quarta-feira, 30 de novembro de 2011

HÁ EVIDÊNCIAS DE UM ENCONTRO ENTRE MARX E KARDEC?

Refiro-me a um encontro pessoal entre eles.
Encontro ideológico até existe e seria passível de uma discussão interminável.
No meu tempo de mocidade, lá por 1970, alguém aventou a possibilidade de Marx ser o Sr. M..., referido por Kardec em um texto publicado em Obras Póstumas, com o título de "Primeira revelação da minha missão", e relativo a uma sessão na casa do Sr. Roustan, sendo médium a Srta Japhet, em 30 de abril de 1856, realimentado em uma sessão de 12 de maio do mesmo ano, desta vez na casa do Sr. Baudin. Vão na prateleira buscar o livro, abram na página 277 da edição FEB, e acompanhem o que digo.
Depois de uma breve pesquisa concluímos, na mocidade, que não havia evidências históricas; ao contrário, havia sim muitos indícios da impossibilidade do encontro; e não se falou mais nisso.
Agora, vi no youtube um vídeo de certo cidadão afirmando categoricamente tal encontro, e ainda jactando-se de ser o primeiro a encontrar as evidências "lá em Paris" e revelar tal novidade ao povo brasileiro. Como decepcionante confirmação, apenas cita o que o Leymarie publicou nas Obras Póstumas em 1890, conhecido de nossa gente desde que o Guillon Ribeiro as traduziu há muitas décadas.
Vamos aos fatos históricos. Em 1856 Marx morava em Londres, tinha enormes dificuldades para manter-se, a si e a à família, o fazia com a ajuda de seu amigo Engels e com bicos a jornais, além de sofrer enormemente com a saúde abalada, o que dificultaria qualquer viagem, ainda mais para o outro lado do canal. Ele havia sido expulso de Paris em 1845; foi viver em Bruxelas, na Bélgica, de onde foi expulso em 1848; voltando à Alemanha de onde foi expulso em 1849; tentou voltar a Paris mas o governo francês o impediu de fixar-se ali; então, no mesmo ano, com a ajuda de amigos, rumou para o exílio definitivo em Londres. Era, a esta altura, já um lider comunista bastante conhecido, não passaria, portanto, incógnito em Paris em 1856, onde poderia ser até preso pela ditadura de Napoleão III.
Vejamos alguns traços do perfil do Sr. M..., traçados por Kardec:. "O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas, envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar em evidência. Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo". Alguma coisa até poderia bater com Marx; mas nunca o "homem brando e inofensivo". Muito menos seria ele alguém que precisasse de conversa com espíritos para "acreditar em alguma subversão e aprestar-se a tomar parte". Àquela altura, ele e Engels já haviam lançado o manifesto comunista e fundado a Liga dos Comunistas; portanto, eles faziam as subversões, não apenas "tomavam parte nelas". Prá completar, na sessão do dia 12 de maio, o próprio Espírito Verdade teria dito sobre o Sr. M...: "Muito ruído. Ele tem boas idéias; é homem de ação, mas não é uma cabeça". Marx, por seu lado, era a principal cabeça do socialismo científico que, naquela época e em quase todas as instâncias, substituía o socialismo utópico dos quais muitos adeptos integravam a equipe de Kardec.
Pode até ser que o moço do youtube tenha razão. Eu não creio; só vejo nisso o nosso afoito pesquisador criando uma história a partir de uma simples inicial.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A DEMOCRATIZAÇAO DA PRÁTICA MEDIÚNICA

A mediunidade está na base de todas as religiões. De uma forma ou de outra, todas elas tiveram seu início com alguém entrando no tal "estado alterado de consciência" e recebendo uma revelação de um ser espiritual, quer o chamemos de deus, de deusa ou de espíritos, e sejam estes "dos mortos" ou "da natureza". A partir dai, cria-se uma religião em torno da revelação, com seus mistérios, seus rituais, seus mestres e, principalmente, seu mercado. Os interessados são apresentados a uma série de exigências para iniciação e acesso àquela pretensa verdade; exigências que lhes custam tempo, dinheiro e submissão. O investimento em tempo sempre será necessário; mas, em dinheiro e submissão a templos e gurus pode se dispensado. Nossa sociedade e mesmo nossa evolução individual caminha para uma situação de independência; de certeza na igualdade de direitos e possibilidades de todas as pessoas. Portanto, dispense intermediários. Encontre você mesmo seu deus, sua deusa, seus deuses, seus espíritos guias, seus duendes, gnomos, et's, ou simplesmente mergulhe num oceano interior indevassado. Desenvolva sua mediunidade sem necessidade de alucinógenos nem de mistérios avaros protegidos por qualquer seita.
Como?
Reúnam um grupo que esteja a fim; e, de preferência, que seja afim. Se não forem afins, que ao menos estejam a fim. Qualquer número; mas, pensemos, por exemplo, em uma dúzia de pessoas. Escolham um local, estabeleçam um dia na semana e uma hora determinada para a reunião. Como eu já disse, tempo é necessário. Nessas reuniões estudem a vasta literatura disponível sobre a mediunidade, para conhecerem o terreno em que pisam, os mecanismos envolvidos e os possíveis inconvenientes. Mas, ao lado desse estudo teórico, iniciem a prática. Comecem com exercícios simples de concentração e vão, ao longo das semanas, aumentando-os em duração e complexidade. A prática da concentração também pode ser orientada pela literatura a respeito, onde sobejam exercícios de relaxamento e abstração. As reuniões podem começar com uma prece, ou uma leitura agradável; podem ter música suave ao fundo. Após os estudos teóricos, parte-se para a prática, onde se experimenta uns cinco minutos de concentração, que em algumas semanas será estendido para dez, depois para quinze, e, assim, sucessivamente, até uma duração de uns noventa minutos, mais ou menos, segundo os interesses do grupo. Terminado o exercício, dá-se um tempo para que as pessoas "retornem" (alguns terão "viajado" mais que outros). Assim que todos estiverem bem, cada um faz aos demais um relato do que sentiu e observou durante o exercício. Para efeito de ordem e organização, escolhe-se um dos participantes para dirigir a reunião, uma espécie de piloto ou monitor.
Todos esses passos, bem como a teoria a respeito, existem em programas pré-estabelecidos e disponibilizados gratuitamente na web. O mais popular deles é o COEM, o Centro de Orientação e Educação Mediúnica. Foi elaborado há mais de quarenta anos, pelo Centro Espírita Luz Eterna, de Curitiba, mas tem uma versão moderna, o COEM II, que pode ser encontrado para download simplesmente lançando-se esse nome no google. Para facilitar, indicamos dois sites que o disponibilizam: www.carlosparchen.net/coem2.html e pt.scribd.com/doc/61851789/1/COEMII---A-NOVA-VERSAO-CENTRO-DE-ORIENTAÇAO-E-EDUCACAO-MEDIUNICA. Mas, repito, consultem o google e encontrarão outros. Ou, se o preferirem, elaborem seus próprios programas.
Daí, meus amigos, seja com o COEM, com outro programa, ou o seu "personal program", vocês poderão fazer sua própria experiência. Ficarão sabendo se têm mediunidade, poderão decidir se isto realmente existe, se a alma sobrevive, se existem outros planos de realidade espiritual ou não.
Que acham?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

