem condições de verificar. Chega a ser um tiro no escuro. Mas, eles já faziam isto desde os tempos de Kardec, detalhando vida em tudo quanto é pedra do Sistema Solar. Kardec dizia que eram opiniões, teorias sem comprovação, e tal, mas... publicava! Inclusive os desenhos das casas de celebridades! O resultado é que, se ele e seus seguidores mais equilibrados não recebiam como verdade, a maioria dos leitores, esperando apenas um gatilho para suas fantasias, o faziam. Como hoje em dia, no caso dos exilados de Capela. Se alguns acham muito detalhamento sem meios de comprovação para que se acredite, outros já tomam como verdade por ter sido "revelada".

Daí a responsabilidade na análise. Se faço afirmações considerando "dados positivos" o que não o seja, e, dois ou três anos depois, tais "dados positivos" são enfraquecidos por novas descobertas, eu acabo é reforçando as crenças. O crédulo diz: "Viu, você disse que era impossivel, e agora estamos vendo que é possível!" E usa isto para reforçar sua crença.

Voltando ao Sistema Capela, os conhecimentos que hoje vão se acumulando vertiginosamente -- graças aos telescópios em órbita, como Hubble, Chandra, Kepler e outros, associados a outros enormes da superfície -- e disseminados pelos sites de divulgação científica, nos permitem imaginar um modelo aproximado desse sistema. Recentemente vi no site da NASA um professor mineiro perguntando ao diretor que coordena os projetos de exoplanetas, e este informava que não houve, até agora, nenhum programa voltado para Capela. Os projetos de busca são caros, envolvem participação de vários cientistas em vários observatórios, são planejados criteriosamente e, claro, acabam cobrindo uma área muito pequena do céu. O homem não atingiu ainda uma época de fartura que lhe permita encontrar planetas em todo canto ou onde queira.

O modelo aproximado seria este: colocamos duas bolas de basquete, a três metros uma da outra, e temos a imagem das duas gigantes amarelas Capela A e B (ou, também, Aa e Ab). Pegamos duas bolinhas de gude (no interior a gente dizia, "de vidro"), colocamos ambas a trinta quilômetros das duas primeiras e, numa distância de cem metros uma da outra -- teremos as Capela C e D, duas anãs vermelhas. Segundo ainda sites e publicaçoes de divulgação, há possibilidade de uma zona habitável numa órbita em torno das duas gigantes amarelas, uma outra zona habitável em torno de Capela C, e outra em torno de Capela D. Os cientistas envolvidos nas buscas de exoplanetas ainda não se interessaram em localizar planetas nessas zonas; e, talvez eles nem existam. Não temos elementos, no estágio atual dos conhecimentos, nem para afirmar, nem para negar a existência deles. Por enquanto, temos apenas as pretensões de Emmanuel e Armond, e a ficção de Camile Flammarion compartilhada por Kardec na Revista Espírita.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

FILOSOFIA ESPIRITUALISTA

(Publicado em fevereiro 2005 no site http://www.carlosparchen.net)

O termo "espiritualismo" foi colocado no jargão filosófico no século XIX, por Victor Cousin, quando elaborou o programa dessa filosofia no prefácio de sua obra "Du vrai, du beau e du bien". Ele assim se expressou: "A nossa verdadeira doutrina, a nossa verdadeira bandeira é o Espiritualismo, essa filosofia tão sólida como generosa, que começou em Sócrates e Platão, que o Evangelho difundiu no mundo, que Descartes colocou nas formas severas do gênio moderno, ... que no princípio deste século (XIX) Royer Collard veio reabilitar no ensino público ao passo que Chateaubriand e Madame de Staël a transportaram para a literatura e para a arte ... Essa filosofia ensina a espiritualidade da alma, a liberdade e a responsabilidade das ações humanas, as obrigações morais, a virtude desinteressada, a dignidade da justiça, a beleza da caridade; e além dos limites desse mundo, ela mostra um Deus, autor e modelo da humanidade ... Essa filosofia é a aliada natural de todas as causas justas". (1)

