quinta-feira, 24 de outubro de 2019

SÍNDROME DA TRAIÇÃO


O que torna uma ideia progressista é a capacidade crítica daqueles que a seguem ou a estudam.  Quando a crítica é calada, contida, censurada ou, simplesmente mal vista, qualquer ideia perde seu caráter progressista.  Para que uma ideia seja disseminada, levada ao maior número de pessoas e se candidate a influenciar de algum modo o pensamento humano, ela precisa ser organizada em um movimento.  Esse movimento a transporta entre as mentes para que ela seja conhecida, debatida e exerça sua influência.  Para ser organizada a ponto de poder ser transportada, ela precisa ser definida, fixada, estabelecida em seus mínimos detalhes, para que se mantenha dentro de uma certa ortodoxia, pureza ou unidade de pensamento.  Aí está o paradoxo: a ideia, quando organizada em movimento, torna-se o cadáver da ideia;  ela necessita de um esquife para o transporte.  Muitas ideias surgem como produto da razão, da ciência, da dialética, da necessidade.  E, por esta gênese mesma, nascem com certa aversão à crença, à tradição, ao dogmatismo.  Porém, no afã de organizar-se e manter-se para a disseminação, elas acabam reproduzindo as estruturas que condenam.  Na prática e, pelo comportamento do seus adeptos, elas se tornam crenças dogmáticas.  O que antes era ciência ou filosofia, torna-se religião.  Qualquer crítica, qualquer revisão de princípios, argumentos ou justificativas, torna-se um perigo para o conjunto da crença, geralmente monolítico e autônomo.  E, para proteger a ideia, agora transformada em crença, para evitar a crítica de seus princípios, suas conclusões, seus valores (processo doloroso para o crente), o adepto engendra um bode-expiatório:  a traição.  A ideia, com pretensões científicas ou filosóficas em sua origem, não se tornou dogmática devido aos erros intrínsecos.  Afinal, para ser mantida incólume, íntegra, ela não pode conter erros intrínsecos. Seu fundador, de  forma explícita ou disfarçadamente erigido à condição de um revelador da verdade, não pode ter errado e, assim, deve ser cultuado.  Ela tornou-se dogmática, ou seja, o que se pretendia produto da razão tornou-se uma nova seita religiosa, devido aos traidores, aos que a desviaram de seus objetivos originais.  Assim, o processo torna-se menos doloroso, porque menos racional e mais emotivo, visceral.  Não se aprofunda a crítica à ideia:  fica-se na superfície remoendo fatos históricos de seu processo de disseminação, procurando e enumerando culpados pelos desvios doutrinários, cassando bruxas.  A ideia permanece no esquife;  a luta se desenvolve na sala do velório, sem que ninguém note, ou admita,  que estão numas exéquias.
A busca  de culpados externos -- e, não a análise impiedosa do próprio conteúdo da ideia --  para a compreensão da contradição entre intenção e prática, é a fuga da crítica, é a negação do progresso ou do seu progressismo original.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

AINDA SOBRE TRADUÇÕES


Recebi meu exemplar da Edição Histórica Bilíngue de “A Gênese”, de Allan Kardec, traduzida pelo Evandro Noleto Bezerra e editada pela FEB, da qual tomei conhecimento pelos blogueiros espíritas.
Ao contrário de certos espíritas que agem com espírito de seita procurei observar a edição com imparcialidade e independência, como tenho feito em todas as análises por mim publicadas.  Livre pensamento é algo para ser exercido e, não, utilizado como camuflagem para a arrogância e a ignorância.  Não é porque a FEB é digna de críticas pelas suas pretensões vaticânicas em relação ao movimento espírita que iremos negar seu cuidado editorial e seus méritos por ter divulgado em língua portuguesa, por várias décadas, uma ampla bibliografia espírita.  E o cuidado editorial se manteve na presente edição.  Noleto Bezerra é, sem dúvida, o melhor tradutor de Kardec que existe no mercado.  Ao lado disto, uma boa revisão impediu que sua tradução apresentasse erros crassos de concordância e pontuação como encontramos abundantemente na edição FEAL, da mesma obra, traduzida pelo professor Imbassahy; erros passíveis de levar seu leitor a entender erroneamente o pensamento de Kardec.   O mais alarmante – e que mais identifica o espírito de seita – é a manifestação de um dos adeptos da “cruzada pela restauração da Gênese” feita num dos seus grupos no facebook:  -“Vamos esperar a publicação da tradução do Noleto para ‘checarmos’ a fidelidade com a do Imbassahy”.  Isto vale um “!?” (sinal de espanto).  Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência e de senso crítico sabe que a verdadeira comparação tem que ser feita com o original de Kardec.  Por isso a edição da FEB traz, reproduzida em fac-símile (ou seja, em imagem) a versão original de 1868.  Qualquer leitor interessado poderá fazer de imediato a comparação item a item e verificar a fidelidade ou as licenciosidades eventualmente cometidas pelo tradutor, sem necessidade de “gurus” lhe dizendo o que achar ou pensar.  Ao mesmo tempo, poderá utilizar a reprodução em fac-símile (ou outra qualquer dentre as disponíveis na web) para descobrir por si mesmo os erros (de tradução, concordância, pontuação, etc.) cometidos na versão da FEAL, tenham eles sido cometidos pelo tradutor ou pelos revisores.