DEU NA TV

Eu estava assistindo ao Discovery Science, e aquele japonesinho que apresenta a série atual dizia que a matéria escura é a responsável pela coesão das estrelas nas galáxias e das galáxias nos aglomerados. E que a energia escura faz o papel contrário à matéria escura, ou seja, é responsável pela expansão do universo e o consequente distanciamento das galáxias.
Isto me lembra a questão 27 do Livro dos Espíritos onde escreveram que o fluido universal "é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá".
E o japonesinho explicava que a matéria escura foi descoberta justamente porque a gravitação sozinha não era suficiente para explicar a coesão das estrelas e galáxias.
Bem, pode que uma coisa não seja outra coisa (ou seja apenas o medo de admitir que o seja), mas não deixa de ser impressionante o fato de que duas adolescentes em transe anteciparam em 150 anos a necessidade da existência de um certo tipo de matéria invisível (ou escura, como queiram) para manter a coesão da matéria visível.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

ALEXANDRIA, O FILME

Alexandria, no Brasil, ou Ágora, em Portugal, ou Agora, no original,é o título de um filme espanhol dirigido por Alejandro Amenábar, lançado na Espanha em 9 de outubro de 2009. O filme é estrelado por Rachel Weisz e Max Minghella e relata a história da filósofa Hipátia, que viveu em Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415 do nosso calendário.
O embate é entre a filosofia e a religião. Entre o livre-pensar e a fé intolerante. Tem a política, claro; mas, a política é sempre a arena onde todas as coisas se chocam. O filme se ambienta na esquina de pedras onde a historia regrediu da ciência para o fanatismo. Onde a filosofia, representada pela cultura greco-romana, foi derrotada pela religião, representada pelo cristianismo, e a humanidade foi lançada na noite fria e tenebrosa da Idade Média. E onde metade da raça humana foi rebaixada a animal irracional: as Epístolas de Paulo, transformadas em lei, calaram as mulheres, proibindo-as de pensar ou ensinar, condenando-as à morte se o ousassem, no crime mais imperdoável do cristianismo.
O âmago do filme, o instante em que o debate milenar entre filosofia e religião se manifesta, é quando dois ex-alunos de Hipátia -- Orestes, o prefeito, e Sinésio de Cirene, bispo de Ptolemaida --, tentam convencê-la a aderir ao cristianismo para salvarem a pele e o poder, e ela responde clara e definitivamente porque não pode fazê-lo: "Sinésio, você não questiona sua fé; você não pode; e eu devo..."
Na época atual, quando julgávamos consolidadas as conquistas libertárias iniciadas com o Renascimento, mas, na verdade, vemos a pobre e condenada humanidade resvalando novamente para o abismo escuro do fundamentalismo -- seja mouro ou cristão --, impõe-se a importância desse filme. Que todos o aluguem, reúnam familiares e amigos, e salvem-se vendo-o. Pois não diz o poeta que os que desconhecem a história estão fadados a repetirem seus erros?

domingo, 31 de julho de 2011

AINDA AS CREDULIDADES.