Victor Cousin nasceu em Paris em 1792. Foi sucessor de Royer Collard na cátedra de história da filosofia na faculdade de letras de sua cidade e exerceu enorme influência na filosofia francesa da primeira metade do século XIX. Foi considerado durante muito tempo o filósofo ditador do pensamento francês, até que bateu de frente com um ditador de verdade, o Napoleão III, e retirou-se para Cannes, onde morreu em 1867. Em sua juventude foi um entusiasta do idealismo alemão, tornando-se bom divulgador de Kant, Fichte, Schlling e Hegel na França. Mas o cerne de sua filosofia é o ecletismo. Ele acreditava que nenhum dos sistemas filosóficos detém toda a verdade, assim como, nenhum deles pode ser descartado como falso. São verdades incompletas. Trata-se pois, de se buscar uma conciliação, aproveitando-se o que há de certo em cada um deles. (2)

A filosofia espiritualista francesa do século XIX surgiu como reação ao exagerado materialismo pós-revolucionário, que no momento se manifestava no cientificismo positivista. Teve representantes em vários países, começando por Maine de Biran (1766-1824), na própria França, passando pelos italianos Mazzini, Gioberti e outros, pelo alemão Lotze, entrando pelo século XX com Henry Bérgson (1859-1941). Na França vamos encontrar, ainda, em uma vertente tradicionalista católica do espiritualismo, Joseph De Maistre e Felicité De Lamennais.

De Maistre, nascido na Sabóia em 1753 e falecido em Turim em 1821, teve enorme projeção filosófica na França, mas sua vida política foi ligada à Itália. A idéia central de sua filosofia era a existência da providência divina manifestando-se na história e provocando a evolução da humanidade. Tal como Lamennais (1782-1854), De Maistre acredita que a razão individual é incapaz de conhecer a verdade plena, necessitando da fé e da razão universal. Por suas posições religiosas chegou a ser chamado de "profeta do passado". Mas, ao menos em um de seus discursos, em sua obra "Soirées de Saint-Petersbourg", de quando era embaixador do rei Vitor Emanuel I na Rússia, publicada em 1821, faz profecias futuristas. E Kardec as transcreve na Revista Espírita de abril de 1867. Vejamos alguns trechos de De Maistre: "Várias profecias contidas no Apocalipse se referiam a nossos tempos modernos. Um desses escritores, até chegou a dizer que o acontecimento estava começando, e que a mão francesa deveria ser o grande instrumento da maior das revelações... Deus fala uma primeira vez aos homens no Monte Sinai e esta revelação foi concentrada, por motivos que ignoramos, nos estreitos limites de um só povo e de um só país. Após quinze séculos, uma segunda revelação se dirigiu a todos os homens sem distinção, e é a que desfrutamos... juntai a espera dos homens escolhidos e vereis se os iluminados estão errados ao encarar como mais ou menos próxima uma terceira explosão da onipotente bondade em favor do gênero humano..."

Logo após a leitura desse discurso, em sessão da Sociedade de Paris de 22 de março de 1867, Kardec invocou o espírito De Maistre, que confirmou sua previsão sobre a terceira revelação e disse participar ativamente dela, ainda que anônimo, do plano espiritual.

O outro expoente do espiritualismo já citado, Lammenais, é o campeão de comunicações mediúnicas em toda a história kardequiana da Revista Espírita, quase sempre pela mediunidade do Sr. Didier. Enquanto que Madame de Staël é, também, uma das entidades que mais se comunicam, e Chateaubriand faz ali sua aparição em 1860.

Quanto a Cousin, não o encontramos citado na Revista Espírita, mas não podemos negar que Kardec professe um ecletismo semelhante ao dele pois adota na ciência, encarada como vestíbulo da filosofia, um rigoroso positivismo, e na própria filosofia, um espiritualismo aliado a todas as justas causas da humanidade.

Em outro discurso, inserido na mesma edição da Revista em que aborda DeMaistre, Kardec diz: "Moisés e o Cristo tiveram sua função moralizadora. A gênios de uma outra ordem são deferidas as missões científicas. Ora, como as leis morais e as leis da ciência são leis divinas, a religião e a filosofia não podem ser verdadeiras senão pela aliança destas leis". E, a seguir, faz um brilhante resumo do espiritualismo espírita: "O Espiritismo é baseado na existência do princípio espiritual, como elemento constitutivo do universo; repousa sobre a universalidade e a perpetuidade dos seres inteligentes, sobre seu progresso indefinido, através dos mundos e das gerações; sobre a pluralidade das existências corporais, necessárias ao seu progresso individual; sobre sua cooperação relativa, como incarnados e desincarnados, na obra geral, na medida do progresso realizado; na solidariedade que une todos os seres de um mesmo mundo e dos mundos entre si".

