quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PRIMEIRA (E ÚNICA) TRADUÇÃO PORTUGUESA DO LIVRO DOS ESPÍRITOS



A primeira tradução para a língua portuguesa de um livro de Allan Kardec foi feita em 1862, pelo francês Alexandre Canu, secretário nas sessões da Societé Spirite. Trata-se do “O Espiritismo em sua mais simples expressão”, publicado em Paris pelo editor autorizado pelas duas coroas, brasileira e portuguesa, que bastante influenciou a entrada do espiritismo no Rio de Janeiro, segundo o próprio Kardec.

Depois disso, iniciaram-se as traduções das obras de Kardec para o português feitas por brasileiros e lançadas no Brasil. Posteriormente, edições dessas traduções passaram a ser feitas também em Portugal, com as costumeiras adaptações quanto às peculiaridades regionais do idioma. Adaptações feitas em toda a literatura. Só o Saramago não permitiu; por isso, suas obras são lidas no Brasil tal como escritas em Portugal.

Mas essa lacuna (a falta de uma tradução para o português de Portugal das obras de Kardec) começa agora a ser suprida pelo casal José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, com a publicação de “O Livro dos Espíritos”. Eu disse “começa”, porque o desafio é lançado, a ser cumprido por eles ou por outros, para que a tradução das demais obras de Kardec também se faça ao som da beleza original do nosso idioma, “última flor do Lácio, inculta e bela” como lembra Olavo Bilac em seu imortal soneto.

E, podemos dizê-lo sem medo de exageros, lacuna preenchida de forma brilhante. Costa Brites e Maria da Conceição (ou, simplesmente São, como ela simpaticamente se coloca numa rede social) têm um excelente domínio do francês e perfeita consciência da dinâmica histórica a influenciar constantemente uma língua, de forma que, não fizeram apenas uma tradução para o português: fizeram uma tradução para o Século XXI. O cuidado com a expressão correta, clara e precisa dos conceitos transmitidos nesta obra (que se insere no rol das grandes obras sintetizadoras da cultura ocidental) norteou seu trabalho. Um elucidativo, instigador e inteligente prefácio, somado às oportunas “Notas Finais” (que são referenciadas ao longo do texto em negrito e entre colchetes), tornam a leitura desta tradução perfeitamente digerível pelo iniciante no conhecimento espírita e, imprescindível para o estudioso aplicado da doutrina.

A proposta de Costa Brites se resume num brado: “OLE – obra viva, obra aberta!” Pois, segundo ele me disse num e-mail: “a cultura espírita, os espíritas, sobretudo aqueles que têm o privilégio de falar com os Espíritos, nunca deveriam ter parado de avançar na pesquisa mediúnica, abrindo cada vez mais o património das informações”. E finaliza com um vibrante e oportuno desafio que, aliás, é também a minha opinião: “quem não estiver de acordo com o nosso trabalho, tem uma proposta antecipada que lhe apresentamos: façam uma tradução para proveito próprio, com todo o empenho e interesse cultural" (...) "No dia em que todos os espíritas tiverem feito uma tradução para seu próprio uso, talvez se tenham dados passos em frente, que nos expliquem de forma consistente ‘a natureza, origem e destino dos Espíritos e as suas relações com o mundo material’, com todas as respetivas facetas e horizontes”.

Enfim, eis a obra. “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, tradução de José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites, Luz da Razão Editora, www.luzdarazao.pt, geral@luzdarazao.pt, Portugal, 2017.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

MORTE DE ALLAN KARDEC - Por Camille Flammarion



Trecho do livro "Mémoires biographiques et philosophiques d'un astronome", 1911, Capítulo XXVI.


Em 31 de março de 1869 o chefe da escola espírita, Allan Kardec, morreu subitamente, com a idade de 65 anos e, em dois de abril foi sepultado no Cimetière du Nord. Eu contei mais acima como iniciei relações com ele em novembro de 1861 (1). Embora meus trabalhos não me permitissem nenhuma assiduidade às reuniões da Sociedade Espírita da qual ele era o presidente-fundador, o comitê dessa Sociedade convidou-me, em seu nome e no da Senhora Allan Kardec, para presidir as exéquias e proferir um discurso. Eu vinha me mantendo afastado desde algum tempo, sobretudo por não admitir que o espiritismo pudesse tornar-se a base de uma religião antes que os fenômenos fossem cientificamente demonstrados e explicados. Contudo, rendi-me ao honroso convite e pronunciei um discurso do qual é oportuno citar certas passagens. Eis alguns extratos. Pode-se ver quanto fiz questão, diante do caixão do próprio fundador, de estabelecer o valor fundamental do caráter científico a ser dado a esses estudos.

