quarta-feira, 24 de novembro de 2010

EU SOU ESPÍRITA.

O Espiritismo é a minha religião.
Só peço às pessoas inteligentes que me perdoem o fato de que um dos dogmas fundamentais da minha religião, é ela dizer-se ciência.
Mas, é um dogma como outro qualquer; talvez até mais bem arranjadinho do que o dogma da virgindade de Maria, ou o de que Jesus ressuscitou levando o corpo para o céu.
Assim como nenhuma pessoa inteligente vai impedir que católicos e protestantes acreditem nessas coisas, apesar de saberem que não são verdadeiras, espero que também não me impeçam de acreditar que o Espiritismo seja uma ciência, apesar de todos nós sabermos que não o é.
Afinal, é apenas a minha religião.
O que deverá preocupar as pessoas inteligentes, será se eu começar a arregimentar poder para impor minha "ciência" às universidades, ou empurrá-la goela abaixo dos estudantes, como têm feito os adeptos de outras religiões com seus dogmas criacionistas ou sobre os "desejos" de Deus.

Agora, àqueles confrades que ainda acreditam ingenuamente que o Espiritismo não seja uma religião, que é realmente uma ciência (e, não, que a afirmação de "ele é uma ciência" seja apenas um dogma kardeciano), nada melhor que a leitura de refutações de ateus para temperarem suas crenças: http://ateus.net/artigos/critica/espiritismo-ciencia-e-logica/

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FLAMMARION ESPÍRITA?

"Em 31 de março de 1869, o chefe da escola espírita, Allan Kardec, morreu subitamente, aos 65 anos, e em 2 de abril seria sepultado no cemitério do Norte. Relatei mais acima como havia entrado em relações com ele no mês de novembro de 1861. Embora meu trabalho não me permitisse nenhuma assiduidade às reuniões da sociedade espírita da qual ele era o presidente-fundador, o comitê dessa sociedade convidou-me, em seu nome e no de Madame Allan Kardec, para presidir as exéquias civis e pronunciar um discurso. Eu estava me mantendo à distância desde algum tempo sobretudo, não admitindo que o espiritismo pudesse ser a base de uma religião antes que os fenômenos fossem cientificamente demonstrados e explicados. Contudo, rendi-me a tão honorável convite... (...) O Comitê me propôs suceder Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Recusei, sabendo que nove entre dez de seus discípulos continuariam a ver ali, durante ainda muito tempo, uma religião, em vez de uma ciência, além do que a identidade dos "espíritos" está longe de ser provada. Quarenta anos se passaram desde então. Os seguidores de Allan Kardec pouco mudaram sua fé; a maior parte recusa ainda a análise científica, única que poderia nos esclarecer exatamente".
(Camille Flammarion
"Memórias biográficas e filosóficas de um astrônomo"
Ernest Flammarion Editeur, Paris, 1911 -- Em facsímile da Gallica.bnf.fr).

Flammarion era um geniozinho de 19 anos quando encontrou-se com Kardec e começou a frequentar a sociedade espírita de Paris. Aos 27 já o vemos afastado do espiritismo, e recusando convites da própria Amelie Boudet para retornar em posição de destaque. Ele morreu aos 83. Seu afastamento precoce se deu por não concordar com os rumos que o presidente-fundador dava ao movimento: sem ter ainda construído uma metodologia que identificasse os espíritos de forma rigorosamente cientifica, ele não só os aceitava como tais, como os recebia na condição de sábios, enviados por Deus para procederem a uma nova grande revelação para a humanidade. Uma humanidade que, àquela altura, já prescindia de revelações divinas, pois adquirira maturidade suficiente para desvendar os segredos da natureza por si mesma. Aliás, poucos anos depois aposentaria o próprio Deus.
É incrivel como ainda hoje, no século XXI, encontramos pessoas que dizem ser científico sentar-se à frente de uma jovem em transe e acreditar-se estar recebendo de um Galileu ou Leonardo, profundas revelações ou soluções de problemas que temos condições e obrigação de buscar pela filosofia e pela ciência.
Agora, como religião, é outra coisa. Como religião, aceitamos de bom grado, principalmente se mantém nossa auto-estima, nossa felicidade e nossa saúde, até a revelação de um mendigo.
Daí porque Kardec, ao fim da vida, entregou os pontos e admitiu que era presidente-fundador de uma religião, ainda que, relutava, "em sentido filosófico".
Mas, o mais incrível de tudo é a teimosia cega com que os intelectuais espíritas repetem o lugar-comum de que o espiritismo era científico na Europa e foi transformado em religião no Brasil, ante toda essa evidência histórica em contrário!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CIÊNCIA DA ALMA? ou O QUE É O ESPIRITISMO?

Logo após lançar O Livro dos Espíritos, onde pretendeu estabelecer a doutrina espírita, Kardec fez a pergunta acima, talvez a mais importante, crucial e angustiante pergunta feita em toda a historia do espiritismo. Ele a colocou como título de um livro onde tentou respondê-la; mas a prova de que não foi bem sucedido é que a pergunta não se calou até hoje e, a julgar pelo título e as preocupações colocadas num texto que recebi, temos ao menos mais cem anos de discussão pela frente.
Em mãos o discurso A Identidade do Espiritismo no Século Vinte e Um, proferido pelo Jaci Régis em 4.9.2010, em Bento Gonçalves-RS, num encontro promovido pela CEPA para discutir justamente essa identidade. (Veja comentário).
Ele começa o discurso sugerindo que Kardec tornou o espiritismo refém do cristianismo; estruturando uma religião pensando que estruturava uma ciência; e atrelando-o ao dogma escatológico e teleológico universalmente vigente fora do pensamento científico, de que o mundo é um quintal do demiurgo e todos os acontecimentos tendem a comandar o homem para um destino pré-determinado (leitura minha, claro!). Após essa análise profunda, fria e contundente, ele assopra: "Seria diminuir seu gênio reduzir sua obra a essa análise simples".
Faz um bom diagnostico; o espiritismo atualmente é cristão, dividido em duas facções: o religioso e o laico. O primeiro, apesar de colocar-se como ciência, filosofia e religião, relaxa e desliza pelo terceiro aspecto, assumindo-se descontraídamente como religião, e gozando os benefícios das asceses místicas compensatórias. O segundo, substitui o vértice religião por moral, e arvora-se em científico; mas não consegue mais que o epíteto de pseudo-ciência pela inteligentzia, e o reconhecimento como filosofia dogmática, enquanto prega uma moral não perquirida, mas, sim, ditada por espíritos superiores pela graça de Deus.(Sempre leitura minha!)
E prescreve como cura para esses males o espiritismo pós-cristão: a ciência da alma.
"Esse espiritismo pós-cristão não apenas abandonará a retórica e a teologia católica, como se organizará como uma ciência humana", diz. E, nesse jogo de morde e assopra, talvez com medo de romper de vez com o eleitorado, diz que essa ciência da alma continua sendo kardecista .
Nunca uma proposta avançou tanto como a do Jaci:
- abandonar a ilusão de ser revelação divina;
- ombrear-se com as demais ciência humanas para entender o ser humano, suas limitações, problemas e futuro;
- compreender o ser humano como uma alma, sua estrutura, sua atuação e sua evolução;
- desenvolver espírito crítico e explorar a realidade do ser humano dentro da lei natural, da naturalidade dos processos evolutivos, através da reencarnação, como alma atemporal e em crescimento; e, para isso,
- dispor de recursos e meios para provar insofismavelmente a imortalidade, renovando o exercício e os objetivos da mediunidade, superando a fase meramente moralista e religiosa em que esta se situa atualmente. (Eu diria mais, provar insofismavelmente a reencarnação).
Mas, termina num anticlímax, dizendo que "o objetivo maior será introduzir na cultura o sentido sério, basicamente defensável dos postulados puros do espiritismo", e que a proposta ciência da alma "é kardecista na medida em que se apoiará nos alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário".
Quais são "os postulados puros do espiritismo"? Quais são "os alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário"? Que são "os acessórios das interpretações e extensões contextualizadas"? E por que ficar preso a essas questões ao invés de meter um carimbo de histórico em tudo isso, arregaçar as mangas e lançar-se à pesquisa, à busca dos objetivos antes delineados?
Ou seja, continua atolado no século dezenove; pois, a discussão para a resposta a essas perguntas nos levará seguramente mais um século de debates estéreis.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PRONTO, ENVOLVERAM O ESPIRITISMO!

Era o que faltava nesta campanha política. Católicos, evangélicos, liberais, conservadores, todos envolvidos até o pescoço e completamente divididos. Amigos de longa data se digladiando, no dramático esforço de demonizar o candidato adversário. Poderiam os espíritas continuarem serenamente sem envolver seus conteúdos doutrinários ou místicos (como queiram) nessa contenda? Difícil. Bem que tentamos, cada um com seu candidato, com sua preferência, sem conspurcar os humildes arraiais das nossas atividades. Não deu. O Carlos Vereza, por "encarnar" nas telas e vídeos o personagem mais badalado do espiritismo brasileiro, o Bezerra, julgou-se o próprio, e passou a lançar "vidências" na mídia, afirmando, do alto de sua reticente e rouca autoridade, que a Dilma e sua equipe estão cercados por uma multidão de obsessores!
Vê se pode!
Primeiro, cansaram de acusá-la de não ter biografia. Será que eu tenho biografia? Você, prezado leitor, tem biografia? Você, prezada leitora, tem biografia? O que é preciso fazer prá se ter biografia? Ser político profissional? Ganhar milhões na especulação financeira?
Olha, dá até prá fazer aqui um desafio: votem na Dilma os sem-biografia.
Os devidamente biografados fiquem com o Serra.
Agora, acusam-na de obsidiada. Será que eu sou um obsidiado? Tchan... Tchan... Tchan...! Você, prezada (e agora assustada) leitora, tem certeza de que não está obsidiada? O que seria estar obsidiado no entendimento do Vereza: estar cercado de espíritos inferiores?
Olha (de novo), dá até prá fazer outro desafio: espíritos inferiores, juntem-se a este outro inferior que ora escreve, e votemos na Dilma. Deixemos votarem em Serra os espíritos que se julgam superiores, da elite, saudosos de seus privilégios e exclusividades.
Afinal, o próprio Vereza bradava colérico com o microfone nas mãos: "Onde já se viu deixar um pobre comprar um carro em 70 prestações?" E, certamente, calava o que pensava em seguida: "Ele que enriqueça como eu, ganhe uma biografia, e compre à vista, ou ande a pé! Pobre quer carro prá quê?!"

terça-feira, 17 de agosto de 2010

DA AUTO-GERAÇÃO DE MITOS, OU DA GERAÇÃO DE AUTO-MITOS, OU SEJA O QUE FOR NESTA ESTONTEANTE ORGIA DE PALAVRAS NOVAS!