Há pouco me referi à credulidade dos espíritas aceitando sem criticas pretensas profecias de Chico Xavier. Alguns chegam a atacar o pobre médium -- que não está entre os encarnados para se defender com facilidade -- por "fazer profecias com datação exata", sem se darem ao trabalho de verificar a autenticidade do texto ou da pretensa entrevista, saturada de pistas que a tornam bastante suspeita. Esse não é o primeiro acontecimento que demonstra a credulidade excessiva de uns, a má intenção de outros, e a justa indignação de um grande número de espíritas ante as fantasias, exageros, aberrações intelectuais, relatos de supostas reencarnações -- onde o general sempre reencarna como general, o médium como médium, o político como político, o escritor como escritor, num vai-vem vicioso -- que se agregam ao movimento espírita. Nosso caro amigo Sergio Brandão, num atencioso comentário ao texto, chegou a sugerir a necessidade de uma fiscalização mais rigorosa por parte dos órgãos representativos do movimento. Ele também não é o primeiro a pensar assim, numa justificável irritação dos espíritas estudiosos ante tudo isso.
Mas, convenhamos, essas coisas não acontecem apenas no espiritismo e, sim, em todos os campos do conhecimento e do pensamento. Qual não será a irritação dos professores sérios, dos físicos dedicados, dos engenheiros inteligentes ante as heresias científicas usadas, por exemplo, pelos que disseminam teorias conspiratórias sobre a "farsa da conquista da Lua"; dos cientistas quando constatam que suas descobertas recentes de raios de electrons ou coisas assim saídas dos buracos negros dos centros de galáxias são associadas com as expectativas místicas de 2012; ou dos astrônomos, amadores ou não, ao verem suas previsões já concretizadas de aproximação marciana servirem anualmente de alarmismos e frenesis em mensagens eletrônicas? Se é assim na ciência, imaginemos na religião! Como não devem sentir-se os adeptos conscientes da umbanda quando vêem sua religião associada indevidamente a charlatões que sacrificam animais ou até pessoas em rituais esdrúxulos de pretensa magia negra?
Teria fim, uma luta encetada por organismos representativos para entregarem prontinho aos interessados o que é ou não da doutrina?
Penso que, aqui, repete-se a necessidade do ensino da pesca ao invés do fornecimento do peixe. Cada pensante ou pensador deve aprender a separar o joio do trigo, a verdade e a mentira, nas idéias e movimentos que abrace. Quem se acha de posse de uma boa ceifadeira ou um bom método de separação, que o ofereça aos demais.
O importante é que desenvolvamos a responsabilidade pelas nossas crenças. E isso acontece através do estudo, da leitura do maior número possível de autores, da vivência de experiências e convivências em atividades de grupos, sempre com o olhar crítico, mantendo um equilíbrio saudável entre o ceticismo e a aceitação
Porque eu, particularmente, não me sinto credenciado para fiscalizar ninguém. Assim como não conheço ninguém suficientemente graduado para me fiscalizar no campo das idéias; e no campo da prática, faço concessão apenas no tocante àquilo que já foi objetivado consensualmente em forma de lei.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O VERDADEIRO CARÁTER DO ESPIRITISMO

Os Espíritos do Senhor,
que são as virtudes dos Céus,
qual imenso exército que se movimenta
ao receber as ordens do seu comando,
espalham-se por toda a superfície da Terra
e, semelhantes a estrelas que tombam,
vêm iluminar os caminhos
e abrir os olhos aos cegos.

Eu vos digo, em verdade,
que são chegados os tempos
em que todas as coisas
hão de ser restabelecidas
no seu verdadeiro sentido,
para dissipar as trevas,
confundir os orgulhosos
e glorificar os justos.

As grandes vozes do Céu
ressoam como sons de trombetas,
e os cânticos dos anjos se lhes associam.
Nós vos convidamos, a vós homens,
para o divino concerto.

Tomai da lira,
fazei uníssonas vossas vozes,
e que, num hino sagrado,
elas se estendam e repercutam
de um extremo a outro do Universo.

Homens, irmãos a quem amamos,
aqui estamos junto de vós.
Amai-vos, também, uns aos outros
e dizei do fundo do coração,
fazendo as vontades do Pai, que está no Céu:
"Senhor! Senhor!"...
e podereis entrar no reino dos Céus.



Esta belíssima e poética mensagem foi colocada por Kardec como prefácio de seu livro mais lido: "O Evangelho Segundo o Espiritismo". Segundo ele, porque a mensagem, transmitida por via mediúnica, resume, ao mesmo tempo, o verdadeiro caráter do Espiritismo e o objetivo da obra.
Temos aí, portanto, resumido, o verdadeiro caráter do Espiritismo, segundo seu fundador.
O que é caráter? Os dicionários da língua portuguesa, assim como os dicionários filosóficos ou especializados, trazem várias acepções, tanto relativas às coisas como às pessoas. No tocante às idéias, poderíamos dizer que caráter é o conjunto de qualidades ou especificidades próprias de uma idéia e que a distingue das outras.
E a primeira qualidade notada neste texto é o seu estilo: poético e místico.
Está pleno de imagens e metáforas poéticas, como os sons de trombeta representando as vozes que trazem conhecimentos novos e inusitados; as liras que talvez sejam os discursos; e excelências abstratas como as virtudes não pertencendo mas em sinonímia com os espíritos do senhor, que para os espíritas são seres concretos. Além de cântico de anjos simbolizando o apoio e amparo de espíritos puros.
E apesar do convite ao arroubo místico - no qual diremos do fundo do coração "Senhor!Senhor!" -, parece concluir a mensagem que o principal caráter do Espiritismo é o incitamento à prática da ação básica e mantenedora do universo: a prática do amor!
Mas, não se desesperem aqueles que vêm no Espiritismo apenas razão e ciência, e sentem a pressão da natural rejeição dessas instituições a afirmações irrefutáveis como as da mensagem. Em outros textos de Kardec sobejam justificativas também para os "espíritas científicos". E todos nós, uma vez convidados à prática do amor, vamos continuar nos considerando igualmente espíritas, sem exclusão.
Bem, tendo em vista a importância dada pelo fundador do Espiritismo (ou "codificador", como preferem muitos) a esta mensagem, atribuindo a ela o "verdadeiro caráter" da doutrina, sua exegese não se esgota aqui, e não poderia ser diferente.
De minha parte, fica aberta a temporada de comentários a respeito.
Aliás, estranho muito o generalizado desconhecimento ou desconsideração que o texto tem merecido dos espíritas.

