segunda-feira, 10 de maio de 2021

DE MÍSTICOS E CIENTÍFICOS

   Bem, mergulhados em um oceano linguístico onde se "calçam as botas" e se "botam as calças", a coisa não poderia ser diferente quando se trata da história do espiritismo brasileiro.  Ao abordarem  sua origem, dentro ou fora da "academia", costumam recordar o embate entre duas correntes em sua formação: os "místicos" contra os "científicos"; e dizem que os primeiros venceram, por isso nosso movimento espírita é o que é.  Talvez o seja.  Senão, vejamos.
   O maçom e teosofista (portanto, um místico) Angelo Torterolli é historiado como o líder dos "científicos".  Enquanto que o médico Adolpho Bezerra de Menezes, autor do primeiro livro científico produzido pelo espiritismo brasileiro, "A Loucura Sob Novo Prisma", e um dos poucos que existem, é, pasmem, tido como o líder dos "místicos". 
   Talvez isto explique porque aqueles que são atualmente rotulados de "místicos" sejam os que mais produzem pesquisas sobre mediunidade (às vezes até em consórcio com "a academia" ou associações médicas), assim como cursos de educação mediúnica e assemelhados, enquanto que os que se intitulam "científicos" vivem de retórica, exegeses, sendo, amiúde, presas fáceis de falácias.
   Eu proporia --  se não fosse contribuir para a proliferação de classificações e interpretações que alimentam polêmicas estéreis --, o resgate de uma "classificação" dos espíritas já proposta por Kardec no início dessa história toda.  É aquela que consta no item VII da Conclusão do Livro dos Espíritos,  que a seguir reproduzo e, para não fugir à tradição, já devidamente adulterada por mim:
   Num primeiro grau teríamos "os que crêem nas manifestações e se limitam a constatá-las: para eles, é uma ciência de experimentação".  Poderíamos chamá-los de "cientistas"?  Talvez existissem nos tempos de Kardec. Hoje, não os enxergo: nem algures, nem alhures.  A não ser que incluamos aqui os inúmeros espíritas que, nos mais de quatro mil centros espalhados pelo país, praticam diariamente a mediunidade (ou, ao menos praticavam antes da pandemia).
   Em segundo lugar, ou num segundo grau, teríamos "os que compreendem suas consequências morais".  Poderíamos chamá-los de "filósofos"?  Ou, talvez, nesta categoria estejamos todos nós que vivemos discutindo na web o que seria o "verdadeiro espiritismo", sempre o nosso, claro, nunca o dos outros. 
   E, finalmente, num terceiro grau estariam "os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral".  Como os chamaríamos? "religiosos", "místicos", "cristãos", "praticantes"?  Enfim, são os que,  alheios ou indiferentes às batalhas políticas que se desenvolvem em busca do poder sobre o minguado número de espiritas, seguem tentando mudar o mundo através das pequenas mudanças comportamentais encetadas em si mesmos.
   E devem existir também os que somam em si todos esses estágios. Se não os vejo certamente é porque são discretos, ou, pior, é porque não sou um deles, ainda apegado que estou à natureza física do mundo e das coisas.

domingo, 22 de novembro de 2020

MARX E O ESPIRITISMO

As relações possíveis entre as grandes ideias surgidas no Século XIX que agitaram a humanidade e continuam agitando neste primeiro quarto do Século XXI, principalmente socialismo, espiritismo e evolucionismo, têm sido uma preocupação constante e saudável, de cunho puramente metafísico ou prático, no meio espírita. Desde o empolgante discurso do "Jacozinho"(1), amplamente divulgado nos anos sessenta pelo MUE-Movimento Universitário Espírita -- e que era, na verdade, uma síntese do livro do argentino Humberto Mariotti (2) --, até os dias atuais com as manifestações de médiuns famosos navegando na onda de conservadorismo que assombra o mundo, as relações do socialismo com o espiritismo e o principal personagem histórico daquele, Karl Marx, têm sido objeto de conjecturas, pesquisas e discussões.

Agora, para apimentar ainda mais o debate, surge-nos uma informação diretamente da fonte - o próprio Marx -, sobre o que ele pensava do espiritismo. E não é bom o que este manuscrito nos revela sobre o pensamento de Marx. A informação foi divulgada pelas páginas do Facebook, “Imagens e registros históricos do Espiritismo" e "AllanKardec.online" (3) , dirigidas pelos pesquisadores da historiografia espírita, Carlos Seth Bastos e Adair Ribeiro.

Diz a página: “Um leilão realizado em Paris em 11/12/2018 nos mostra uma carta de Karl Marx endereçada ao Sr. Maurice Lachâtre, ex-sócio de Allan Kardec no Banco de Trocas, de 11/02/1873. Quando comentando sobre a obra de Eugène Sue, conforme a descrição dada no site, entre várias informações, ele diz: "Quant à son dernière œuvre je n'en peux juger parce que je n'en ai eu que la première livraison. Mais il est infecté comme le socialisme français de son époque de sentimentalisme. Il y mêle du spiritisme que je déteste", ou numa tradução livre, "Quanto à sua última obra, não posso julgá-la porque dela só tive um primeiro contato. Mas ela está infestada, como o socialismo francês de sua época, de sentimentalismo. Ela mistura isso ao espiritismo que eu detesto"(4)(4b).

Não é a primeira vez que Marx tenta alcançar com um só dardo essas duas ideias: espiritismo e socialismo utópico. Em seu “O Capital”, Volume I, Seção I, Capítulo I, Item 4, quando discorre sobre o “caráter fetichista da mercadoria e seu segredo” o exemplo escolhido para discorrer sobre a transformação da matéria em mercadoria é a mesa. Talvez por um outro certo fetiche em relação à mesa, assim ele termina o parágrafo: "Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e em sua cabeça de madeira nascem minhocas que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria.” Como se a insinuação às mesas girantes não fosse clara, ele acrescenta uma Nota à quarta edição alemã: "Vale lembrar que a China e as mesas começaram a dançar quando todo o resto do mundo ainda parecia imóvel – pour encourager les autres” [para encorajar os outros]. Não é exagero supor que “os outros encorajados” são os socialistas utópicos. E seu parceiro Engels detalha mais ainda em Nota à Nota: “Após as revoluções de 1848, a Europa entrou num período de reação política. Enquanto nos círculos aristocráticos e burgueses europeus surgiu um entusiasmo pelo espiritismo, particularmente por práticas com o “tabuleiro Ouija”, na China desenvolveu-se um poderoso movimento antifeudal, especialmente entre os camponeses, que ficou conhecido como Rebelião Taiping”(5).