Já lá se vão umas quatro décadas (tempo suficiente para se lavarem as pretensões), aprendi um negócio interessante chamado de janela johari. Era uma técnica de feedback; uma ferramenta para conhecermos o que achamos de nós mesmos, em confronto com o que os outros acham de nós. Desde então, tenho levado ela em conta em minhas meditações, o que deve ter aumentado, um pouco que seja, minha capacidade de empatia e exercício de alteridade.
Certas críticas que faço à “mitologia” espírita, se inserem nesse contexto.
Há um certo “autismo intelectual” de alguns companheiros em relação a esse caso do recenseamento: “quando vamos conseguir ensinar (sic) as pessoas que kardecismo não existe?!” E continuam com a ladainha de que o termo kardecismo foi criado pelo movimento espírita brasileiro para destacar a “apropriação” do termo espiritismo por outras práticas e crenças.
Já mostramos, algumas postagens atrás, que os termos kardecismo e kardecista eram livremente utilizados na Europa muito antes do movimento espírita brasileiro ter qualquer expressão; e pelos próprios espíritas. Aliás, o termo começou a ser empregado ainda no tempo de Kardec ( veja Revista Espírita de outubro de 1865, página 289 da Edicel), apesar de seus protestos de que não era “autor” da doutrina, mas, apenas, um “facilitador de Deus” (expressão minha, e irônica, sim!), com a missão de diminuir as preocupações do Demiurgo na implantação de sua "terceira revelação" neste insignificante grão de areia cósmica. Basta dizer-se espiritismo, pois se Kardec criou o termo, só o que é kardecista o merece!
Realmente, Kardec diz tê-lo criado. Não no Livro dos Espíritos, na Introdução. Lá, basta lermos bem, Kardec não diz que o criou, diz que o usa. Mas, num texto publicado em Obras Póstumas, quando ele fala da Constituição do Espíritismo, é categórico: "Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender, a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita".
Era no que ele cria. Mas, é a verdade?
O primeiro alerta me veio do Dicionário Houaiss, o mais badalado do momento na língua portuguesa. No verbete espiritismo, ele diz mais ou menos assim (digo "mais ou menos" porque não o tenho no momento para uma transcrição literal: e quem for conferir, o faça também nos verbetes espírita e espiritista): "espiritismo, do francês spiritisme (1857) e do inglês spiritism (1856)" (!). Escrevi à editora pedindo que me dessem disto as fontes: não mereci resposta.
O segundo alerta veio de um blogueiro onipresente, o Vitor Moura, que mantém blogs, páginas, comunidades, e o que mais tem de direito, criticando ferozmente Kardec e o Espiritismo. Mas, certo de que se eu quero me conhecer devo ouvir meus inimigos, trago sua pesquisa:
- Já em 1854 a palavra era utilizada por Orestes Augustus Brownson, em seu livro, "The Spirit-Rapper. An Autobiography", para ser referir à necromancia.
E, mais: No mesmo ano, 1854, Leonard Marsh (1800 – 1870), da Universidade de Vermont, em seu livro "Apocatastasis, or Progress Backwards", editado em Burlington por Chauncey Goodrich, usava o termo spiritism. Talvez fossem essas as fontes que a editora do Houaiss me indicariam, caso me respondessem.
E agora? Kardec, que já havia perdido o direito legal, pois os direitos autorais vencem 60 anos após a morte do autor, perde também o direito moral de "lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita"?
E nós, vamos continuar alegando antipaticamente que apenas os kardecistas (ops! kardecismo não existe!) podemos ser chamados de espíritas, e os demais estão usurpando o termo?
Ou, é mais um mito que cai?
De qualquer forma, pelo exposto, torna-se não apenas admissível, mas necessária, a expressão "espiritismo kardecista", pois todas as outras formas, doutrinas ou crenças que têm por base o contato com os espíritos são, também, de pleno "direito histórico", espíritas!
Henri Sausse mostrou que era bom linguista quando fundou, em 1918, em Lyon, Le Spiritisme Kardeciste.

P.S. Este texto está mesmo a exigir um post scriptum, pois, além da necessária correção feita nos "comentários" sobre o verdadeiro autor da pesquisa citada (fontes que eu não verifiquei), é preciso anotar que o Dicionário Houaiss, em edições posteriores à minha consulta, não mais coloca a data de 1856, nem se reporta ao inglês sobre a origem do vocábulo espiritismo. Talvez a editora tenha recebido mais cartas, além da minha, e verificado a precariedade de suas fontes.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

SOCIALISMO E ESPIRITISMO

Leia abaixo as conclusões do primeiro congresso internacional dos espíritas.
Pesquise sobre Robert Owen; Charles Fourier e seu falanstério; Jean-Baptiste André Godin e seu familistério de Guise. Isto, em enciclopédias e na Revista Espírita.
Leia, na Revista Espírita, as referências aos fourieristas e aos saint-simonistas.
Leia, no livro A mesa, o livro e os espíritos, sobre as relações entre espíritas e socialistas no século XIX.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CONCLUSÕES DO PRIMEIRO CONGRESSO ESPIRITA INTERNACIONAL, EM BARCELONA, 1888

Conforme eu informei na postagem anterior, houve, nesse Congresso, duas redações de "conclusões": uma pelos delegados espanhóis, outra pelos delegados franceses, belgas, cubanos e italianos. Ambas as redações foram aprovadas pelos congressistas e incorporadas ao relatório do Congresso. A seguir, em tradução livre, a redação que finaliza o relatório:

"Por unanimidade, os dirigentes do encontro e todos os delegados, aceitaram o que segue, afirmado e proposto pelos senhores Eulogio Prieto, Juan J. Garay, Tomas de Ona, Ercole Chiaïa, Giovanni Hoffman, Efisio Ungher, José Nicolau Bartomeu, Pierre Gaëtan Leymarie, delegados belgas, cubanos, franceses e italianos:"

"O Congresso Espírita Internacional, reunido em Barcelona, em 8 de setembro de 1888, afirma e proclama a existência real e indiscutível das relações entre as almas encarnadas e desencarnadas.

"Considerando esse fato em suas fases diversas, o Congresso declara o seguinte:

1o. O Espiritismo é uma ciência positiva e experimental sancionada pela investigação constante e pela história;
2o. O Espiritismo é uma ciência filosófica superior que satisfaz mais que qualquer outra a consciência, a razão e a justiça;
3o. O Espiritismo é uma ciência psicológica que nos prova a existência da alma e nos dá a explicação mais lógica das relações mútuas da alma e do corpo;
4o. O Espiritismo é uma ciência divina que leva a uma crença racional em Deus e à certeza de uma vida futura, que estabelece a responsabilidade dos nossos atos segundo a estrita justiça, e prova a necessidade das reencarnações sucessivas como meio de progresso indefinido, seja sobre o nosso planeta, seja pelos mundos siderais;
5o. O Espiritismo deve se tornar uma ciência social, visando resolver os problemas humanitários seguintes: - de educação e de instrução integral para os dois sexos; - de legislação; - de propriedade; - de mutualidade; - de associação; - de fraternidade;
6o. O Espiritismo é a verdadeira escola do respeito devido a todos os pesquisadores de verdades, mesmo que eles não sejam adeptos do fundador de nossa filosofia, de nosso vulgarizador Allan Kardec;

"Em consequencia, o Congresso adere à proposições seguintes, que os delegados se propõem a executar em seus respectivos países, desde que circunstâncias favoráveis o permitam:

A. Tender continuamente a unir, a federar todos os espíritas de um mesmo país, a federar entre si todos os centros espíritas nacionais;
B. Introduzir os elementos da doutrina espírita no ensino popular, e implantar cadeiras de filosofia espírita em nossas escolas superiores;
C. Propagar a doutrina entre as massas, as oficinas, os centros industriais, as mais humildes comunidades, através de brochuras, de conferências gratuitas ou por meio da imprensa;
D. Prevenir os grupos e os centros espíritas, pois que o mestre Allan Kardec nos deixou especialmente prevenidos, quanto à credulidade excessiva nos ensinamentos hauridos com a ajuda das comunicações com o além: é preciso submetê-los a um critério severo, dizia ele; a credulidade sem controle, desacredita o Espiritismo;
E. Convidar a todo amigo sério do progresso para o estudo aplicado e imparcial das obras e fatos espíritas, e da ciência em geral;
F. Estabelecer que, se é logicamente preciso uma federação espírita local, departamental, regional, cada qual deve ter, segundo suas tendências e seu talento, completa liberdade de ação nos domínios do Espiritismo;
G. Ensinar o desdém ao ostracismo, devendo nossas fileiras ficarem sempre largamente abertas;
H. Interessar os espíritas no estudo da cooperação e da associação prática, segundo o modelo instituído em Guise, França, pelo Sr. Godin, fundador do familistério. Para extinguir o ódio de classes, e tornar impossível as revoluções e suas violências, visar a associação do capital e do trabalho, tal como aquele homem de bem;
I. Transformar as prisões penitenciárias em instituições de moralização, para reabilitar o homem caído no mal, exatamente como o faz em Paris a Sociedade dos Libertos de Saint Lazare, sob a direção da honorável e corajosa senhora Isabelle Bogelot;
J. Estabelecer um movimento de idéias para secundar toda ação que tenha por fim modificar os sistemas civis e penais de cada país no sentido da caridade e da justiça segundo o Espiritismo;
K. Unir-se a toda sociedade constituída para impedir os conflitos entre as nações por meio da arbitragem internacional permanente;
L. Tender progressivamente a desarmar as nações, a abolir as fronteiras, com a ajuda da palavra e da imprensa;
M. Propugnar pela supressão da pena de morte em todo lugar onde ela exista;
N. Trabalhar para destruir a escravidão sob todas as suas formas.

15 de setembro de 1888.

Os delegados belgas, cubanos, franceses, italianos e espanhóis."

segunda-feira, 19 de julho de 2010

NOVAMENTE O PRIMEIRO CONGRESSO ESPIRITA INTERNACIONAL

Conforme prometido, de vez em quando "posto" aqui, a título de curiosidade, a tradução de alguns trechos do relatório do Congresso Espírita Internacional de Barcelona, 1888. Agora,vamos colocar as afirmações e conclusões.
Atendendo pedidos, principalmente de correspondentes (ou seja, os que não estando presente, assim se faziam por cartas), os organizadores resolveram elaborar dois textos conclusivos: um pelos espanhóis; outro pelos franco-belga-italianos. Talvez tenha sido uma estratégia para contornar a famosa teimosia espanhola que, por certo, impediria uma redação definitiva. (Brincadeirinha, claro!).
A comissão franco-belga-italiana era constituída por Pierre-Gaëtan Leymarie (França), Efisio Ungher e Ercole Chiaia (Itália), José Nicolau Bartomeu (Cuba!).
A espanhola: Joaquin Huelbes Temprado, Manoel Sanz y Benito, Miguel Vives e Juan Chinchilla (Espanha), Eulogio Prieto (Cuba!), Pedro Fortoult Hurtado (Venezuela).

Por unanimidade, as seguintes conclusões da "escola espanhola" foram adotadas:

"O primeiro Congresso Espírita Internacional afirma e proclama a existência e potencialidade do Espiritismo, integral e progressiva.

"Seus fundamentos são: - A existência de Deus. - A infinidade dos mundos habitados. - A pre-existência e a persistência do Espiritismo. - A demonstração experimental da sobrevivência da alma humana através da comunicação mediúnica com os espíritos. - A infinidade de fases durante a vida infinita de cada ser. - Recompensas e penas como consequencias naturais dos atos. - O progresso infinito. - A comunhão universal dos seres. - A solidariedade.

"O caráter atual do Espiritismo se formula assim:
1o. Ele forma uma ciência positiva e experimental;
2o. Ele é a forma contemporânea da reparação;
3o. Ele consagra uma etapa importante do progresso humano;
4o. Ele dá solução aos problemas mais profundos, morais e sociais;
5o. Ele realça a razão e o sentimento, e satisfaz a consciência;
6o. Ele não impõe crença alguma, apenas convida ao estudo;
7o. Ele realiza uma grande aspiração, que é consequencia de uma necessidade histórica.

"Consequente com os princípios enunciados, o Congresso entende que toda Sociedade e todo adepto, deve, pelos meios legais à sua disposição, prestar apoio e colaboração às individualidades ou coletividades que se ocupam de civilizar os homens; assim, o Congresso aconselha:
A. O estudo completo da doutrina espírita.
B. Sua propagação incessante por todo meio lícito.
C. Sua realização constante pela prática das virtudes públicas e privadas.

"Para obter tal resultado o Congresso entende que cada Sociedade e cada adepto espírita deve encarar todo homem de boa vontade como um irmão durante a luta da vida, o combate contra o vício, o erro e o sofrimento. Para isso, aconselha:
D. O respeito a todos os investigadores, a todos os propagadores de verdades, mesmo se eles não forem espíritas.
E. O esforço constante no sentido de laicizar a sociedade em todas as esferas da vida;
F. Procurar obter a liberdade absoluta de pensamento, de ensinamento integral para os dois sexos, de cosmopolitismo abraçando todas as relações sociais;
G. A federação autônoma de todos os espíritas, todo adepto pertencendo a uma sociedade constituída, cada sociedade devendo manter relações constantes com o centro de sua localidade, todo centro local com o centro nacional, e cada centro nacional com os de outras nacionalidades.