terça-feira, 28 de junho de 2011

MÉTODO DE LEITURA

Gostaria de sugerir aos leitores de blogs, entre os quais com prazer me incluo (refiro-me a todos os blogs, claro, não apenas a este aqui), que não se atenham apenas à leitura das postagens; mas, que leiam também os comentários que elas suscitam. Tais comentários enriquecem bastante as postagens, e, não raro, são mais ricos que elas próprias.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

INCRÍVEL A CREDULIDADE DOS ESPÍRITAS

Circula por aí uma suposta entrevista com o Chico Xavier. Teria sido dada lá pelos idos de 1986, e o cára esperou a morte do entrevistado para divulgar. Por quê? Nenhuma resposta seria provável ou refutável.
A suposta fala do Chico faz previsões com datas marcadas. Inconcebível.
Mas, o mais tragicômico é que alguns espíritas que se dizem científicos aproveitam para destilar seu venenozinho na memória do médium mineiro por conta das barbaridades contidas na conversa. Ninguém dá o benefício da dúvida a quem não está mais aqui prá se defender. E nem acha estranho uma mensagem levar tanto tempo assim prá ser divulgada, e acertar tantos fatos ocorridos entre a pretensa data e os dias de hoje. Aliás, as mentes incautas até acham que o restante das "previsões" têm chance de acontecer porque acertou naquilo que já passou.
Ninguém nota que, qualquer um que crie um absurdo destes, terá, claro, a história a seu favor para "acertar" a previsões passadas. Em grande parte, a mensagem é isto: uma "profecia do passado".
Em algo assim tão polêmico, o divulgador que apresente a gravação, ou a mensagem assinada, ou, cale-se para sempre.
Se bem que, não faltarão "médiuns" para receberem "comunicações" do Chico confirmando a autoria da entrevista; nem inocentes para acreditarem...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

JUSTIÇA "ABENÇOA" COMPROMISSO HOMOAFETIVO

Na maioria das vezes eu me rendo à mania kardecista de pensar por tríades, por influência, tanto quanto Kardec, da bela literatura celta da qual ele era entusiasta. Assim, na construção da personalidade transitória que arrastamos pela existência (refiro-me a "personalidade transitória" como segmento da "individualidade permanente" que todos somos) eu vejo três grandes fatores resumindo todas as influências: a genética, o ambiente e, por falta, no momento, de palavra melhor, as reminicências. Este último fator seria a soma de todos os conhecimentos, experiências, aferições de experiências e as consequentes tendências que já somávamos naquele fatídico dia em que papai e mamãe resolveram transar e o capítulo atual começou. Procurando fugir de um quarto fator que demoliria a tríade, eu diria que esses três elementos são misturados no caldeirão da vida pela consciência (ainda que inconscientemente, entenda!); esta consciência nos conferiria a liberdade individual, o tal livre arbítrio, sem o qual seríamos marionetes nas mãos de forças cegas. Pois bem, parando com enrolação, o que eu pretendo mesmo dizer é que, independente da quantificação da contribuição de cada um desses fatores na determinação de nossa orientação sexual (e a favor de que essa discussão prossiga indefinidamente, pois só aumenta o conhecimento de nós mesmos), eu fico muito feliz com a decisão do STF (que mais uma vez agiu no vácuo deixado pela covardia dos legisladores, a quem competia a responsabilidade pela decisão) valorizando a liberdade das pessoas se juntarem e desjuntarem segundo suas próprias vontades e consciências.
Mas eu queria também, na oportunidade, lembrar o quanto o Chico Xavier e seus Espíritos foram proféticos nisso tudo, reproduzindo parte de um artigo que publiquei há algumas décadas nos murais espíritas.

"No século XIX, quando surgiu o Espiritismo, a homossexualidade não era uma questão em debate. Vivia-se ainda numa sociedade que reprimia o sexo e, portanto, o assunto não se apresentava na filosofia ou na ciência como um premente problema humano exigindo discussão. Por isso que não foi abordado exaustivamente por Kardec. Mesmo assim, no "Livro dos Espíritos", nas questões 200, 201 e 202, está escrito que o espírito não tem sexo, podendo reencarnar ora como homem, ora como mulher, conforme suas necessidades de progresso. Mais tarde, em 1866, na Revista Espírita de janeiro, no primeiro artigo, Kardec volta ao assunto explicando "certas anomalias aparentes" pela reencarnação do Espírito em sexo diferente depois de "percorrer uma série de existências no mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher, cuja marca nele ficou impressa". E reitera que "não existe diferença entre o homem e a mulher, senão no organismo material, ... porque não há duas espécies de almas".

"Já no século XX, podemos apresentar, na bibliografia espírita, opiniões mais definidas.