Parece que Marx tinha o socialismo francês ou utópico e o espiritismo como alvos preferidos. Isto se deve às relações entre estas duas ideias. Os autores franceses Aubrée e Laplantine (6) dedicam um capítulo a tais relações. Chegam a dizer que “um é literalmente incompreensível sem o outro”. O próprio Kardec cita, em sua Revista Espírita, diversos socialistas utópicos como “precursores” do espiritismo. Charles Fourier, Jean Reynaud, Eugene Sue, Lammenais, não só são citados como, alguns, comparecem com mensagens psicografadas. Eugene Sue chega a antecipar o existencialismo sartreano, também socialista, com esta frase numa mensagem mediúnica na Revista Espírita de março de 1867: “Para que o mundo esteja em progresso, é preciso que cada um deixe uma lembrança útil de sua personalidade, uma cena a mais nesse número infinito de cenas úteis que os membros da Humanidade deixaram, desde quando a vossa Terra serve de lugar de habitação aos Espíritos"(7).

Os escritos memorialistas de Kardec publicados em Obras Póstumas por Leymarie em 1890 dão um exemplo conhecido da “mistura” entre socialistas e espíritas em torno das mesas girantes e das médiuns famosas de Paris. Trata-se de uma sessão mediúnica ocorrida na casa do Sr. Roustan em 30 de abril de 1856, sendo médium a Srta Japhet, na qual estaria presente um tal Sr. M... Por ser este senhor um ativista político logo cogitaram de que fosse o Karl Marx. Abordei o assunto no meu blog em 2011 e não me foi difícil demonstrar que, segundo os dados históricos conhecidos, tal cogitação não se sustentava (8).

Não seria fácil colocar Marx em Paris naquela data considerando sua agitada trajetória devida às suas atividades teóricas e políticas. Em 1856 Marx morava em Londres, tinha enormes dificuldades para manter-se, a si e a à família, o fazia com a ajuda de seu amigo Engels e com artigos a jornais, além de sofrer enormemente com a saúde abalada, o que dificultaria qualquer viagem, ainda mais para o outro lado do canal. Ele havia sido expulso de Paris em 1845, ainda sob a monarquia; foi viver em Bruxelas, na Bélgica, de onde foi expulso em 1848; voltou à Alemanha de onde foi expulso em 1849; tentou voltar a Paris mas o governo francês, mesmo sendo republicano naquele momento, o impediu de fixar-se ali. Assim, no mesmo ano, com a ajuda de amigos, rumou para o exílio definitivo em Londres. Era, a esta altura, já um líder comunista bastante conhecido, não passaria, portanto, incógnito na Paris de 1856, onde poderia ser até preso pela então ditadura de Napoleão III.

Vejamos um pouco do perfil do Sr. M..., traçado por Kardec: "O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas, envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar em evidência. Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo". Alguma coisa até poderia bater com Marx; mas nunca o "homem brando e inofensivo". Muito menos seria ele alguém que precisasse de conversa com espíritos para "acreditar em alguma subversão e aprestar-se a tomar parte". Àquela altura, ele e Engels já haviam lançado o manifesto comunista e fundado a Liga dos Comunistas; portanto, eles faziam as subversões, não apenas "tomavam parte nelas". Para completar, na sessão do dia 12 de maio, desta vez na casa do Sr. Baudin, o próprio Espírito Verdade teria dito sobre o Sr. M...: "Muito ruído. Ele tem boas ideias; é homem de ação, mas não é uma cabeça". Marx, por seu lado, era a principal cabeça do socialismo científico que, naquela época e em quase todas as instâncias, substituía o socialismo utópico dos quais muitos adeptos integravam a equipe de Kardec.

Agora, uma nova evidência vem confirmar minha conclusão no blog. Uma carta de Marx para Engels inserida em “Marx Engels Obras Escolhidas”, da Editora Avante, datada em Londres, de 16 de abril de 1856, que também me foi apresentada pelos pesquisadores Adair Ribeiro e Carlos Seth Bastos (9). Na carta ele relata sua presença num banquete relativo ao aniversário de um jornal popular inglês dois dias antes, honrado com convite (enquanto os franceses pagaram entrada) e encarregado do primeiro discurso da festa. Não iria, portanto, sair dali às pressas, para chegar em Paris duas semanas depois, para uma sessão mediúnica da qual sairia afoito para “tomar parte em alguma subversão”.

Além de Marx, seu parceiro Engels também hostiliza o espiritismo. Com mais acidez ainda. Em sua “Dialética da Natureza”, no último capítulo, depois de discorrer sobre o que considera a inutilidade da pesquisa psíquica, chega a dizer, citando Huxley, que o espiritismo é o maior antídoto contra o suicídio, porque o sujeito vai preferir varrer a gare da estação a morrer e ser condenado a dar consultas a um xelim a hora por uma médium.(9b)

Mas o mais interessante é que a associação entre socialismo e espiritismo e o tratamento hostil a essas duas ideias não foi privilégio da esquerda. Podemos encontrá-la também entre o protestantismo liberal/conservador (alguns diriam “reacionário”) americano. Aliás, o primeiro registro existente do emprego do neologismo “espiritismo” (e não o foi no sentido de simples necromancia como alguns sugerem) o associava ao socialismo. Vejamos como os protestantes americanos inauguraram o neologismo “espiritismo” (uma vez que o neologismo “socialismo” já existia há uns dez anos) em sua revista “The Protestant Quarterly”, Vol. X, 1853, editada pela American Protestant Association:
“Por afinidade natural, as variedades de infidelidade estão preparadas para se aglutinar, assim que são postas em contato. Socialismo e espiritismo são homólogos; e pouco importa qual seja a fase da infidelidade, a atração central da descrença superará todos os antagonismos menores, e a infidelidade de todos os matizes e formas será encontrada em concordância cordial sempre que chegar à pedra de toque da verdade revelada. Todos igualmente detestam a palavra e o governo de Deus. Todos igualmente odeiam a santidade e riem da virtude para cometer - e todos visam, com um zelo que não conhece abatimento, a subversão total da família, o sábado, os direitos de propriedade, a igreja, o ministério, a lei, a magistratura, e toda autoridade, rejeitando as restrições que a liberdade exige para sua proteção, e esperando, ansiando e trabalhando por nada tanto quanto pela crise, quando eles podem fazer sua atual oposição organizada a todas as instituições civis e religiosas sobre a estrutura atual da sociedade”(10). A tal “infidelidade” é, evidentemente para com a Bíblia.

