segunda-feira, 26 de julho de 2010

SOCIALISMO E ESPIRITISMO

Leia abaixo as conclusões do primeiro congresso internacional dos espíritas.
Pesquise sobre Robert Owen; Charles Fourier e seu falanstério; Jean-Baptiste André Godin e seu familistério de Guise. Isto, em enciclopédias e na Revista Espírita.
Leia, na Revista Espírita, as referências aos fourieristas e aos saint-simonistas.
Leia, no livro A mesa, o livro e os espíritos, sobre as relações entre espíritas e socialistas no século XIX.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CONCLUSÕES DO PRIMEIRO CONGRESSO ESPIRITA INTERNACIONAL, EM BARCELONA, 1888

Conforme eu informei na postagem anterior, houve, nesse Congresso, duas redações de "conclusões": uma pelos delegados espanhóis, outra pelos delegados franceses, belgas, cubanos e italianos. Ambas as redações foram aprovadas pelos congressistas e incorporadas ao relatório do Congresso. A seguir, em tradução livre, a redação que finaliza o relatório:

"Por unanimidade, os dirigentes do encontro e todos os delegados, aceitaram o que segue, afirmado e proposto pelos senhores Eulogio Prieto, Juan J. Garay, Tomas de Ona, Ercole Chiaïa, Giovanni Hoffman, Efisio Ungher, José Nicolau Bartomeu, Pierre Gaëtan Leymarie, delegados belgas, cubanos, franceses e italianos:"

"O Congresso Espírita Internacional, reunido em Barcelona, em 8 de setembro de 1888, afirma e proclama a existência real e indiscutível das relações entre as almas encarnadas e desencarnadas.

"Considerando esse fato em suas fases diversas, o Congresso declara o seguinte:

1o. O Espiritismo é uma ciência positiva e experimental sancionada pela investigação constante e pela história;
2o. O Espiritismo é uma ciência filosófica superior que satisfaz mais que qualquer outra a consciência, a razão e a justiça;
3o. O Espiritismo é uma ciência psicológica que nos prova a existência da alma e nos dá a explicação mais lógica das relações mútuas da alma e do corpo;
4o. O Espiritismo é uma ciência divina que leva a uma crença racional em Deus e à certeza de uma vida futura, que estabelece a responsabilidade dos nossos atos segundo a estrita justiça, e prova a necessidade das reencarnações sucessivas como meio de progresso indefinido, seja sobre o nosso planeta, seja pelos mundos siderais;
5o. O Espiritismo deve se tornar uma ciência social, visando resolver os problemas humanitários seguintes: - de educação e de instrução integral para os dois sexos; - de legislação; - de propriedade; - de mutualidade; - de associação; - de fraternidade;
6o. O Espiritismo é a verdadeira escola do respeito devido a todos os pesquisadores de verdades, mesmo que eles não sejam adeptos do fundador de nossa filosofia, de nosso vulgarizador Allan Kardec;

"Em consequencia, o Congresso adere à proposições seguintes, que os delegados se propõem a executar em seus respectivos países, desde que circunstâncias favoráveis o permitam:

