quarta-feira, 21 de março de 2012

KARDEC E A TERAPÊUTICA ESPÍRITA.

Tenho lido, repetidas vezes, afirmações de que as práticas terapêuticas disseminadas pelos nossos centros (água fluidificada, passe e desobsessão) seriam criações do espiritismo brasileiro. Não. Como muitas outras coisas cujas origens são questionadas, essas práticas são também de responsabilidade de Kardec. Senão, vejâmo-las em citações do mestre lionês.

Justificativa da terapia espírita

"As doenças fazem parte das provas e das vicissitudes da vida terrena; são inerentes à grosseria da nossa natureza material e à inferioridade do mundo que habitamos. As paixões e os excessos de toda ordem semeiam em nós germens malsãos, às vezes hereditários. Nos mundos mais adiantados, física ou moralmente, o organismo humano, mais depurado e menos material, não está sujeito às mesmas enfermidades e o corpo não é minado surdamente pelo corrosivo das paixões. (Cap. III, n° 9.) Temos, assim, de nos resignar às conseqüências do meio onde nos coloca a nossa inferioridade, até que mereçamos passar a outro. Isso, no entanto, não é de molde a impedir que, esperando tal se dê, façamos o que de nós depende para melhorar as nossas condições atuais. Se, porém, mau grado aos nossos esforços, não o conseguirmos, o Espiritismo nos ensina a suportar com resignação os nossos passageiros males. Se Deus não houvesse querido que os sofrimentos corporais se dissipassem ou abrandassem em certos casos, não houvera posto ao nosso alcance meios de cura. A esse respeito, a sua solicitude, em conformidade com o instinto de conservação, indica que é dever nosso procurar esses meios e aplicá-los.A par da medicação ordinária, elaborada pela Ciência, o magnetismo nos dá a conhecer o poder da ação fluídica e o Espiritismo nos revela outra força poderosa na mediunidade curadora e a influência da prece. (Ver, no Cap. XXVI, a notícia sobre a mediunidade curadora.)"(1)

Fluidoterapia: água fluidificada e passe

"Pode (o Espírito), pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. A existência de uma matéria elementar única está hoje quase geralmente admitida pela Ciência, e os Espíritos, como se acaba de ver, a confirmam. Todos os corpos da Natureza nascem dessa matéria que, pelas transformações por que passa,também produz as diversas propriedades desses mesmos corpos. Daí vem que uma substância salutar pode, por efeito de simples modificação, tornar-se venenosa, fato deque a Química nos oferece numerosos exemplos. Toda gente sabe que, combinadas em certas proporções, duas substâncias inocentes podem dar origem a uma que seja deletéria. Uma parte de oxigênio e duas de hidrogênio, ambos inofensivos, formam a água. Juntai um átomo de oxigênio e tereis um liquido corrosivo.Sem mudança nenhuma das proporções, às vezes, a simples alteração no modo de agregação molecular basta para mudar as propriedades. Assim é que um corpo opaco pode tornar-se transparente e vice-versa. Pois que ao Espírito é possível tão grande ação sobre a matéria elementar, concebe-se que lhe seja dado não só formar substâncias, mas também modificar-lhes as propriedades, fazendo para isto a sua vontade o efeito de reativo.Esta teoria nos fornece a solução de um fato bem conhecido em magnetismo, mas inexplicado até hoje: o da mudança das propriedades da água, por obra da vontade. O Espírito atuante é o do magnetizador, quase sempre assistido por outro Espírito.Ele opera uma transmutação por meio do fluido magnético que, como atrás dissemos, é a substância que mais se aproxima da matéria cósmica, ou elemento universal. Ora, desde que ele pode operar uma modificação nas propriedades da água,pode também produzir um fenômeno análogo com os fluidos do organismo, donde o efeito curativo da ação magnética, convenientemente dirigida.Sabe-se que papel capital desempenha a vontade em todos os fenômenos do magnetismo. Porém, como se há de explicar a ação material de tão sutil agente? A vontade não é um ser, uma substância qualquer; não é, sequer, uma propriedade da matéria mais etérea que exista. A vontade é atributo essencial do Espírito, isto é, do ser pensante. Com o auxílio dessa alavanca, ele atua sobre a matéria elementar e, por uma ação consecutiva, reage sobre seus compostos, cujas propriedades íntimas vêm assim a ficar transformadas.Tanto quanto do Espírito errante, a vontade é igualmente atributo do Espírito encarnado; daí o poder do magnetizador, poder que se sabe estar na razão direta da força de vontade. Podendo o Espírito encarnado atuar sobre a matéria elementar, pode do mesmo modo mudar-lhe as propriedades, dentro de certos limites. Assim se explica a faculdade de cura pelo contacto e pela imposição das mãos, faculdade que algumas pessoas possuem em grau mais ou menos elevado. (Veja-se, no capítulo dos Médiuns, o parágrafo referente aos Médiuns curadores. Veja-se também a Revue Spirite, de julho de 1859, págs. 184 e 189: O zuavo de Magenta; Um oficial do exército da Itália.)" (2)