Uma manifestação mais explícita do ecletismo de Cousin está na Revista Espírita de março de 1862, onde o pintor seiscentista Nicolas Poussin, através da psicografia do mesmo Sr. Didier, propõe uma aliança entre o realismo e o idealismo para salvar a pintura do século XIX.

Talvez por todas estas conexões Kardec tenha colocado no frontispício das edições atualizadas do Livro dos Espíritos a expressão "Filosofia Espiritualista".



(1)Nicola Abbagnano; Dicionário de Filosofia; verbete "espiritualismo"; Editora Mestre Jou.
(2)Luís Castagnola; História da Filosofia; 5a. parte, Cap. III; Edições Melhoramentos.

(JAVD)


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

CURIOSIDADE HISTÓRICA - Os atentados aos documentos de Kardec.



“Nossa expectativa não foi em vão, e a circulação foi precariamente restabelecida; os Correios ainda estão desorganizados, mas as cartas chegam de todas as partes ao nosso escritório na Rue de Lille, salvo das chamas pela vigilância inquieta de um espírita, o Senhor X., tenente de embarcação. Diga-se de passagem que o Senhor X., ocupando a área com os seus marinheiros, frustrou, por meio de um monitoramento constante, duas tentativas de incêndio contra o que ainda restava da Rue de Lille, o que teria por resultado condenar à aniquilação o que foi possível salvar desse maravilhoso ‘quartier’. Estamos felizes em fazer, nesta circunstância, junto ao Senhor X., eco aos agradecimentos do mundo espírita europeu pelo papel que ele desempenhou no salvamento dos nossos documentos.”

Quem já leu os percalços pelos quais passaram os documentos de Kardec no texto “Em busca do Santo Graal”, pode acrescentar mais este aí, relatado pelo Desliens na Revista Espírita de Julho de 1871.

Em 19 de julho de 1870, cerca de quinze meses após o decesso de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia. A batalha decisiva ocorreu em 2 de setembro, quando os franceses foram derrotados e o Imperador aprisionado pelos prussianos. Mas Bismarck estendeu a guerra até o final de janeiro do ano próximo com o fim de enfraquecer bastante a França e ficar em definitivo com a Alsácia-Lorena. Os alemães só deixarão a França em 1873, cobrando pesadas compensações de guerra ("Levando nossas riquezas, a Prússia leva uma parte dos nossos vícios; pois ao ficarmos menos ricos, por certo ficaremos mais virtuosos", diz uma das cartas recebidas pela Revue, em junho de 1871). Em 8 de fevereiro de 1871, a recém-instalada III República realiza eleições para a Assembléia Nacional. O interior vota nos conservadores e enrustidos monarquistas; Paris, vota nos socialistas, anarquistas, liberais e republicanos autênticos. O líder da assembléia, Thiers, instala o governo em Bordéus, depois em Versalhes. A cidade luz se revolta: é instalada a Comuna de Paris. Thiers tenta, em 18 de março, tomar os canhões da Guarda Nacional; o povo reage e fuzila os generais. Então, Bismarck liberta e arma os cem mil prisioneiros de guerra para que se unam ao pequeno exército de Thiers e reprimam a Comuna. O cerco se inicia em 21 de maio. Dada a superioridade dos conservadores, a população provoca incêndios na tentativa de conter os soldados. Paris em chamas! É a “semana sangrenta”, que dura até 28 de maio, quando a Comuna se extingue em meio a vinte mil mortos e dez mil prisioneiros ou exilados. O último reduto caiu em Menilmontant, próximo à porta por onde eu e minha esposa entramos no Père Lachaise quando lá estivemos.