domingo, 9 de junho de 2019

OBRAS PÓSTUMAS


Todos sabemos que a última obra redigida por Kardec foi a Revista Espírita de Abril de 1869.  Porém, não sei se ela já estava impressa no momento em que ele morreu em 31 de março, se foi ele quem a distribuiu e se realmente anexou, ou anexaram, o tal catálogo das obras para formação de uma biblioteca espírita que ele promete no editorial.  Ainda no editorial da Revista de Abril ele anuncia a nova sede do espiritismo -- à rue de Lille, 7 --, onde funcionará a Sociedade e a Livraria Espírita, administrada por um gerente, enquanto a sede da redação continuaria com ele, em sua residência à Avenida e Vila Segur, 39, atrás dos Inválidos.  Como se costuma dizer: o homem põe e Deus dispõe.  Morreu, segundo o editorial da Revista de Maio, no momento mesmo em que fazia essas mudanças de endereços.  A Revista de Maio torna-se, então, o panegírico do mestre estimado e respeitado pelo mundo cultural.  Além disto, este número da Revista nos traz informações importantes sobre o futuro do movimento espírita.  A nova Diretoria da Sociedade de Paris para o biênio 1869/1870 é composta pelos senhores Levent (vice-presidente de Kardec na anterior), Malet (presidente na atual), Canaguier, Ravan, Desliens, Delanne e Tailleur. A Revista Espírita será administrada pelo Sr. Bittard e redigida pelo Sr. Desliens.  A Senhora Allan Kardec  (como todos sabem, Amelie Gabrielle Boudet) única proprietária legal das obras e da Revista, decide doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes dos livros e da Revista, mas pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas e regular todos os gastos.  

Conforme estabelecido,  um mês depois, junho de 1869, a Revista  já está sob a direção do Desliens.  E, ele a inicia, em seu editorial, com o anúncio da publicação em série, nas próximas edições, das obras póstumas de Allan Kardec:
"Para os assinantes da Revista
Até hoje, a Revista Espírita tem sido essencialmente o trabalho, a criação do Sr. Allan Kardec, como de resto,  todas as obras doutrinárias que ele publicou.
No momento em que a morte o surpreendeu, a multiplicidade de suas ocupações e a nova fase em que o Espiritismo entrava, fizeram com que ele desejasse unir-se a alguns colaboradores convictos, para executar, sob sua direção, obras para as quais já não se julgava suficiente.
Faremos o possível para não nos desviarmos do caminho que ele nos traçou. Mas parece-nos nosso dever consagrar aos trabalhos do mestre, sob o título de obras póstumas, algumas páginas que ele teria reservado se permanecesse corporalmente entre nós. A abundância de documentos acumulados em seu gabinete de trabalho, nos permitirá, por vários anos, publicar em cada edição, além das instruções que ele achar por bem nos dar como Espírito, um desses artigos interessantes que ele sabia como tornar tão bem compreensíveis para todos.
Temos a certeza de satisfazer, assim, os desejos de todos os que a filosofia espírita reuniu em nossas fileiras, e sabem estimar no autor do Livro dos Espíritos, o homem de bem, o trabalhador infatigável e dedicado, o espírita convicto, se esforçando em suas vidas privadas para pôr em prática os princípios que ele ensinou em suas obras." 

Ainda nesta edição é anunciado o Museu do Espiritismo, com o qual sonhara Kardec, assim como as decisões sobre a pedra tumular.



A Revista de Agosto de 1869 traz a criação da Sociedade Anônima, preconizada por Allan Kardec em seu artigo na Revista de Dezembro de 1868.

Sobre os objetivos desta Sociedade prefiro servir-me do texto de Berthe Froppo, em seu opusculo "Muita Luz":

"É bom, penso eu, colocar diante dos olhos dos meus irmãos de fé os artigos e os estatutos da Sociedade anônima. (Ver a Revista do mês de agosto de 1869, página 237).