"Ao aceitar, com deferência, o convite simpático dos amigos do pensador laborioso cujo corpo terreno jaz agora aos nossos pés, lembrei-me de um triste dia do mês de dezembro de 1865. Pronunciei, então, as supremas palavras do adeus sobre o túmulo do fundador da Livraria Acadêmica, Didier, que foi, como editor, o colaborador convicto de Allan Kardec durante a publicação das obras fundamentais de uma doutrina que lhe foi cara, e que morreu também subitamente, como se o Céu desejasse evitar a esses dois espíritos íntegros as agonias dolorosas da última hora.
"Hoje, minha tarefa é maior ainda, porque desejaria poder representar ao pensamento daqueles que me ouvem, e dos milhares de homens que na Europa inteira e no Novo Mundo se ocupam do problema ainda misterioso dos fenômenos denominados espíritas; - gostaria, disse, poder lhes representar o interesse científico e o futuro filosófico do estudo desses fenômenos (ao qual se dedicam, ninguém ignora, homens eminentes dentre os nossos contemporâneos). Gostaria de lhes fazer entrever os horizontes desconhecidos que o pensamento humano verá se abrir diante de si à medida que aumentar seu conhecimento positivo das forças naturais em ação em torno de nós.
"Este seria, com efeito, um ato importante de se estabelecer aqui, diante desta tumba eloquente: que o exame metódico dos fenômenos chamados equivocadamente de sobrenaturais, longe de renovarem o espírito supersticioso e de enfraquecer a energia da razão, afastam, ao contrário, os erros e as ilusões da ignorância, e serve melhor ao progresso do que a negação ilegítima dos que acham perda de tempo observá-los.
"Como o próprio organizador desta pesquisa lenta e difícil previu, este complexo estudo deve entrar agora no período científico. Os fenômenos físicos, sobre os quais não se insistiu inicialmente, devem tornar-se objeto da crítica experimental, sem a qual nenhuma constatação válida é possível. O método experimental, ao qual nós devemos a glória do progresso moderno e as maravilhas da eletricidade e do vapor, esse método deve apoderar-se dos fenômenos de ordem ainda misteriosa aos quais nós assistimos, dissecá-los, medi-los e defini-los.
"Porque, Senhores, o espiritismo não é uma religião, mas uma ciência; ciência da qual mal conhecemos o a, b, c. Os tempos dos dogmas acabaram. A Natureza abrange todo o Universo, e o próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, não pode ser considerado pela metafísica moderna senão como um Espírito na Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas por intermédio dos mediuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural, e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma ciência desconhecida. Quem poderá prever a quais consequências conduzirá no mundo do pensamento o estudo positivo dessa nova psicologia."

Prossegui, expondo as grandes descobertas da Astronomia e da Fisica, insistindo sobre as diferentes espécies de raios do espectro solar, sobre os invisíveis nomeadamente infra-vermelhos e ultra-violetas, sobre a força psíquica e a circulação dos átomos e terminei convidando todos os amigos da verdade a observar os fatos sem nenhuma idéia preconcebida.

Este discurso marcou uma data na história do espiritismo. O Comitê me ofereceu suceder Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Recusei, sabendo que nove entre dez de seus discípulos continuariam a ver lá, durante muito tempo ainda, uma religião mais que uma ciência e, que a identidade dos "espíritos" está longe de ser comprovada.

Isto foi há mais de quarenta anos. Os discipulos de Allan Kardec pouco mudaram sua fé; a maior parte recusa ainda a análise científica, única, entretanto, que pode nos instruir exatamente. Minhas obras sucessivas mostram que segui constantemente o mesmo método, e que para mim, malgrado a ironia de vários dos meus colegas de estudo das ciências positivas, os fenômenos psíquicos devem, daqui em diante, formar um ramo importante da árvore dos conhecimentos humanos.

A propósito dos meus discursos nas exéquias de Allan Kardec e de seu editor, devo declarar que, como já disse em outra circunstância (2), jamais recebi deles qualquer comunicação de além túmulo.

Continuei a me ocupar dessas interessantes questões que tocam de perto o conhecimento do nosso ser; no entanto, eu não poderia negligenciar meus trabalhos essenciais: a astronomia e sua propagação pelos escritos e pela palavra. Minha colaboração no Siècle me forçava, de outra parte, a estudar mais ou menos todos os assuntos da atualidade e a me manter sempre ao corrente dos progressos, cada vez mais rápidos, da ciência.