É interessante como os preciosos arquivos, com os quais "a posteridade poderia julgar os homens", correm o risco de extinção desde o começo de sua existência.
Terá valido a pena, o arriscado esforço do valoroso marinheiro espírita e seus comandados, dando uma sobrevida a este "quadro único da história do espiritismo moderno"?
Dizem que alguns anos depois, Leymarie, então todo-poderoso gerente do espólio kardeciano, enviou vários desses documentos aos seus amigos do Brasil. O restante do acervo foi novamente ameaçado quando seu filho, assustado com uma "reentrée" dos canhões germânicos e franceses ameaçou abandoná-los à própria sorte. Foram salvos, desta vez, pelo Jean Meyer, que os recolheu na Maison des Spirites, onde distribuíram suas luzes por um quarto de século, até a Maison virar quartel de tropas, novamente germânicas, e serem pilhados e sepultados impunemente nos porões dos descendentes de quem os retirou de seu devido lugar.
Seria a força do destino tentando se contrapor à força das coisas?

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"NOUS DIRONS QUE..."




É o estilo de Kardec para definir o Espiritismo: "Diremos que..."
A primeira vez foi em 1857, em O Livro dos Espíritos:

"Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o espiritismo consiste na crença nas relações do mundo material com os espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do espiritismo serão os espíritas, ou se o quiserem, os espiritanos".

A palavra "crença" não fica bem num texto com pretensões científicas, assim como o qualificativo escolhido não foi muito feliz, então, em 1860, na segunda edição de O Livro dos Espíritos, ele mudou para:

"Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o espiritismo tem por principio as relações do mundo material com os espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do espiritismo serão os espíritas ou, se o quiserem, os espiritistas".

Mas, antes disso, em 1859, na primeira edição de O que é o Espiritismo, ele escreve:

"Para responder desde agora à questão formulada em nosso título, diremos que: o Espiritismo é a doutrina fundada sobre a existência dos Espíritos, ou seres incorpóreos do mundo invisível, e suas relações com o mundo corporal. Podemos ainda dizer que: o Espiritismo é a ciência de tudo o que se refere ao conhecimento dos Espíritos ou do mundo invisível".

Três anos depois -- portanto, em 1862 --, na terceira edição do seu O que é o Espiritismo, encontramos:

"Para responder desde agora à questão formulada em nosso título, diremos que: O Espiritismo é a ciência de tudo o que se refere ao conhecimento das almas ou Espíritos e do mundo invisível, e às suas manifestações".

Mesma coisa ele repete em 1863, por ocasião da quarta edição.

Já em 1865, na sexta edição de O que é o Espiritismo, encontramos a versão definitiva da definição:

"Para responder desde agora e sumariamente à questão formulada no título deste opúsculo, diremos que:
O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se pode estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações
.

"Pode-se defini-lo assim:
"O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal".

Além disso, talvez em virtude do lançamento um ano antes de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ele passa a colocar na capa e na folha de rosto de O que é o Espiritismo a frase: Fora da caridade não há salvação.

Apenas curiosidades... Existem várias outras diferenças interessantes entre as primeiras edições do livro O que é o Espiritismo, que talvez abordemos em outra oportunidade.

(Com exceção da primeira edição do LE -- que tenho em fac-símile publicado em 1957 pelo Canuto Abreu -- os demais livros foram consultados, também em fac-símile -- ou em imagem, ou, ainda, em fotografia, se o preferirem -- disponibilizados no site do IPEAK).



segunda-feira, 27 de maio de 2013

PASSEIOS BIBLIOGRÁFICOS: LALANDE, CASTELLAN, HERCULANO...


Quando "O Livro dos Espíritos" completou o centenário do lançamento, Herculano Pires publicou sua tradução com uma digestiva "Introdução", onde aborda, de forma rápida porém abrangente, os variados aspectos da doutrina que nos auxiliam na compreensão de sua identidade.

Em defesa da existência de uma filosofia espírita ele cita Yvone Castellan, no livro "O Espiritismo", editado pela Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1961, como parte da coleção "Saber Atual". Na França o livro foi publicado em 1955, como parte da coleção "Que sais-je?", contendo, da mesma autora, "A Metapsíquica" e "A Parapsicologia". É um livro interessante para o estudioso do Espiritismo e, hoje em dia, pode ser encontrado em sebos, bastando uma busca pelo Google.