SOCIEDADE ANÔNIMA

A Sociedade anônima fundada pela Sra. Allan Kardec tem por objetivo tornar conhecido o espiritismo por todos os meios autorizados pelas leis.   Ela tem por base a continuação da Revista Espírita fundada por Allan Kardec, a publicação das obras deste, incluindo suas obras póstumas e todas as obras que tratam do espiritismo".



A Revista e a Sociedade manifestavam, portanto, claramente seu desiderato de publicar postumamente os resultados do trabalho de Kardec.  O que era e é perfeitamente legal. Tanto na legislação incipiente da França na época, como internacionalmente hoje em dia, pela Convenção de Berna -- um texto muito citado mas pouco lido -- que, em seu Artigo 6º, alínea 1, preconiza que os direitos do autor à integridade de seu trabalho se estendem após a morte e, neste caso, segundo a alínea 2 do mesmo artigo, tal direito será exercido "pelas pessoas ou instituições às quais a legislação nacional do país onde a proteção é reclamada atribui qualidade para tal".  Portanto, Amelie, a legítima herdeira, era a pessoa legitimamente credenciada para levar à publicação qualquer trabalho póstumo de Kardec.
Não obstante, alguns "graduados" tupiniquins são de "parecer" que tal procedimento só seria válido se o autor deixasse assinado uma autorização para publicação de suas revisões ou textos inéditos!  Isto não "ecziste", como diria aquele padre falecido.  Nem nunca existiu.  O autor trabalha seus textos, faz suas revisões, sem se preocupar com a morte.  Ninguém sabe quando vai morrer;  ninguém quer morrer.  Todos nós, enquanto vivos, não vamos morrer nunca;  pois a morte, do ponto de vista positivo, só é vivenciada pelos outros.  Existem, claro, alguns que se preocupam com testamentos; mas sobre coisas já definidas e escrituradas. Imaginar-se em alguma época, em algum lugar,  um autor trabalhando, em processo criador e, a cada revisão interrompendo para escrever que autoriza este ou aquele a publicar se ele morrer daí a pouco, é não saber nada, não só dos processos criativos como editoriais.  Ou é "chutar" sem ter o trabalho de imaginar a situação concretamente.  Sempre que um autor morre debruçam-se sobre seu baú em busca de textos inéditos; sempre sob a batuta do herdeiro legítimo.  Se não fosse assim não teríamos a obra prima do Pascal, não teríamos muita coisa de Nietzsche, de Leminski e muitos outros.  Não teríamos um texto do Jaci Régis encontrado em seu computador pessoal e divulgado amplamente.  
Mas, vamos lá. Vamos supor que alguém, mais de século depois de  Kardec, resolva questionar na justiça uma determinada obra (afinal, as teorias conspiratórios rastreadoras de holofotes questionam tanto a existência de um Shakespeare há quinhentos anos, quanto uma descida na Lua há cinquenta!) e ocorra a tragédia (e a tragédia moderna é um certo tipo de juiz) de encontrarmos pela frente, juiz da causa, um desses autores de pareceres.  Daí, para contentá-lo poderíamos mostrar alguma preocupação de Kardec (ainda que remota pois não sabia que morreria em poucos meses) sobre isto.  No artigo já citado, dezembro de 1868, justificando a criação de um "comitê central", ele escreve: "Para completar a obra doutrinária, resta-nos publicar várias obras, que não são a parte menos difícil, nem menos penosa".  E, logo adiante, citando as atribuições do comitê: "8º - A publicação das obras fundamentais da Doutrina, nas condições mais adequadas à sua valorização.  A confecção e a publicação das que nós daremos o plano e que não tivermos tempo de fazer em nossa vida".  Servindo-nos dos malabarismos retóricos de algumas seitas do movimento espírita: "obras" de um autor é igual ao "trabalho" do autor;  qualquer trabalho, completado ou não.

Esta é a história do livro "Obras Póstumas", de Allan Kardec que, apesar de editado somente em 1890, teve toda sua parte doutrinária publicada logo em seguida ao desenlace do autor, pela sua esposa e legítima herdeira juntamente com o "comitê", em seguidas edições da Revista, durante os próximos dois anos.
Quanto ao "livro das previsões concernentes ao Espiritismo", inserido no mesmo livro... teríamos que iniciar outra história...

quarta-feira, 29 de maio de 2019

TRADUTTORE TRADITORE?