(1) O blogueiro promete publicar isso mais tarde.
(2) Em trecho anterior o autor conta que Didier prometeu se comunicar, mas nunca o fez.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

OS IMIGRANTES DE CAPELA

Talvez uma das indicações do caráter de religião do Espiritismo seja o grau de passionalidade que atingem as polêmicas entre seus adeptos.
Uma dessas, gira em torno das migrações planetárias, mais especificamente de uma "tese" que ousou localizar com exatidão a origem de uma leva de refugiados que teriam aportado em nosso planeta na infância da humanidade (hoje estaríamos da adolescência? ou na decrepitude?).

Sem dúvida, não é digna de ser levada a sério, como se fosse expressão de uma realidade passada, a historinha do Emmanuel ("A Caminho da Luz") ou as teorizações racistas do Edgard Armond ("Os Exilados de Capela"). Mas, por outro lado, a rápida evolução das pesquisas na questão dos exoplanetas tornam temerária qualquer negação da possibilidade de vida num sistema múltiplo, por mais instável nos pareça.

Há uns três anos, sites espíritas festejavam a opinião de alguns cientistas de que estrelas múltiplas dificilmente gerariam planetas; no entanto, há alguns meses descobriram um planeta no sistema de Alfa Centauri, um sistema triplo de estrelas. E, ainda, há vários sites de divulgação científica que dão conta da possibilidade de existência de uma zona habitável em torno de Capela A e Capela B.

É, realmente, temerária a atitude desses médiuns e espiritos que detalham coisas que o homem ainda não tem condições de verificar. Chega a ser um tiro no escuro. Mas, eles já faziam isto desde os tempos de Kardec, detalhando vida em tudo quanto é pedra do Sistema Solar. Kardec dizia que eram opiniões, teorias sem comprovação, e tal, mas... publicava! Inclusive os desenhos das casas de celebridades! O resultado é que, se ele e seus seguidores mais equilibrados não recebiam como verdade, a maioria dos leitores, esperando apenas um gatilho para suas fantasias, o faziam. Como hoje em dia, no caso dos exilados de Capela. Se alguns acham muito detalhamento sem meios de comprovação para que se acredite, outros já tomam como verdade por ter sido "revelada".

Daí a responsabilidade na análise. Se faço afirmações considerando "dados positivos" o que não o seja, e, dois ou três anos depois, tais "dados positivos" são enfraquecidos por novas descobertas, eu acabo é reforçando as crenças. O crédulo diz: "Viu, você disse que era impossivel, e agora estamos vendo que é possível!" E usa isto para reforçar sua crença.

Voltando ao Sistema Capela, os conhecimentos que hoje vão se acumulando vertiginosamente -- graças aos telescópios em órbita, como Hubble, Chandra, Kepler e outros, associados a outros enormes da superfície -- e disseminados pelos sites de divulgação científica, nos permitem imaginar um modelo aproximado desse sistema. Recentemente vi no site da NASA um professor mineiro perguntando ao diretor que coordena os projetos de exoplanetas, e este informava que não houve, até agora, nenhum programa voltado para Capela. Os projetos de busca são caros, envolvem participação de vários cientistas em vários observatórios, são planejados criteriosamente e, claro, acabam cobrindo uma área muito pequena do céu. O homem não atingiu ainda uma época de fartura que lhe permita encontrar planetas em todo canto ou onde queira.

O modelo aproximado seria este: colocamos duas bolas de basquete, a três metros uma da outra, e temos a imagem das duas gigantes amarelas Capela A e B (ou, também, Aa e Ab). Pegamos duas bolinhas de gude (no interior a gente dizia, "de vidro"), colocamos ambas a trinta quilômetros das duas primeiras e, numa distância de cem metros uma da outra -- teremos as Capela C e D, duas anãs vermelhas. Segundo ainda sites e publicaçoes de divulgação, há possibilidade de uma zona habitável numa órbita em torno das duas gigantes amarelas, uma outra zona habitável em torno de Capela C, e outra em torno de Capela D. Os cientistas envolvidos nas buscas de exoplanetas ainda não se interessaram em localizar planetas nessas zonas; e, talvez eles nem existam. Não temos elementos, no estágio atual dos conhecimentos, nem para afirmar, nem para negar a existência deles. Por enquanto, temos apenas as pretensões de Emmanuel e Armond, e a ficção de Camile Flammarion compartilhada por Kardec na Revista Espírita.