"André Luiz, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, mostra-se bastante aberto e tolerante em relação ao assunto. No livro "Evolução em dois mundos", de 1958, Segunda parte, cap. XII, encontramos: "Quanto à perda dos característicos sexuais, ... ocorrerá expontaneamente, quando as almas humanas tiverem assimilado todas as experiências necessárias à própria sublimação, rumando, ... para a situação angélica, em que o indivíduo deterá todas as qualidades nobres inerentes à masculinidade e à feminilidade..." E no livro "Sexo e destino", de 1963, cap. IX, podemos ler: "... que inúmeros espíritos reencarnam em condições inversivas, seja no domínio de lides expiatórias ou em obediência a tarefas específicas, ... homens e mulheres podem nascer homossexuais ou intersexos, ... que nos foros da Justiça Divina ... as personalidades humanas tachadas por anormais são consideradas tão carentes de proteção quanto as outras que desfrutam a existência garantidas pelas regalias da normalidade, segundo a opinião dos homens, observando-se que as faltas cometidas pelas pessoas de psiquismo julgado anormal são examinadas no mesmo critério aplicado às culpas de pessoas tidas por normais, notando-se ainda, que, em muitos casos, os desatinos das pessoas supostas normais são consideravelmente agravados, por menos justificáveis perante acomodações e primazias que usufruem, no clima estável da maioria ... e sobre preceitos e preconceitos vigente na Terra... os homens não podem efetivamente alterar, de chofre, as leis morais em que se regem, sob pena de precipitar a Humanidade na dissolução, ... no entanto, no mundo porvindouro os irmãos reencarnados, tanto em condições normais quanto em condições julgadas anormais, serão tratados em pé de igualdade, no mesmo nível de dignidade humana, reparando-se as injustiças assacadas, há séculos, ... porquanto a perseguição e a crueldade com que são batidos pela sociedade... lhes impedem ou dificultam a execução dos encargos que trazem à existência física, quando não fazem deles criaturas hipócritas, com necessidade de mentir..."

"Esse "mundo porvindouro", a que André Luiz se refere, é, sem dúvida, o nosso, uma vez que já se passaram 47 anos da publicação do livro e, hoje, vivemos num mundo onde o preconceito contra os homossexuais é encarado como uma anormalidade. As leis, cada vez mais, procuram garantir os direitos das minorias, permitindo que vivam suas vidas à sua maneira, sem os antigos prejuízos."

sexta-feira, 6 de maio de 2011

DEUS E A CIÊNCIA

Quando Laplace expos ao Napoleão a formação do Sistema Solar, o Imperador perguntou-lhe onde Deus entrava nessa história. O cientista respondeu que não precisara dessa hipótese.
Estou lendo o valioso trabalho sobre Crookes, citado na postagem anterior; ainda não terminei, e voltarei mais vezes ao assunto. Mas, já me ocorreu uma associação com a historinha do Laplace. Crookes cercou-se de cuidados, tentou restringir-se a uma metodologia científica, é criticado até por não levar à sua comunidade científica todos os fenômenos observados selecionando apenas aqueles para os quais apresentava evidência. Pois bem, não conseguiu convencer seus pares nem mesmo da existência, da ocorrência dos fenômenos, quanto mais de suas possíveis causas. Os cientistas encarregados de aprovar a aceitação ou publicação dos artigos pela Royal Society, apesar do respeito que tinham pelo colega, recusaram-se mesmo a comparecer às suas sessões e observar de perto seus experimentos. E o mesmo ocorreu com outras agremiações científicas, e tem ocorrido até hoje nos centros de pesquisas do mundo todo: tal como Laplace não precisou da hipótese teísta, a ciência tem dispensado reiteradamente a hipótese espírita. Tem passado batido. E daí? Ela tem feito falta? Passaram-se duzentos anos da entrevista com Napoleão, mais de cem das recusas à observação do fenômeno psi, e, nesse tempo todo a ciência conseguiu realizações estupendas no campo das telecomunicações, dos transportes -- levando-nos a voar pela atmosfera, pela estratosfera e o cosmo --, no campo da medicina, do lazer, enfim, do micro e do macrocosmo e, sem levar em consideração a hipótese espírita.
Quem precisa da hipótese espírita é a religião. Esta sim, se extingue se não escorar-se na hipotese teísta, e pode resvalar para o esgotamento ou para o fanatismo se não levar em consideração a hipótese espírita.
Mais uma vez acredito na seleção natural das idéias referida em postagens anteriores. O espiritismo terá o seu lugar na ciência quando a ciência precisar da hipótese espírita. E o espiritismo deixará de ser religião apenas quando a religião desnecessitar da hipótese espírita, ou nós desnecessitarmos da religião.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A VERDADE SOBRE AS PESQUISAS DE WILLIAM CROOKES

Prova científica dos fenômenos espíritas?
Ou exemplo de como um cientista competente em uma área de estudos pode facilmente ser enganado em outra?
Tchan..tchan... tchan... !!
Posso não ficar sabendo tudo a respeito, mas vou dar um grande passo nesse sentido.
Vou começar a ler agora o livro "Estudando o Invisível: William Crookes e a nova força", de Juliana Mesquita Hidalgo Ferreira, EDUC-PUC-SP.
Trata-se de uma tese universitária e o orientador, Roberto de Andrade Martins, no prefácio do livro, promete: "... a autora pesquisou e discutiu um grande volume de trabalhos da própria época investigada, assim como estudos históricos... em nosso país nunca foi publicado um estudo tão detalhado... Mergulhando em profundidade... no contexto da época, a pesquisadora procurou determinar se as investigações que o famoso químico desenvolveu... seguiam os padrões de cientificidade da época... esta obra representa também uma contribuição epistemológica, analisando a metodologia dessas pesquisas..."
Quem quiser ler também o livro, pode adquirí-lo através do e-mail vendas@livrariacortez.com.br (site www.livrariacortez.com.br), por míseros R$39,00, incluindo o frete.
Se não, espere minha resenha após a leitura. Mas, como são mais de quinhentas páginas... vai demorar...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