Segundo alguns a expressão acima irrita os tradutores e, seguramente, posso tê-los perdido como leitores apenas pelo fato de usá-la.  Isto porque ela é injusta quando generalizada.  Aliás, toda generalização é injusta.  Mas, comigo aconteceu.  Precisei preparar uma aulinha no último centro que frequentei sobre o primeiro capítulo do livro "A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo" e, como costumo colecionar traduções, fui logo servir-me da mais pretensiosa, a que faz questão de ostentar na capa o epíteto de "autêntica".  Trata-se da tradução do ilustre professor Carlos de Brito Imbassahy, publicada pela Fundação Espírita André Luiz e, segundo a folha de rosto, feita conforme a "1ª edição francesa".  Qual não foi minha surpresa quando, já no início,  dou de cara com uma traição!

Kardec nomeou o primeiro capítulo de "Caractères de la révélation spirite".  Eu já havia  me entristecido há cerca de uns dez anos quando vi a tradutora Albertina Seco, pela editora CELD, traduzir para "Fundamentos da revelação espírita".  Mas, a tradução da Seco tem o mérito de avisar lealmente sobre suas alterações que, aliás, não são aleatórias mas seguem um critério pré-estabelecido que é o de trazer o texto para uma linguagem mais atual o que, nas suas expectativas,  facilitaria a compreensão da obra.  Já o tradutor Imbassahy traduz para "Natureza da revelação espírita" sem apresentar justificativa.  Será que estão pretendendo corrigir o estilo de Kardec?  Vá lá que ele não é nenhum Racine, como disse um amigo meu.  Mas o estilo é o homem, deve ser respeitado.  E não foi justamente disto que Henri Sausse acusou Pierre-Gaëtan Leymarie no Século XIX?  De tentar "melhorar" os escritos de Kardec?  "Ah, mas isto não tem importância", dirão.  "São sinônimos".  Sim, são sinônimos.  Mas a sinonímia nunca é perfeita, aprendi em minha juventude num curso de linguística.  Se dois vocábulos fossem sinônimos perfeitos a língua eliminaria um deles ou o relegaria a um desuso tão grande que seria encontrado apenas em escavações de eruditos.  Costumávamos ilustrar a relação de sinonímia através de círculos sobrepostos, como na figura 1. 

No espaço em hachuras é onde as três palavras são sinônimas;  nos espaços em branco dos círculos é onde cada uma delas guarda seus próprios significados.  Escrever é justamente escolher palavras.  O autor escolhe a palavra que melhor traduz o seu pensamento dentre os sinônimos disponíveis.  E, essas três palavras têm os mesmos significados no português e no francês. O que não permite alegar-se que numa língua uma fique melhor  que a outra.  Acrescente-se o fato interessante de que, na Introdução da Obra, onde Kardec justifica o título, a tradução mantém o "Caracteres".  O que deixou-a com uma aparência um tanto deformada:  uma explicação sobre um título que surge logo depois alterado.  
Existe, porém,  mais uma observação alarmante sobre este ponto específico.  Na Quinta Edição do La Genese, de 1872, o título do Capítulo foi alterado de "Caractères" para "Caractère".  Ou seja, do plural para o singular.  Ora, conforme bem o demonstrou Silvio Seno Chibeni em artigo a respeito (1), a forma singular é a que mais se presta à tradução por "Natureza"!  Qual teria sido aqui o ato falho do tradutor ou dos revisores da Edição Feal?  Rendição ao que eles chamam de "adulterações", ou simples hiposuficiência linguística?

Mas não foi o único caso.  Mais adiante, no item 6, quando Kardec fala sobre os gênios, escreve: "Se Deus suscita ("suscite", no original) reveladores para as verdades científicas, pode, com mais razão, suscitá-los para as verdades morais".  Nosso tradutor achou de melhor estilo trocar "suscitar" por "promover".  Neste caso o espaço hachurado da ilustração seria ainda mais diminuto.

"Ora", dirão, "o tradutor tem liberdade de escolha".  Afinal, ele traduz o pensamento do autor.  Só que, às vezes, as escolhas do tradutor Imbassahy (ou de seus revisores) mudam o sentido.  Como no item 5, onde Kardec diz que os homens de gênio "apportent en naissant des facultés transcendants et des connaissances innés" e todo mundo traduziu por "trazem ao nascer", o que está em perfeita sintonia com o pensamento reencarnacionista do autor; no entanto, Imbassahy pretende nos convencer que Kardec teria dito  que o homem de gênio "possui desde o nascimento" tais faculdades.  Ora, há muita diferença entre "trazer ao nascer" e "possuir desde o nascimento".