A. Tender continuamente a unir, a federar todos os espíritas de um mesmo país, a federar entre si todos os centros espíritas nacionais;
B. Introduzir os elementos da doutrina espírita no ensino popular, e implantar cadeiras de filosofia espírita em nossas escolas superiores;
C. Propagar a doutrina entre as massas, as oficinas, os centros industriais, as mais humildes comunidades, através de brochuras, de conferências gratuitas ou por meio da imprensa;
D. Prevenir os grupos e os centros espíritas, pois que o mestre Allan Kardec nos deixou especialmente prevenidos, quanto à credulidade excessiva nos ensinamentos hauridos com a ajuda das comunicações com o além: é preciso submetê-los a um critério severo, dizia ele; a credulidade sem controle, desacredita o Espiritismo;
E. Convidar a todo amigo sério do progresso para o estudo aplicado e imparcial das obras e fatos espíritas, e da ciência em geral;
F. Estabelecer que, se é logicamente preciso uma federação espírita local, departamental, regional, cada qual deve ter, segundo suas tendências e seu talento, completa liberdade de ação nos domínios do Espiritismo;
G. Ensinar o desdém ao ostracismo, devendo nossas fileiras ficarem sempre largamente abertas;
H. Interessar os espíritas no estudo da cooperação e da associação prática, segundo o modelo instituído em Guise, França, pelo Sr. Godin, fundador do familistério. Para extinguir o ódio de classes, e tornar impossível as revoluções e suas violências, visar a associação do capital e do trabalho, tal como aquele homem de bem;
I. Transformar as prisões penitenciárias em instituições de moralização, para reabilitar o homem caído no mal, exatamente como o faz em Paris a Sociedade dos Libertos de Saint Lazare, sob a direção da honorável e corajosa senhora Isabelle Bogelot;
J. Estabelecer um movimento de idéias para secundar toda ação que tenha por fim modificar os sistemas civis e penais de cada país no sentido da caridade e da justiça segundo o Espiritismo;
K. Unir-se a toda sociedade constituída para impedir os conflitos entre as nações por meio da arbitragem internacional permanente;
L. Tender progressivamente a desarmar as nações, a abolir as fronteiras, com a ajuda da palavra e da imprensa;
M. Propugnar pela supressão da pena de morte em todo lugar onde ela exista;
N. Trabalhar para destruir a escravidão sob todas as suas formas.

15 de setembro de 1888.

Os delegados belgas, cubanos, franceses, italianos e espanhóis."

segunda-feira, 19 de julho de 2010

NOVAMENTE O PRIMEIRO CONGRESSO ESPIRITA INTERNACIONAL

Conforme prometido, de vez em quando "posto" aqui, a título de curiosidade, a tradução de alguns trechos do relatório do Congresso Espírita Internacional de Barcelona, 1888. Agora,vamos colocar as afirmações e conclusões.
Atendendo pedidos, principalmente de correspondentes (ou seja, os que não estando presente, assim se faziam por cartas), os organizadores resolveram elaborar dois textos conclusivos: um pelos espanhóis; outro pelos franco-belga-italianos. Talvez tenha sido uma estratégia para contornar a famosa teimosia espanhola que, por certo, impediria uma redação definitiva. (Brincadeirinha, claro!).
A comissão franco-belga-italiana era constituída por Pierre-Gaëtan Leymarie (França), Efisio Ungher e Ercole Chiaia (Itália), José Nicolau Bartomeu (Cuba!).
A espanhola: Joaquin Huelbes Temprado, Manoel Sanz y Benito, Miguel Vives e Juan Chinchilla (Espanha), Eulogio Prieto (Cuba!), Pedro Fortoult Hurtado (Venezuela).

Por unanimidade, as seguintes conclusões da "escola espanhola" foram adotadas:

"O primeiro Congresso Espírita Internacional afirma e proclama a existência e potencialidade do Espiritismo, integral e progressiva.

"Seus fundamentos são: - A existência de Deus. - A infinidade dos mundos habitados. - A pre-existência e a persistência do Espiritismo. - A demonstração experimental da sobrevivência da alma humana através da comunicação mediúnica com os espíritos. - A infinidade de fases durante a vida infinita de cada ser. - Recompensas e penas como consequencias naturais dos atos. - O progresso infinito. - A comunhão universal dos seres. - A solidariedade.

"O caráter atual do Espiritismo se formula assim:
1o. Ele forma uma ciência positiva e experimental;
2o. Ele é a forma contemporânea da reparação;
3o. Ele consagra uma etapa importante do progresso humano;
4o. Ele dá solução aos problemas mais profundos, morais e sociais;
5o. Ele realça a razão e o sentimento, e satisfaz a consciência;
6o. Ele não impõe crença alguma, apenas convida ao estudo;
7o. Ele realiza uma grande aspiração, que é consequencia de uma necessidade histórica.

