segunda-feira, 27 de maio de 2013

PASSEIOS BIBLIOGRÁFICOS: LALANDE, CASTELLAN, HERCULANO...


Quando "O Livro dos Espíritos" completou o centenário do lançamento, Herculano Pires publicou sua tradução com uma digestiva "Introdução", onde aborda, de forma rápida porém abrangente, os variados aspectos da doutrina que nos auxiliam na compreensão de sua identidade.

Em defesa da existência de uma filosofia espírita ele cita Yvone Castellan, no livro "O Espiritismo", editado pela Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1961, como parte da coleção "Saber Atual". Na França o livro foi publicado em 1955, como parte da coleção "Que sais-je?", contendo, da mesma autora, "A Metapsíquica" e "A Parapsicologia". É um livro interessante para o estudioso do Espiritismo e, hoje em dia, pode ser encontrado em sebos, bastando uma busca pelo Google.

Outro livro de que se serve Herculano para justificar uma filosofia espírita -- conforme ele o faz em sua "Introdução à Filosofia Espírita", Paideia, São Paulo, 1983 -- é o "Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia", de André Lalande (o meu exemplar, e provavelmente o de Herculano é da Librairie Felix Alcan, Paris, 1932, de onde retiro as citações. Parece-me, porém, que desde os anos 90 existe em português, onde, portanto, minhas "criminosas" traduções poderão ser conferidas). Herculano diz que Lalande "consigna a filosofia espírita". Será que também o kardecismo?

O livro de Yvone Castellan tem pouco mais de cem páginas onde se discorre de forma recorrente sobre a história do espiritismo, os médiuns, a filosofia com Kardec, os movimentos concorrentes, e o espiritismo ante a ciência, a Igreja, o ocultismo e a medicina. O que Herculano destaca é o fato dela, ao contrário da literatura oficial de filosofia, concordar com a existência de uma filosofia espirita: "O sistema é completo e compreende uma metafísica inteiramente repleta de considerações físicas ou genéticas, e uma moral".

Sobre Lalande, o Vocabulário possui mais de mil páginas e é uma obra bastante conceituada entre os estudantes de filosofia. Vejamos o que ali se diz sobre o assunto:


"ESPIRITISMO - Alemão Spiritismus; Inglês Spiritism, Spiritualism; Italiano Spiritismo. E, claro, Francês Spiritisme.

Doutrina segundo a qual os espíritos dos mortos sobrevivem conservando um corpo material, extremamente tênue (perispírito) e, se bem que ordinariamente invisíveis, podem entrar em comunicação com os vivos graças a certas circunstâncias, notadamente graças à ação dos médiuns.
A esta tese fundamental se agrega todo um conjunto de crenças, que passam por serem reveladas pelos próprios espíritos, e que são expostas dogmaticamente em diversas obras, das quais a mais célebre é: Allan Kardec, (H.Rivail), O Livro dos Espíritos, 1853 (sic).

Radical internacional: Spiritism."



Na palavra "espíritos" há um asterisco remetendo ao verbete correspondente onde, na acepção B, diz: "Princípio da vida e, consequentemente, alma individual... -- Deus, os anjos, os demônios, as almas dos homens desencarnados depois da morte são os espíritos".

No verbete ESPIRITUALISMO o dicionarista volta a falar em Espiritismo quando, na acepção D, faz a distinção entre as duas palavras (o que também é referido por Herculano em uma das vezes que citou Lalande). Vamos ao texto do Vocabulaire:


"D. Impropriamente, por espiritismo. Diz-se, algumas vezes, neste caso, 'novo espiritualismo', 'espiritualismo experimental'. Esta acepção é mais frequente em inglês, onde ela pertence, segundo Jastrow, à linguagem popular. (Baldwin's Dictionary, vº Spiritism, 585 B). No entanto, o artigo da Enciclopédia Britânica consagrado ao espiritismo, e devido a Henry Sidgwick, é intitulado 'Espiritualismo'. -- Immanuel Hermann Fichte escreveu uma obra sobre o espiritismo tendo por título: 'Der neuere Spiritualismus'."


Abrindo um parênteses. No sentido A o dicionarista dá a acepção de espiritualismo como a doutrina que sustenta, do ponto de vista psicológico, que as representações, as operações intelectuais e os atos da vontade não são inteiramente explicáveis pelos fenômenos fisiológicos; e, do ponto de vista ético e sociológico, que há no homem e na sociedade dois sistemas de fins diferentes -- ou, mesmo, em conflito -- sendo que um representa os interesses da natureza animal e outro os interesses da vida propriamente humana. A acepção B é colocada do ponto de vista filosófico, como sendo a doutrina segundo a qual existem duas substâncias distintas por seus atributos: o espírito, tendo por caracteres essenciais o pensamento e a liberdade; e a matéria, cujos caracteres são a extensão e o movimento. No C, ele registra a doutrina de que tudo é espírito, de uma forma mais ou menos platônica. E aqui fecho este parênteses.