Outro livro de que se serve Herculano para justificar uma filosofia espírita -- conforme ele o faz em sua "Introdução à Filosofia Espírita", Paideia, São Paulo, 1983 -- é o "Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia", de André Lalande (o meu exemplar, e provavelmente o de Herculano é da Librairie Felix Alcan, Paris, 1932, de onde retiro as citações. Parece-me, porém, que desde os anos 90 existe em português, onde, portanto, minhas "criminosas" traduções poderão ser conferidas). Herculano diz que Lalande "consigna a filosofia espírita". Será que também o kardecismo?

O livro de Yvone Castellan tem pouco mais de cem páginas onde se discorre de forma recorrente sobre a história do espiritismo, os médiuns, a filosofia com Kardec, os movimentos concorrentes, e o espiritismo ante a ciência, a Igreja, o ocultismo e a medicina. O que Herculano destaca é o fato dela, ao contrário da literatura oficial de filosofia, concordar com a existência de uma filosofia espirita: "O sistema é completo e compreende uma metafísica inteiramente repleta de considerações físicas ou genéticas, e uma moral".

Sobre Lalande, o Vocabulário possui mais de mil páginas e é uma obra bastante conceituada entre os estudantes de filosofia. Vejamos o que ali se diz sobre o assunto:


"ESPIRITISMO - Alemão Spiritismus; Inglês Spiritism, Spiritualism; Italiano Spiritismo. E, claro, Francês Spiritisme.

Doutrina segundo a qual os espíritos dos mortos sobrevivem conservando um corpo material, extremamente tênue (perispírito) e, se bem que ordinariamente invisíveis, podem entrar em comunicação com os vivos graças a certas circunstâncias, notadamente graças à ação dos médiuns.
A esta tese fundamental se agrega todo um conjunto de crenças, que passam por serem reveladas pelos próprios espíritos, e que são expostas dogmaticamente em diversas obras, das quais a mais célebre é: Allan Kardec, (H.Rivail), O Livro dos Espíritos, 1853 (sic).

Radical internacional: Spiritism."



Na palavra "espíritos" há um asterisco remetendo ao verbete correspondente onde, na acepção B, diz: "Princípio da vida e, consequentemente, alma individual... -- Deus, os anjos, os demônios, as almas dos homens desencarnados depois da morte são os espíritos".

No verbete ESPIRITUALISMO o dicionarista volta a falar em Espiritismo quando, na acepção D, faz a distinção entre as duas palavras (o que também é referido por Herculano em uma das vezes que citou Lalande). Vamos ao texto do Vocabulaire:


"D. Impropriamente, por espiritismo. Diz-se, algumas vezes, neste caso, 'novo espiritualismo', 'espiritualismo experimental'. Esta acepção é mais frequente em inglês, onde ela pertence, segundo Jastrow, à linguagem popular. (Baldwin's Dictionary, vº Spiritism, 585 B). No entanto, o artigo da Enciclopédia Britânica consagrado ao espiritismo, e devido a Henry Sidgwick, é intitulado 'Espiritualismo'. -- Immanuel Hermann Fichte escreveu uma obra sobre o espiritismo tendo por título: 'Der neuere Spiritualismus'."


Abrindo um parênteses. No sentido A o dicionarista dá a acepção de espiritualismo como a doutrina que sustenta, do ponto de vista psicológico, que as representações, as operações intelectuais e os atos da vontade não são inteiramente explicáveis pelos fenômenos fisiológicos; e, do ponto de vista ético e sociológico, que há no homem e na sociedade dois sistemas de fins diferentes -- ou, mesmo, em conflito -- sendo que um representa os interesses da natureza animal e outro os interesses da vida propriamente humana. A acepção B é colocada do ponto de vista filosófico, como sendo a doutrina segundo a qual existem duas substâncias distintas por seus atributos: o espírito, tendo por caracteres essenciais o pensamento e a liberdade; e a matéria, cujos caracteres são a extensão e o movimento. No C, ele registra a doutrina de que tudo é espírito, de uma forma mais ou menos platônica. E aqui fecho este parênteses.