"Enfim, o Congresso nota que não é conveniente aceitar sem exame as doutrinas de uma individualidade ou de uma sociedade que não queira admitir tais conselhos.

"È preciso ainda remarcar que Allan Kardec demonstra em suas obras o perigo da crença excessiva nas comunicações mediúnicas, e que é preciso, diz ele, submeter ao cadinho da razão e da lógica, uma vez que o simples fato da morte não confere progresso.

Barcelona, 15 de setembro de 1888".


Pretendo postar em breve as afirmações e conclusões dos delegados franceses, belgas, italianos, e aquele cubano perdido no meio deles.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A GÊNESE, OS MILAGRES, AS PREDIÇÕES e as espiritices brasilianas...(II)

(Esta postagem foi revisada pelo autor em 31.05.2012, e publicada nesta data sob o título: LINHA DO TEMPO ESCLARECE EDIÇÕES DA GÊNESE).

Ante a polêmica a respeito das alterações feitas na Gênese de Kardec (as autorizadas, do autor, e as desautorizadas, dos que querem "atualizá-lo"; vejam a postagem anterior), tentei elaborar uma LINHA DO TEMPO, que aqui disponibilizo para que completem, corrijam, critiquem ou desprezem...


06.01.1868 - Lançamento do livro A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, pela Librairie Internationale - A. Lacroix, Verboeckhoven et Co. Editeurs. Segundo Desliens - secretário de Kardec, médium da Sociedade Espírita de Paris e, posteriormente, membro da Comissão Central que sucedeu o fundador -, o contrato inicial previa uma tiragem com três edições; as fôrmas de impressão seriam de propriedade de Kardec. (Revista Espírita, jan/1868; mar/1885). OBS.: A Rouge Frères, Dunon et Fresné, Rue du Four Saint-Germain, 43, citada por alguns articulista como "editores" é, na verdade, a tipografia onde foram impressas as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, bem como, a quinta edição de 1872, já então da Librairie Spirite.

xx.02.1868 - Kardec determina uma tiragem em brochura à parte do capítulo Caracteres da Revelação Espírita. (Revista Espírita, fev/1868).

xx.02.1868 - Kardec inicia a tiragem da segunda edição. (Revista Espírita, fev/1868). OBS.: Sem qualquer alteração; idêntica à primeira.

22.02.1868 - Os espíritos apoiam Kardec na intenção de promover alterações na Gênese e o alertam para que conte com o esgotamento rápido dos volumes. (Obras Póstumas).

04.07.1868 - Os guias de Kardec o incitam a apressar o trabalho de remodelação da Gênese: "Acréscimos em diversos pontos (...) e condensação aqui e ali para não tornar mais extenso o volume". E, ante a possibilidade do esgotamento das edições no mercado, dizem: "Não perca tempo: é preferível que os volumes esperem pelo público, do que este por eles". (Obras Póstumas)

xx.07.1868 - Artigo na Revue sobre a "Geração Espontânea e a Gênese".

xx.09.1868 - Correspondência na Revue sobre o capítulo "Aumento e diminuição do volume da Terra" e publicaçao do texto "A alma da Terra", que Kardec incluiria na revisão da obra, e sairia apenas na 5a. edição.

xx.10.1868 - Última alusão na Revue à Librairie Internationale, por ocasião do lançamento da brochura contendo a correspondência de Lavater.

xx.xx.1868 - Antes que o ano termine a Librairie Internationale, de A.Lacroix, Verboeckhoven et Co.Editeurs, vai à falência! (Revista Espírita, mar/1885).

xx.xx.1869 - Ano novo, mudança total. Kardec planeja entregar os encargos do movimento espírita a uma Comissão Central e dedicar-se apenas a atividades intelectuais em sua residência na Avenue et Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos. Cria a Librairie Spirite, que passará a publicar e distribuir a Revue e suas demais obras, na rue de Lille, 7. O Sr. Bittard, antigo funcionário da falida Librairie Internationale é indicado para ser o gerente. A Sociedade Espírita de Paris também se transfere provisoriamente para o mesmo endereço. Tudo isso é planejado por Kardec para ter início em 01.04.1869.
Em meio à mudança de coisas para sua casa na Avenue et Villa Ségur e coisas para a rue de Lille, no já quase deserto escritório da Passage Saint'Anne, em 31 de março, Kardec morre! A Sra. Allan Kardec, única proprietária legal de suas obras e da Revue, após uma tentativa frustrada de convencer Camille Flammarion a sucedê-lo, decide:

"Primeiro: Doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes da venda dos livros espíritas e das assinaturas da Revue, isto é, das operações da Livraria Espírita; mas com a condição expressa de que ninguém, a título de membro da Comissão Central ou outro, tenha o direito de imiscuir-se neste negócio industrial, e que os recebimentos, sejam quais forem, sejam recolhidos sem observação, desde que ela pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas, regular a seu critério os emolumentos de seus empregados, o aluguel, as despesas futuras, numa palavra, todos os gastos gerais;
Segundo: A Revue está aberta à publicação dos artigos que a Comissão Central julgar úteis à causa do Espiritismo, mas com a condição expressa de serem previamente sancionados pela proprietária e a Comissão de Redação, o mesmo se dando com todas as publicações, sejam quais forem;
Terceiro: A Caixa Geral do Espiritismo é confiada a um tesoureiro, encarregado da gerência dos fundos, sob a supervisão da Comissão Diretora. Até que seja o caso de usá-los, esses fundos serão empregados na aquisição de propriedades imobiliárias para enfrentar todas as eventualidades. Anualmente o tesoureiro fará uma detalhada prestação de contas da situação da Caixa, que será publicada na Revue."
Por incrível que pareça, ela "foi objeto de felicitações unânimes". (Revista Espírita, 1868/1869; Obras Póstumas).

xx.xx.1870 - Segundo seus biógrafos, Pierre-Gaetan Leymarie assume a direção do movimento espírita (Sociedade, Revista e Livraria). Leymarie conviveu e colaborou com Kardec, como médium e como divulgador do espiritismo, recebendo total confiança de Amelie Boudet. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

01.06.1871 - Segundo informação de Desliens, esta é a data limite em que a Sociedade, a Revista e as impressões das obras de Kardec estiveram diretamente a cargo de Bittard, Tailleur e Desliens. Presume-se que só a partir desta data Leymarie tenha assumido efetivamente tal mister. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1872 - Lançamento da QUINTA EDIÇÃO da Gênese, agora pela Librairie Spirite (conforme se pode verificar por noticie bibliographique da Bibliothèque Nationale de France). A BNF mantém esta edição em seu acervo com a identificação: FRBNF30010935.
A quarta edição foi, ainda, publicada pela Librairie Internationale.
Aliás, hoje em dia, pela internet, pode-se encontrar o original de todas essas edições (1a2a3a4a5a) em várias bibliotecas francesas, assim como disponibilizadas em sites brasileiros.

xx.xx.1883 - Fundição dos clichês da Gênese. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1884 - Henri Sausse, espírita, polemista, biógrafo de Kardec e iniciador da utilização midiática da expressão "espiritismo kardecista", após comparar os textos das edições da Librairie Internationale com o texto da edição da Libraire Spirite, acusa Leymarie de ter feito alterações na Gênese, gerando ruidosa celeuma no meio espírita. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

15.03.1885 - Desliens, que estava afastado do movimento espírita desde 1871, escreve uma carta à Sociedade com a intenção de defender Leymarie.
Segundo ele, Kardec contratou com a Librairie Internationale as três primeiras edições, e, ainda em 1868, autorizou a 4a, 5a. e 6a. E que as matrizes destas três últimas serviram para as edições de 1869 a 187l (período em que ele esteve à frente do negócio) "e em diante". E sugere que Kardec tenha feito as alterações objeto da celeuma nestas placas, uma vez que eram fôrmas de letras soltas. Diz ainda que a última edição de 1868 era idêntica à primeira. (Revista Espírita, 1885). OBS.: Esta última afirmação de Desliens pode, hoje, ser comprovada por qualquer pessoa que se disponha a cotejar as edições de 1868.

Contradições: Segundo fac-simile apresentado pela Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, a 4a. edição é de 1868 e da Librairie Internationale. Segundo notice bibliographique da BNF, a 5a. edição é de 1872 e da Libraire Spirite. Não encontramos outras 5a. e 6a. edições de responsabilidade de Desliens; aliás, não encontramos ainda nenhuma edição entre 1869 e 1871!

xx.xx.1911 - Guillon Ribeiro torna-se espírita, vindo a ocupar a presidência da FEB e a produzir inúmeras traduções, incluindo a Gênese de Kardec, que ele diz ter traduzido a partir do original da QUINTA EDIÇÃO. (Sites brasileiros, encontrados via Google).
É evidente que a tradução de Guillon Ribeiro foi feita após 1911; portanto, no mínimo, 27 anos após as denúncias de Henri Sausse, 38 anos após a publicação da edição que lhe serviu de base, e 41 anos após as alterações objeto das denúncias.

xx.xx.00 - Carlos Brito Imbassahy, espírita brasileiro, refaz, cento e tantos anos depois, o caminho de Henri Sausse: compara a TERCEIRA EDIÇÂO da Gênese francesa, de 1868, com a atual edição brasileira da FEB; constata as diferenças e acusa o tradutor brasileiro, Guillon Ribeiro, de ter feito as alterações. Disponibiliza na internet uma tradução do original da terceira edição ("ao pé da letra", segundo sua advertência) que diz ter em seu poder. (Sites e blogs brasileiros, encontrados via Google).

xx.xx.2007 - A empresa Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, publica uma tradução da Gênese, de Albertina Escudeiro Sêco, afirmando ser baseada na QUARTA EDIÇÂO, de 1868, ainda da Librairie Internationale, da qual exibe fac-simile apenas da folha de rosto. Ousadamente, perpetra uma série de alterações no texto de Kardec, a pretexto de "atualizá-lo". (A Gênese, Léon Denis Gráfica e Editora).

Assim, temos atualmente duas versões da Gênese disponíveis no mercado editorial brasileiro. Uma, baseada na versão francesa fixada desde a quinta edição de 1872, traduzida por Guillon Ribeiro, Herculano Pires, Salvador Gentille, e outros. Outra, baseada na versão de 1868, traduzida e alterada por Albertina Escudeiro Sêco. Além dessas, existe a tradução de Carlos Brito Imbassahy, baseada, segundo ele, na terceira edição, de 1868, e disponibilizada gratuitamente na internet.

Bem, penso que esta linha do tempo absolve o Guillon Ribeiro. Quando as alterações foram feitas, seja por Kardec ou por Leymarie, ele não havia nem nascido. Quando ele fez sua tradução, passados quarenta anos dos fatos, ele só poderia agir como todos os outros tradutores, de todos os idiomas: utilizar a versão definitiva, disponibilizada pelos que ainda detinham seus direitos autorais.
Dispensam absolvição, porque não foram acusados, os demais tradutores brasileiros, bem como os vários editores franceses, que utilizam a versão fixada a partir da quinta edição.
Quando eu publiquei este post a primeira vez, eu disse que "nossas conclusões seriam enormemente facilitadas se fossem disponibilizadas ao público, em fac-simile, digitalizados, os originais da terceira edição (pelo Carlos Imbassahy), da quarta edição (pela LDGE) e da quinta edição (pela FEB)". Vejam como as coisas evoluem rapidamente na web: não precisamos mais disto. O historiador Felipe Gonçalves gentilmente me forneceu cópia da 4a. edição francesa; e, por informação dele, consegui junto ao site do IPEAK - Instituto de Pesquisa Espírita Allan Kardec, a 1a., 3a. e 5a. edições francesas. Tais fac-similes originais fazem referência aos locais onde estão armazenados e disponíveis.