"Consequente com os princípios enunciados, o Congresso entende que toda Sociedade e todo adepto, deve, pelos meios legais à sua disposição, prestar apoio e colaboração às individualidades ou coletividades que se ocupam de civilizar os homens; assim, o Congresso aconselha:
A. O estudo completo da doutrina espírita.
B. Sua propagação incessante por todo meio lícito.
C. Sua realização constante pela prática das virtudes públicas e privadas.

"Para obter tal resultado o Congresso entende que cada Sociedade e cada adepto espírita deve encarar todo homem de boa vontade como um irmão durante a luta da vida, o combate contra o vício, o erro e o sofrimento. Para isso, aconselha:
D. O respeito a todos os investigadores, a todos os propagadores de verdades, mesmo se eles não forem espíritas.
E. O esforço constante no sentido de laicizar a sociedade em todas as esferas da vida;
F. Procurar obter a liberdade absoluta de pensamento, de ensinamento integral para os dois sexos, de cosmopolitismo abraçando todas as relações sociais;
G. A federação autônoma de todos os espíritas, todo adepto pertencendo a uma sociedade constituída, cada sociedade devendo manter relações constantes com o centro de sua localidade, todo centro local com o centro nacional, e cada centro nacional com os de outras nacionalidades.

"Enfim, o Congresso nota que não é conveniente aceitar sem exame as doutrinas de uma individualidade ou de uma sociedade que não queira admitir tais conselhos.

"È preciso ainda remarcar que Allan Kardec demonstra em suas obras o perigo da crença excessiva nas comunicações mediúnicas, e que é preciso, diz ele, submeter ao cadinho da razão e da lógica, uma vez que o simples fato da morte não confere progresso.

Barcelona, 15 de setembro de 1888".


Pretendo postar em breve as afirmações e conclusões dos delegados franceses, belgas, italianos, e aquele cubano perdido no meio deles.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A GÊNESE, OS MILAGRES, AS PREDIÇÕES e as espiritices brasilianas...(II)

(Postagem revisada pelo autor em 31.05.2012).

Ante a polêmica a respeito das alterações feitas na Gênese de Kardec (as autorizadas, do autor, e as desautorizadas, dos que querem "atualizá-lo"; vejam a postagem anterior), tentei elaborar uma LINHA DO TEMPO, que aqui disponibilizo para que completem, corrijam, critiquem ou desprezem...


06.01.1868 - Lançamento do livro A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, pela Librairie Internationale - A. Lacroix, Verboeckhoven et Co. Editeurs. Segundo Desliens - secretário de Kardec, médium da Sociedade Espírita de Paris e, posteriormente, membro da Comissão Central que sucedeu o fundador -, o contrato inicial previa uma tiragem com três edições; as fôrmas de impressão seriam de propriedade de Kardec. (Revista Espírita, jan/1868; mar/1885). OBS.: A Rouge Frères, Dunon et Fresné, Rue du Four Saint-Germain, 43, citada por alguns articulista como "editores" é, na verdade, a tipografia onde foram impressas as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, bem como, a quinta edição de 1872, já então da Librairie Spirite.

xx.02.1868 - Kardec determina uma tiragem em brochura à parte do capítulo Caracteres da Revelação Espírita. (Revista Espírita, fev/1868).

xx.02.1868 - Kardec inicia a tiragem da segunda edição. (Revista Espírita, fev/1868). OBS.: Sem qualquer alteração; idêntica à primeira.

22.02.1868 - Os espíritos apoiam Kardec na intenção de promover alterações na Gênese e o alertam para que conte com o esgotamento rápido dos volumes. (Obras Póstumas).