Tem mais. Folheando aleatoriamente encontrei no Capítulo XIV, "Os fluidos", logo no item 2, onde Kardec diz que os estados de imponderabilidade e de ponderabilidade da matéria elementar primitiva são "consecutivos", Imbassahy corrige colocando que o segundo é "consequência" do primeiro.  Seja sutil ou não, há diferença entre dois estados serem "consecutivos" e "consequência um do outro".

O mais interessante de tudo é que na primeira versão da tradução do Imbassahy, aquela que ele nos disponibilizou gratuitamente na internet há mais de dez anos, não existem essas traições.  Lá ele traduz direitinho e até se orgulha de registrar que "em virtude das contradições existentes nas diversas traduções da obra 'A Gênese'  de Allan Kardec, teve o cuidado de traduzir esta obra ao pé da letra, a fim de que fosse o mais fiel possível conforme o original da 3ª edição de 1868" (que, como todos sabem, é idêntica à primeira).  Agora, no texto revisado e colocado no mercado, vemos as discrepâncias.  Terão sido os revisores que adulteraram a tradução ou o tradutor que adulterou o original?
Importante ou não, temos o caso famoso da pergunta 625 de "O Livros dos Espíritos".  Em resposta à pergunta sobre qual o principal modelo para o homem, Kardec coloca como resposta "Voyez Jésus", "Vêde Jesus".  Guillon -- e Noleto o segue, o que faz parecer um vício da editora -- traduz para uma única palavra: "Jesus".  Laudas e teses foram destinadas a ilações sobre as consequências dessa diferença.  No orkut um jovem doutor e profundo conhecedor do francês disse,  certamente por ser filiado à entidade que editou Guillon,  que não há diferença alguma entre as escolhas.  Tudo bem.  Só que não interessa:  se Kardec optou por escrever "Voyez Jésus" ao invés de simplesmente "Jésus", sua escolha tem que ser respeitada.  O mesmo deve o bom senso exigir aqui.  Principalmente porque aqui se pretende a "restauração" do texto original.
Pensando em continuar a leitura da tradução a fim de ver se haviam outros erros (pois me é permitido supor que devem existir aos montes) resolvi começar do começo.  Desisti em função das afirmações do apresentador.  Segundo ele esta pretensiosa tradução "autêntica" se deve porque "em 2018 veio à tona relevante debate" (como se já não tivesse vindo em 1884, 1999, 2012, e etc.) sobre uma quinta edição feita "de forma oculta, sem conhecimento até mesmo da esposa e única herdeira de Kardec".  Bem, na postagem anterior deste blog (Restos de uma Réplica) e em muitas outras pelos diversos grupos do facebook já demonstrei à exaustão o absurdo de alguém fazer uma edição "de forma oculta" e ao mesmo tempo escrever na folha de rosto um aviso em destaque que a mesma foi "revisada, corrigida e aumentada".  O saber ou não de algo é uma coisa tão subjetiva que somente a própria pessoa pode dizer.  Três anos antes do ocorrido Madame Kardec anunciou em ata sua intenção de acompanhar de perto as reedições do marido e não existe nenhuma declaração sua em contrário bem como não há nenhuma manifestação sua de ignorância da revisão.  O que indica que ela mesma, a legítima herdeira acompanhou a edição; procedimento legal posteriormente consagrado na Convenção de Berna.  Também mostrei para uma porção de avestruzes (porque preferiram esconder a cabeça na areia) um Catálogo das publicações francesas de 1876 consignando a quinta edição da Gênese em 1873, desmentindo, portanto, "a forma oculta". 

Mas, como eu disse acima, desisti da leitura integral da tradução assim como desisto de alertar sobre a precipitação da conclusão tão apaixonadamente defendida
Nada disto adianta para quem não tem, perdeu, ou nunca teve senso crítico.  Como diz um  texto atribuído a Vargas Llosa (sendo ou não dele, a verdade do texto é clara): "cuando una de esas ficciones malignas (ahora diríamos posverdades) se encarna en la historia sustituyendo a la verdad, alcanza una solidez y realidad que resiste a todas las críticas y desmentidos y prevalece siempre sobre ellos".  
Além do quê, não pretendo ser o algoz das crenças alheias.  Cada um crê no que lhe apetece e, como diz o Marcelo Gleiser,  "o descontente, mais do que qualquer outro, precisa acreditar".