Costumam argumentar que tais citações referem-se aos magnetizadores e, não, aos espíritas comuns, trabalhadores de nossos centros. De novo, não. Além dessa profissão de "magnetizador", existente no tempo de Kardec, ter desaparecido, e sua prática ter sido historicamente absorvida pelos espíritas, temos afirmações dele próprio que justificam tal acontecimento:

"Médiuns curadores. Os que têm o poder de curar ou aliviar pela imposição das mãos ou pela prece. 'Esta faculdade não é essencialmente mediúnica: pertence a todos os verdadeiros crentes, sejam médiuns ou não; muitas vezes não passa de uma exaltação da força magnética fortificada, caso necessário, pelo concurso dos bons Espíritos.' (n.175)." (3)

Desobsessão

Pelas citações abaixo, vemos que Kardec, ao contrário do que se acredita, não preconiza o tratamento da obsessão apenas em relação aos médiuns, mas, sim, para todo e qualquer indivíduo que o necessite. E os passos são aqueles conhecidos dos espíritas da atualidade: esclarecimento do obsidiado, fluidoterapia ("mediante ação idêntica à do médium curador") e, esclarecimento e convencimento do espírito obsessor, "em evocações particulares".

"A obsessão é a ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diversos, desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. Oblitera todas as faculdades mediúnicas; traduz-se, na mediunidade escrevente, pela obstinação de um Espírito em se manifestar, com exclusão de todos os outros.Os Espíritos maus pululam em torno da Terra, em virtude da inferioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja que eles desenvolvem faz parte dos flagelos com que a Humanidade se vê a braços neste mundo. A obsessão, como as enfermidades e todas as tribulações da vida, deve ser considerada prova ou expiação e como tal aceita.Do mesmo modo que as doenças resultam das imperfeições físicas, que tornam o corpo acessível às influências perniciosas exteriores, a obsessão é sempre o resultado de uma imperfeição moral, que dá acesso a um Espírito mau. A causas físicas se opõem forças físicas; a uma causa moral, tem-se de opor uma força moral. Para preservá-lo das enfermidades, fortifica-se o corpo; para isentá-lo da obsessão, é preciso fortificar a alma, pelo que necessário se torna que o obsidiado trabalhe pela sua própria melhoria, o que as mais das vezes basta para o livrar do obsessor, sem recorrer a terceiros. O auxílio destes se faz indispensável, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, porque aí não raro o paciente perde a vontade e o livre-arbítrio. Quase sempre, a obsessão exprime a vingança que um Espírito tira e que com freqüência se radica nas relações que o obsidiado manteve com ele em precedente existência. (Veja-se: Cap. X, n° 6; cap. XII, n° 5 e n° 6.)Nos casos de obsessão grave, o obsidiado se acha como que envolvido e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É