quarta-feira, 29 de maio de 2019

TRADUTTORE TRADITORE?






Segundo alguns a expressão acima irrita os tradutores e, seguramente, posso tê-los perdido como leitores apenas pelo fato de usá-la.  Isto porque ela é injusta quando generalizada.  Aliás, toda generalização é injusta.  Mas, comigo aconteceu.  Precisei preparar uma aulinha no último centro que frequentei sobre o primeiro capítulo do livro "A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo" e, como costumo colecionar traduções, fui logo servir-me da mais pretensiosa, a que faz questão de ostentar na capa o epíteto de "autêntica".  Trata-se da tradução do ilustre professor Carlos de Brito Imbassahy, publicada pela Fundação Espírita André Luiz e, segundo a folha de rosto, feita conforme a "1ª edição francesa".  Qual não foi minha surpresa quando, já no início,  dou de cara com uma traição!

Kardec nomeou o primeiro capítulo de "Caractères de la révélation spirite".  Eu já havia  me entristecido há cerca de uns dez anos quando vi a tradutora Albertina Seco, pela editora CELD, traduzir para "Fundamentos da revelação espírita".  Mas, a tradução da Seco tem o mérito de avisar lealmente sobre suas alterações que, aliás, não são aleatórias mas seguem um critério pré-estabelecido que é o de trazer o texto para uma linguagem mais atual o que, nas suas expectativas,  facilitaria a compreensão da obra.  Já o tradutor Imbassahy traduz para "Natureza da revelação espírita" sem apresentar justificativa.  Será que estão pretendendo corrigir o estilo de Kardec?  Vá lá que ele não é nenhum Racine, como disse um amigo meu.  Mas o estilo é o homem, deve ser respeitado.  E não foi justamente disto que Henri Sausse acusou Pierre-Gaëtan Leymarie no Século XIX?  De tentar "melhorar" os escritos de Kardec?  "Ah, mas isto não tem importância", dirão.  "São sinônimos".  Sim, são sinônimos.  Mas a sinonímia nunca é perfeita, aprendi em minha juventude num curso de linguística.  Se dois vocábulos fossem sinônimos perfeitos a língua eliminaria um deles ou o relegaria a um desuso tão grande que seria encontrado apenas em escavações de eruditos.  Costumávamos ilustrar a relação de sinonímia através de círculos sobrepostos, como na figura 1. 

No espaço em hachuras é onde as três palavras são sinônimas;  nos espaços em branco dos círculos é onde cada uma delas guarda seus próprios significados.  Escrever é justamente escolher palavras.  O autor escolhe a palavra que melhor traduz o seu pensamento dentre os sinônimos disponíveis.  E, essas três palavras têm os mesmos significados no português e no francês. O que não permite alegar-se que numa língua uma fique melhor  que a outra.  Acrescente-se o fato interessante de que, na Introdução da Obra, onde Kardec justifica o título, a tradução mantém o "Caracteres".  O que deixou-a com uma aparência um tanto deformada:  uma explicação sobre um título que surge logo depois alterado.  

Mas não foi o único caso.  Mais adiante, no item 6, quando Kardec fala sobre os gênios, escreve: "Se Deus suscita ("suscite", no original) reveladores para as verdades científicas, pode, com mais razão, suscitá-los para as verdades morais".  Nosso tradutor achou de melhor estilo trocar "suscitar" por "promover".  Neste caso o espaço hachurado da ilustração seria ainda mais diminuto.