P.S. Eu deixei passar a frase: "Estes, ao falar em nome dele, têm podido ocasionalmente influenciado pelo próprio Deus", no item 9 do primeiro Capítulo.  Desafio qualquer um a entendê-la.  Ah, "erro de imprensa"? Mas, com tantos revisores?!...  O mais provável é que, no afã de corrigir Kardec e menosprezando a inteligência do leitor --  que poderia entender que Kardec está justificando o fato de serem certos mensageiros tomados pelo próprio Deus --   temeram repetir a solução encetada pelo Imbassahy na tradução original na internet:  "Estes, falando em nome de Deus, têm podido perfeitamente ser tomados pelo próprio Deus".

P.S.2 - A situação complicou mais ainda para os adeptos da "teoria da conspiração" de que "ninguém sabia", ou de que "Leymarie adulterou a Gênese", com a descoberta recente, pelo pesquisador Carlos Seth Bastos,  de uma edição "revisada, corrigida e aumentada", lançada em 1869 (e idêntica à de 1872 citada na postagem).

(1) Os artigos de Silvio Seno Chibeni sobre La Genese, a formação de seus capítulos e as diferenças entre as edições, representam o que de mais racional e isento tem sido produzido sobre o assunto.  Podem ser encontrados nos links seguintes:

http://kardec.blog.br/allan-kardec-sobre-o-carater-da-revelacao-espirita-silvio-s-chibeni/


e

http://kardec.blog.br/identificacao-de-alteracoes-em-trechos-do-capitulo-1-da-5a-edicao-de-la-genese-artigo-de-silvio-s-chibeni/


terça-feira, 28 de maio de 2019

RESTOS DE UMA RÉPLICA.

RESTOS DE UMA RÉPLICA.  VALE PELOS DADOS QUE CONTÉM.


Caríssimo e operoso articulista espírita, antes de mais nada quero agradecer sua atenção respondendo ao meu texto.
A resposta não foi bem a que eu esperava, pois essa questão de que se foi ou não Kardec quem fez a revisão me parece esgotada no âmbito das pesquisas e discussões isentas.  Hoje, uma vez solta, tal questão tomou seu rumo próprio, como  a tragédia desvendada pelo Marco Antonio do Shakespeare na peça Julio Cesar. Tornou-se uma guerra entre  os "adeptos da Gênese Reformada" e os "adeptos da Gênese Restaurada" e, como em todas as guerras,  a primeira baixa é a verdade.
Meu texto não entrou neste mérito.  Mas sua resposta foi neste sentido.
Meu texto reflete minha opinião de que o fato de apenas uma Genese ser original ou não se torna um fato pequeno ante a pretensão de transformar o espiritismo numa ciência, refutando constantemente através de experimentações suas teorias a fim de apresentá-las ao restante da Ciência (uma vez que seria ele uma delas) em acordo com os conhecimentos acumulados no século e meio decorrido sobre sua publicação;  e refutar pela experimentação o seria sobre qualquer texto de qualquer versão.  Ou seja, sobrepor a realidade ao texto (se não "sagrado", ao menos "sacralizado"), de Kardec ou qualquer outro autor.
Por isso eu não pretendia mais entrar nesta querela, o que me levaria a não replicar sua resposta.  Mas, como você foi gentil respondendo-me, retribuirei da mesma forma respondendo-lhe.

As falácias, caríssimo e dedicado escritor espírita, e a inversão do ônus da prova, militam a seu favor e dos seus companheiros nessa luta, válida pela recuperação de uma versão do livro em questão, porém, inglória pela pretensão de realizar um auto-de-fé com a outra.