Os autores já citados, Aubrèe e Laplantine, lembram muito bem que “Kardec, um burguês liberal, não frequentava pessoalmente este meio socialista”. Aliás, podemos constatar em alguns dos seus escritos sua rejeição ao comunismo. Mas, herdeiro do espiritualismo racional de Victor Cousin (o que se constata pelo subtítulo de O Livro dos Espíritos, “Filosofia Espiritualista”, e pela alta frequência na “codificação” de textos de intelectuais colocados pelos historiadores da filosofia nessa escola), ele “é um aliado natural de todas as causas justas da humanidade”(11). E nos seus textos sobre a propriedade (tanto no Livro dos Espíritos como, principalmente, no Evangelho Segundo o Espiritismo) pode-se notar um contraponto no diálogo entre ele e os espíritos, estes tendendo mais para uma função social da propriedade enquanto aquele lembra a aquisição pelo esforço próprio.

Enfim, este é um assunto amplo que pode ser tratado de diversas maneiras e sob diversos aspectos. Não só a equação, mas cada um de seus membros em separado. Espiritismo é uma palavra com várias acepções e diferentes interpretações para cada acepção. Mesmo o histórico da palavra é complexo. No entanto, nunca faltarão os que defendem a existência de um único conceito e a certeza de que se trata de um assunto tão claro, ao contrário de todos os outros, que dispensa interpretações. O mesmo ocorre com a palavra socialismo. Apesar da existência de várias formas de socialismo – ou várias práticas e teorias que se alojam sob esta denominação --, não faltarão aqueles que defendem a existência de apenas um tipo, geralmente considerado ateu e materialista.

Notas:
(1) "Espiritismo e Marxismo" - Jacob Holzmann Neto http://bvespirita.com/Espiritismo%20e%20Marxismo%20(Jacob...
(2) "O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização" - Humberto Mariotti http://bvespirita.com/O%20Homem%20e%20a%20Sociedade...
(6) “La Table, Le Livre et les Esprits”, Marion Aubrée et François Laplantine, JCLattès, 1990.
(9b) P.S.: Esta citação foi feita aqui de forma resumida e imprecisa porque ela não se encontra disponível na internet e eu estava distante do exemplar físico no momento da postagem.
Agora posso melhor detalhá-la:
"A Dialética da Natureza", Friedrich Engels, Editora Paz e Terra S/A, 3ª edição, 1979, São Paulo. E a íntegra do último parágrafo da obra é: "E assim, se vê obrigado o empirismo a refutar os importunos visionários espíritas, não por meio de experiências empíricas, mas sim apoiando-se em considerações teóricas e dizendo, com Huxley: 'A única coisa boa que consigo ver na demonstração da verdade do espiritismo é que ele fornece um argumento mais contra o recurso ao suicídio. É melhor viver como um varredor de rua do que morrer e ser obrigado a dizer tolices através de um médium que recebe um guinéu por sessão!"
(10) A revista relacionava vários “ismos” como sinal do fim dos tempos. Abordando desde Hydesville até a movimentação em torno dos fenômenos que ocorria nos Estados Unidos da época, chegaram ao neologismo “spiritism” partindo de “spirit rapper”. Outras obras repercutiram os argumentos utilizados por esta revista contra o espiritismo, bem como o neologismo, todas elas dentro do mesmo contexto, como se tivessem copiado ou nela se inspirado:
- “Spirit Rapping Unveiled”, Reverendo Hiram Mattison, 1853.
- “The Spirit Rapper. An Autobiography”, Orestes Augustus Brownson, 1854.
- “Apocastasis or Progress Backwards”, Leonardo Marsh (Um Vermont), editado em Burlington por Chauncey Goodrich, 1854

 

 

 
 

   


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

PREFÁCIO À TRADUÇÃO PORTUGUESA DE "O LIVRO DOS ESPÍRITOS", inserido na Terceira Edição, de Abril de 2018.

