terça-feira, 16 de junho de 2009

O MITO DAS TRADUÇÕES DO HERCULANO

Lá pelos anos 70, quando se desenrolava aquele entrevero entre o Herculano Pires e a FEESP - Federação Espírita do Estado de São Paulo (mais o Paulo Alves Godoy,) por conta da esdrúxula tradução do O Evangelho Segundo o Espiritismo, um amigo meu, por sinal sujeito humilde e trabalhador acostumado a concretizar em ações o tão decantado amor ao próximo, disse-me que o Herculano plagiava as traduções do Guillon Ribeiro, alterando algumas palavrinhas aqui e ali para disfarçar. Fiquei escandalizado e atribui o dito ao seu exagerado e ingênuo federativismo. Afinal, como todos os espíritas progressistas, eu admirava e admiro o Herculano como o nosso filósofo maior. Essa admiração, todos nós projetamos em suas traduções: são as melhores, as mais fiéis, as únicas confiáveis... Isto tudo, somando-se à rejeição intelectual à FEB e suas traduções, ultimamente acusadas de tudo o que consideram ruim no movimento espirita: religiosismo, pieguismo, roustainguismo, etc., criam uma certa auréola mitológica em torno das traduções do Herculano.
Mas, é impossível plagiar uma tradução sem deixar pistas.
Dias atrás, um jovem navegador do orkut, querendo talvez exercitar sua auto-imputada ortodoxia, questionou a utilização do termo oxalá na "codificação". Tratava-se de uma intervenção do espírito São Luis, na comunicação da rainha de Oude, no Capítulo VII, Segunda Parte, do livro O Céu e O Inferno, assim traduzida pelo Guillon:

S. Luís. — Deixai-a, a pobre perturbada. Tende compaixão
da sua cegueira e oxalá vos sirva de exemplo. Não
sabeis quanto padece o seu orgulho.

(site da FEB)

Fui conferir no original francês:

Saint Louis. Laissez-la, la pauvre égarée ; ayez pitié de son
aveuglement ; qu'elle vous serve d'exemple, vous ne savez pas combien
souffre son orgueil."


Uái, cadê o oxalá?

Vamos ver como o Herculano, o mais fiel, traduziu.
No site
http://www.freewebtown.com/novomilenium/PDF005/OCeueoInfJHP.pdf, encontrei uma reprodução de sua tradução:

S.Luís — Deixai-a, a pobre perturbada. Tende compaixão da sua cegueira e oxalá vos sirva ela de exemplo. Não sabeis quanto padece o seu orgulho.

Viram? A opção literária que Guillon fez, acrescentando oxalá (poderia ser tomara), coincidentemente também ocorreu ao Herculano.
E mais. A palavra egarée poderia ser traduzida por extraviada, perdida, doida, alucinada, enlouquecida. No entanto, a opção de Guillon por perturbada ocorreu a ambos, de novo numa tremenda coincidência.
Coincidência que também ocorreu na escolha de padecer por souffre; assim como, na transformação do que era uma frase só ("que ela vos sirva de exemplo, não sabeis quanto sofre seu orgulho"), em dois periodos.

Continuo admirando a acuidade intelectual e o tino filosófico do Herculano. Mas, quanto às traduções, sem aderir àquela aceitação quase unânime que se observa.

Para quem se interessar, eis a ficha do facsímile original francês que encontrei:

Título : Le ciel et l'enfer ou La justice divine selon le spiritisme : contenant l'examen comparé des doctrines sur le passage de la vie corporelle et la vie spirituelle, les peines et les récompenses futures / Allan Kardec
Autor : Allan Kardec (1804-1869)
Editor : P. Leymarie (Paris)
Data de publicação : 1913
Língua : Françês
Formato : application/pdf
Direitos : domaine public
Senha : http://gallica2.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k55184b
Fonte : Bibliothèque nationale de France, département Philosophie, histoire, sciences de l'homme, 8-R-29855
Relação : http://catalogue.bnf.fr/ark:/12148/cb31711365k/description
Procedência : bnf.fr

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