04.07.1868 - Os guias de Kardec o incitam a apressar o trabalho de remodelação da Gênese: "Acréscimos em diversos pontos (...) e condensação aqui e ali para não tornar mais extenso o volume". E, ante a possibilidade do esgotamento das edições no mercado, dizem: "Não perca tempo: é preferível que os volumes esperem pelo público, do que este por eles". (Obras Póstumas)

xx.07.1868 - Artigo na Revue sobre a "Geração Espontânea e a Gênese".

xx.09.1868 - Correspondência na Revue sobre o capítulo "Aumento e diminuição do volume da Terra" e publicaçao do texto "A alma da Terra", que Kardec incluiria na revisão da obra, e sairia apenas na 5a. edição.

xx.10.1868 - Última alusão na Revue à Librairie Internationale, por ocasião do lançamento da brochura contendo a correspondência de Lavater.

xx.xx.1868 - Antes que o ano termine a Librairie Internationale, de A.Lacroix, Verboeckhoven et Co.Editeurs, vai à falência! (Revista Espírita, mar/1885).

xx.xx.1869 - Ano novo, mudança total. Kardec planeja entregar os encargos do movimento espírita a uma Comissão Central e dedicar-se apenas a atividades intelectuais em sua residência na Avenue et Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos. Cria a Librairie Spirite, que passará a publicar e distribuir a Revue e suas demais obras, na rue de Lille, 7. O Sr. Bittard, antigo funcionário da falida Librairie Internationale é indicado para ser o gerente. A Sociedade Espírita de Paris também se transfere provisoriamente para o mesmo endereço. Tudo isso é planejado por Kardec para ter início em 01.04.1869.
Em meio à mudança de coisas para sua casa na Avenue et Villa Ségur e coisas para a rue de Lille, no já quase deserto escritório da Passage Saint'Anne, em 31 de março, Kardec morre! A Sra. Allan Kardec, única proprietária legal de suas obras e da Revue, após uma tentativa frustrada de convencer Camille Flammarion a sucedê-lo, decide:

"Primeiro: Doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes da venda dos livros espíritas e das assinaturas da Revue, isto é, das operações da Livraria Espírita; mas com a condição expressa de que ninguém, a título de membro da Comissão Central ou outro, tenha o direito de imiscuir-se neste negócio industrial, e que os recebimentos, sejam quais forem, sejam recolhidos sem observação, desde que ela pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas, regular a seu critério os emolumentos de seus empregados, o aluguel, as despesas futuras, numa palavra, todos os gastos gerais;
Segundo: A Revue está aberta à publicação dos artigos que a Comissão Central julgar úteis à causa do Espiritismo, mas com a condição expressa de serem previamente sancionados pela proprietária e a Comissão de Redação, o mesmo se dando com todas as publicações, sejam quais forem;
Terceiro: A Caixa Geral do Espiritismo é confiada a um tesoureiro, encarregado da gerência dos fundos, sob a supervisão da Comissão Diretora. Até que seja o caso de usá-los, esses fundos serão empregados na aquisição de propriedades imobiliárias para enfrentar todas as eventualidades. Anualmente o tesoureiro fará uma detalhada prestação de contas da situação da Caixa, que será publicada na Revue."
Por incrível que pareça, ela "foi objeto de felicitações unânimes". (Revista Espírita, 1868/1869; Obras Póstumas).

xx.xx.1870 - Segundo seus biógrafos, Pierre-Gaetan Leymarie assume a direção do movimento espírita (Sociedade, Revista e Livraria). Leymarie conviveu e colaborou com Kardec, como médium e como divulgador do espiritismo, recebendo total confiança de Amelie Boudet. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

01.06.1871 - Segundo informação de Desliens, esta é a data limite em que a Sociedade, a Revista e as impressões das obras de Kardec estiveram diretamente a cargo de Bittard, Tailleur e Desliens. Presume-se que só a partir desta data Leymarie tenha assumido efetivamente tal mister. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1872 - Lançamento da QUINTA EDIÇÃO da Gênese, agora pela Librairie Spirite (conforme se pode verificar por noticie bibliographique da Bibliothèque Nationale de France). A BNF mantém esta edição em seu acervo com a identificação: FRBNF30010935.
A quarta edição foi, ainda, publicada pela Librairie Internationale.
Aliás, hoje em dia, pela internet, pode-se encontrar o original de todas essas edições (1a2a3a4a5a) em várias bibliotecas francesas, assim como disponibilizadas em sites brasileiros.