Fiz a pretendida comparação, o cotejo, das edições francesas entre si, e delas com as traduções brasileiras -- de forma completa nos trechos polêmicos; mais rapidamente nos demais capítulos --, e posso afirmar que:

a) as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, tal como disse Desliens, SÃO IDÊNTICAS, o que demonstra que NENHUMA FOI REVISADA POR KARDEC.

b) a tradução do Guillon Ribeiro está rigorosamente fiel à 5a edição francesa de 1872, o que demonstra que ele NÃO É RESPONSÁVEL POR ALTERAÇÃO ALGUMA NA GÊNESE.

Agora, a situação do Leymarie complica um pouco, tendo em vista as inconsistências no depoimento do Desliens, feito 14 anos após os fatos.
A seu favor temos os inúmeros escritos e publicações de Kardec anunciando que preparava várias alterações na Gênese: acréscimos e supressões. Considere-se também o trabalhão que Leymarie teria para fazer todas as alterações no curto espaço de tempo entre o dia 01 de junho de 1871 e o dia do início da impressão, provavelmente já em 1872. Pergunte-se também, qual seria a motivação (o velho "a quem interessaria o crime?") que lhe justificasse tanto trabalho.
O mais provável, que ressalta da presente linha do tempo e da leitura e comparação das edições francesas e traduçoes brasileiras, é que Kardec, após autorizar que Bittard usasse a massa falida da Librairie Internationale para, em fins de 1868, fazer uma quarta edição a toque de caixa e antes mesmo que se esgotassem as demais, reuniu-se com ele e fez as alterações anunciadas diretamente nas matrizes, a fim de imprimir com elas uma quinta edição, definitiva, e já em casa, na Livraria Espírita. A morte, entretanto, interrompeu seus planos, e a natural confusão estabelecida entre esse trágico episódio e a assunção das edições pelo Leymarie, período em que este último segundo Desliens não teve acesso às matrizes, foi suficiente para que esquecessem as alterações, até que o Sausse as identificasse muitos anos depois. Isto só será definitivamente esclarecido se aparecer algum exemplar da suposta 5a. e 6a. edições feitas pelo Desliens: se elas forem iguais à 5a. de 1872, fica provado que a revisão foi feita por Karec; se elas forem iguais às anteriores (1a2a3a4a de 1868), a suspeita volta sobre o Leymarie.

Bem, aí está o resultado de uma pesquisa histórica orientada por princípios científicos. Qualquer pessoa poderá comprovar ou refutar minhas afirmações acessando todo o material correspondente, hoje disponibilizado em bibliotecas e sites, conforme detalhei ao longo do texto.
Evidentemente, tal pesquisa contraria toda a mitologia estabelecida nas redes sociais sobre o assunto. Mas, isto é porque toda essa boataria foi motivada mais por disposições ideológicas do que pela pesquisa e análise racional dos fatos.
A 5a. edição, definitiva, está, em alguns pontos, melhor redigida que as anteriores. Os itens suprimidos não enfraquecem em nada a posição anti-roustainguista deixada clara por Kardec. Tanto é que Guillon e a FEB obrigaram-se a notas de pé de página defendendo suas posições.

domingo, 11 de julho de 2010

A GÊNESE, OS MILAGRES, AS PREDIÇÕES e as espiritices brasilianas...

Saudades do Herculano... Em meados dos anos 70 a FEESP lançou uma tradução do Evangelho Segundo o Espiritismo substituindo algumas palavras usadas pelo autor francês. Por exemplo, como o termo "odiar" é - oh! - muito forte, mudaram para "amar menos"; e outras infantilidades do mesmo nível. Herculano saiu a campo para denunciar tamanha ousadia dos que se julgam melhores que o autor a ponto de acharem que ele foi infeliz na escolha das palavras de sua obra. Ora, escrever é um ato de escolha. Um autor é ou não bem sucedido justamente em função das palavras que escolhe. Isto é escrever! Como alguém pode se arrogar competência para alterar as escolhas de um autor de sucesso, principalmente alguém que não tem sucesso?
Claro que um tradutor também tem uma ampla área de escolha; mas, sempre balizada pelo autor original.
Agora, trinta e tantos anos depois, me deparo com outra dessas. A Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, lança uma tradução da Gênese "atualizando" Kardec: substituindo "léguas" por "quilômetros"; figuras de linguagem bonitas, como "a velocidade do relâmpago", por "velocidade da luz"; e aí afora. E não é, a velocidade do relâmpago, a mesma velocidade da luz? Além do quê, não era usual, na época de Kardec, medir as distâncias em "anos-luz". O pior é o título do capítulo "Uranografia Geral", nome então em moda e escolhido pelo autor, Camile Flammarion, que o atribuiu a Galileu: virou "Astronomia Geral". O "Caráter da Revelação Espírita" vira "Fundamentos da Revelação Espírita"!
A Gênese de Kardec, por transitar na área científica, é a mais pontual de suas obras, a mais datada; cheia de teorias ultrapassadas a respeito da Lua, de Marte, da geração espontânea; daí que seria impossível "atualizá-la" completamente. Ante isto, em grande parte da obra o tradutor ou revisor opta por notas de rodapé, explicando as desatualizações. Ora, por que não fez logo isso em todos os pontos do livro, evitando cair no crime moral de adulterar um autor morto, de desfigurar sua obra e retirá-la de seu contexto histórico e cultural?
Louve-se, claro, a boa intenção da tradutora e da editora em resgatar o texto comprovadamente kardeciano do livro "A Gênese...". De passagem, informamos que Kardec, em vida, providenciou quatro edições da sua Gênese, todas idênticas, feitas com as mesmas matrizes.
Três anos após sua morte, seu sucessor, Leymarie, lança uma 5ª edição "revista, corrigida, aumentada", com enormes diferenças para com as três primeiras. Henri Sausse denuncia o fato em 1884; assunto que abordo em outro artigo. Mas, mesmo sendo elogiável o ato da editora e tradutora em fazer o devido resgate, isto não lhes dá o direito de adulterar a linguagem do autor a pretexto de "atualizá-la"

quarta-feira, 23 de junho de 2010

NOVAMENTE A IDENTIDADE CIENTÍFICA

Como eu disse abaixo, alguns argumentos que põem em dúvida o caráter científico do Espiritismo são dignos de atenção.
Na ciência, as pessoas elaboram hipóteses e desenvolvem experimentos para confirmá-las ou rejeitá-las. Se, ao invés de seguir tal procedimento, alguém opta por consultar um ou mais sábios - daqui ou do além - sobre as "verdades" do Universo, está fazendo religião. Ainda se pode alegar que seria válido um cientista interrogar sábios - daqui ou do além - para saber algo sobre o que se desconhece do Universo e, depois, efetuar experimentos para comprovar as informações recebidas. Mas, não é isso, em absoluto, o que acontece no Espiritismo. Interrogamos os sábios do além sobre assuntos da alçada da ciência (Kardec com Galileu; os brasileiros com Emmanuel e André Luis) e partimos para a pregação das respostas como verdades.
Talvez Kardec tenha afirmado que o Espiritismo era ciência porque estava equivocado, prisioneiro dos conceitos científicos do seu século; conceitos, por sua vez, contaminados pelo eurocentrismo, como se pode ver também nas abordagens raciais feitas por ele, pelos médiuns e seus espíritos (Vejam de novo a TAC: https://acrobat.com/#d=kUl6Vrvau2xCTJXzzKTYQA).
No seu aspecto fenomênico, na mediunidade, o Espiritismo teria uma chance de ser ciência. Isto, se os espíritas agissem como em uma ciência; ou seja, se continuassem os experimentos nessa área até a capitulação final, tal como a ciência capitulou em outras revoluções, contra outras certezas: o geocentrismo, a geração espontânea, a relatividade...

terça-feira, 15 de junho de 2010

INDIVÍDUO - SUBJETIVIDADE - CIÊNCIA - ESPIRITISMO

O monoteísmo representou a emersão do indivíduo.
Juntou, num Deus único e ideado, os elementos simbólicos esparsos nos diversos fenômenos naturais representados pela mente humana.
Foi o momento de auto-identificação do homem, como algo natural mas ao mesmo tempo saído da natureza, em condições de espreitá-la.
A filosofia grega (se isto não for pleonasmo) iniciou a postura que posteriormente Hegel entenderia como a de encarar a natureza mais como testemunha que mestra.
A história, como alquimista, depois de decompor o monoteísmo em três grandes visões do mundo (judaísmo, cristianismo e islamismo), juntou essas quatro mundividências (as três entre parênteses mais a grega), cozinhando-as em fogo brando por quinze séculos, e retirou do caldeirão a subjetividade que gerou a ciência como a conhecemos.
E o Espiritismo é um produto dessa ciência.
Agora, o cozido esfria, exigindo a atenção do aprendiz de feiticeiro.
E o subproduto, o Espiritismo, também...
A ciência exorciza seus mitos de uma natureza harmônica, simétrica, ordenada, lógica e coisa e tal, predispondo-se a assimilar a imperfeição.
E o Espiritismo, continuará insistindo em receber um lugar nessa velha jardineira queimando óleo? Ou assumirá sua vocação de desbravador de novas fronteiras, e começará a contribuir para a construção de uma ciência, ou uma mundividência, para os séculos vindouros?
Talvez o Espiritismo não seja um filho cativo da velha ciência que se esvai com a agonia da ordem e da perfeição. Talvez sejam apenas Kardec e, consequentemente, os kardecistas, escravos de uma era. Talvez Kardec seja apenas o fundador do Espiritismo e, dessa forma, insuperado se este for mais uma religião; mas, irremediavelmente superado se este for realmente ciência, como ele ousou sonhar.
A investida do Ministério Público Federal, da Bahia, (https://acrobat.com/#d=kUl6Vrvau2xCTJXzzKTYQA) evidenciou apenas uma das contaminações da literatura kardeciana pelos preconceitos (e mitos) da ciência do século XIX.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

OBRA DE ARTE NO PÈRE LACHAISE




O túmulo de Kardec, no Cemitério Père Lachaise, em Paris, é uma obra de arte: um monumento que evoca um dolmen celta, erigido há mais de cem anos. Aliás, todo o cemitério é apinhado de obras de arte em túmulos de pessoas famosas. Tanto é que se trata de uma das atrações turísticas de Paris, tem todo um quadro de guias e recebe várias excursões diárias. Sempre ouvi dizer que o túmulo de Kardec é o segundo mais visitado da cidade: perde apenas para o de Napoleão, cujo corpo descansa à beira do Sena a pedido do próprio. Achava que era ufanismo de espírita. Não é; pude constatar a veracidade do fato. E não tem nada demais. Simplesmente, o cemitério recebe inúmeras caravanas de turistas; os guias, notando a atenção que o de Kardec merece, principalmente de brasileiros, colocam-no no roteiro das caravanas. Claro que ele acaba sendo o mais visitado do cemitério, consequentemente, o segundo de Paris. Fiquei algum tempo ali e presenciei a cena do guia mostrando o túmulo e alegando que nem sabia porque era tão visitado: "talvez a obra de arte, talvez o fato de estar sepultado aqui o fundador do espiritismo". Essa última informação provocava risos nos turistas; mas sempre sobrava uns dois ou três que se deixavam ficar distraídos, por alguns momentos, talvez tentando assimilar a informação. Ah, e fotografavam bastante, também...
Estas fotos que estão aqui foram tiradas pela minha esposa Renate (a não ser, claro, aquela em que ela aparece). A do cabeçalho é da Passage Sainte-Anne, endereço da primeira sociedade espírita do mundo e onde Kardec redigiu suas principais obras.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

QUE É ISSO... CUEE?