Mas a discussão filosófica envolvendo o espiritismo ocorre mesmo nas observações sobre espiritualismo colocadas no rodapé das páginas. O Vocabulaire do Lalande foi construído ao longo de vários anos através de fascículos nas publicações da Société Française de Philosophie, e cada verbete ensejava um debate entre os membros e correspondentes dessa Sociedade. Quando foi editado em livro (a primeira edição foi em 1926), o Vocabulaire incorporou todas essas revisões, correções e observações.

Assim, no rodapé, L. Brunschvicg observa que, primeiro, a questão se a vida depende da matéria ou somente da alma, importante para o desenvolvimento e aplicação do espiritualismo, não é decisiva para o princípio mesmo da doutrina; e, segundo, a conexão de espiritualismo e sociologismo deriva, lhe parece, do novo-espiritualismo que ocupa cada vez mais lugar no pensamento de Comte. Mais diretamente sobre o espiritismo é a sua terceira observação, que coloco na íntegra: "3º Não vejo a menor razão para eliminar o espiritismo como uma das significações próprias do espiritualismo. Você desconsidera, assim, a influência profunda e persistente das crenças e das práticas espiritas nas crenças e nas práticas religiosas, desde as mais distantes ou rudimentares, até as mais recentes. Se os comentadores de W. James não tivessem velado a franca confissão que termina a "Experiência Religiosa", teriam visto que a evolução do novo-espiritualismo de Comte para o neo-fetichismo é semelhante à evolução do neo-espiritualismo de W. James para aquilo que ele chama, creio, supernaturalismo grosseiro". Depois, ele tece várias considerações conciliando as acepções A e B, terminando por dizer: "A verdade é que elas recobrem uma imaginação tão realista, tão material como a noção dos espíritos animais. Com isto se vê aparecer à luz do dia o que a literatura clássica da filosofia tem tanto trabalho em esconder: o parentesco secular do espiritualismo no sentido A e do espiritismo".

Lalande finaliza as notas sobre o termo espiritualismo dizendo que não há como fugir do que foi consagrado pelo uso ou, "se a acharmos imprópria ou equívoca, renunciar a dela nos servirmos", e cita uma decisão determinada neste sentido por Maurice Blondel, em sua "Lettre sur l'Apologétique": "Apenas no Século XVII se encontra este termo (espiritualismo) na linguagem dos teólogos, em um sentido pejorativo, para designar um abuso da espiritualidade e uma falsa mística. Colocado em voga pelo Ecletismo para designar seu dualismo superficial, ele evoca, por uma natural associação de idéias, a lembrança dessa escola, e partilha o descrédito assaz justificado em que ela tombou. É aqui, agora, que, por aventura, esse termo de origem equívoca e de sentido suspeito parece confiscado por alguns dos que comerciam com os "espíritos" e não se contentam mais em serem espíritas, porque talvez o título de espiritualistas seja melhor aceito. Havia se deixado de usar esta palavra até Cousin para designar coisas melhores que aquelas que ele resumia. É tempo de ver que não é senão uma etiqueta de escola".

Bem, fico feliz de constatar que, tal como eu já colocara em um artigo, também os filósofos estabelecem uma relação de descendência entre o espiritualismo de Cousin e o espiritismo.

Podemos, então, concluir com Herculano que, de certa forma, Lalande "consigna" o espiritismo numa discussão filosófica. Porém, o espiritismo kardecista é tratado como um conjunto de crenças expostas dogmaticamente.

Já em nosso país, Jorge Jaime, em sua extensa "História da Filosofia no Brasil", Editora Vozes, em quatro volumes, dedica duas páginas ao Herculano, chamando-o de "o filósofo do espiritismo", o que, indiretamente, confirma o espiritismo como filosofia. Apesar disto, é comum encontrarmos nos diálogos das redes sociais estudantes, bacharéis ou licenciados em filosofia que não engolem o Herculano como filósofo. No entanto, Herculano se enquadra em algumas das acepções de Lalande no verbete "filósofo"; enquanto que o mesmo não se poderia dizer deles:


"FILÓSOFO. ...E - Aquele que se ocupa profissionalmente da filosofia enquanto professor, estudante, etc. Este uso da palavra não é de boa linguagem, a não ser quando implica uma nuance de ironia."

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Alguns apontamentos para posterior desenvolvimento.

Qual a relação entre Abrahão/Moisés e o "Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho"?