A revisão da Gênese feita pelo Kardec (todos nós sabemos que ele iniciava a revisão de  suas obras  logo que publicadas o que nos tornaria ingênuos em acreditar que justamente  a última, aquela que mais pretendia dialogar com a ciência, dormitaria mais de ano sem uma revisão) foi entregue à publicação por quem de direito, no caso, sua esposa e colaboradora Amelie Boudet.  Direito consagrado posteriormente na Convenção de Berna pois, se você buscar o texto desta convenção na web, verá que, no artigo em que consagra a sobrevivência ao autor do direito à integridade de seu pensamento, estabelece que tal direito deverá ser exercido (uma vez que, evidentemente, ele não poderá mais fazê-lo) pelo seu testamenteiro ou, não havendo este, pelos herdeiros de fato e direito de acordo com a legislação de cada país.  Ora, a herdeira de Kardec era a Madame Kardec.  E ela deixou claramente consignada em uma ata sua intenção de zelar pelas edições das obras do seu esposo.  Portanto, ela era a única pessoa credenciada (mesmo pela legislação incipiente da época, porém, como já disse, consagrada em convenção posterior) a apresentar à publicação o fruto do árduo trabalho do seu esposo.  E, aqui, encontramos a primeira falácia dos adeptos da Gênese Restaurada:  apresentam, para tentar difamar Madame Kardec, colocando-a como verdadeira pascóvia nas mãos ardilosas de terríveis conspiradores, fatos e estados de alma muito posteriores ao momento em que foi publicada a Gênese Revisada.  Aliás, esta mesma falácia estendem ao excomungado conspirador, que foi seduzido pela teosofia e tornou-se displicente em relação ao roustainguismo também em data posterior.  Colocam a relação de causalidade na máquina de Wells: um fato e uma situação posterior, deram causa a um fato anterior.  Entre  maio de 1869, quando ela declarou que se responsabilizaria pelas edições das obras, e dezembro de 1872, quando foi solicitada a publicação da quinta edição, conhece-se alguma manifestação clara de Madame Kardec renunciando a  tal responsabilidade, mudando tal disposição?  E posteriormente, conhece-se alguma declaração dela própria dizendo que não sabia da quinta edição?  Afinal, saber ou não de um fato é algo puramente subjetivo que só pode ser afirmado ou atestado pela própria pessoa.
A Gênese Revisada foi, assim, publicada em dezembro de 1872, sem nenhum escamoteamento, às claras, com um aviso que só não chegou a ser luminoso mas gritava ao leitor que era uma edição "revisada, corrigida e aumentada".  Publicada por quem detinha o direito e o dever de garantir a integridade e permanência dos frutos do trabalho de Kardec.  Foi um ato público e notório, tanto é que um pesquisador independente colocou em seu catálogo: o "Catalogue général de la librairie française depuis 1840"; de Otto Lorenz; Tome Cinquième, 1866-1875, publicado em 1876 (portanto, como continuar afirmando que "ninguém sabia"?).  E, ninguém contestou.  A esposa contestaria, se não fosse ela própria a apresentar o texto.  Denis e, alguns anos depois, Delanne, a contestaria se julgasse necessário.  O próprio Henri Sausse a contestaria em tempo mais hábil.  Berthe Froppo escreveu um dramático libelo contra o "excomungado conspirador" e não se refere à Gênese.  Ou seja, quem contesta é quem deve provar que a Amelie agiu de má fé ou teria renunciado à sua responsabilidade; que Leymarie ou outro qualquer agiram de má fé.  O fato consumado é que eles, legitimamente credenciados para tal, apresentaram à cultura francesa a Gênese Revisada de Kardec.  Repito, quem contesta, tem o ônus de apresentar  as provas suficientes.  E, quem contestou?  Henri Sausse, doze anos depois, quando a principal testemunha havia falecido, quando já se tornaria improvável que tivessem guardado por tanto tempo as provas da impressão.  E, não logrou provar nada!  Tanto é que, apesar de lhe franquear as páginas do seu jornal, Delanne não encetou nenhuma luta pela "Restauração".  Nem Dennis.  E, o próprio acusador, Sausse, abandonou a luta, retomando o bom relacionamento com Leymarie, o que pode ser verificado  pela troca de publicidades e elogios nas respectivas divulgações de ambos e pelo acesso ao baú de Kardec que este último deu ao primeiro por ocasião da redação de sua biografia do autor.

Outra falácia é a constante evocação de Herculano Pires, dando ao leitor menos avisado a impressão de que o filósofo brasileiro do espiritismo integra as fileiras dos batalhadores pela "restauração".  Muito ao contrário!  Herculano Pires referendou a Gênese Revisada, dirigindo e apresentando uma de suas traduções, além de utilizá-la em todas suas comentações da obra de Kardec.  Defendeu também, enfaticamente, a autenticidade de Obras Póstumas, onde consta textos de Kardec confirmando seu trabalho de revisão da Gênese.  E não adianta sacar de outra falácia desmerecendo o Herculano ao dizerem que ele, um pesquisador experiente,  desconheceria  a denúncia do Sausse ou a pesquisa do Wantuil.

Outra falácia é a insistência de que uma edição contradita a outra.  Essa questão eu deixaria a cada um que se dispusesse a ler e comparar item a item ambas as edições, como eu fiz.  Mas, como eu sei que grande parte dos espíritas não irão ler nenhuma das versões (pois que, em décadas de adesão ao espiritismo, muitos não leram  a quinta edição, o que é atestado pela baixíssima vendagem desta obra, uma das menos lidas da kardequiana), preferindo  ouvir ou ler o que dizem a respeito, eu peço apenas que leiam com atenção os comentários  feitos com retóricas que tanto se aplicariam a uma versão como a outra (como,aliás, a inúmeros outros textos), mas que têm sido apresentados como se fossem conjecturas permitidas exclusivamente pelo texto que têm em mãos.

