quarta-feira, 3 de junho de 2009

MITO E TABU

De início eu não notava que era um tabu. Afinal, desde que aportei a uma mocidade espírita, no final dos anos 60, fui treinado direitinho para responder sobranceiro a qualquer neófito: "kardecismo não existe!" O jovem é apaixonado; e todo apaixonado é radical; e todo radical é intolerante. Porém, a idade, se a alguns dá tolerância, a outros toma o pouco que têm; com ou sem justiça, me orgulho de tê-la aumentado. Apenas sinto ao ver ainda hoje quarentões, cinquentões e até sessentões arrepiarem e tremerem suas veneráveis cãs ao ouvirem o termo kardecismo, interrompendo, de imediato, ou prejudicando qualquer diálogo esclarecedor com quem sob tal palavra os procura. Não deveria estranhar: todas as religiões criam seus tabus em torno de certas palavras (mesmo aquelas que juram por tudo que lhes é mais sagrado que não são religiões!). Nas comunidades orkutianas, quando vejo a agressiva ojeriza ao termo em questão, não posso deixar de lembrar do filme "A Vida de Bryan", o episódio em que o judeu vai ser apedrejado porque disse a palavra proibida "Jeová": quando viu que ia morrer mesmo, desandou a gritar: "Jeová"... "Jeová"...
Mas, onde entra o mito? O mito é que, mais uma vez, atribuem ao movimento espírita brasileiro o que consideram um erro, no caso, a criação do termo kardecismo!
"Ensinam", a maioria dos internautas, que os brasileiros cunharam o termo na esteira de seu preconceito contra as religiões afro-brasileiras. Seja porque Bezerra, em sua magnanimidade, albergou tais religiões quando fundou a Federação, seja porque todos transitam na mesma fenomenologia, o povo consagrou o uso da palavra espiritismo para um amplo leque de crenças e práticas; assim, alguns teriam se levado pelo orgulho e cometido o erro de criar o termo kardecismo para sua autodefinição. O que se torna um sacrilégio, uma vez que Kardec insistiu em seus escritos que a doutrina não é dele, e, sim, dos espíritos; e, se Kardec falou, tá falado: cumpra-se! Afinal, somos uma religião? ou não?
O bom em tudo isto é que, mais uma vez, graças à virtualidade, podemos desmitificar uma lenda recorrente no meio espírita.
Pois, em 1918, o primeiro biógrafo de Allan Kardec, Henri Sausse, funda, em Lyon, Le Spiritisme Kardeciste. Chegaria a ser megalomania achar que o incipiente espiritismo brasileiro tenha influenciado no nome do jornal em data tão remota.
Mas não é só. Havia, ainda no século XIX, uma União Kardecista Italiana(!), que foi representada por Gabriel Delanne no congresso internacional de Londres, em 1898.
E muitos de nós conhecemos l'Union Spirite Kardeciste Belge, que por várias décadas suportou solitária as edições das obras de Kardec em francês.
Concordo em que se prefira o termo espiritismo a kardecismo. Mas, daí a dizer-se que se trata de um produto tão brasileiro quanto a jabuticaba, vai uma distância muito grande.

Um comentário:

  1. Encontrei hoje teu blog e gostei bastante das matéria que li. Com relação ao assunto do post acima, eu acrescentaria que a palavra "espiritismo", se tomarmos por base sua primeira definição formal (dê uma olhada em meu blog), é perfeitamente passível de ser associada a religiões que alberguem elementos completamente estranhos à Codificação Kardecista. Sobre a expressão "kardecismo", eu diria que, se houvesse perfeita *coerência interna* na Codificação (tenho alguma suspeita de que não há; pretendo futuramente discutir isto em meu blog), não só não haveria problema algum em utilizá-la (afinal, tudo o que está na Codificação foi selecionado por Kardec), como seria, inclusive, a melhor opção para designar-se o corpo de conhecimentos emergente dos livros espíritas do pedagogo francês. Um abraço.

    ResponderExcluir