Mania de siglas. Ainda mais quando dá uma sonoridade destas!
Me lembra a história do Figueiredo, recém eleito, fazendo o cursinho de presidente, levam-no prá visitar eletrobrás, telebrás, petrobrás, e outras mais, e no final ele pergunta qual era aquela, a "emobrás"; ao que os assessores respondem: "não, presidente, aquela era a placa "em obras". Hoje até cairia bem como uma associação dos "emos".
Mas, vamos lá, "CUEE" nada mais é que o Controle Universal do Ensino dos Espíritos, um capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, mais especificamente, a parte II da Introdução, Autoridade da Doutrina Espírita. Tema que frequentava assiduamente os programas de mocidades e dos centros que iniciavam a sistematização do estudo do espiritismo lá pelos idos dos anos 60, e que hoje a ortodoxia festiva tenta alçar a método de Kardec; sendo que ele é, na verdade, um dos itens do método de Kardec.
Aliás, o menos aplicável, hoje em dia, da forma como o fez Kardec.
Meados do século XIX, o espiritismo nascente, pouquíssimos grupos, ainda controlados, dirigidos e coordenados pelo seu fundador, era possível e relativamente fácil verificar um "controle universal". Logo após o desencarne de Kardec, a verificação da "universalidade" dos conceitos e princípios espíritas ficou precariamente a cargo dos "Congressos", tal como ele o sugerira. Mas, esses congressos existiram até a década de 30 do século XX, quando o espiritismo francês foi extinto e vicejou em todo o mundo uma nova espécie de espiritismo, fruto de uma mutação ocorrida em solo brasileiro no final do século XIX.
Hoje, temos um movimento espírita livre, anárquico, multifacetado, representado por inúmeros grupos, associados ou não. Qual desses grupos seria o responsável pelo "controle"? E como gerar consenso na formação de um grupo específico? Rien de rien! Hoje, cada espírita individualmente, munido das indicações metodológicas de Kardec, observa o universo das produções mediúnicas, e "controla" o que fará ou não parte de suas convicções.
A restauração do CUEE de forma radical é pretendida apenas por clérigos reencarnados que, em seus devaneios ortodoxos, imaginam-se controlando com mãos de ferro um sinédrio espírita ou um novo concilio de cardeais determinando o que é ou não espírita. Tal como já ocorreu no passado com o cristianismo: aquele "controle universal" exercido pelos apóstolos foi desintegrado pela força das cruéis perseguições romanas, e o cristianismo original foi extinto; vicejou, três séculos depois, o catolicismo controlador e autoritário, a bradar: "nós somos o CUEE do Cristo", sem ninguém se desculpando pela terrível cacofonia.

O Método de Kardec é mais amplo. Mais mesmo que o divisado pelo Herculano na Introdução que fez para a edição 1957 do Livro dos Espíritos.
Vamos abordá-lo em postagens próximas; logo após falarmos de uma tentativa frustrada de sistematização do estudo nas mocidades com um programa que se resumia em outra infeliz sigla: o PEDEM.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A PRECE

A prece é o orvalho divino
que aplaca o calor excessivo das paixões.
Avançai,
avançai pelas veredas da prece
e ouvireis as vozes dos anjos.
Que harmonia!
Já não são o ruído confuso
e os sons estrídulos da Terra;
são as liras dos arcanjos;
são as vozes brandas e suaves dos serafins,
mais delicadas do que as brisas matinais,
quando brincam nas folhagens
dos vossos bosques.
Por entre que delícias não caminhareis!
A vossa linguagem não poderá
exprimir essa ventura,
tão rápida entra ela
por todos os vossos poros,
tão vivo e refrigerante é o manancial
em que, orando, se bebe.


(in O Evangelho Segundo o Espiritismo; Cap.XXVII, 23)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O ESPIRITISMO É CIENTÍFICO?

Alguns argumentos que põem em dúvida o caráter científico do espiritismo são dignos de atenção e provocam um bom debate. Outros, porém, são de uma puerilidade comovente.
Outro dia li no orkut alguém argumentando que o espiritismo não é científico porque "não se fazem pesquisas nos centros espíritas". Ora, dentro de qualquer ciência existem os centros de pesquisas, e os centros de aplicação prática dos conhecimentos acumulados. E, entre os centros de aplicação prática existem aqueles mais abertos às novidades que vêm dos centros de pesquisas, e aqueles que são mais refratários a novidades e mudanças. Nas capitais ou no interior temos inúmeros consultórios de dentistas, médicos, veterinários, advogados, psicólogos, assim como, inúmeros pedagogos, professores de educação física, de língua portuguesa, literatura e outros, todos eles, aplicando conhecimentos acumulados ao longo de décadas ou séculos, poucos realizando pesquisas, mas, todos, atualizando-se constantemente por publicações que relatam os resultados das pesquisas realizadas em universidades, institutos, fundações, laboratórios, enfim, centros que se dedicam à pesquisa. Os centros espíritas não têm compromisso com a pesquisa porque são centros de aplicação de conhecimentos. Têm, sim, o compromisso de se manterem atualizados com as pesquisas e questionamentos gerados em centros outros, como, por exemplo, a SBPE de Curitiba, o CPDOC de São Paulo, aquele outro herdado do Engenheiro Hernani, e mais uma porção existentes do Brasil e no mundo.
Outro fator a se considerar é a necessária adaptação da metodologia de ciência para ciência e de prática para prática. Não se pode pretender estudar um poema, uma pulsão ou uma virose, com o mesmo método que se estuda um combustível, o deslocamento de um objeto no vácuo ou um terremoto.
Temos que levar em conta também, em nossa analogia, os diferentes objetivos das atividades científicas. O espiritismo não pretende formar profissionais; sua prática não se dirige a um mercado. Ele é uma causa; gera uma atividade voluntária e não lucrativa. Daí, suas imbricações com a filosofia e a religião serem mais fortes e presentes que em outras atividades humanas.
E, se o argumentador pretender que o espiritismo não pode ter um aspecto científico por não ser ou não gerar uma atividade profissional, lembramos a ele que a profissionalização não é privilégio da ciência. Se admitimos a existência de religiosos profissionais, por que não admitirmos a existência de cientistas não profissionais?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

DE ESDE's, PBDE's E COEM's

Quando falamos em sistematização do estudo do Espiritismo no Brasil, não podemos esquecer o trabalho de dois militantes na década de 50: um, na área da mediunidade, o Edgard Armond, com sua Escola de Médiuns; outro, na área de mocidades, o incansável José Jorge. Não estou pretendendo entrar no mérito dos cursos, suas virtudes ou defeitos. Apenas ressalto seu pioneirismo e sua influência no surgimento de outros cursos. Durante grande parte da nossa história houve rejeição ao estudo sistematizado por parte tanto dos organismos oficiais, as federações, como de alguns jornalistas espíritas. Esses últimos, não obstante, defendiam a organização de escolas e faculdades de espiritismo; mas não acolhiam com simpatia a mesma coisa nos centros. Tal rejeição durou até boa parte da década de 70.
A leitura pura e simples, comentada ou não, das obras de Kardec, que se fazia e ainda se faz nos centros, é uma atividade interessante. Mas, ao lado disso, é muito útil que se tenha programas de estudos sistematizados que facilitem o aprendizado em grupos e a saudável troca de compreensões e percepções.
Na década de 60 um grupo de jovens espíritas de Ponta Grossa-PR migrou para a capital do Estado, Curitiba, em busca de formação acadêmica, integrando-se no Centro Espírita Luz Eterna. Sob o risco de pecar pelo esquecimento de algum nome, eu citaria Alexandre Sech, Célio Costa, Telmo Wambier e os irmãos Neuton e Ney Albach. Em Curitiba, juntou-se ao grupo Maderli Sech, Maria Tereza Albach e várias outras pessoas, formando um grupo que daria o passo mais amplo em relação à sistematização do estudo do espiritismo. De início, eles introduziram, tanto no Centro como no movimento estadual, a prática de juntar os assuntos espíritas por temas, gerando programas de palestras semanais. Posteriormente, evoluíram para a criação do Centro de Orientação e Educação Mediúnica - COEM, método seguro e eficaz para a saudável iniciação à mediunidade, tanto no aspecto teórico como, principalmente, na prática. O COEM foi lançado em 1970.
Mais tarde, observando que o COEM era, na verdade uma especialização e, sentindo a necessidade de sistematizar o estudo da filosofia espírita com mais ampla abrangência, esse mesmo grupo lançou, em 1981, o PBDE - Programa Básico de Doutrina Espírita. Influenciou na conscientização dessa necessidade o lançamento pelo pessoal de Londrina-PR do excelente COED - Centro de Orientação e Estudo Doutrinário.
Essas iniciativas, somadas aos esforços de sistematização do estudo no Rio Grande do Sul, acabaram por fertilizar a Federação Espírita Brasileira que lançou, com sucesso, seu ESDE - Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

DE KARDECISMOS, PSIQUISMOS E RELIGIÕES

Cesar de Vesme era o diretor e editor da "Revue des Études Psychiques - Publication mensuelle consacrée aux recherches expérimentales e critiques sur les phénomènes de télépathie, télésthesie, prémonition, médiumnité, etc". ("Revista de Estudos Psíquicos - Publicação mensal consagrada às pesquisas experimentais e críticas sobre os fenômenos de telepatia, telestesia, premonição, mediunidade, etc.")
Entre vários outros livros escreveu "Visions grandioses de croix, d'armées et de combats dans les airs" ("Visões grandiosas de cruz, de exércitos e de combates nos ares"). A Editora União Graphica publicou no Brasil, em 1936, com o título "Visões grandiosas na terra e no ar". Em 1976, a Editora Eco não resistiu ao impulso de "aplicar um conto" e tornou a publicar com o título "Visões espíritas na terra e no ar" (que apelação!). C. de Vesme não usaria esse termo.
Escrevendo em sua revista, no distante ano de 1901, sobre a vã tentativa de Harrison D. Barrett de unir os espíritas americanos (Unite or perish! escrevia este), de Vesme assim se expressava: "A verdade é que o Modern Spiritualism americano, tornado uma religião mais ou menos igual a tantas outras seitas de iluminados: aos shakers, aos cientistas cristãos, aos teosofistas, etc., devia necessariamente ir ao encontro da mesma decadência que o nosso espiritismo kardecista; suas associações deveriam sofrer a mesma sorte que as nossas. É o espiritismo que cede seu lugar ao psiquismo, a revelação que cede seu lugar à experimentação, a religião (no velho sentido da palavra) que se transforma em ciência. O espiritualismo moderno, se está destinado a triunfar, não verá sua própria marcha retardada pela morte do Modern Spiritualism americano - ao contrário. Putrescat ut resurgat!"
Na mesma edição, quando faz o necrológico do Leymarie, colocando-o como sucessor de Kardec, diz: "Ele se encontra, assim, à testa do kardecismo, que era então, nas nações latinas, a única doutrina espírita conhecida". E, mais adiante, diz que graças a ele "a Revue Spirite vive ainda um longo período de fortuna e popularidade, sobretudo no estrangeiro".
Como se vê, já naquele tempo, o kardecismo fenecia entre franceses e ingleses -- onde não era a "única doutrina espírita" (sic) -- enquanto se disseminava entre os latinos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

MAIS ALGUMA COISA SOBRE IDENTIDADE

"O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações. Pode-se defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal." (Kardec, "O que é o Espiritismo").