   Na observação da História costumamos dar mais atenção às revoluções violentas, abruptas, distraindo-nos, amiúde, em relação àquelas despretensiosas, quase invisíveis, que desenrolam seus efeitos lentamente ao longo do tempo, quebrando velhos paradigmas e erigindo novos. 
  Ousamos dizer que o presente livro, lançado em sua primeira versão no dia 18 de abril de 1857, representa uma dessas revoluções silenciosas: a Revolução do Espírito. Pois os fatos, também demonstrados pela História, estão a nos dizer que durante muitos séculos, milênios mesmo, a ênfase dos interesses humanos foi, ao menos pretensamente, direcionada a Deus. Era um paradigma teocrático, que gerava um Estado teocrático, sustentado por uma poderosa instituição sacerdotal, com sua hierarquia sólida, seus ritos mágicos e sua capacidade de sugestão controlando as massas. O comportamento era subordinado à suposta vontade divina e, a adoração, aos seus desejos. E, muito sangue foi derramado pelas religiões em nome da Divindade. 
  Depois, com a evolução humana, chegamos ao mundo moderno, no qual a filosofia universalizou-se e foi construída uma ciência baseada na dúvida, na observação, na pesquisa e experimentação, mas, principalmente, na ausência do medo de pensar. Construiu-se, assim, o paradigma humanista, onde a ênfase é retirada da Divindade e passa a ser dada ao Homem, suas necessidades, seus direitos, suas aspirações e suas destinações. E, novamente, muito sangue foi derramado pelas revoluções em nome da Humanidade. 
  Com este livro, e a consequente elaboração de uma nova mundividência, podemos enxergar no horizonte a emersão de um novo paradigma, onde a ênfase que já foi exclusiva da Divindade e, depois do Homem, transcende o imediato e passa a ser dada ao Espírito, ou seja, à nossa individualidade que sobrevive à extinção do corpo físico. Esperamos, pelas próprias características desta revolução e, com um pedido de desculpas pela irreverência da comparação, que nenhum sangue venha a ser derramado em prol da Espiritualidade ou de suas possíveis interpretações. 
  Neste novo paradigma, a própria Teologia deixa de ser dependente da crença, tornando-se um conhecimento conseguido pela razão, onde se retira de Deus suas conformações antropomórficas para redesenhá-lo em nossas mentes e em nossos corações através dos atributos que consigamos lhe conferir.  A Cosmologia não é mais ditada pela mitologia, mas construída a partir do método experimental das Ciências, tão falível quanto perfectível.  A Psicologia passa a contemplar um ser interexistente, que existia antes do próprio nascimento, existe durante a vida e, continua a existir após a morte, retornando à História quantas vezes necessárias para o seu pleno desenvolvimento e progresso; além de manter constante comunicação entre as diferentes etapas da existência permanente.  A Sociedade deixa de ser concebida como resultado da simples soma dos esforços das várias gerações, e passa a ser entendida como o resultado da sinergia entre essas diversas gerações, pois que, elas não mais apenas se sucedem, como também convivem, ainda que em situações existenciais diferentes. E as angústias do homem quanto ao seu futuro, quanto às penas e gozos que eventualmente o esperem após a passagem solitária pela morte, são-lhe delineadas pelo testemunho mesmo dos que se foram, através do mecanismo da mediunidade, experimentado e testado sob os rigores da observação científica.   Este é o novo paradigma que o presente livro e as obras subsequentes que o completam está construindo. O Paradigma do Espírito, da imortalidade, da responsabilidade individual pelos próprios atos e, da multiplicação ao infinito das oportunidades de correção e progresso. 
  Com este caráter e destinação, "O Livro dos Espíritos" mereceu várias traduções em diferentes idiomas, permitindo a extensão de sua influência a diversos povos e países. Aos falantes da língua de Camões (última flor colhida no canteiro da latinidade, parodiando os poetas), têm sido oferecidas, até então, traduções feitas por brasileiros. Traduções bem esmeradas; elegantes umas, simples e práticas outras. Porém, agora, somos brindados com uma tradução feita diretamente para o português europeu, enriquecendo a bibliografia espírita com uma versão na expressão genuína de um idioma que, por estender-se em vasto território, de quatro continentes, não poderia deixar de gerar suas diferenças regionais. 
  Mas, não é somente neste ineditismo que se assentam as qualidades da presente tradução. Existem outras; e, para falarmos delas, é mister que teçamos algumas considerações sobre os rumos tomados pelo Espiritismo em sua história. Apesar de ser um movimento de ideias que apela constantemente à razão, ao bom senso, à pesquisa e à experimentação, o Espiritismo não logrou livrar-se das imperfeições daqueles que tomaram para si a tarefa de levá-lo ao conhecimento de todos os agrupamentos humanos. Allan Kardec deixou um roteiro seguro para que os novos conhecimentos científicos ou as novas informações porventura transmitidas pelos Espíritos passassem a compor com segurança o rol dos fundamentos doutrinários. Foi o método que ele próprio usou e que detalhou na Introdução de uma de suas Obras, "O Evangelho Segundo o Espiritismo", chamando-o de "Controle Universal do Ensino dos Espíritos". Entretanto, seus continuadores negligenciaram o método, e o Espiritismo começou a sofrer desde os primórdios, logo após o desencarne do Mestre, de enxertias místicas tributárias de velhos atavismos religiosos. E tal misticismo, ressurgido das profundezas do inconsciente coletivo das massas, agregou-se de tal modo às práticas espíritas que até hoje influencia as opiniões de seus adeptos, ainda que de forma subjacente e de difícil conscientização, gerando toda uma literatura e um conjunto de crenças, quase sempre incompatíveis com a simplicidade e pureza dos princípios originais identificados pelo fundador do movimento. 
  É precisamente neste ponto que ressaltam as qualidades da presente tradução. Por um lado, há a preocupação com a linguagem. A língua é uma substância viva, em evolução permanente, gerando novos falares, alterando significados, sempre ao sabor dos acontecimentos fortuitos vividos pela coletividade dos falantes dos diferentes idiomas. Os tradutores investiram seu "engenho e arte" na apreensão dos significados contextualizados no momento do surgimento da obra, traduzindo-os, o mais fielmente possível, não somente para outro idioma, mas, também, para outra época. Além disso, enriqueceram a edição com preciosas Notas, nas quais são trazidas, para ampliar a compreensão da obra, tanto informações valiosas sobre novas descobertas ou conceituações científicas, quanto conjeturas de cunho interpretativo e esclarecedor, seja da própria lavra dos tradutores, seja garimpada na contribuição de diversos outros pensadores espíritas. Em sua busca pela fidelidade ao pensamento do autor, pela simplicidade na exposição do conteúdo, e pelas Notas referidas, os tradutores conseguiram construir um texto que contribui, sem dúvida nenhuma, para o retorno do próprio pensamento espírita às suas origens racionais e sóbrias, dignas de um movimento científico e filosófico. 
  Eis a tradução que ora se coloca à disposição não apenas dos portugueses, mas de todos os habitantes do oceano lusófono. Uma tradução viva, no dizer dos próprios autores. Uma contribuição valiosa para a compreensão do Espiritismo conforme o pensamento do seu fundador. Oxalá, sirva de exemplo para outros trabalhadores desta promissora seara.

Texto inserido como "Palavras de Acolhimento" na tradução de "O Livro dos Espíritos", de José da Costa Brites e Maria da Conceição Brites.  

quarta-feira, 8 de abril de 2020

"ESPIRITISMO, ESTA LOUCURA DO SÉCULO XIX"