Do ponto de vista espírita (que, queiramos ou não, é o nosso ponto de vista sectário) o livro citado é uma obra cheia de erros doutrinários, tendente a gerar e alimentar um misticismo condenado na kardequiana, além de enaltecer nosso demonizado Roustaing.
Porém, de um ponto de vista puramente humano (eu diria antropológico, se não fosse este um termo corporativo), é a obra mais importante já aparecida no Brasil; e, em si, um fato inédito em nossa história cultural. Pois representa a primeira (e, talvez, pelas mudanças culturais dos últimos tempos, permaneça a única) tentativa de construção de uma brasilidade mitológica, tal como o foi a construção de todas as civilizações. Assim, ele equivale, numa perspectiva histórica e cultural, à Iliada, à Eneida, aos Lusíadas e ao Velho Testamento em relação ao povo judeu. É o mito de origem do Brasil. E, como todos os mitos de origem, insere nossa civilização nas intenções e planos de Deus. Aliás, isto até sugere que tenhamos uma civilização. Será que temos?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Algumas rápidas e iniciais considerações sobre as “Reflexões sobre a Ciência Espírita” feitas por A.Xavier.

https://docs.google.com/file/d/0BwP5l2F8N4s3RnBKaW9idHl4RVE/edit?pli=1


Logo de início o autor parece abdicar da possibilidade de uma “ciência espírita” ao exigir a aceitação da existência do Espirito como um “princípio”, dada a inexistência de evidências “diretas” desse novo elemento. A seguir afirma que Kardec se antecipa várias décadas às considerações epistêmicas de seus contemporâneos apenas por dizer que “a ciência é incompetente para tratar do espiritismo”; sem dúvida nenhuma, uma afirmação dogmática, fundamentada apenas no fato de que os cientistas da época queriam reduzir todos os fenomenos a interações dos átomos e princípios elementares da matéria. E, não é exclusivamente neste campo que encontramos as consequencias do fenômeno mediúnico, portanto onde apenas poderemos lidar com ele?
É verdade que o Euclides chegou no barzinho do cais em Alexandria com uma série de “princípios” e disse aos amigos que aceitassem aquilo como verdade axiomática e sobre eles poderiam construir uma ciência. Mas, construíram efetivamente uma ciência que resolveu os problemas geométricos que os homens suscitavam. O “método kardecista” não consegue resolver em definitivo uma coisa tão simples como a existência de colônias no plano espiritual.
Veja o caso dos ovnis e das civilizações extra-terrestres. A ciência “propriamente dita” (para me valer de uma expressão kardeciana), considera que é possível existirem civilizações extra-terrestres. E, em cima deste princípio – que é, na verdade, uma possibilidade – saem procurando as tais civilizações. Você pode efetivamente fundar uma ciência sobre isto. Agora, veja uma outra consideração: existem civilizações extra-terrestres. Em cima deste novo princípio você só pode construir uma ciência hipotética, daquelas que costumam chamar arrogantemente de pseudociência. O primeiro princípio ("é possível que existam") gerou a exobiologia e sei lá que outras ciências. O segundo princípio ("claro que existem") gerou a ufologia. Eu penso que seja mais ou menos essa a diferença que se formou, no início do século XX, entre metapsíquica e espiritismo. De qualquer forma, em termos epistêmicos atualmente disseminados no meio acadêmico, estas duas últimas podem ser encaradas como protociências, que poderão quiçá um dia se tornarem ciências.
Enfim, tanto espiritismo como ufologia exigem crenças; partem de uma certeza; não são buscas, são o estudo de coisas já encontradas. Daí, permanecem válidas para aqueles que viram tais coisas; quem ainda não viu, fica de fora. Como não conseguem fazer ver à maioria dos cientistas, permanecem, na maior concessão, como protociências.

Mais adiante vai aparecer a constatação (desde Kardec) que o método (CUEE) só se aplica aos princípios, não a coisas secundárias. Então, torna-se necessária uma relação exata daquilo que seja princípio, na Doutrina Espírita, e daquilo que seja secundário; penso que esta demanda ainda não foi atendida. E isto tem permitido uma saída pelos fundos: quando se demonstra que a aplicação do método falhou em algum ponto, imediatamente os “cientistas/crentes” retrucam que aquilo não era Doutrina Espírita, eram coisas secundárias. O “ensino” dos espíritos de que a sociedade não pode dar à mulher profissões “rudes”, pois que ela tem que cuidar do “interior”, não é Doutrina; o “ensino” de que a espécie humana surgiu em lugares e épocas diferentes, em “fornadas”, também não é Doutrina. E assim vai, lembrando bem o caso do “dragão na garagem” do Sagan. Então, qualquer discussão sobre a validade do método, ou sobre a atualidade dos princípios espíritas, exige, antes, a definição exata desses princípios.

Voltaremos ao assunto.