Existe diferença entre ciência de observação e doutrina filosófica.
A nomenclatura, uma prática que, seja de forma natural, cultural ou intencional, procura dar às coisas o nome adequado visando sua compreensão pelo universo dos falantes, costuma associar à primeira o sufixo -logia, e à segunda o sufixo -ismo. Kardec, usando sua auto-atribuição de nominar e definir o que seja espiritismo, diz que ele é, ao mesmo tempo, as duas coisas (ciência e doutrina), para, logo a seguir, dizer que é apenas uma das coisas (ciência). Ao nominá-lo, porém, deixou clara sua preferência por doutrina, associando-o ao sufixo -ismo. Pelo menos, não me lembro, no momento, de nenhuma ciência terminada em -ismo. Já doutrina, escola, teoria, movimento, ação, prática ou condição, sim. Mas eu penso que a acepção mais nobre e ampla que pode atingir o sufixo -ismo seja a de mundividência. Taí: quando alguém perguntar "o que é o espiritismo", ao invés de ficarmos tartamudeando se é ciência ou religião, digamos logo que é uma visão e vivência do mundo que enfatiza o espírito. E, não adianta recaírmos no argumento de autoridade escavando citações na kardequiana. Primeiro, porque ele não se decidiu em definitivo, pendendo ora prá um lado ora prá outro, deixando textos que alimentam as duas posições. Segundo, porque ao lermos Kardec não podemos nos desnudar do conhecimento e influência que temos de Freud, Marx, Einsten, Popper, Adorno e tantos outros, assim como, esquecer toda a brutalidade e violência de que fomos capazes no século XX. Caso contrário, é melhor invocar logo o Wells, entrar em sua máquina do tempo, e ir viver feliz no século XIX.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

CIÊNCIA OU RELIGIÃO? (II)

O Espiritismo é um conhecimento novo; não se enquadra nas classificações estanques de ciência, filosofia ou religião. Daí que nunca chegarão a um acordo discutindo sua identidade presos a essas classificações. Ele quebra paradigmas; e cria novos. A compreensão de sua identidade deve se dar por conjecturas novas, em novas bases, a serem, talvez, ainda construídas.
A ciência é uma criação humana, resultante das conjecturas que constroem o instrumental metodológico (feita pelos que se dizem "filósofos") e do trabalho dos que usam tais instrumentais (e que se dizem "cientistas").
Ela é tão humana e falível, que estudos científicos, produzidos dentro de universidades, com supervisores e bancas, e publicados em revistas científicas do nível da Nature, chegam a resultados conflitantes.
Kardec insistia em que o Espiritismo fosse ciência porque era um pensador típico do século XIX; época de ingenuidade, em que se endeusava a ciência, pois ela não havia ainda passado por uma crítica mais amadurecida.
Hoje, podemos afirmar que o Espiritismo não é, não deve ser e não precisa ser ciência. Pode ser, sim, metaciência: algo para além da ciência e que tem métodos e conhecimentos suficientes para fazer a mais contundente crítica que a ciência jamais admitiu.
Daí certos embates irreconciliáveis que assistimos entre céticos (que, porém, são "crentões" na ciência) contra espíritas.
Não passa, muitas vezes, da defesa de um mercado ameçado: o "científico"!

sábado, 25 de julho de 2009

O MITO DAS TRADUÇÕES DO HERCULANO (II)

O comentário que fiz há dias sobre as traduções do Heculano, exige uma correção.
A tradução de O Céu e o Inferno ali referida é, na verdade, atribuída a ele e ao João Teixeira de Paula. Como não há divisão de responsabilidades explicitada, atribuí a ambos a evidente suspeita de "colação" com a tradução do Guillon Ribeiro. Porém, informaram-me (se bem que sem declinação clara da fonte) que o Herculano traduziu apenas até o caso Jean Reynaud, no Capítulo II, ficando o restante a cargo do João Teixeira de Paula. Só que, o João, sei lá, talvez, na pressa da impressão, outra tradução prontinha no mercado... sei lá...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O DISCURSO DE MIGUEL VIVES

Foi solicitado ao autor de O Tesouro dos Espíritas que discorresse, no já referido Congresso Internacional Espírita, em Barcelona, 1888, sobre o tema As tendências do Espiritismo em sua parte moral. Aí vai a tradução livre do seu discurso. Um testemunho afetivo e sincero desse expoente do Espiritismo. Alguns poderão achá-lo excessivamente sentimental e, por certo, criticarão a postura de submissão ao establishment. Mas, vale lembrar que era exatamente esse o espírito opressor da época em muitos lugares da Europa e, principalmente na Espanha, onde os cidadãos eram súditos, e não havia direitos básicos como acesso à terra e a trabalho livre (meu avô costumava dizer que migrou para o Brasil por causa disso). Para aproximar um pouco mais o discurso de nossa época, servi-me da faculdade traidora de todo tradutor e passei a forma de tratamento para a terceira pessoa, mais usual entre nós.


