terça-feira, 14 de agosto de 2012

SOBRE O DIÁLOGO COM OS "ANTI-RELIGIOSOS"

Eu peço perdão se minha argumentação inadvertidamente ofende alguém. Mas, minha intenção é apenas demonstrar a alguns nossos irmãos de humanidade o quanto são religiosos sem o saberem. A diferença entre certos espíritas que se consideram laicos e aqueles outros que se assumem religiosos é a mesma diferença existente entre o luteranismo e a igreja católica. Lutero deu uma limpada no cristianismo da igreja católica, excessivamente influenciado por elementos paganistas, mas continuou defendendo as mesmas crenças básicas. Certos espíritas que arremetem, às vezes até colericamente, contra o movimento espírita, apenas o limpam de um excesso de práticas místicas acrescentadas ao longo do tempo, mas continuam defendendo religiosamente certas crenças básicas, como a missão divina do espiritismo e a eficácia de um controle de "ensinos" do qual nem mesmo a aplicação foi demonstrada historicamente. E reagem a qualquer tentativa de questionamento ou falseamento, tanto quanto o reagem os religiosos. A única diferença entre os seguidores da reforma protestantes e certos espíritas auto-denominados "não religiosos", é que o reformador daqueles não afirmou que estava fazendo uma "ciência". Na verdade, quem teima em manter o espiritismo como uma religião, são os que se aferram a uma "Codificação" transformada em cânone sagrado: inquestionável e irrefutável. É possível transformar o espiritismo em ciência. Mas, prá isto seria necessário entender a contribuição de Kardec como importante, porém cheia de falhas e anacronismos que precisam ser substituídos pela livre e descontraída discussão, tanto quanto pela pesquisa e refutação. O Espiritismo baseado em crenças, tal como professado pelos ortodoxos religiosos ou ortodoxos laicos, é religião. "Duela a quin duela", como disse certo presidente. E Kardec identificou isto claramente quando relacionou as crenças espíritas no famoso discurso da RE-dez-1868, finalizado com a afirmação categórica, porque expressão da realidade: "eis o Credo, a religião do Espiritismo". Esta é a mais pura e cristalina realidade que qualquer inteligência mediana retira da kardequiana ou publicações posteriores e que nenhum discurso eivado de insinuações sobre a ignorância doutrinária do interlocutor, ou ancha de piadinhas cuja relação com o texto é difícil estabelecer, irá obscurecer. Agora, saindo do terreno das crenças dogmáticas, colocando-se Kardec e os Espíritos Superiores no seu devido lugar -- apenas uma escola da filosofia espírita --, e ampliando-se a abrangência do espiritismo para outras contribuições, teorias, pesquisas e experimentações, teremos conseguido guindá-lo à condição de ciência ou filosofia. Não sou contra ou a favor deste ou daquele; apenas constato a realidade. É preciso ter consciência das coisas. O Espiritismo entendido e praticado como religião encontra respaldo na própria kardequiana; já demonstrei isto à exaustão. Por isso, as pessoas que assim o praticam têm o direito de serem respeitadas em suas louváveis e consequentes crenças. Os que o querem "puramente" filosófico e científico, laico e sem crenças, que saibam vivenciarem-no assim.

10 comentários:

  1. Excelente análise, João! Em minhas pesquisas e debates com espíritas de mais diversas linhas tenho encontrado alguns "laicos" tão fundamentalistas na defesa da obra kardeciana, no seu caráter de "revelação dada pelos espíritos superiores", quanto qualquer religioso fanático. Felizmente, minha experiência também me levou a conhecer espíritas, tanto religiosos como laicos, que realmente vivem o ideal livre-pensador e olham para Kardec como o fundador a ser honrado, mas não canonizado. Parabéns pela lucidez de seu trabalho!

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  2. Obrigado pelo comentário, Augusto.
    Eu vou até reproduzir o comentário que fez o Herivelto Carvalho, lá no grupo EEA, do Facebook, e que acho enriquecedor:

    É o reconhecimento de autoridade prestado aos espíritos superiores que torna esta interpretação religiosa. Este tipo de atribuição de autoridade que corresponde ao maior dos dogmas do Espiritismo como religião. Alega-se que a prova da superioridade do conteúdo da codificação é o fato deste ser revelado por espíritos superiores, mas ao mesmo tempo a existência destes espíritos é atestada pela própria codificação, ou seja, esta alegação tem um problema argumentativo, pois é autorreferente. Em filosofia, a autorreferência não é uma forma válida de argumentação, e a forma de se sair deste problema é pela experimentação.
    Outros exemplos de autorreferência são muito usados, tais como as definições que se faz do Espiritismo com base em textos espíritas, pois não se pode definir o Espiritismo pelo próprio Espiritismo, mas sim por um consenso acadêmico".

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    1. Esta circularidade é ridicularizada pelo Edgar Saveney na Revista dos 2 Mundos, 47 (set/out'63) artigo: Um episódio contemporâneo da história do sobrenatural [disponível no sítio da revista]

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    2. Não consegui encontrar o sítio da revista.
      Poderia dar-nos o endereço?

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    3. http://www.revuedesdeuxmondes.fr/user/details.php?code=70004

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  3. Perfeita a argumentação de Herivelto! Parabéns a ambos!

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  4. Há problemas na argumentação de Herivelto, principalmente em sua finalização. Ele tem razão em dizer que, "em filosofia, a autorreferência não é uma forma válida de argumentação", mas equivoca-se ao dizer que "*a* forma de se sair deste problema é pela experimentação". A experimentação, *em certos casos*, pode, de fato, ser *uma* forma de escaparmos deste problema, mas não deve ser considerada a única forma, mesmo porque, em certos casos, a experimentação não é nem mesmo possível. Deslize ainda maior comete o comentarista ao referir-se às "definições que se faz d*o* Espiritismo com base em textos espíritas" como autorreferência. Primeiro, se se trata de um elemento passível de definições várias, melhor seria tratá-lo sem artigo definido. Segundo, pode-se muito bem definir-se "espiritismo" com base em um texto dito "espírita". A única coisa a ser considerada é se o texto foi assim caracterizado mediante definição independente do adjetivo "espírita" ou se assim tornou-se por derivação da definição de "espiritismo" nele contida (notem bem: isto não é autorreferência!). Por fim, ressalto que, se uma palavra pode ser definida por "consenso acadêmico", não menos definida fica pelo simples fato de ter sido burilada na mente de uma única pessoa. Definida individualmente ou por consenso acadêmico, o fato é que, inevitavelmente, ela assimilará significados outros. Em minha opinião, esta é a única coisa importante a ser observada neste caso.

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    1. Só uma pequena correção: há alguns substantivos que fogem à regra do "desvio conceitual", como, por exemplo, certos termos médicos, que ficam circunscritos à utilização por especialistas. Claramente, não é este o caso de "espiritismo", cujo desvio conceitual, aliás, começou (incrivelmente!) com o próprio apologista do termo, Sr. Allan Kardec...

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  5. Caro Donha,
    Fiquei agradavelmente surpreso com sua análise. Felizmente, posições como a sua começam a assumir destaque no movimento espírita, notadamente em algumas áreas vinculadas à CEPA. Conhecemo-nos desde os anos 80 e sempre apreciei suas ideias.
    Continuo no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA) ccepars@gmail.com . Um abraço, salomão j. benchaya

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  6. Olá Salomão.
    É um enorme prazer encontrar um comentário seu neste blog.
    Tenho acompanhado seu trabalho pelas publicações do CCEPA e da CEPA, e muito o admiro.
    Um abraço. Donha

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