QUESTÕES DE FÉ

O esboço de metodologia de trabalho apresentado nas postagens anteriores é, na verdade, um desafio para os que pretendem um espiritismo científico. Um desafio para que paremos com acusações recíprocas de falta de cientificismo ou excesso de pieguismo e façamos realmente alguma coisa parecida com ciência. Isto é, aos que têm vontade. Porque, na forma como anda a carruagem, todos os espiritismo se equivalem: o kardecista, o roustainguista, o ramatista, e quejandos... todos são questões de crença e de fé. "Mas até o de Kardec?" perguntarão. Sim, ouso responder. Nenhum é científico. Podem até ter tido uma aparência científica em sua época; porém, tanto o conceito de ciência, como sua metodologia envoluíram de lá prá cá, e continuarão a evoluir sempre.
Que me perdoe nosso grande mestre Allan Kardec, mas apesar das valiosas obras de sabedoria religiosa que ele nos legou, as reuniões da sociedade espírita de Paris não resistiriam aos rigores científicos atuais. Vejamos um exemplo de atitude "científica" deles.
Discutiam a mediunidade nos animais; depois de ouvir uma série de opiniões (sim, opiniões!), foram perguntar a um espírito!
"A questão da mediunidade dos animais -- escreve Kardec no LM-236 -- se encontra completamente resolvida (sic) na dissertação seguinte, dada por um Espírito de quem já pudemos apreciar a profundeza e a inteligência em outras citações que já tivemos a oportunidade de fazer".
E segue a comunicação do Espirito Erasto, dada na tal reunião. Depois de fazer uma série de arrazoados pré-darwinianos da superioridade do homem sobre o animal e insinuar uma criação à parte de nossos espíritos, lá pelas tantas, o Espírito sai com esta:
"O senhor T..., conforme disse, magnetizou seu cão; o que aconteceu?
Ele o matou; o infeliz animal morreu após ter caído numa espécie de atonia,de languidez, conseqüência de sua magnetização. De fato, ao inundá-lo
de um fluido tirado de uma essência superior à essência especial de sua
natureza de cão, esse fluido o esmagou e agiu sobre ele, ainda que
lentamente, com a potência de um raio. Portanto, como não há nenhuma
assimilação possível entre nosso perispírito e o envoltório fluídico dos
animais propriamente ditos, nós os esmagaríamos instantaneamente se
os mediunizássemos".

Eu não acredito nessa história de que o sujeito magnetizou o cão e este morreu; esse senhor T. mais parece um "Gardenón" papudo. Em nossos dias, isto equivaleria a matar cachorro a passe! Na certa morreu de outra coisa. Se fosse uma sociedade científica teria feito experiências com protocolos, controles, relatórios, reprodução do fenômeno, etc. E não, simplesmente, perguntado a um espírito para esgotar o assunto.
Mas, o pior de tudo, o que descaracteriza completamente o Espiritismo Kardecista como ciência, é que até hoje, século e meio depois, quando discutem o assunto de mediunidade nos animais entre espíritas vão tirar a dúvida na "Codificação"; nesse texto! Como qualquer crente vai na Biblia. A nenhum espírita ocorre fazer experiências. Verificar controladamente em laboratórios, ou nos centros espíritas, ou mesmo em suas casas, quais seriam as possibilidades, reações ou consequencias de passe nos animais. E os que falam em "atualizar o Espiritismo", pensariam em consultar novos espíritos, de mortos mais recentes, sobre a dúvida.
Ora, imaginem o método de Kardec se estendendo para os diversos ramos da ciência. Querem saber sobre buracos negros? Nada de ler as teorizações e pesquisas do Mourão, logo superadas pelas do Hawking, logo superadas por outro John ou João qualquer. Nada disso. Vamos evocar o Galileu ou o Einstein e perguntar para um deles o que é esse tal de buraco negro e, nas palavras de Kardec, "resolver completamente a questão".
Por isso, repito, a Codificação, os Quatro Evangelhos de Roustaing, os livros do Ramatis, do André Luiz, do Armond, todos se equivalem: transitam em crenças; baseiam-se no princípio da autoridade, não da experimentação. Cada um é livre de acreditar em qualquer deles ou em todos. Arvorar-se em "purista doutrinário" para atacar qualquer um deles é atitude religiosa, talibânica até.

terça-feira, 12 de abril de 2011

DO MÉTODO - III

A ABORDAGEM

O objeto da Ciência Espírita é o Espírito. E o Espírito, como individualidade independente e sobrevivente ao corpo ainda não foi encontrado pela Ciência. Os espíritas, sem sua maioria, são teóricos. E, dentre esses teóricos, alguns conhecem o Espírito apenas pela "Codificação" Kardequiana; outros, um pouco mais atualizados, o conhecem também pelos relatos envelhecidos de pesquisas realizadas por diversos sábios no final do distante século XIX, e no começo do não menos distante século XX. Os esforços para tentar convencer a ciência moderna da existência do Espírito servindo-se da "Codificação" equivalem a esforços para que subordinassem suas teorias e pesquisas à Bíblia ou ao Alcorão. E a insistência em pesquisas metapsíquicas que não foram totalmente aceitas nem no seu próprio tempo soa ridícula. Assim, o principal trabalho da Ciência Espírita continua sendo, ainda, a comprovação da existência do seu objeto: o Espírito.
E o principal instrumento para a verificação da existência do Espírito, bem como o estudo de suas relações com os homens, sua origem, natureza e destino, é a mediunidade.
A partir daí, os candidatos a "cientistas espíritas" deveriam desenvolver um método, aplicável em qualquer lugar, que identificasse e desenvolvesse potenciais médiuns, matéria prima de pesquisas posteriores. Uma espécie de COEM, só que liberado de suas atribuições moralizadoras, evangélicas ou religiosas. Estabeleceriam protocolos que permitissem definir com um razoável grau de certeza os limites entre o fenômeno mediúnico propriamente dito e as manifestações do inconsciente do médium, também conhecidas como "fenômenos anímicos". Também poderiam chegar a parâmetros que permitissem com suficiente segurança a identificação dos espíritos comunicantes.
Uma outra vertente da metodologia de pesquisa da Ciência Espírita seria orientada para a comprovação ou não da reencarnação. Aqui, para não ficarem à mercê do aparecimento natural de "casos sugestivos de reencarnação", que ofereceriam uma pesquisa pouco mais que jornalística, os candidatos a "cientistas espíritas" poderiam utilizar da hipnose, ou do simples relaxamento, para provocarem regressão de memória que gerasse dados que pudessem ser tabulados e conferidos. É evidente que as regressões pitorescas, que levassem aos napoleões ou akenatões seriam desprezadas, em prol daquelas que remetessem a vidas triviais, passíveis, porém, de comprovação ou refutação. Outros recursos, tais como a datiloscopia (Fiorini) ou a grafologia, seriam também agregados.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