"Senhores Delegados,

Antes de tudo, permitam-me manifestar minha gratidão a Deus, que criou o espaço infinito e o povoou de sóis, de mundos, de satélites, de cometas e de maravilhas sem fim; onde a ordem, a harmonia e a previsão são a expressão viva da onipotência do Criador e a admiração de todos os seres pensantes que povoam o universo.
Permitam-me manifestar meu reconhecimento a ele pelo Eu que sinto em mim mesmo, que tenho certeza de ver progredir eternamente, que sempre encontrará novas manhãs, novos dias, novas famílias, novos espaços, novos progressos, novas virtudes e que, no caminho do infinito, aperfeiçoará todas as faculdades, até atingir ao mais alto degrau da perfeição.
Permitam-me admirar ainda o poder divino que vejo se manifestar nos atos que realizamos. Ah! Senhores, há já longos anos, quando proclamaram a Revelação, que pronunciaram a palavra Espiritismo, o mundo nos recebeu com uma gargalhada; e vendo que não podia nos aniquilar nem nos impedir de pronunciar essa palavra, nos cobria de ridículo e de desprezo, e lançava contra nós a perseguição moral que nos separa da sociedade e da família; chegaram a nos tratar como loucos.
Mas a opinião pública (tão poderosa quando se trata de romper cadeias e estabelecer os princípios da liberdade), quando se opõe à lei do progresso e à palavra de Deus, de início se agita, logo se cala, depois se deixa convencer; e o que era em princípio uma grande loucura, se torna enfim uma suprema verdade que vem regenerar todo o mundo.
Uma vez pago meu tributo de reconhecimento a Deus, a meu Pai, a meu Tudo, eu vou me acertar com meus irmãos.
Vejo em torno de nós, Senhores Delegados, vários espíritas notáveis.
Vejo os filhos da França representados na pessoa ilustre do Senhor Leymarie. Eu o saúdo, assim como todos os seus correligionários, filhos da pátria de Victor Hugo, de Thiers e de Gambetta; os filhos dessa pátria que, após sofrimentos e evoluções, levanta sua liberdade sobre o pedestal das liberdades européias; ela é hoje a esperança de todos os oprimidos do velho mundo.
Eu saúdo os filhos da pátria de Bellini. Os filhos dessa pátria cujas artes e harmonia têm preenchido o mundo; que tem elevado os sentimentos de todos graças às suas belas melodias. Os filhos que sofreram durante tantos séculos sob o jugo teocrático; que viram guilhotinar sua liberdade com a sentença de Tonetti, mas que mais tarde realizaram sua unidade, e como símbolo da liberdade de consciência elevaram a estátua de Giordano Bruno em face mesmo do Capitólio.
Eu saúdo também, e admiro ainda mais, os filhos das terras de Além-Mar, insignes apóstolos da abnegação e do sacrifício. Esses homens que, ao apelo dos espíritas espanhóis, se empenharam de seguir, sem medo dos perigos da viagem, o caminho traçado por Colombo no Oceano. Eu lhes asseguro que o sacrifício ficará gravado na memória de Deus, e lhes será uma grande consolação na hora suprema de sua transformação.
Tendo feito meu dever, vou agora cumprir a obrigação que me impus, ainda que superior às minhas forças, e que consiste em desenvolver diante dos senhores: As tendências do Espiritismo em sua parte moral.
Ah! Senhores, se eu pudesse compreender e revelar-lhes as impressões e alegrias que se apoderam do espírito desde seu arrependimento até à crença numa vida melhor; se eu pudesse fazer-lhes compreender a esperança e o gozo que sente o espírito quando, convencido de sua imortalidade, penetra nas ciências psíquicas e vê desenrolar-se diante de si essa sucessão de mundos e de maravilhas que o espírito deverá encontrar durante sua ascensão progressiva. Se eu me cresse digno, eu pediria aos espíritos puros do espaço que clareassem minha inteligência; se me cresse digno, eu pediria ao espírito que sofreu no Calvário, que iluminasse por um instante minha razão, como iluminou os mártires do cristianismo. Mas, não o ouso, porque sou indigno de tal honra. Tenho apenas confiança na lei de amor, que reina no espaço, e na boa-vontade dos senhores, que não me recusarão, pois sabem que em mim não fala nem o talento, nem a sabedoria, mas a convicção e o amor.
Quais são as tendências do Espiritismo? É de levantar aquele que está abatido; de fazer crer aquele que duvida; de dar as mais grandes consolações e as mais supremas esperanças; ele tende a transformar os vícios em virtudes, o egoísmo em caridade, o desespero em tranquilidade; ele tende a obter para a humanidade a mais grande tolerância, por fundir todas as escolas e todas a religiões nos grandes princípios da existência de Deus, da imortalidade da alma, do progresso infinito e da reencarnação.
A existência de Deus e a imortalidade da alma têm sido os princípios fundamentais de todas as religiões. Sobre esses dois pontos elas têm estabelecido seus dogmas, sua teologia e seu poder. Mas, é triste dizê-lo, após tantos séculos de dominação teocrática, a humanidade está mais cética do que nunca. E sabem por quê? Porque as religiões têm sempre imposto e jamais demonstrado; daí porque a fé cega está perdida, não restando senão a fé especulativa. Ora, o Espiritismo não vem impor esses dois princípios, mas sim, demonstrá-los.
Sabem como ele prova a existência de Deus e a imortalidade da alma? É por meio da comunicação com os que já viveram sobre a terra. Mas, infelizmente, Senhores, essa comunicação que nos tem dado tantas consolações, que nos tem revelado tantas verdades, que nos tem explicado tudo o que até então era mistério, que tem sido a testemunha ocular de nossos pais, de nossos filhos, de todos aqueles que desapareceram da face do globo, essa comunicação tem sido recebida no XIXo. Século como foram acolhidas em sua época os cálculos de Colombo, os trabalhos de Gutemberg, as descobertas de Galileu e as deduções de Newton.
E por quê? Porque a comunicação nos tem dito que Sócrates, Platão, Aristóteles e Plutarco vivem ainda. Porque ela nos diz que todas as raças que lutaram afastadas pela barbárie e pela cobiça foram sujeitadas à lei da perfeição e do progresso infinito. Por que ela nos diz que todos os heróis, todos os mártires, todos os grandes, assim como todos os criminosos, estão vivos; que João Huss, Savonarole, Geronimo de Praga, ressuscitaram das cinzas das fogueiras do Santo Ofício; que Guilherme Tell, Riego, Padilha e todos os mártires da liberdade existem ainda. Assim como Franklin, Copérnico e todos os mártires da ciência; assim como Joana D'Arc, Washington, Lincoln, Masini, Gambetta, Victor Hugo, Garibaldi, Prim e todos aqueles que existiram durante o curso das gerações sucessivas, que viveram sobre a terra e sobre todos os mundos.
A humanidade pensa que os que viveram antes de nós não se comunicam mais. Ela crê que as comunicações são uma ilusão de nossa imaginação exaltada, um resultado do fanatismo da nossa escola, ainda que se contem milhões de espíritas. Ah! Senhores, é preciso confessar que, ou bem a tolice na qual a humanidade crê é uma sublime verdade, ou uma grande parte da humanidade é realmente louca.
Mas a mim me parece que a maneira de raciocinar dos espíritas não é nem loucura, nem fanatismo, nem ilusão; parece-me que a loucura, o fanatismo ou a ilusão, não poderiam trazer uma nova moral, uma nova revelação, uma nova ciência. Por isso eu afirmo que a comunicação dos espíritos que vivem no espaço conosco que vivemos sobre a terra é uma verdade demonstrada somente pelo Espiritismo e o afirmo diante de vós, professores, doutores ilustres e médicos distintos que me ouvem neste Congresso. Afirmo e estou seguro que nenhum dos senhores irão me desmentir; estou seguro que, com toda sua sabedoria, não negarão minhas afirmações. Como poderiam refutá-las? Que eram os senhores, que era eu mesmo, e que eram todos os que não esperam nada além da matéria? Que eram os senhores, antes de conhecer a comunicação? Um ajuntamento de materiais sujeitos ao acaso: ora se lançavam ao infinito, para tornar a cair daí a pouco no abismo sem poder explicar os acontecimentos nem definir as circunstâncias. Que seria o amor de suas esposas e de seus filhos? Que significariam todos os esforços, todos os sacrifícios, todos os trabalhos empreendidos por aqueles que nos têm precedido durante a vida? Que significaria a caridade praticada por São Vicente de Paula? As orações de Tereza d'Ávila? Que significariam as lágrimas vertidas na via dolorosa, e as sublimes palavras: "Pai, perdoa-os; não sabem o que fazem"? Que significariam os sacrifícios feitos pelas mulheres arrastadas através das ruas de Roma e pelos mártires imolados nos circos, sob as fogueiras e sob o machado do carrasco? Que significariam a inspiração de Demóstenes, de Cícero e do Apostolo Paulo? Que significariam a arte de Murilo, de Rafael, de Michelângelo; as melodias de Mercadente, Rossini e Donizetti; o gênio de Cervantes, Lamartine e Victor Hugo, se tudo devesse se perder, se tudo devesse desaparecer, se a mesma recompensa alcançasse o mártir e o criminoso, se tudo devesse ser a tragédia fatal cuja vítima seria a humanidade inteira?
Mas, já sabem, Senhores, que não há virtude sem recompensa, nem vício sem repressão. Sabem já que a imortalidade está demonstrada, e que a comunicação com os seres que nos precederam é um fato prático; sabem que a comunicação é altamente moralizadora, e que ela é o testemunho de todas as verdades da revelação espírita. Isto porque todos os sacrifícios, todos os heróis e todos os mártires obedecem a uma lei de progresso e de perfeição necessária ao desenvolvimento da humanidade. Eu me rejubilo de poder afirmar diante dos sábios reunidos nesta Assembléia, diante dos professores, dos doutores e dos médicos -- porque não se pode dizer que o Espiritismo recruta seus adeptos entre os ignorantes facilmente enganados, se vemos, em nosso meio, espíritos que agem com todo conhecimento de causa , e que falam em nome da ciência e da revelação --, e eu asseguro que, no XIXo. século, se um grande filósofo se tivesse levantado para reformar o mundo e não tivesse provado sua filosofia por fatos extraordinários, ele seria morto antes de nascer.
Eu lhes disse, senhores, que gostaria de demonstrar as tendências do Espiritismo em sua parte moral; permitam que me ocupe um pouco de mim mesmo e lhes conte dois episódios da minha vida, terríveis golpes, que se passaram muito claramente.
Há 22 anos eu vivia em plena lua de mel, tudo sorria à minha volta. A mulher que eu havia escolhido como companheira da minha vida não era para mim uma mulher, mas um anjo. A vida se desenrolava feliz e, jamais eu pensaria que essa felicidade pudesse se interromper. Mas, infelizmente, a mulher que eu tanto amava foi acometida de uma doença terrível; toda a minha alegria se evapora num momento; pois jamais eu acreditaria que pudesse perdê-la para sempre. A doença tomou proporções alarmantes; apelei à ciência em socorro, apelei a tudo que podia para salvá-la, mas tudo foi inútil. Seu olhar tão expressivo, tornou-se fraco, indeciso; seus lábios róseos se descoloriram; seu corpo tão flexível, torna-se rígido. O coração cessa de bater e todas as minhas esperanças, toda a minha alegria, todo o meu amor se transforma, pois com a morte do corpo, não resta senão um cadáver.
Ah! Senhores, como foi grande meu desespero. Maldisse tudo que me cercava, e para que ninguém visse meu desgosto, fugi para o campo, chorando amargamente. Tudo estava morto para mim. Enquanto eu chorava e me desesperava, os pássaros enchiam o ar com seus cantos. Virei-me para eles e disse: "Por que cantam? Não sabem que perdi toda minha esperança e todo meu amor? Não sabem que meu coração é um deserto, e vivo como um moribundo? Seus cantos são uma zombaria. E você, rouxinol, por que me faz ouvir seus sons modulados? Não sabe que o ninho mesmo que você acaricia é uma ficção? E vocês, vales, que parecem túmulos da humanidade; e você, Sol, que me abrasa, que ilumina tal drama, por que não acaba logo com esse dia cheio de males?" Uma horrível tempestade se desencadeia então no espaço; vendo os raios lívidos e ouvindo o ressoar dos trovões, me parecia que aquela trovoada era justa, que era bom que chegasse.
Permaneci longo tempo presa das mais cruéis recordações, dos mais tristes pressentimentos, que se esvaneceram após minha conversão ao Espiritismo; conversão que não vos detalharei, pois sabem o que se sente, o que se passa. Direi somente que há seis anos eu tinha, de minha segunda esposa, um filho encantador, com nove anos de idade (para os pais, as crianças são todas gentis). Ele me acariciava seguidamente e me abraçava com uma ternura toda particular, dizendo: "Pai, quando você for velho, eu lhe darei de comer e o levarei a passear, como faz hoje comigo". Deixo-os a pensar no que sentia minha alma. Mas, infelizmente, uma terrível doença teimava em meu filho; seu corpo vivo e gracioso enfraquecia; seu olhar antes tão pleno de viva expressão, tornava-se lânguido, indeciso. Socorri-me, então, nas verdades espíritas; lembrei que meu filho não morria e, sim, renascia; e, enquanto ele dava o último suspiro, eu via a tranquilidade da sua nova vida, seu progresso novo. Disse, então, aos que me cercavam: "no relógio terrestre soa a última hora da vida de um corpo, mas o relógio do espaço marca a primeira da existência de um espírito. Meu filho não morre, ele se transforma; e brilhará logo mais no mundo dos espíritos: Respeitemos a vontade de Deus".
Logo, uma angústia se apodera de mim: que posição ocupará meu filho no mundo espiritual? Irá ele sofrer por alguma falta de suas existências passadas? Não, eu dizia a mim mesmo: "seu filho era bom; ele amava muito os pobres e era sempre o primeiro a pedir por eles". Então, pedi a Deus que me permitisse saber o estado do meu filho; pedi ao meu filho uma prova de sua posição. Mas eu desejava uma prova extraordinária, definitiva. Ela não se fez esperar. Numa das reuniões que vamos todo domingo, meu filho se manifestou, e o fez de uma maneira muito particular, dando tantas provas que a família o reconheceu bem antes que ele desse seu nome. Aquele espírito me chamou "pai", deu-me provas de um grande e puro amor, descobriu-me as belezas da criação e da natureza de uma maneira que eu jamais sentira. Sua posição estava tranquila, elevada, plena de paz e alegria. É impossível transmitir ao senhores a imensa alegria que se apoderou de mim. E a todas as mães que perderam seus filhos, eu diria: não chorem mais, porque seus filhos não estão mortos; eles vivem no infinito. A todos os filhos que perderam seus pais, eu diria: não chorem mais, porque seus pais vivem a vida eterna. Minha casa tornara-se pequena para conter minha alegria; eu precisava render graças a Deus no meio da imensidão. Dirigi-me então para o campo. Elevava minha prece ao grande Criador, e manifestava minha gratidão ao Pai de Todo o Universo. Enquanto meu coração reconhecido se elevava a Deus, os pássaros cantavam. Ouvindo-os, eu me lembrava de outra ocasião, quando eu os havia severamente repreendido. E lhes disse: "cantem, queridos pássaros, cantem! seus acordes são uma eterna harmonia que se une às belezas da criação; cante, ó rouxinol, pois o ninho que acaricia já não é uma ficção, mas uma manifestação da vida infinita em suas múltiplas transformações; e vocês, vales, que me pareciam de outra feita os futuros túmulos da humanidade, hoje os vejo como lugar onde se desenvolve a vida de uma multidão de seres, o lugar onde eles crescem, se agitam e se desenvolvem; e você, Sol, que ilumina um sistema de mundos, você é a testemunha da onipotência divina, e eu o bendigo". Enquanto eu assim me entregava à alegria da contemplação da criação, eu vi ao longe um arco-íris que começava a empalidecer: era o arco-íris de uma terrível tempestade!
Crêem, Senhores, que essa comunicação dos pais com seus filhos, e dos filhos com seus pais, não se produzirá em todas as classes sociais? Crêem que a humanidade repelirá sempre as investigações dessas comunicações espirituais que trazem tantas consolações?
Não, Senhores. A comunicação chegará aos grandes da terra, e lhes dirá: é verdade que os senhores têm o poder; mas, infelizmente, desgraçados serão, se em lugar de serem protetores, transformarem-se em carrascos; desgraçados serão se fizerem correr o sangue! porque na hora suprema de sua transformação, encontrarão os que oprimiram; o sangue derramado os cercará, e não encontrarão no espaço lugar algum para esconderem seu horror e sua vergonha. Se, ao contrário, forem o que devem ser; se considerarem que acima de nós se encontra o Autor da lei; se amarem, protegerem e tratarem como devem seus súditos, serão grandes sobre a terra e no espaço, e na hora suprema de sua transformação seus subordinados aclamarão e darão a vocês conhecimento de sua satisfação e alegria.
A comunicação ensinará e provará à dama aristocrática que é preciso não somente adornar seu corpo, mas também seu espírito; lhe mostrará que o ser que não pensa senão em si mesmo é o mais pobre no reino de Deus.
A comunicação dirá aos ricos: é bem verdade que os senhores possuem o poder do ouro; mas, infelizes serão se não servirem aos semelhantes; infelizes serão se esquecerem os mandamentos sublimes: ame teu próximo! Infelizes serão se olharem somente para si mesmos; porque estarão presos às correntes que tiverem forjado! E quando chegar a hora da transformação, seu espírito não encontrará nenhuma voz amiga, nenhuma palavra de consolação, nenhuma esperança, e ele ficará perdido no espaço infinito, cercado das mais espessas trevas. Mas, se tiverem em vista o bem geral, se lembrarem da solidariedade e da proteção mútua, se aliviarem e consolarem seus semelhantes, se suas riquezas visarem um fim útil ao progresso humano, então o reconhecimento será seu patrimônio no mundo futuro; seu espírito será aclamado e cercado de espíritos amigos, e compreenderão o quanto estiveram trabalhando para si mesmos, enquanto praticando sobre a terra a justiça e o amor!
A comunicação se manifestará aos oprimidos e aos infelizes; lhes fará grandes promessas; lhes abrirá o caminho do esquecimento e da esperança, e lhes dirá: Bem aventurados os que sofrem e têm fome e sede de justiça; lhes mostrará as liberdades que esperam no reino dos céus os que foram oprimidos sobre a terra, e as angústias reservadas aos opressores; a esperança e a resignação penetrarão, então, em seus corações, e eles sofrerão com calma os tormentos da vida.
Isto que lhes digo, Senhores é um fato prático, e para o provar acrescentarei algo ao nosso Congresso: tenho a honra de representar uma sociedades espírita formada por 32 condenados, que sofrem e purgam suas condenações.
(O orador pega uma carta e a lê).

"Senhor D. Miguel Vives, muito caro irmão.
"Nós agradecemos suas exortações e nos sentimos imensamente felizes ao sabermos que um Congresso internacional espírita se vai celebrar; lamentamos vivamente não podermos tomar parte; tal coisa nos é impossível; mas nós lhe suplicamos de se digne a nos representar e proclamar em pleno congresso que 32 indivíduos, outrora criminosos, hoje se arrependem e perdoam seus inimigos, e sonham retornar à vida livre para demonstrar a mudança que neles produziu o Espiritismo.
"Não pensamos senão em nossa própria reforma moral, e na da humanidade.
"Trinta e dois condenados os saúdam, e desejam a proteção de Deus."
PRISÃO DE TARRAGONA.