"Espiritismo, esta loucura do século XIX" é o título do livro de Augusto Araújo, lançado pela Fonte Editorial em 2016, que considero, dentre todos os textos oriundos de teses acadêmicas, o que mais fundo penetrou na questão da identidade do Espiritismo como ciência, filosofia ou religião.
Mas, não é sobre o livro que pretendo comentar. É sobre a frase-título.
Ela consta do livro "A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo", na 5ª Edição de 1869, Capítulo X, Item 30, assim: "eh bien! le Spiritisme, cette folie du dix-neuvième siècle, selon ceux qui veulent rester au rivage terrestre, ..." -- "Pois bem! o Espiritismo, esta loucura do século dezenove, segundo os que se obstinam em permanecer na margem terrena, ...".
Consta, então, na edição de 1869 -- a que tem sido reproduzida pelas inúmeras editoras até os dias de hoje e, considerada por muitos como a versão definitiva --, mas, não consta nas edições de 1868.
Entretanto, não foi na Gênese a primeira vez que Kardec serviu-se desta expressão.
Na Revista Espírita de setembro de 1860, quando comenta o livro "História do Maravilhoso e do Sobrenatural", de Louis Figuier (posteriormente colocado no Catálogo Racional com o título "História do Maravilhoso nos Tempos Modernos"), Kardec escreve: "or, les racines du Spiritisme, de cet égarement du dix-neuvième siècle, pour nous servir de son expression,..." -- "Ora, as raízes do Espiritismo, esta loucura (ou desvario, desvio, extravio, erro, alucinação) do século dezenove, para nos servirmos de sua expressão..."
O título do livro do Augusto Araújo não é, portanto, como julgaram alguns, uma crítica do autor ao espiritismo; ele apenas pinçou da kardequiana a frase.
Trata-se da crítica de outro autor, do próprio Século XIX, reproduzida de forma irônica por Kardec em dois momentos, num recurso estilístico que pode funcionar como evidência de autoria nas duas oportunidades. Ou seja, a utilização de uma frase rara, por Kardec, nessas duas ocasiões, torna-se mais um indicativo de que ele próprio fez as revisões na quinta edição da Gênese.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

SÍNDROME DA TRAIÇÃO


O que torna uma ideia progressista é a capacidade crítica daqueles que a seguem ou a estudam.  Quando a crítica é calada, contida, censurada ou, simplesmente mal vista, qualquer ideia perde seu caráter progressista.  Para que uma ideia seja disseminada, levada ao maior número de pessoas e se candidate a influenciar de algum modo o pensamento humano, ela precisa ser organizada em um movimento.  Esse movimento a transporta entre as mentes para que ela seja conhecida, debatida e exerça sua influência.  Para ser organizada a ponto de poder ser transportada, ela precisa ser definida, fixada, estabelecida em seus mínimos detalhes, para que se mantenha dentro de uma certa ortodoxia, pureza ou unidade de pensamento.  Aí está o paradoxo: a ideia, quando organizada em movimento, torna-se o cadáver da ideia;  ela necessita de um esquife para o transporte.  Muitas ideias surgem como produto da razão, da ciência, da dialética, da necessidade.  E, por esta gênese mesma, nascem com certa aversão à crença, à tradição, ao dogmatismo.  Porém, no afã de organizar-se e manter-se para a disseminação, elas acabam reproduzindo as estruturas que condenam.  Na prática e, pelo comportamento do seus adeptos, elas se tornam crenças dogmáticas.  O que antes era ciência ou filosofia, torna-se religião.  Qualquer crítica, qualquer revisão de princípios, argumentos ou justificativas, torna-se um perigo para o conjunto da crença, geralmente monolítico e autônomo.  E, para proteger a ideia, agora transformada em crença, para evitar a crítica de seus princípios, suas conclusões, seus valores (processo doloroso para o crente), o adepto engendra um bode-expiatório:  a traição.  A ideia, com pretensões científicas ou filosóficas em sua origem, não se tornou dogmática devido aos erros intrínsecos.  Afinal, para ser mantida incólume, íntegra, ela não pode conter erros intrínsecos. Seu fundador, de  forma explícita ou disfarçadamente erigido à condição de um revelador da verdade, não pode ter errado e, assim, deve ser cultuado.  Ela tornou-se dogmática, ou seja, o que se pretendia produto da razão tornou-se uma nova seita religiosa, devido aos traidores, aos que a desviaram de seus objetivos originais.  Assim, o processo torna-se menos doloroso, porque menos racional e mais emotivo, visceral.  Não se aprofunda a crítica à ideia:  fica-se na superfície remoendo fatos históricos de seu processo de disseminação, procurando e enumerando culpados pelos desvios doutrinários, cassando bruxas.  A ideia permanece no esquife;  a luta se desenvolve na sala do velório, sem que ninguém note, ou admita,  que estão numas exéquias.
A busca  de culpados externos -- e, não a análise impiedosa do próprio conteúdo da ideia --  para a compreensão da contradição entre intenção e prática, é a fuga da crítica, é a negação do progresso ou do seu progressismo original.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

AINDA SOBRE TRADUÇÕES


Recebi meu exemplar da Edição Histórica Bilíngue de “A Gênese”, de Allan Kardec, traduzida pelo Evandro Noleto Bezerra e editada pela FEB, da qual tomei conhecimento pelos blogueiros espíritas.
Ao contrário de certos espíritas que agem com espírito de seita procurei observar a edição com imparcialidade e independência, como tenho feito em todas as análises por mim publicadas.  Livre pensamento é algo para ser exercido e, não, utilizado como camuflagem para a arrogância e a ignorância.  Não é porque a FEB é digna de críticas pelas suas pretensões vaticânicas em relação ao movimento espírita que iremos negar seu cuidado editorial e seus méritos por ter divulgado em língua portuguesa, por várias décadas, uma ampla bibliografia espírita.  E o cuidado editorial se manteve na presente edição.  Noleto Bezerra é, sem dúvida, o melhor tradutor de Kardec que existe no mercado.  Ao lado disto, uma boa revisão impediu que sua tradução apresentasse erros crassos de concordância e pontuação como encontramos abundantemente na edição FEAL, da mesma obra, traduzida pelo professor Imbassahy; erros passíveis de levar seu leitor a entender erroneamente o pensamento de Kardec.   O mais alarmante – e que mais identifica o espírito de seita – é a manifestação de um dos adeptos da “cruzada pela restauração da Gênese” feita num dos seus grupos no facebook:  -“Vamos esperar a publicação da tradução do Noleto para ‘checarmos’ a fidelidade com a do Imbassahy”.  Isto vale um “!?” (sinal de espanto).  Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência e de senso crítico sabe que a verdadeira comparação tem que ser feita com o original de Kardec.  Por isso a edição da FEB traz, reproduzida em fac-símile (ou seja, em imagem) a versão original de 1868.  Qualquer leitor interessado poderá fazer de imediato a comparação item a item e verificar a fidelidade ou as licenciosidades eventualmente cometidas pelo tradutor, sem necessidade de “gurus” lhe dizendo o que achar ou pensar.  Ao mesmo tempo, poderá utilizar a reprodução em fac-símile (ou outra qualquer dentre as disponíveis na web) para descobrir por si mesmo os erros (de tradução, concordância, pontuação, etc.) cometidos na versão da FEAL, tenham eles sido cometidos pelo tradutor ou pelos revisores.


