sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CIÊNCIA DA ALMA? ou O QUE É O ESPIRITISMO?

Logo após lançar O Livro dos Espíritos, onde pretendeu estabelecer a doutrina espírita, Kardec fez a pergunta acima, talvez a mais importante, crucial e angustiante pergunta feita em toda a historia do espiritismo. Ele a colocou como título de um livro onde tentou respondê-la; mas a prova de que não foi bem sucedido é que a pergunta não se calou até hoje e, a julgar pelo título e as preocupações colocadas num texto que recebi, temos ao menos mais cem anos de discussão pela frente.
Em mãos o discurso A Identidade do Espiritismo no Século Vinte e Um, proferido pelo Jaci Régis em 4.9.2010, em Bento Gonçalves-RS, num encontro promovido pela CEPA para discutir justamente essa identidade. (Veja comentário).
Ele começa o discurso sugerindo que Kardec tornou o espiritismo refém do cristianismo; estruturando uma religião pensando que estruturava uma ciência; e atrelando-o ao dogma escatológico e teleológico universalmente vigente fora do pensamento científico, de que o mundo é um quintal do demiurgo e todos os acontecimentos tendem a comandar o homem para um destino pré-determinado (leitura minha, claro!). Após essa análise profunda, fria e contundente, ele assopra: "Seria diminuir seu gênio reduzir sua obra a essa análise simples".
Faz um bom diagnostico; o espiritismo atualmente é cristão, dividido em duas facções: o religioso e o laico. O primeiro, apesar de colocar-se como ciência, filosofia e religião, relaxa e desliza pelo terceiro aspecto, assumindo-se descontraídamente como religião, e gozando os benefícios das asceses místicas compensatórias. O segundo, substitui o vértice religião por moral, e arvora-se em científico; mas não consegue mais que o epíteto de pseudo-ciência pela inteligentzia, e o reconhecimento como filosofia dogmática, enquanto prega uma moral não perquirida, mas, sim, ditada por espíritos superiores pela graça de Deus.(Sempre leitura minha!)
E prescreve como cura para esses males o espiritismo pós-cristão: a ciência da alma.
"Esse espiritismo pós-cristão não apenas abandonará a retórica e a teologia católica, como se organizará como uma ciência humana", diz. E, nesse jogo de morde e assopra, talvez com medo de romper de vez com o eleitorado, diz que essa ciência da alma continua sendo kardecista .
Nunca uma proposta avançou tanto como a do Jaci:
- abandonar a ilusão de ser revelação divina;
- ombrear-se com as demais ciência humanas para entender o ser humano, suas limitações, problemas e futuro;
- compreender o ser humano como uma alma, sua estrutura, sua atuação e sua evolução;
- desenvolver espírito crítico e explorar a realidade do ser humano dentro da lei natural, da naturalidade dos processos evolutivos, através da reencarnação, como alma atemporal e em crescimento; e, para isso,
- dispor de recursos e meios para provar insofismavelmente a imortalidade, renovando o exercício e os objetivos da mediunidade, superando a fase meramente moralista e religiosa em que esta se situa atualmente. (Eu diria mais, provar insofismavelmente a reencarnação).
Mas, termina num anticlímax, dizendo que "o objetivo maior será introduzir na cultura o sentido sério, basicamente defensável dos postulados puros do espiritismo", e que a proposta ciência da alma "é kardecista na medida em que se apoiará nos alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário".
Quais são "os postulados puros do espiritismo"? Quais são "os alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário"? Que são "os acessórios das interpretações e extensões contextualizadas"? E por que ficar preso a essas questões ao invés de meter um carimbo de histórico em tudo isso, arregaçar as mangas e lançar-se à pesquisa, à busca dos objetivos antes delineados?
Ou seja, continua atolado no século dezenove; pois, a discussão para a resposta a essas perguntas nos levará seguramente mais um século de debates estéreis.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PRONTO, ENVOLVERAM O ESPIRITISMO!

Era o que faltava nesta campanha política. Católicos, evangélicos, liberais, conservadores, todos envolvidos até o pescoço e completamente divididos. Amigos de longa data se digladiando, no dramático esforço de demonizar o candidato adversário. Poderiam os espíritas continuarem serenamente sem envolver seus conteúdos doutrinários ou místicos (como queiram) nessa contenda? Difícil. Bem que tentamos, cada um com seu candidato, com sua preferência, sem conspurcar os humildes arraiais das nossas atividades. Não deu. O Carlos Vereza, por "encarnar" nas telas e vídeos o personagem mais badalado do espiritismo brasileiro, o Bezerra, julgou-se o próprio, e passou a lançar "vidências" na mídia, afirmando, do alto de sua reticente e rouca autoridade, que a Dilma e sua equipe estão cercados por uma multidão de obsessores!
Vê se pode!
Primeiro, cansaram de acusá-la de não ter biografia. Será que eu tenho biografia? Você, prezado leitor, tem biografia? Você, prezada leitora, tem biografia? O que é preciso fazer prá se ter biografia? Ser político profissional? Ganhar milhões na especulação financeira?
Olha, dá até prá fazer aqui um desafio: votem na Dilma os sem-biografia.
Os devidamente biografados fiquem com o Serra.
Agora, acusam-na de obsidiada. Será que eu sou um obsidiado? Tchan... Tchan... Tchan...! Você, prezada (e agora assustada) leitora, tem certeza de que não está obsidiada? O que seria estar obsidiado no entendimento do Vereza: estar cercado de espíritos inferiores?
Olha (de novo), dá até prá fazer outro desafio: espíritos inferiores, juntem-se a este outro inferior que ora escreve, e votemos na Dilma. Deixemos votarem em Serra os espíritos que se julgam superiores, da elite, saudosos de seus privilégios e exclusividades.
Afinal, o próprio Vereza bradava colérico com o microfone nas mãos: "Onde já se viu deixar um pobre comprar um carro em 70 prestações?" E, certamente, calava o que pensava em seguida: "Ele que enriqueça como eu, ganhe uma biografia, e compre à vista, ou ande a pé! Pobre quer carro prá quê?!"