terça-feira, 2 de junho de 2009

REALMENTE, A VIRTUALIDADE É UMA MARAVILHA

Consegue-se mais coisas navegando-se virtualmente do que arrastando o potencial cadáver por ares e mares cada vez mais ameaçados pelas mudanças climáticas. Eu e a Renate já estivemos em Paris; nos idos do evanescente século XX, numa Europa pré-euro, pré-internet, pré-quase-tudo. Chegamos até a biblioteca nacional e à biblioteca da Sorbonne; mas, as comemorações da semana do armistício, potencializadas pelo frenesi do fim do milênio, congestionavam ou bloqueavam grande parte dos redutos culturais; restando-nos enfatizar os museus e pontos turísticos tradicionais e, claro, as sempre inadiáveis compras.
No entanto, hoje, apenas uma década depois, refazemos com vantagens a estonteante visita ao Museu D'Orsay, e, na sequencia, sem sair da cadeira, devassamos como ratos indiscretos o acervo digitalizado da BnF, a biblioteca nacional da França, violando com nossos olhos caipiras as raríssimas edições dos séculos anteriores.
Daí, minha insaciável curiosidade pode embriagar-se de dados sobre a história do espiritismo pós-Kardec e pré-Chico, e desfazer na minha mente certos mitos iconoclastas da crítica ao movimento espírita brasileiro.
Um deles, é que o prestígio e a penetração das idéias do Roustaing é algo tipicamente tupiniquim, devido à tradição católica do nosso povo, não encontrando contra-partida no ambiente espírita francês contemporâneo de Kardec ou no período próximo subsequente.
Ora, lendo o resumo do Congresso Internacional Espírita de Barcelona, de 1888, cuja fonte está descrita no primeiro texto deste blog, vemos, em vários discursos, incluindo o do M. Leymarie, sucessor de Kardec na Revista, na Sociedade e nas edições de seus livros, alusões tranquilas e diretas a Roustaing, colocando-o ao lado do mestre na formação doutrinária. Portanto, Roustaing não foi "contrabandeado" pelo Bezerra ou Olímpio, quando do início da implantação do espiritismo nessas paragens tropicais. Ele veio legalmente, com visto de residência e no mesmo camarote que o caro lionês. Se há equívocos -- e acredito que haja, pois não comungo com certas idéias estranhas de quedas de anjos e corpos fluídicos --, vieram no mesmo pacote que a "codificação".
Principalmente se cotejarmos esse fato com a permissividade do próprio Kardec que o colocou como sugestão de leitura e aquisição no Catalogue raisonné pouvant servir à fonder une bibliotèque spirite, outro texto disponibilizado graças à tecnologia moderna.

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