xx.xx.1883 - Fundição dos clichês da Gênese. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1884 - Henri Sausse, espírita, polemista, biógrafo de Kardec e iniciador da utilização midiática da expressão "espiritismo kardecista", após comparar os textos das edições da Librairie Internationale com o texto da edição da Libraire Spirite, acusa Leymarie de ter feito alterações na Gênese, gerando ruidosa celeuma no meio espírita. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

15.03.1885 - Desliens, que estava afastado do movimento espírita desde 1871, escreve uma carta à Sociedade com a intenção de defender Leymarie.
Segundo ele, Kardec contratou com a Librairie Internationale as três primeiras edições, e, ainda em 1868, autorizou a 4a, 5a. e 6a. E que as matrizes destas três últimas serviram para as edições de 1869 a 187l (período em que ele esteve à frente do negócio) "e em diante". E sugere que Kardec tenha feito as alterações objeto da celeuma nestas placas, uma vez que eram fôrmas de letras soltas. Diz ainda que a última edição de 1868 era idêntica à primeira. (Revista Espírita, 1885). OBS.: Esta última afirmação de Desliens pode, hoje, ser comprovada por qualquer pessoa que se disponha a cotejar as edições de 1868.

Contradições: Segundo fac-simile apresentado pela Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, a 4a. edição é de 1868 e da Librairie Internationale. Segundo notice bibliographique da BNF, a 5a. edição é de 1872 e da Libraire Spirite. Não encontramos outras 5a. e 6a. edições de responsabilidade de Desliens; aliás, não encontramos ainda nenhuma edição entre 1869 e 1871!

xx.xx.1911 - Guillon Ribeiro torna-se espírita, vindo a ocupar a presidência da FEB e a produzir inúmeras traduções, incluindo a Gênese de Kardec, que ele diz ter traduzido a partir do original da QUINTA EDIÇÃO. (Sites brasileiros, encontrados via Google).
É evidente que a tradução de Guillon Ribeiro foi feita após 1911; portanto, no mínimo, 27 anos após as denúncias de Henri Sausse, 38 anos após a publicação da edição que lhe serviu de base, e 41 anos após as alterações objeto das denúncias.

xx.xx.00 - Carlos Brito Imbassahy, espírita brasileiro, refaz, cento e tantos anos depois, o caminho de Henri Sausse: compara a TERCEIRA EDIÇÂO da Gênese francesa, de 1868, com a atual edição brasileira da FEB; constata as diferenças e acusa o tradutor brasileiro, Guillon Ribeiro, de ter feito as alterações. Disponibiliza na internet uma tradução do original da terceira edição ("ao pé da letra", segundo sua advertência) que diz ter em seu poder. (Sites e blogs brasileiros, encontrados via Google).

xx.xx.2007 - A empresa Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, publica uma tradução da Gênese, de Albertina Escudeiro Sêco, afirmando ser baseada na QUARTA EDIÇÂO, de 1868, ainda da Librairie Internationale, da qual exibe fac-simile apenas da folha de rosto. Ousadamente, perpetra uma série de alterações no texto de Kardec, a pretexto de "atualizá-lo". (A Gênese, Léon Denis Gráfica e Editora).

Assim, temos atualmente duas versões da Gênese disponíveis no mercado editorial brasileiro. Uma, baseada na versão francesa fixada desde a quinta edição de 1872, traduzida por Guillon Ribeiro, Herculano Pires, Salvador Gentille, e outros. Outra, baseada na versão superada de 1868, traduzida e alterada por Albertina Escudeiro Sêco. Além dessas, existe a tradução de Carlos Brito Imbassahy, baseada, segundo ele, na terceira edição, também superada, de 1868, e disponibilizada gratuitamente na internet.