E, a principal das falácias, a de que essa jihad se baseia em "descobertas e documentos recentes".  Nada de novo foi encontrado.  Todos os dados, todas as datas apresentadas, eram de conhecimento do Henri  Sausse tanto quando dos pesquisadores "modernos".  E, tais datas nada dizem senão que se faziam reedições da primeira versão enquanto se fazia a revisão da outra, tal como Kardec colocou em seus apontamentos durante o ano de 1868, publicados (novamente sem contestação; e com o referendo de pessoas como o Herculano) em 1890.  Nada de novo há, a não ser uma espúria relação de causalidade entre uma coisa e outra:  um pedido de publicação é prova de que o autor contrariou seus hábitos não revisando uma de suas obras!

Não descarto a hipótese de mais alguém, além de Kardec, ter posto as mãos nas matrizes, rascunhos, minutas ou o que quer que constituísse a Gênese aguardando publicação.  Há também a possibilidade de acidentes que teriam provocado principalmente a confusão na ordem dos itens em alguns capítulos.  Afinal, o baú de Kardec sofreu os mesmos percalços que toda a França naqueles tempos.  Mas, aqui, ninguém está isento de suspeição, muito menos o Desliens que teve poder sobre os documentos de Kardec durante o dobro do tempo que teve o Leymarie.  O que me causa estranheza são as paixões com que certas pessoas defendem suas posições, de forma até mesmo irracional, apelando para difamações, rotulações, argumentos ad hominen, ao invés de pesquisarem de maneira serena e correta.

Quanto ao restante da argumentação, merece mais lamentação do que refutação.  É lamentável como apelam para um exercício de adivinhação das intenções do interlocutor. Não só aqui, mas alhures.  Quem pede pesquisa e experimentação visando o necessário teste e refutação das teorias  para que o espiritismo adquira elementos de status científico está querendo desacreditar as "recentes pesquisas" (que não trouxeram nada de novo sobre as supostas adulterações).  Quem ousa parar à frente da cruzada em prol da restauração, está com o orgulho ferido porque teria "apressadamente"  concluído por esta ou aquela.  Não deve ser a mim esta última referência.  Porque sempre propugnei pela dúvida.  Se me insurjo contra esta campanha midiática encetada sofrega e decididamente por adeptos aguerridos e sustentada por poderosas instituições da unificação espírita, é porque não concordo que os fatos até então conhecidos tenham realmente, numa análise isenta, comprovado que houve adulteração.  Por outro lado, não tenho nenhum orgulho para ser ferido:  não tenho livros no mercado, não viajo fazendo palestras, não participo de congressos, não tenho cargos nem  vaidades a sustentar.  Apenas faço meus estudos, frequento meu centrinho;  mas, não sonego minhas opiniões.  Agradeço quem as lê, mais ainda quem as responde, mas absolvo completamente quem as ignora. 

Por último, a insistência em aliar à FEB todo e qualquer que ouse contestar a cruzada em prol da "restauração".  Também não deve ser pra mim, pois abandonei o movimento federativo em 1979 e, desde então, como disse acima, tenho sido um palpiteiro independente de qualquer instituição.  Não sei nem mesmo o nome do presidente da federação do meu Estado, menos ainda  do País todo.
Porém, com minhas sinceras desculpas, mas essa referência -- obsessiva por parte de alguns --  do nobre respondedor à referida instituição me autoriza a imitá-lo em seu raciocínio de adivinhar as intenções do interlocutor e me permite supor que não é bem uma "restauração da verdadeira palavra do profeta" o que se busca, mas, um cavalo de batalha na guerra contra a instituição citada ou pela recuperação de postos nela perdidos.

Grato pela atenção à minha prolixa e senil réplica, finalizo lembrando que a maior defesa de uma verdade é o seu constante questionamento e confrontação.

P.S. Este texto, publicado, como se pode ver, em maio de 2019, precisa deste adendo publicado em março de 2020:  Em fevereiro de 2020 veio a público, em decorrência do trabalho do historiador Carlos Seth Bastos, um exemplar de "A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo" publicado em 1869! Esta descoberta, um dado novo, uma nova fonte, desconhecida portanto, inexistente, nas pesquisas de Privato e Figueiredo, mudam completamente a abordagem da questão.