DO MÉTODO - II

DO OBJETO

O objeto de uma Ciência da Alma seria, evidentemente, a Alma. Ou, mudando apenas as palavras: o objeto do Espiritismo, como ciência, é, evidentemente o Espírito.
Reitero, como ciência. Pois o Espiritismo como religião tem o direito de meter-se em tudo. Não é essa a característica da religião: o meter-se em tudo e em todos os assuntos? A vocação para a totalidade? É bem verdade que a ciência também deve vocacionar-se para a totalidade. Como se chama esse negócio mesmo? Ah, o holismo. Mas, há uma diferença. É permitido à religião que cada fé ou cada guru, porque não dizer também cada adepto, tenha direito à sua própria e particular mundividência. E as provas são, também, particulares, subjetivas: a teofania, a revelação, a intuição, a tradição. Da ciência já se exige um esforço permanente de percepção da realidade como ela é; de objetivação de observações e provas dessa percepção; de tentativa de negação mesmo das provas apresentadas. Daí a tendência a restringir esses esforços a objetos específicos, de forma a poder abordá-los em sua totalidade; cabendo aos cientistas, de per si, desenvolverem suas visões de conjunto ou suas mundividências. E quando houver necessidade do desenvolvimento de uma visão de conjunto pela Ciência, essa deverá ser em forma de uma teoria racional, cujas partes, por sua vez, resistam à experiência.
Portanto, o objeto do Espiritismo como ciência é o Espírito; e podemos detalhar com Kardec: sua natureza, sua origem, seu destino e, claro, suas relações com o mundo corporal.
É claro que em seu desenvolvimento essa ciência terá imbricações não só com a religião, como também com todas as demais ciências: aquelas que estudam a natureza (física, química, geologia, etc.), aquelas que estudam o homem (antropologia, psicologia, etc.), as que estudam a sociedade, a moral, as leis. Além das imbricações, ninguém resistirá à tentação de projetar o que se vier a conhecer sobre o objeto dessa ciência na compreensão de pontos das demais ciências, assim como na compreensão das consequencias morais e comportamentais desse conhecimento.
Estão vendo a dificuldade? Parece que Kardec iniciou uma ciência que deriva irresistivelmente para a filosofia e para a religião; e, que estas duas vivem ameaçando de absorvê-lo totalmente.
Mas, voltemos ao objeto -- o Espírito --; e tentemos um método realmente racional e experimental de abordagem.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

DO MÉTODO - I

DA NATUREZA DO CUEE

O Controle Universal do Ensino dos Espíritos é um método religioso para a formação de uma doutrina; no caso, a doutrina espírita. Por que religioso? Porque se tratará sempre do controle do ensino de sábios; e, não, do controle do conhecimento (ou da pesquisa que gera o conhecimento); caso em que ele seria científico.
Se um princípio novo, se uma teoria inédita, fosse anunciada por um espírito qualquer, através de um médium qualquer, não seria na concordância com a comunicação de outros espíritos, através de outros médiuns -- fossem milhões e não só os mil do Kardec --, que um cientista buscaria a garantia ou a comprovação. Um cientista buscaria comprovação na experimentação. Realizaria experiências e observações na tentativa de afirmar ou negar o princípio ou a teoria apresentada. Só um religioso buscaria cotejar com outros ensinos. Um religioso sim, em recebendo um ensinamento, uma revelação, de um suposto sábio, poderá procurar outros supostos sábios para, respeitosamente, confirmar ou negar o ensino. Isto não é atitude científica; é comportamento de aprendiz, de discípulo, não de cientista.
Portanto, repito, o CUEE serve exclusivamente a propósitos religiosos, de formação doutrinária. Como foi Kardec que criou tal método, e como ele afirma tê-lo empregado na elaboração da doutrina, ou, como preferem alguns, na "Codificação", fica mais uma vez comprovado que o Espiritismo Kardecista é uma religião.