domingo, 9 de junho de 2019

OBRAS PÓSTUMAS


Todos sabemos que a última obra redigida por Kardec foi a Revista Espírita de Abril de 1869.  Porém, não sei se ela já estava impressa no momento em que ele morreu em 31 de março, se foi ele quem a distribuiu e se realmente anexou, ou anexaram, o tal catálogo das obras para formação de uma biblioteca espírita que ele promete no editorial.  Ainda no editorial da Revista de Abril ele anuncia a nova sede do espiritismo -- à rue de Lille, 7 --, onde funcionará a Sociedade e a Livraria Espírita, administrada por um gerente, enquanto a sede da redação continuaria com ele, em sua residência à Avenida e Vila Segur, 39, atrás dos Inválidos.  Como se costuma dizer: o homem põe e Deus dispõe.  Morreu, segundo o editorial da Revista de Maio, no momento mesmo em que fazia essas mudanças de endereços.  A Revista de Maio torna-se, então, o panegírico do mestre estimado e respeitado pelo mundo cultural.  Além disto, este número da Revista nos traz informações importantes sobre o futuro do movimento espírita.  A nova Diretoria da Sociedade de Paris para o biênio 1869/1870 é composta pelos senhores Levent (vice-presidente de Kardec na anterior), Malet (presidente na atual), Canaguier, Ravan, Desliens, Delanne e Tailleur. A Revista Espírita será administrada pelo Sr. Bittard e redigida pelo Sr. Desliens.  A Senhora Allan Kardec  (como todos sabem, Amelie Gabrielle Boudet) única proprietária legal das obras e da Revista, decide doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes dos livros e da Revista, mas pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas e regular todos os gastos.  

Conforme estabelecido,  um mês depois, junho de 1869, a Revista  já está sob a direção do Desliens.  E, ele a inicia, em seu editorial, com o anúncio da publicação em série, nas próximas edições, das obras póstumas de Allan Kardec:
"Para os assinantes da Revista
Até hoje, a Revista Espírita tem sido essencialmente o trabalho, a criação do Sr. Allan Kardec, como de resto,  todas as obras doutrinárias que ele publicou.
No momento em que a morte o surpreendeu, a multiplicidade de suas ocupações e a nova fase em que o Espiritismo entrava, fizeram com que ele desejasse unir-se a alguns colaboradores convictos, para executar, sob sua direção, obras para as quais já não se julgava suficiente.
Faremos o possível para não nos desviarmos do caminho que ele nos traçou. Mas parece-nos nosso dever consagrar aos trabalhos do mestre, sob o título de obras póstumas, algumas páginas que ele teria reservado se permanecesse corporalmente entre nós. A abundância de documentos acumulados em seu gabinete de trabalho, nos permitirá, por vários anos, publicar em cada edição, além das instruções que ele achar por bem nos dar como Espírito, um desses artigos interessantes que ele sabia como tornar tão bem compreensíveis para todos.
Temos a certeza de satisfazer, assim, os desejos de todos os que a filosofia espírita reuniu em nossas fileiras, e sabem estimar no autor do Livro dos Espíritos, o homem de bem, o trabalhador infatigável e dedicado, o espírita convicto, se esforçando em suas vidas privadas para pôr em prática os princípios que ele ensinou em suas obras." 

Ainda nesta edição é anunciado o Museu do Espiritismo, com o qual sonhara Kardec, assim como as decisões sobre a pedra tumular.



A Revista de Agosto de 1869 traz a criação da Sociedade Anônima, preconizada por Allan Kardec em seu artigo na Revista de Dezembro de 1868.

Sobre os objetivos desta Sociedade prefiro servir-me do texto de Berthe Froppo, em seu opusculo "Muita Luz":

"É bom, penso eu, colocar diante dos olhos dos meus irmãos de fé os artigos e os estatutos da Sociedade anônima. (Ver a Revista do mês de agosto de 1869, página 237).

SOCIEDADE ANÔNIMA

A Sociedade anônima fundada pela Sra. Allan Kardec tem por objetivo tornar conhecido o espiritismo por todos os meios autorizados pelas leis.   Ela tem por base a continuação da Revista Espírita fundada por Allan Kardec, a publicação das obras deste, incluindo suas obras póstumas e todas as obras que tratam do espiritismo".



A Revista e a Sociedade manifestavam, portanto, claramente seu desiderato de publicar postumamente os resultados do trabalho de Kardec.  O que era e é perfeitamente legal. Tanto na legislação incipiente da França na época, como internacionalmente hoje em dia, pela Convenção de Berna -- um texto muito citado mas pouco lido -- que, em seu Artigo 6º, alínea 1, preconiza que os direitos do autor à integridade de seu trabalho se estendem após a morte e, neste caso, segundo a alínea 2 do mesmo artigo, tal direito será exercido "pelas pessoas ou instituições às quais a legislação nacional do país onde a proteção é reclamada atribui qualidade para tal".  Portanto, Amelie, a legítima herdeira, era a pessoa legitimamente credenciada para levar à publicação qualquer trabalho póstumo de Kardec.
Não obstante, alguns "graduados" tupiniquins são de "parecer" que tal procedimento só seria válido se o autor deixasse assinado uma autorização para publicação de suas revisões ou textos inéditos!  Isto não "ecziste", como diria aquele padre falecido.  Nem nunca existiu.  O autor trabalha seus textos, faz suas revisões, sem se preocupar com a morte.  Ninguém sabe quando vai morrer;  ninguém quer morrer.  Todos nós, enquanto vivos, não vamos morrer nunca;  pois a morte, do ponto de vista positivo, só é vivenciada pelos outros.  Existem, claro, alguns que se preocupam com testamentos; mas sobre coisas já definidas e escrituradas. Imaginar-se em alguma época, em algum lugar,  um autor trabalhando, em processo criador e, a cada revisão interrompendo para escrever que autoriza este ou aquele a publicar se ele morrer daí a pouco, é não saber nada, não só dos processos criativos como editoriais.  Ou é "chutar" sem ter o trabalho de imaginar a situação concretamente.  Sempre que um autor morre debruçam-se sobre seu baú em busca de textos inéditos; sempre sob a batuta do herdeiro legítimo.  Se não fosse assim não teríamos a obra prima do Pascal, não teríamos muita coisa de Nietzsche, de Leminski e muitos outros.  Não teríamos um texto do Jaci Régis encontrado em seu computador pessoal e divulgado amplamente.  
Mas, vamos lá. Vamos supor que alguém, mais de século depois de  Kardec, resolva questionar na justiça uma determinada obra (afinal, as teorias conspiratórios rastreadoras de holofotes questionam tanto a existência de um Shakespeare há quinhentos anos, quanto uma descida na Lua há cinquenta!) e ocorra a tragédia (e a tragédia moderna é um certo tipo de juiz) de encontrarmos pela frente, juiz da causa, um desses autores de pareceres.  Daí, para contentá-lo poderíamos mostrar alguma preocupação de Kardec (ainda que remota pois não sabia que morreria em poucos meses) sobre isto.  No artigo já citado, dezembro de 1868, justificando a criação de um "comitê central", ele escreve: "Para completar a obra doutrinária, resta-nos publicar várias obras, que não são a parte menos difícil, nem menos penosa".  E, logo adiante, citando as atribuições do comitê: "8º - A publicação das obras fundamentais da Doutrina, nas condições mais adequadas à sua valorização.  A confecção e a publicação das que nós daremos o plano e que não tivermos tempo de fazer em nossa vida".  Servindo-nos dos malabarismos retóricos de algumas seitas do movimento espírita: "obras" de um autor é igual ao "trabalho" do autor;  qualquer trabalho, completado ou não.