Bem, penso que esta linha do tempo absolve o Guillon Ribeiro. Quando as alterações foram feitas, seja por Kardec ou por Leymarie, ele não havia nem nascido. Quando ele fez sua tradução, passados quarenta anos dos fatos, ele só poderia agir como todos os outros tradutores, de todos os idiomas: utilizar a versão definitiva, disponibilizada pelos que ainda detinham seus direitos autorais.
Dispensam absolvição, porque não foram acusados, os demais tradutores brasileiros, bem como os vários editores franceses, que utilizam a versão fixada a partir da quinta edição.
Quando eu publiquei este post a primeira vez, eu disse que "nossas conclusões seriam enormemente facilitadas se fossem disponibilizadas ao público, em fac-simile, digitalizados, os originais da terceira edição (pelo Carlos Imbassahy), da quarta edição (pela LDGE) e da quinta edição (pela FEB)". Vejam como as coisas evoluem rapidamente na web: não precisamos mais disto. O historiador Felipe Gonçalves gentilmente me forneceu cópia da 4a. edição francesa; e, por informação dele, consegui junto ao site do IPEAK - Instituto de Pesquisa Espírita Allan Kardec, a 1a., 3a. e 5a. edições francesas. Tais fac-similes originais fazem referência aos locais onde estão armazenados e disponíveis.

Fiz a pretendida comparação, o cotejo, das edições francesas entre si, e delas com as traduções brasileiras -- de forma completa nos trechos polêmicos; mais rapidamente nos demais capítulos --, e posso afirmar que:

a) as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, tal como disse Desliens, SÃO IDÊNTICAS, o que demonstra que NENHUMA FOI REVISADA POR KARDEC.

b) a tradução do Guillon Ribeiro está rigorosamente fiel à 5a edição francesa de 1872, o que demonstra que ele NÃO É RESPONSÁVEL POR ALTERAÇÃO ALGUMA NA GÊNESE.

Agora, a situação do Leymarie complica um pouco, tendo em vista as inconsistências no depoimento do Desliens, feito 14 anos após os fatos.
A seu favor temos os inúmeros escritos e publicações de Kardec anunciando que preparava várias alterações na Gênese: acréscimos e supressões. Considere-se também o trabalhão que Leymarie teria para fazer todas as alterações no curto espaço de tempo entre o dia 01 de junho de 1871 e o dia do início da impressão, provavelmente já em 1872. Pergunte-se também, qual seria a motivação (o velho "a quem interessaria o crime?") que lhe justificasse tanto trabalho.
O mais provável, que ressalta da presente linha do tempo e da leitura e comparação das edições francesas e traduçoes brasileiras, é que Kardec, após autorizar que Bittard usasse a massa falida da Librairie Internationale para, em fins de 1868, fazer uma quarta edição a toque de caixa e antes mesmo que se esgotassem as demais, reuniu-se com ele e fez as alterações anunciadas diretamente nas matrizes, a fim de imprimir com elas uma quinta edição, definitiva, e já em casa, na Livraria Espírita. A morte, entretanto, interrompeu seus planos, e a natural confusão estabelecida entre esse trágico episódio e a assunção das edições pelo Leymarie, período em que este último segundo Desliens não teve acesso às matrizes, foi suficiente para que esquecessem as alterações, até que o Sausse as identificasse muitos anos depois. Isto só será definitivamente esclarecido se aparecer algum exemplar da suposta 5a. e 6a. edições feitas pelo Desliens: se elas forem iguais à 5a. de 1872, fica provado que a revisão foi feita por Karec; se elas forem iguais às anteriores (1a2a3a4a de 1868), a suspeita volta sobre o Leymarie.