Mas a discussão filosófica envolvendo o espiritismo ocorre mesmo nas observações sobre espiritualismo colocadas no rodapé das páginas. O Vocabulaire do Lalande foi construído ao longo de vários anos através de fascículos nas publicações da Société Française de Philosophie, e cada verbete ensejava um debate entre os membros e correspondentes dessa Sociedade. Quando foi editado em livro (a primeira edição foi em 1926), o Vocabulaire incorporou todas essas revisões, correções e observações.

Assim, no rodapé, L. Brunschvicg observa que, primeiro, a questão se a vida depende da matéria ou somente da alma, importante para o desenvolvimento e aplicação do espiritualismo, não é decisiva para o princípio mesmo da doutrina; e, segundo, a conexão de espiritualismo e sociologismo deriva, lhe parece, do novo-espiritualismo que ocupa cada vez mais lugar no pensamento de Comte. Mais diretamente sobre o espiritismo é a sua terceira observação, que coloco na íntegra: "3º Não vejo a menor razão para eliminar o espiritismo como uma das significações próprias do espiritualismo. Você desconsidera, assim, a influência profunda e persistente das crenças e das práticas espiritas nas crenças e nas práticas religiosas, desde as mais distantes ou rudimentares, até as mais recentes. Se os comentadores de W. James não tivessem velado a franca confissão que termina a "Experiência Religiosa", teriam visto que a evolução do novo-espiritualismo de Comte para o neo-fetichismo é semelhante à evolução do neo-espiritualismo de W. James para aquilo que ele chama, creio, supernaturalismo grosseiro". Depois, ele tece várias considerações conciliando as acepções A e B, terminando por dizer: "A verdade é que elas recobrem uma imaginação tão realista, tão material como a noção dos espíritos animais. Com isto se vê aparecer à luz do dia o que a literatura clássica da filosofia tem tanto trabalho em esconder: o parentesco secular do espiritualismo no sentido A e do espiritismo".

Lalande finaliza as notas sobre o termo espiritualismo dizendo que não há como fugir do que foi consagrado pelo uso ou, "se a acharmos imprópria ou equívoca, renunciar a dela nos servirmos", e cita uma decisão determinada neste sentido por Maurice Blondel, em sua "Lettre sur l'Apologétique": "Apenas no Século XVII se encontra este termo (espiritualismo) na linguagem dos teólogos, em um sentido pejorativo, para designar um abuso da espiritualidade e uma falsa mística. Colocado em voga pelo Ecletismo para designar seu dualismo superficial, ele evoca, por uma natural associação de idéias, a lembrança dessa escola, e partilha o descrédito assaz justificado em que ela tombou. É aqui, agora, que, por aventura, esse termo de origem equívoca e de sentido suspeito parece confiscado por alguns dos que comerciam com os "espíritos" e não se contentam mais em serem espíritas, porque talvez o título de espiritualistas seja melhor aceito. Havia se deixado de usar esta palavra até Cousin para designar coisas melhores que aquelas que ele resumia. É tempo de ver que não é senão uma etiqueta de escola".

Bem, fico feliz de constatar que, tal como eu já colocara em um artigo, também os filósofos estabelecem uma relação de descendência entre o espiritualismo de Cousin e o espiritismo.

Podemos, então, concluir com Herculano que, de certa forma, Lalande "consigna" o espiritismo numa discussão filosófica. Porém, o espiritismo kardecista é tratado como um conjunto de crenças expostas dogmaticamente.

Já em nosso país, Jorge Jaime, em sua extensa "História da Filosofia no Brasil", Editora Vozes, em quatro volumes, dedica duas páginas ao Herculano, chamando-o de "o filósofo do espiritismo", o que, indiretamente, confirma o espiritismo como filosofia. Apesar disto, é comum encontrarmos nos diálogos das redes sociais estudantes, bacharéis ou licenciados em filosofia que não engolem o Herculano como filósofo. No entanto, Herculano se enquadra em algumas das acepções de Lalande no verbete "filósofo"; enquanto que o mesmo não se poderia dizer deles:


"FILÓSOFO. ...E - Aquele que se ocupa profissionalmente da filosofia enquanto professor, estudante, etc. Este uso da palavra não é de boa linguagem, a não ser quando implica uma nuance de ironia."