Esta é a história do livro "Obras Póstumas", de Allan Kardec que, apesar de editado somente em 1890, teve toda sua parte doutrinária publicada logo em seguida ao desenlace do autor, pela sua esposa e legítima herdeira juntamente com o "comitê", em seguidas edições da Revista, durante os próximos dois anos.
Quanto ao "livro das previsões concernentes ao Espiritismo", inserido no mesmo livro... teríamos que iniciar outra história...

quarta-feira, 29 de maio de 2019

TRADUTTORE TRADITORE?






Segundo alguns a expressão acima irrita os tradutores e, seguramente, posso tê-los perdido como leitores apenas pelo fato de usá-la.  Isto porque ela é injusta quando generalizada.  Aliás, toda generalização é injusta.  Mas, comigo aconteceu.  Precisei preparar uma aulinha no último centro que frequentei sobre o primeiro capítulo do livro "A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo" e, como costumo colecionar traduções, fui logo servir-me da mais pretensiosa, a que faz questão de ostentar na capa o epíteto de "autêntica".  Trata-se da tradução do ilustre professor Carlos de Brito Imbassahy, publicada pela Fundação Espírita André Luiz e, segundo a folha de rosto, feita conforme a "1ª edição francesa".  Qual não foi minha surpresa quando, já no início,  dou de cara com uma traição!

Kardec nomeou o primeiro capítulo de "Caractères de la révélation spirite".  Eu já havia  me entristecido há cerca de uns dez anos quando vi a tradutora Albertina Seco, pela editora CELD, traduzir para "Fundamentos da revelação espírita".  Mas, a tradução da Seco tem o mérito de avisar lealmente sobre suas alterações que, aliás, não são aleatórias mas seguem um critério pré-estabelecido que é o de trazer o texto para uma linguagem mais atual o que, nas suas expectativas,  facilitaria a compreensão da obra.  Já o tradutor Imbassahy traduz para "Natureza da revelação espírita" sem apresentar justificativa.  Será que estão pretendendo corrigir o estilo de Kardec?  Vá lá que ele não é nenhum Racine, como disse um amigo meu.  Mas o estilo é o homem, deve ser respeitado.  E não foi justamente disto que Henri Sausse acusou Pierre-Gaëtan Leymarie no Século XIX?  De tentar "melhorar" os escritos de Kardec?  "Ah, mas isto não tem importância", dirão.  "São sinônimos".  Sim, são sinônimos.  Mas a sinonímia nunca é perfeita, aprendi em minha juventude num curso de linguística.  Se dois vocábulos fossem sinônimos perfeitos a língua eliminaria um deles ou o relegaria a um desuso tão grande que seria encontrado apenas em escavações de eruditos.  Costumávamos ilustrar a relação de sinonímia através de círculos sobrepostos, como na figura 1. 

No espaço em hachuras é onde as três palavras são sinônimas;  nos espaços em branco dos círculos é onde cada uma delas guarda seus próprios significados.  Escrever é justamente escolher palavras.  O autor escolhe a palavra que melhor traduz o seu pensamento dentre os sinônimos disponíveis.  E, essas três palavras têm os mesmos significados no português e no francês. O que não permite alegar-se que numa língua uma fique melhor  que a outra.  Acrescente-se o fato interessante de que, na Introdução da Obra, onde Kardec justifica o título, a tradução mantém o "Caracteres".  O que deixou-a com uma aparência um tanto deformada:  uma explicação sobre um título que surge logo depois alterado.  
Existe, porém,  mais uma observação alarmante sobre este ponto específico.  Na Quinta Edição do La Genese, de 1872, o título do Capítulo foi alterado de "Caractères" para "Caractère".  Ou seja, do plural para o singular.  Ora, conforme bem o demonstrou Silvio Seno Chibeni em artigo a respeito (1), a forma singular é a que mais se presta à tradução por "Natureza"!  Qual teria sido aqui o ato falho do tradutor ou dos revisores da Edição Feal?  Rendição ao que eles chamam de "adulterações", ou simples hiposuficiência linguística?

Mas não foi o único caso.  Mais adiante, no item 6, quando Kardec fala sobre os gênios, escreve: "Se Deus suscita ("suscite", no original) reveladores para as verdades científicas, pode, com mais razão, suscitá-los para as verdades morais".  Nosso tradutor achou de melhor estilo trocar "suscitar" por "promover".  Neste caso o espaço hachurado da ilustração seria ainda mais diminuto.