Bem, aí está o resultado de uma pesquisa histórica orientada por princípios científicos. Qualquer pessoa poderá comprovar ou refutar minhas afirmações acessando todo o material correspondente, hoje disponibilizado em bibliotecas e sites, conforme detalhei ao longo do texto.
Evidentemente, tal pesquisa contraria toda a mitologia estabelecida nas redes sociais sobre o assunto. Mas, isto é porque toda essa boataria foi motivada mais por disposições ideológicas do que pela pesquisa e análise racional dos fatos.
A 5a. edição, definitiva, está muito melhor redigida que as anteriores. As revisões foram, sem dúvida, para melhor. Os itens suprimidos não enfraquecem em nada a posição anti-roustainguista deixada clara por Kardec. Tanto é que Guillon e a FEB obrigaram-se a notas de pé de página defendendo suas posições. As revisões de Kardec beneficiam a clareza e afastam a prolixidade, em atenção ao princípio de que "não há nada menos convincente do que insistir ou exagerar um bom argumento".

domingo, 11 de julho de 2010

A GÊNESE, OS MILAGRES, AS PREDIÇÕES e as espiritices brasilianas...

Saudades do Herculano... Em meados dos anos 70 a FEESP lançou uma tradução do Evangelho Segundo o Espiritismo substituindo algumas palavras usadas pelo autor francês. Por exemplo, como o termo "odiar" é - oh! - muito forte, mudaram para "amar menos"; e outras infantilidades do mesmo nível. Herculano saiu a campo para denunciar tamanha ousadia dos que se julgam melhores que o autor a ponto de acharem que ele foi infeliz na escolha das palavras de sua obra. Ora, escrever é um ato de escolha. Um autor é ou não bem sucedido justamente em função das palavras que escolhe. Isto é escrever! Como alguém pode se arrogar competência para alterar as escolhas de um autor de sucesso, principalmente alguém que não tem sucesso?
Claro que um tradutor também tem uma ampla área de escolha; mas, sempre balizada pelo autor original.
Agora, trinta e tantos anos depois, me deparo com outra dessas. A Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, lança uma tradução da Gênese "atualizando" Kardec: substituindo "léguas" por "quilômetros"; figuras de linguagem bonitas, como "a velocidade do relâmpago", por "velocidade da luz"; e aí afora. E não é, a velocidade do relâmpago, a mesma velocidade da luz? Além do quê, não era usual, na época de Kardec, medir as distâncias em "anos-luz". O pior é o título do capítulo "Uranografia Geral", nome então em moda e escolhido pelo autor, Camile Flammarion, que o atribuiu a Galileu: virou "Astronomia Geral". O "Caráter da Revelação Espírita" vira "Fundamentos da Revelação Espírita"!
A Gênese de Kardec, por transitar na área científica, é a mais pontual de suas obras, a mais datada; cheia de teorias ultrapassadas a respeito da Lua, de Marte, da geração espontânea; daí que seria impossível "atualizá-la" completamente. Ante isto, em grande parte da obra o tradutor ou revisor opta por notas de rodapé, explicando as desatualizações. Ora, por que não fez logo isso em todos os pontos do livro, evitando cair no crime moral de adulterar um autor morto, de desfigurar sua obra e retirá-la de seu contexto histórico e cultural?
Mas, não fica só aí a infelicidade do evento. Quem tentar estudar em grupo, fazer citações, enfim, cotejar essa tradução com todas as outras da língua portuguesa, vai entrar em parafuso. Em seu afã novidadeiro a editora desprezou a quinta edição francesa - revista, corrigida e ampliada pelo autor, e fixada para a posteridade -, e optou pela quarta edição - que, na verdade, faz parte do mesmo lote de impressão da primeira -, portanto, superada e abandonada pelo próprio autor. Se isso fosse feito com o intuito de resgate histórico, como Canuto de Abreu fez com o Livro dos Espíritos, não haveria problema. Mas, nenhuma advertência é feita nesse sentido: a publicação passa por ser o texto definitivo; e certas escolhas menos felizes, certos itens ininteligíveis, prolixos, desnecessários, ou mesmo errados, que Kardec eliminou quando preparou a quinta edição - que ele não viveu para ver publicada -, voltam como se fosse pela vontade do autor.

Na minha opinião, a Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio de Janeiro, deveria DESFAZER as adulterações perpetradas na Gênese de Kardec, e, nas próximas edições, colocar um prefácio explicando que se trata de uma edição de interesse puramente histórico, uma vez que é a tradução de versão superada e abandonada pelo próprio autor.