"Ora", dirão, "o tradutor tem liberdade de escolha".  Afinal, ele traduz o pensamento do autor.  Só que, às vezes, as escolhas do tradutor Imbassahy (ou de seus revisores) mudam o sentido.  Como no item 5, onde Kardec diz que os homens de gênio "apportent en naissant des facultés transcendants et des connaissances innés" e todo mundo traduziu por "trazem ao nascer", o que está em perfeita sintonia com o pensamento reencarnacionista do autor; no entanto, Imbassahy pretende nos convencer que Kardec teria dito  que o homem de gênio "possui desde o nascimento" tais faculdades.  Ora, há muita diferença entre "trazer ao nascer" e "possuir desde o nascimento".
Tem mais. Folheando aleatoriamente encontrei no Capítulo XIV, "Os fluidos", logo no item 2, onde Kardec diz que os estados de imponderabilidade e de ponderabilidade da matéria elementar primitiva são "consecutivos", Imbassahy corrige colocando que o segundo é "consequência" do primeiro.  Seja sutil ou não, há diferença entre dois estados serem "consecutivos" e "consequência um do outro".
O mais interessante de tudo é que na primeira versão da tradução do Imbassahy, aquela que ele nos disponibilizou gratuitamente na internet há mais de dez anos, não existem essas traições.  Lá ele traduz direitinho e até se orgulha de registrar que "em virtude das contradições existentes nas diversas traduções da obra 'A Gênese'  de Allan Kardec, teve o cuidado de traduzir esta obra ao pé da letra, a fim de que fosse o mais fiel possível conforme o original da 3ª edição de 1868" (que, como todos sabem, é idêntica à primeira).  Agora, no texto revisado e colocado no mercado, vemos as discrepâncias.  Terão sido os revisores que adulteraram a tradução ou o tradutor que adulterou o original?
Importante ou não, temos o caso famoso da pergunta 625 de "O Livros dos Espíritos".  Em resposta à pergunta sobre qual o principal modelo para o homem, Kardec coloca como resposta "Voyez Jésus", "Vêde Jesus".  Guillon -- e Noleto o segue, o que faz parecer um vício da editora -- traduz para uma única palavra: "Jesus".  Laudas e teses foram destinadas a ilações sobre as consequências dessa diferença.  No orkut um jovem doutor e profundo conhecedor do francês disse,  certamente por ser filiado à entidade que editou Guillon,  que não há diferença alguma entre as escolhas.  Tudo bem.  Só que não interessa:  se Kardec optou por escrever "Voyez Jésus" ao invés de simplesmente "Jésus", sua escolha tem que ser respeitada.  O mesmo deve o bom senso exigir aqui.  Principalmente porque aqui se pretende a "restauração" do texto original.
Pensando em continuar a leitura da tradução a fim de ver se haviam outros erros (pois me é permitido supor que devem existir aos montes) resolvi começar do começo.  Desisti em função das afirmações do apresentador.  Segundo ele esta pretensiosa tradução "autêntica" se deve porque "em 2018 veio à tona relevante debate" (como se já não tivesse vindo em 1884, 1999, 2012, e etc.) sobre uma quinta edição feita "de forma oculta, sem conhecimento até mesmo da esposa e única herdeira de Kardec".  Bem, na postagem anterior deste blog (Restos de uma Réplica) e em muitas outras pelos diversos grupos do facebook já demonstrei à exaustão o absurdo de alguém fazer uma edição "de forma oculta" e ao mesmo tempo escrever na folha de rosto um aviso em destaque que a mesma foi "revisada, corrigida e aumentada".  O saber ou não de algo é uma coisa tão subjetiva que somente a própria pessoa pode dizer.  Três anos antes do ocorrido Madame Kardec anunciou em ata sua intenção de acompanhar de perto as reedições do marido e não existe nenhuma declaração sua em contrário bem como não há nenhuma manifestação sua de ignorância da revisão.  O que indica que ela mesma, a legítima herdeira acompanhou a edição; procedimento legal posteriormente consagrado na Convenção de Berna.  Também mostrei para uma porção de avestruzes (porque preferiram esconder a cabeça na areia) um Catálogo das publicações francesas de 1876 consignando a quinta edição da Gênese em 1873, desmentindo, portanto, "a forma oculta". 