"Ora", dirão, "o tradutor tem liberdade de escolha".  Afinal, ele traduz o pensamento do autor.  Só que, às vezes, as escolhas do tradutor Imbassahy (ou de seus revisores) mudam o sentido.  Como no item 5, onde Kardec diz que os homens de gênio "apportent en naissant des facultés transcendants et des connaissances innés" e todo mundo traduziu por "trazem ao nascer", o que está em perfeita sintonia com o pensamento reencarnacionista do autor; no entanto, Imbassahy pretende nos convencer que Kardec teria dito  que o homem de gênio "possui desde o nascimento" tais faculdades.  Ora, há muita diferença entre "trazer ao nascer" e "possuir desde o nascimento".

Tem mais. Folheando aleatoriamente encontrei no Capítulo XIV, "Os fluidos", logo no item 2, onde Kardec diz que os estados de imponderabilidade e de ponderabilidade da matéria elementar primitiva são "consecutivos", Imbassahy corrige colocando que o segundo é "consequência" do primeiro.  Seja sutil ou não, há diferença entre dois estados serem "consecutivos" e "consequência um do outro".

O mais interessante de tudo é que na primeira versão da tradução do Imbassahy, aquela que ele nos disponibilizou gratuitamente na internet há mais de dez anos, não existem essas traições.  Lá ele traduz direitinho e até se orgulha de registrar que "em virtude das contradições existentes nas diversas traduções da obra 'A Gênese'  de Allan Kardec, teve o cuidado de traduzir esta obra ao pé da letra, a fim de que fosse o mais fiel possível conforme o original da 3ª edição de 1868" (que, como todos sabem, é idêntica à primeira).  Agora, no texto revisado e colocado no mercado, vemos as discrepâncias.  Terão sido os revisores que adulteraram a tradução ou o tradutor que adulterou o original?
Importante ou não, temos o caso famoso da pergunta 625 de "O Livros dos Espíritos".  Em resposta à pergunta sobre qual o principal modelo para o homem, Kardec coloca como resposta "Voyez Jésus", "Vêde Jesus".  Guillon -- e Noleto o segue, o que faz parecer um vício da editora -- traduz para uma única palavra: "Jesus".  Laudas e teses foram destinadas a ilações sobre as consequências dessa diferença.  No orkut um jovem doutor e profundo conhecedor do francês disse,  certamente por ser filiado à entidade que editou Guillon,  que não há diferença alguma entre as escolhas.  Tudo bem.  Só que não interessa:  se Kardec optou por escrever "Voyez Jésus" ao invés de simplesmente "Jésus", sua escolha tem que ser respeitada.  O mesmo deve o bom senso exigir aqui.  Principalmente porque aqui se pretende a "restauração" do texto original.
Pensando em continuar a leitura da tradução a fim de ver se haviam outros erros (pois me é permitido supor que devem existir aos montes) resolvi começar do começo.  Desisti em função das afirmações do apresentador.  Segundo ele esta pretensiosa tradução "autêntica" se deve porque "em 2018 veio à tona relevante debate" (como se já não tivesse vindo em 1884, 1999, 2012, e etc.) sobre uma quinta edição feita "de forma oculta, sem conhecimento até mesmo da esposa e única herdeira de Kardec".  Bem, na postagem anterior deste blog (Restos de uma Réplica) e em muitas outras pelos diversos grupos do facebook já demonstrei à exaustão o absurdo de alguém fazer uma edição "de forma oculta" e ao mesmo tempo escrever na folha de rosto um aviso em destaque que a mesma foi "revisada, corrigida e aumentada".  O saber ou não de algo é uma coisa tão subjetiva que somente a própria pessoa pode dizer.  Três anos antes do ocorrido Madame Kardec anunciou em ata sua intenção de acompanhar de perto as reedições do marido e não existe nenhuma declaração sua em contrário bem como não há nenhuma manifestação sua de ignorância da revisão.  O que indica que ela mesma, a legítima herdeira acompanhou a edição; procedimento legal posteriormente consagrado na Convenção de Berna.  Também mostrei para uma porção de avestruzes (porque preferiram esconder a cabeça na areia) um Catálogo das publicações francesas de 1876 consignando a quinta edição da Gênese em 1873, desmentindo, portanto, "a forma oculta". 

Mas, como eu disse acima, desisti da leitura integral da tradução assim como desisto de alertar sobre a precipitação da conclusão tão apaixonadamente defendida
Nada disto adianta para quem não tem, perdeu, ou nunca teve senso crítico.  Como diz um  texto atribuído a Vargas Llosa (sendo ou não dele, a verdade do texto é clara): "cuando una de esas ficciones malignas (ahora diríamos posverdades) se encarna en la historia sustituyendo a la verdad, alcanza una solidez y realidad que resiste a todas las críticas y desmentidos y prevalece siempre sobre ellos".  
Além do quê, não pretendo ser o algoz das crenças alheias.  Cada um crê no que lhe apetece e, como diz o Marcelo Gleiser,  "o descontente, mais do que qualquer outro, precisa acreditar".



P.S. Eu deixei passar a frase: "Estes, ao falar em nome dele, têm podido ocasionalmente influenciado pelo próprio Deus", no item 9 do primeiro Capítulo.  Desafio qualquer um a entendê-la.  Ah, "erro de imprensa"? Mas, com tantos revisores?!...  O mais provável é que, no afã de corrigir Kardec e menosprezando a inteligência do leitor --  que poderia entender que Kardec está justificando o fato de serem certos mensageiros tomados pelo próprio Deus --   temeram repetir a solução encetada pelo Imbassahy na tradução original na internet:  "Estes, falando em nome de Deus, têm podido perfeitamente ser tomados pelo próprio Deus".

P.S.2 - A situação complicou mais ainda para os adeptos da "teoria da conspiração" de que "ninguém sabia", ou de que "Leymarie adulterou a Gênese", com a descoberta recente, pelo pesquisador Carlos Seth Bastos,  de uma edição "revisada, corrigida e aumentada", lançada em 1869 (e idêntica à de 1872 citada na postagem).

(1) Os artigos de Silvio Seno Chibeni sobre La Genese, a formação de seus capítulos e as diferenças entre as edições, representam o que de mais racional e isento tem sido produzido sobre o assunto.  Podem ser encontrados nos links seguintes:

http://kardec.blog.br/allan-kardec-sobre-o-carater-da-revelacao-espirita-silvio-s-chibeni/


e

http://kardec.blog.br/identificacao-de-alteracoes-em-trechos-do-capitulo-1-da-5a-edicao-de-la-genese-artigo-de-silvio-s-chibeni/