desse fluido que importa desembaraçá-lo. Ora, um fluido mau não pode ser eliminado por outro fluido mau. Mediante ação idêntica à do médium curador nos casos de enfermidade, cumpre se elimine o fluido mau com o auxílio de um fluido melhor, que produz, de certo modo, o efeito de um reativo. Esta a ação mecânica, mas que não basta; necessário, sobretudo, é que se atue sobre o ser inteligente, ao qual importa se possa falar com autoridade, que só existe onde há superioridade moral. Quanto maior for esta, tanto maior será igualmente a autoridade. E não é tudo: para garantir-se a libertação, cumpre induzir o Espírito perverso a renunciar aos seus maus desígnios; fazer que nele despontem o arrependimento e o desejo do bem, por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações particulares, objetivando a sua educação moral. Pode-se então lograr a dupla satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito.A tarefa se apresenta mais fácil quando o obsidiado, compreendendo a sua situação,presta o concurso da sua vontade e da sua prece. O mesmo não se dá, quando, seduzido pelo Espírito embusteiro, ele se ilude no tocante às qualidades daquele que o domina e se compraz no erro em que este último o lança, visto que, então, longe de secundar, repele toda assistência, É o caso da fascinação, infinitamente mais rebelde do que a mais violenta subjugação. (O Livro aos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXIII.)Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso auxiliar de quem haja de atuar sobre o Espírito obsessor."
"Observação. - A cura das obsessões graves requer muita paciência, perseverança e devotamento. Exige também tato e habilidade, a fim de encaminhar para o bem Espíritos muitas vezes perversos, endurecidos e astuciosos, porquanto há-os rebeldes ao extremo. Na maioria dos casos, temos de nos guiar pelas circunstâncias. Qualquer que seja, porém, o caráter do Espírito, nada se obtém, é isto um fato incontestável pelo constrangimento ou pela ameaça. Toda influência reside no ascendente moral. Outra verdade igualmente comprovada pela experiência tanto quanto pela lógica, é a completa ineficácia dos exorcismos, fórmulas, palavras sacramentais, amuletos, talismãs, práticas exteriores, ou quaisquer sinais materiais. A obsessão muito prolongada pode ocasionar desordens patológicas e reclama, por vezes, tratamento simultâneo ou consecutivo, quer magnético, quer médico, para restabelecer a saúde do organismo. Destruída a causa, resta combater os efeitos. (Veja-se: O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXIII - "Da obsessão". - Revue Spirite, fevereiro e março de 1864; abril de 1865: exemplos de curas de obsessões.)" (4)

(1) ESE, XXVIII, 77.
(2) LM, 129, 130, 131.
(3) LM, 189.
(4) ESE, XXVIII, 81.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A FILOSOFIA ESPÍRITA