Mas, como eu disse acima, desisti da leitura integral da tradução assim como desisto de alertar sobre a precipitação da conclusão tão apaixonadamente defendida
Nada disto adianta para quem não tem, perdeu, ou nunca teve senso crítico.  Como diz um  texto atribuído a Vargas Llosa (sendo ou não dele, a verdade do texto é clara): "cuando una de esas ficciones malignas (ahora diríamos posverdades) se encarna en la historia sustituyendo a la verdad, alcanza una solidez y realidad que resiste a todas las críticas y desmentidos y prevalece siempre sobre ellos".  
Além do quê, não pretendo ser o algoz das crenças alheias.  Cada um crê no que lhe apetece e, como diz o Marcelo Gleiser,  "o descontente, mais do que qualquer outro, precisa acreditar".



P.S. Eu deixei passar a frase: "Estes, ao falar em nome dele, têm podido ocasionalmente influenciado pelo próprio Deus", no item 9 do primeiro Capítulo.  Desafio qualquer um a entendê-la.  Ah, "erro de imprensa"? Mas, com tantos revisores?!...  O mais provável é que, no afã de corrigir Kardec e menosprezando a inteligência do leitor --  que poderia entender que Kardec está justificando o fato de serem certos mensageiros tomados pelo próprio Deus --   temeram repetir a solução encetada pelo Imbassahy na tradução original na internet:  "Estes, falando em nome de Deus, têm podido perfeitamente ser tomados pelo próprio Deus".

5 comentários:

  1. João Donha, recebi a divulgação do seu blog, parabéns pela publicação!

    Você leu os livros do Adriano Calsone e a pesquisa de Simoni Privato? Assistiu a apresentação dela em São Paulo? Qual é sua opinião?

    Um abraço

    Jáder Sampaio

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  2. Li os livros do Calsone. São importantes pois relatam o período pós-Kardec e os desvios impostos principalmente pelo Leymarie que se adonou da Revue e das Obras de Kardec. Relatam também, numa linguagem fluente, um estilo ágil e dosado aqui e ali com leves tons de ironia que prendem o leitor, a vida de Amelie Boudet, principalmente através do depoimento da Froppo.
    Quanto à pesquisa da Simoni Privato eu recebi bastante coisa por e-mail, acho que quase tudo. O que tenho a opinar é que o trabalho dela, tanto o livro quanto os vídeos de divulgação, se assemelham muito a essas teorias conspiratórias que grassam no mercado (templários, códigos da vinci, peripécias da Madalena, etc.). Sufocam o leitor com uma porção de fatos e lhe apresentam uma conclusão que não decorre necessariamente deles. quando as pessoas se abstêm do pensamento crítico, essa técnica gera uma certeza que paralisa ou contamina qualquer eventual pesquisa futura.
    É importante sabermos -- e o Calsone nos ajuda bastante neste mister -- as diabruras do Leymarie e os padecimentos da Amelie. Mas, são ocorrências posteriores ao episódio da 5ª edição da Gênese. não podem, portanto, serem apresentados como causa ou como comprovação.

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  3. Na postagem anterior a esta eu detalho mais sobre os argumentos utilizados por quem já tem certeza sobre o que ocorreu.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Mas, com todo respeito, parecem argumentações para um público infantil.
    Um "parecer" dizendo que só podem ser publicados textos ou revisões se houver disposições testamentárias? Onde há isto? Aponte um autor de obras realmente importante que tenha se preocupado com isto. No entanto, vemos todos os dias os legítimos herdeiros, mesmo sem quaisquer autorizações assinadas, revirando o baú do autor recém-falecido, ante a expectativa do mundo intelectual. Pascal, Nietzsche e muitos outros tiveram publicações póstumas. E, quando há ingerência do herdeiro, como no caso deste último, o debate se realiza na esfera intelectual. Apenas na esfera da religião -- onde o fanatismo impera -- se cogitaria de intromissão legal. Victor Cousin, bem antes de Kardec, organizou a publicação completa do último trabalho de Pascal (ele escrevia e enfiava os fragmentos no colchão), afirmando servir-se de manuscritos. Pronto. Quem iria hoje, quase duzentos anos depois, na filosofia, questionar o trabalho de Cousin? Agora, se fosse na religião, com as diversas facções em que ela se divide ao longo do tempo, certamente haveria uma seita questionando.

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