Isto foi escrito por 32 criminosos que haviam perdido qualquer consciência; 32 homens que odiavam a sociedade, porque eles se consideravam como estando completamente sós, abandonados de todos, e crendo haver perdido as últimas considerações sociais. Pobres irmãos! Eles tiveram, no entanto, uma mãe que os embalara, que os amara e cobrira de beijos no envolvimento do amor maternal... Depois de lutarem na vida durante longos anos, eles chegaram a esse terrível estado, onde sofrem ao mesmo tempo a punição da justiça e o desprezo de todos.
A comunicação com os espíritos manifestou-se a eles; ela lhes fez ouvir uma voz amorosa que veio reavivar-lhes as esperanças perdidas; eles procuraram os livros e brochuras espíritas, estudaram, fizeram pesquisas, e, enfim, se convenceram de que existe um meio com a ajuda do qual as portas do progresso são abertas a todos; com a ajuda do qual o criminoso pode tornar-se um ser perfeito, graças ao arrependimento e à prática do bem, que prova que o nobre operário é eterno, como a vida e os espaços são eternos; eles creram, enfim, que a lei que dirige e domina o universo é o amor.
O Espiritismo demonstrou-lhes tais fatos de uma maneira tão clara que esses homens se prostraram ante a grandeza de Deus; ante a magnitude daquilo que os espera; diante do progresso e da vida eterna prometida pelo Espiritismo, demonstrada pela comunicação dos espíritos mortos e dos espíritos vivos. E esses homens que tinham tudo perdido, se encontraram no meio da grandeza onde o Pai espera sempre o filho pródigo; eles encontraram uma grande família que ama todos os seus irmãos, que se rege pela lei do amor. Esses homens que odiavam tudo, perdoam agora, amam e esperam, suportam com resignação sua prisão, e aguardam somente o momento de poderem provar que, de criminosos, tornaram-se apóstolos da verdade, da moral e do amor.
Creio ter mostrado aos Senhores as tendências do Espiritismo em sua parte moral; mas para dar ainda mais um prova, acrescentarei: quando chegar para mim o derradeiro momento da vida material, não direi um adeus eterno; abraçarei minha esposa e minha filha e lhes direi: até logo!
Não me resta mais do que felicitar os Senhores pelo maravilhoso resultado do seu trabalho, e acrescentar: se um dia meus irmãos da Itália me chamarem, eu irei à Itália; se forem os da França, irei à França; atravessarei mesmo os mares para atender a um chamado dos meus correligionários, e creio que os Senhores fariam o mesmo para dar uma prova que os espíritos têm por pátria o mundo inteiro, e por família a humanidade inteira.
Tenho dito.

( Miguel Vives, Presidente da Federação Espírita de Vallés, e vice-presidente da comissão organizadora do Congresso).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A CRÍTICA DA REVUE AO MEB

O Espiritismo não "surgiu religioso" no Brasil. Luiz Olympio Telles de Menezes até poderia ser relacionado entre os "espíritas científicos". Tanto é que, em termos de religião, continuou de bom grado católico como sempre fora. O Espiritismo tornou-se "religioso" no Rio de Janeiro, bem pertinho do final do século XIX, sob a liderança do Bezerra de Menezes e, em consequencia de uma certa "seleção natural", conforme eu disse na "postagem" anterior.
Então, por que a Revue disse o que disse em dezembro de 1869, quando recebeu O Echo d'Além Túmulo, do Olympio, lançado em setembro daquele ano?

"A introdução e a análise que o Sr. Luiz Oyimpio faz, da maneira pela qual os Espíritos nos revelaram a sua existência, parecem-nos bastante satisfatórias. Outras passagens, referindo-se especialmente à questão religiosa, dão-nos ocasião para algumas reflexões críticas. Para nós, o Espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa determinada. Ele é e deve permanecer como uma filosofia tolerante e progressiva, abrindo seus braços a todos os deserdados, qualquer que seja a nacionalidade e a convicção a que pertençam. Não ignoramos que o caráter e a crença daqueles a quem se dirige "O Echo d'Além Túmulo" devem levar o Sr. Luiz Olympio a contornar certas suscetibilidades. Mas acreditamos, por experiência, que a melhor maneira de conciliar todos os interesses consiste em evitar as questões que cada um deve resolver em sua própria consciência, e empenhar-se em popularizar os grandes ensinamentos que encontram eco simpático em todos os corações chamados ao batismo da regeneração e ao progresso infinito."

Quanto deve, o Luiz Olympio, ter-se sentido injustiçado ante tal comentário. Pois, afinal, ele agira direitinho pela cartilha de Kardec. Este, se rejubilava em ter como membros de sua sociedade, espíritas de todas as confissões religiosas: católicos, protestantes, muçulmanos. E reiterava que o Espiritismo era o principal aliado das religiões, pois fortalecia a fé, dando explicações racionais ao que antes se cria por tradição.
O que os redatores da Revue, sucessores de Kardec, ignoravam, era o contexto histórico na Bahia. O Arcebispo da Bahia, D. Manuel Joaquim da Silveira, ante o progresso alcançado por Olympio e seus amigos na divulgação do espiritismo, lançara, em 16.6.1867, uma pastoral condenando veementemente o Espiritismo, porque, segundo ele, contrariava os dogmas católicos como a ressurreição e o destino definido dos mortos. Olympio contra-argumentava que o Espiritismo corrigia os dogmas católicos, e que a Igreja muito se beneficiaria se o incorporasse num lance de atualização e progresso. Isso tudo, claro, fudamentando-se na Biblia, afinal, a base sobre a qual se apoiava o Arcebispo. Ora, prá quem vê de fora, parece que o Olympio queria atrelar o Espiritismo nascente ao catolicismo. Daí, a alusão à "questão religiosa", que alguns apressadinhos tomam como uma crítica ao "religiosismo" , coisa ainda inexistente naquele momento.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

CIÊNCIA OU RELIGIÃO?

Os trabalhos acadêmicos que pretendem responder a essa questão sobre a identidade do Espiritismo, ao menos os produzidos no Brasil, são de um reducionismo lamentável: o espiritismo era científico na França e tornou-se religioso no Brasil. Pronto; é isso aí; dêem-me a nota do mestrado!
Ora... ora...
Não interpretaram o que leram de Kardec, e não leram nada sobre o espiritismo na Europa depois dele.
A verdade que ressalta de uma observação inteligente é que Kardec foi ambíguo.
Em sua convicção de que o Espiritismo aliaria religião e ciência, ele acabou justificando o surgimento dos dois segmentos: o espiritismo científico e o espiritismo religioso.
Basta ler sua obra toda, apreendendo o conjunto do seu pensamento. Não apenas selecionando o que interessa para a defesa de sua tese: seja tese acadêmica, ou seja tese nas lutas internas do movimento espírita. Leia-se tanto suas afirmações reiteradas de que o espiritismo é ciência, quanto suas concessões no Evangelho Segundo o Espiritismo; mas, principalmente, seu discurso publicado na Revue em dezembro de 1868.
E leia-se, também, na elaboração das teses, o que se produziu na Europa após Kardec e até o encerramento da fase européia do espiritismo. (O espiritismo morreu na Europa em 1934, após o último congresso em Barcelona e pouco antes da ancien europe diluir-se na luta contra o fascismo; apesar de que só foi sepultado na década de 70, quando André Dumas, herdeiro de todos os produtos kardecistas, mudou o nome da Revue Spirite para Renaitre 2000). Leia-se livros, pesquisas, teses e anais de congressos; hoje isto tudo está disponível na internet, quer seja para telechargement, quer seja em ofertas em sebos.
Essa leitura permitiria ao acadêmico conhecer os discursos piegas e as alusões a Roustaing nos Congressos; conhecer as tentativas de equacionamento da questão com a sugestão da religião laica; conhecer um Jean Meyer, mecenas e herdeiro da Revue, que manteve o movimento espírita na França por várias décadas, dando-lhe um direcionamento assistencialista e religioso. Conhecer, finalmente, a opinião do Conan Doyle em 1928 sobre o futuro religioso do espiritismo.
A morte do espiritismo científico e a sobrevivência do espiritismo religioso deveu-se, simplesmente, a uma lei de seleção natural (no caso, na epistemologia, porém equivalente àquela da biologia: é só fazer as necessárias analogias - assim, se não for verdade, ao menos rima, ou seja, se non è vero è piu trovato).
E qual foi a mudança no ambiente (ambiente intelectual, claro) que provocou o desaparecimento do espíritismo científico?
Emergiram, no oceano do conhecimento humano, as pesquisas do inconsciente, trazendo para o meio científico explicações muito mais convincentes para os fenômenos mediúnicos, do que as explicações espíritas. Ante a aceitação de uma nova teoria e prática albergada sob o nome de psicologia -- palavra até então utilizada para a designação de uma disciplina filosófica, e que passa a designar uma ciência --, o espiritismo foi perdendo todas as esperanças de ser aceito como ciência. Consequentemente, sua vertente científica extinguiu-se. Já a vertente religiosa, conseguindo não só aparar como revidar os golpes dados na área do conhecimento em que transitava (a religião), sobreviveu e multiplicou-se.
Hoje, o espiritismo apreendido e praticado como religião é claramente hegemônico em todo o mundo.
E as insistências de que ele é ciência só são toleradas quando partem de ingênuos; pois, quando partem de intelectuais, são ridicularizadas pelos cientistas uma vez que se lhes assemelha a um esforço equivalente à tentativa de se ressuscitar um fóssil.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

AS QUESTÕES CONGRESSUAIS

Nos anais dos congressos internacionais espíritas da fase européia, bem como nas edições da época, pode-se encontrar farto material para se compreender as tendências se formando no seio do movimento, muitas das quais não se resolveram até hoje. É nesse material que buscam subsídios para suas teses os acadêmicos que atualmente se debruçam sobre esse movimento social de difícil definição que é o espiritismo.
Nicole Edelman inicia seu artigo acadêmico (Spiritisme e Politique)com uma pergunta um tanto descabida: "Uma religião ou uma crença pode suscitar uma reflexão ou uma ação política?" Seria de estranhar se assim não fora, ou seja, que as idéias filosóficas ou as crenças religiosas não gerassem estímulos ou justificativas para ações políticas.
Lendo esses textos (anais, teses, etc.) observamos uma certa transformação (ou evolução) nos modos de ação político-social dos espíritas. De uma prática aparentemente voltada para o alheamento, o recolhimento e a atenção ao plano espiritual, Kardec retirou elementos para uma ação concreta no mundo: o auto-aprimoramento, a caridade, a luta pelos direitos civis das mulheres, a luta pelo fim da escravidão, e outros estímulos que encontramos nos seus escritos da Revista Espírita. Os que o sucederam de imediato, ampliaram essa ação. Leymarie, com mais algumas pessoas, criou a Liga de Ensino, que galvanizou toda a França e implantou inúmeras bibliotecas gerando o salutar hábito de leitura identificado até hoje naquela população. Jean Baptiste Godin criou o seu familiansterio, uma das mais concretas contribuições do socialismo utópico. Some-se a isto o engajamento no Caso Dreyfus e a defesa dos judeus, assim como a continuidade daquelas intervenções iniciadas por Kardec. Giovanni Hofman, presidente da União Kardecista da Itália, apresentou no Congresso de 1888 uma tese sugerindo a estimulando a maior atuação dos espíritas nas esferas políticas e sociais.
Entretanto, uma mudanpa foi ocorrendo ao longo do tempo no sentido de maior ênfase à transformação individual, em detrimento, de certa forma, da ação social. Isto talvez se explique porque os herdeiros imediatos de Kardec, formados naquela atmosfera de positivismo e encantamento com o porvir do homem e da humanidade, foram envelhcendo e sendo substituídos por novos ativistas, formados já na atmosfera de desencantamento e ruína de deuses e valores humanistas, característica daquela passagem de século. A hecatombe da grande guerra (1914/18), corroendo o verniz de civilização com que os homens se haviam adornado e mostrando a verdadeira face bárbara da espécie, foi, talvez, o golpe de misericórdia nas esperanças de todas as mentes progressistas e, particularmente dos espíritas, levando líderes como Léon Denis, Jean Meyer e Conan Doyle a se refugiarem na intimidade do contato com os espiritos e numa consequente ação mais voltada para a reforma íntima e a caridade. Esses acontecimentos reforçaram a tendência religiosa do movimento, e, isto influenciou o movimento no Brasil muito mais do que a cultura deste país.
O fato é que o movimento espírita, antes pujante e influente, praticamente desapareceu na Europa, dando lugar a novos titãs -- comunismo, fascismo, capitalismo -- a se digladiarem no palco da história. O Espiritismo, então, hibernou no Brasil, reciclou-se, e retorna à Europa na esteira do fracasso dessas ideologias, tanto as vencidas como a vencedora.