Apesar de não ter, ou mesmo aparentar, a menor pretensão em tornar-se uma "escola filosófica", o espiritismo é, sem sombra de dúvida, uma filosofia. O filósofo espírita J. Herculano Pires demonstrou isto fartamente em toda sua obra, mas, principalmente, na "Introdução à Filosofia Espírita", em "Ciência Espírita", e, na sua "Introdução ao Livro dos Espíritos". Kardec coloca sobre o título de "O Livro dos Espíritos" a identificação "Filosofia Espiritualista", e inicia "O Evangelho Segundo do Espiritismo" com um resumo da doutrina de Sócrates e Platão, pretendendo, segundo o Herculano, inseri-lo na tradição filosófica do espiritualismo. Mas, eu diria mais: apesar do intenso diálogo travado por Kardec com o positivismo dominante na filosofia francesa de sua época, acredito que sua filiação se dá mais intimamente com o espiritualismo de Victor Cousin, o eclético "ditador filósofo" que dominou as cátedras correspondentes em Paris durante grande parte do século. E, já em sua fase juvenil, o espiritismo, levado por Gustave Geley, retoma uma trajetória em sintonia com o espiritualismo restaurado no século XX pelo filósofo e prêmio Nobel Henry Bergson. Chegando ao final do século como uma filosofia da ética -- cuja praxis é tanto individual como social --, cuja vivencia é buscada expontânea e naturalmente pelos seus adeptos, mas sistematizada pelo próprio Herculano e mais o filósofo argentino Humberto Mariotti. Não é surpresa essa evolução constante no período, com a contribuição de várias mentes, pois Lalande já observava que Kardec não é o único, mas apenas "le plus célèbre".
E as credenciais filosóficas do Herculano para iniciar -- e avançar razoavelmente -- nessa sistematização, caso não fossem confirmadas pelo Professor Jorge Jaime em sua extensa "História da Filosofia no Brasil", o seriam pelo seu enquadramento nas diversas acepções do verbete "philosophe", do "Vocabulaire" do Lalande, principalmente a acepção "E" (Herculano bacharelou-se e licenciou-se em filosofia pela USP), apesar da advertência do dicionarista francês de que "cet usage du mot n'est pas d'une bonne langue, si ce n'est quand il implique une nuance d'ironie" (ou seja, o uso do termo filósofo para profissionais professores e estudantes, comum em nosso país, só se justifica quando implica uma nuance de ironia).
Herculano faz uma afirmação ousada em sua "Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas", de 1978, que tem recebido crítica de alguns estudantes de filosofia: "A Filosofia Espírita foi reconhecida pelo Instituto de França e figura no 'Dicionário Técnico da Filosofia', de Lalande".
Este dicionário é o "Vocabulaire Technique et Critique de la Philosophie", que André Lalande elaborou e publicou em fascículos durante as duas primeiras décadas do século XX. Não elaborou só. Travou profícua correspondência com vários filósofos contemporâneos -- Henri Bergson, Émile Meyerson, Édouard Le Roy, Maurice Blondel, Jules Lachelier, Léon Brunschvicg, Henri Delacroix, Frédéric Rauh, Georges Sorel, Pierre Janet, Edmond Goblot, Louis Couturat, Victor Delbos, e outros --, cujas contribuições se transformaram em notas de pé de página na edição definitiva. Herculano, sem dúvida, teve acesso à edição francesa, publicada apartir de 1926, em dois tomos (um terceiro, "Nouveau Supplement", foi acrescentado a partir de 1932), totalizando mais de mil páginas, uma vez que ainda não havia a edição brasileira, utilizada agora pelos seus críticos. No momento, tenho acesso à edição francesa de 1928, e à edição argentina de 1953, contendo, ambas, toda a discussão com os filósofos.
O verbete "spiritisme" já seria suficiente para permitir ao Herculano sua afirmação de que "figura no dicionário". Mas, é no verbete "spiritualisme" e, principalmente, na discussão entre os filósofos, ao pé da página, que a doutrina espírita ganha status de assunto filosófico.
Na acepção "D", Lalande repete a distinção feita por kardec entre "espiritismo" e "espiritualismo". Nas discussões, Brunschvicg, depois de observar que a conexão entre espiritualismo e sociologismo lhe parece derivar do "novo espiritualismo, que ocupa cada vez mais lugar no pensamento de Comte", escreve: "Não vejo, de forma alguma, que haja a menor razão para eliminar o espiritismo como uma das significações próprias do espiritualismo. Desconhece você assim a influência profunda e persistentes das crenças e das práticas espiritistas nas crenças e práticas religiosas, desde as mais antigas e rudimentares até as mais recentes". Mas, na sequência, Maurice Blondel acusa "alguns dos que comerciam com os espíritos" de confiscarem a acepção eclética do termo "porque não se contentam em ser espiritistas, ou porque o título de espiritualista é melhor aceito".
E Andre Lalande finaliza dizendo que ultimamente a palavra voltou a ter prestígio, mas "unicamente o uso que dela se tem feito anteriormente e os interesses filosóficos que ela representa em nossos dias podem determinar sua significação".