Os que pretendem consolidar uma Ciência Espírita, ainda que seja sob o nome de Ciência da Alma -- como proposto desde Bozzano até Regis --, devem elaborar outro método, de escopo e fôlego realmente científicos.
Mas, antes, devem identificar o objeto dessa ciência.
Será Deus, a natureza, a moral, o espírito, a mediunidade?
Tudo ao mesmo tempo não pode ser. Se não, deixa de ser uma ciência, prá se tornar uma enciclopédia.
Mas, isso é assunto prá outra postagem...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

INCORPORAÇAO

Assim como "kardecismo", que já provamos exaustivamente que existiu, existe e existirá sempre, a palavra "incorporação" provoca surtos de ira em certos espíritas, que, ao ouvi-la, apressam-se a dizer irritados que "isto não existe!" E acionam um botão qualquer de suas mentes programadas iniciando a repetição da cantinela decorada de que "o espírito não substitui completamente o médium em seu corpo na comunicação". Ora, e quem lhes disse que as pessoas que se servem descontraidamente do termo "incorporação" crêem em tal asneira? Parece que certas pessoas não pensam por conta própria: apenas repetem o que lhes foi "incorporado".
É claro que existe incorporação. Até entre vivos, digo, entre encarnados. Pois diariamente não existem pessoas "incorporando" idéias, conceitos, aspirações, do outro? E não é o que acontece na comunicação mediúnica: o médium "incorpora" tudo isso do espírito comunicante?
Certamente dirão: sim, mas atente para a regência. Você diz que "alguém incorporou algo de alguém", enquanto que os espíritas incautos (na visão deles) dizem que "alguém incorporou alguém". Sacou? o que eles dizem é que "fulano incorporou o Bezerra"; e, não, "fulano incorporou isso e aquilo do Bezerra".
Pois eu continuo dizendo que está certíssimo dizer-se que "fulano incorporou o Bezerra"!
Senão vejamos. Vamos para aquela final do programa Pinga-Fogo. O Castro Alves estava zanzando por ali, mas ninguém o via. Nossos olhos e ouvidos, tais como as câmaras televisivas que ali estavam, foram criados para verem e ouvirem corpos; os tais que ocupam lugar no espaço. O poeta não tinha um corpo, ao menos igual ao nosso, portanto, não era visto nem ouvido. Daí, ele se comunicou pelo Chico. O que nós víamos, ouvíamos e as câmaras captavam? O corpo do Chico! Ninguém via o Castro Alves; via apenas o Chico, o corpo do Chico. Então o que havia: nós só víamos e gravávamos o Castro Alves pelo corpo do Chico; Chico, portanto, "incorporava" o Castro Alves, tornando-o detetável.
Por que desprezar uma palavra tão redondinha, que transporta tanto em tão pouco, senão por um preconceito ou pela crença estúpida de que o outro é um ignorante que está pensando o que na verdade nós estamos pensando? E, em seu lugar, ter que usar um monte de expressões extensas como "fulano está transmitindo uma comunicação do Bezerra", ou horríveis como "está dando passagem"?
Ora, "fulano incorporou o Bezerra"... e pronto!

terça-feira, 5 de abril de 2011

É POSSÍVEL CRITICAR O CUEE?

No surgimento do Espiritismo, ou seja, na publicação do primeiro Livro dos Espíritos, em 1857, o método que Kardec consagraria como Controle Universal do Ensino dos Espíritos não foi aplicado. Kardec recebeu de Vitorien Sardou cinquenta cadernos de anotações do diálogo com os espíritos mantido através da médiunidade de duas jovens. Organizou-os de acordo com seus próprios critérios, e complementou-os com perguntas endereçadas aos Espíritos através da mediunidade dessas mesmas jovens e mais uma outra. A partir dessa publicação surgiu propriamente um movimento espírita. Diversos grupos mediúnicos que já existiam, e outros que se formaram motivados pela publicação do livro, passaram a funcionar em contato e buscando sintonia com o grupo de Paris, liderado por Kardec; principalmente após a criação, em janeiro de 1858, da Revista Espírita. A correspondência que ele passou a manter com esses grupos (a certa altura, "mais de mil", segundo ele mesmo) permitiram-lhe encetar um "controle universal" das mensagens que subisidiariam, a partir de então, não só a edição definitiva do Livro dos Espíritos, como também as demais obras que ele publicou, e que têm sido consideradas fundamentais para a construção da doutrina espírita.
Não sobraram anotações ou quaisquer outros elementos históricos que nos permitam compreender exatamente como ele exercia esse "controle universal". Mas, sempre, era ele quem o exercia. O próprio método científico, elaborado ao longo de séculos por inúmeras mentes, é considerado, em última e sincera análise, uma manifestação de subjetividade. Trata-se de um critério estabelecido pelo sujeito para compreender o objeto. Portanto, um objeto que extrapole tais critérios não será detetado pelo método, ou o será de forma deturpada. Imagine-se, então, um método elaborado e aplicado por um único sujeito. Sim, porque os demais apenas o alimentavam de informações, no caso, os ensinamentos dos Espíritos. Daí a necessidade de uma crítica isenta de paixões e fanatismos ao "controle universal do ensino dos espíritos" que teria subsidiado a "Codificação".

quarta-feira, 9 de março de 2011

"ORA, DIREIS, OUVIR ESTRELAS?"

A astronomia estuda os astros.
A astrologia ouve e acata os astros.
Para a primeira, os astros são testemunhas.
Para a segunda, os astros são mestres.
Graças aos tempos a liberdade que tenho
de ser astrônomo ou astrólogo.

terça-feira, 8 de março de 2011

CIÊNCIA E RELIGIÃO

Ciência e religião, ambas erram, claro.
Mas, as pretensões são diferentes.
A religião pretende ser imóvel.
Seu conhecimento é fruto de uma revelação dada.
Seus esforços são sempre para confirmar a revelação.
A ciência pretende ser móvel.
Seu conhecimento é fruto da descrença, da dúvida e da incerteza.
Seus esforços sempre colocam em xeque a revelação.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

MAIS HUMILDADE

O que talvez pretendesse Flammarion - e é o que eu peço hoje aos meus confrades espíritas -, seria mais humildade ante os que duvidam. Não sejamos tão donos da verdade em nossas afirmações, nem tão intolerantes com as críticas a Kardec e sua pretensa autoridade da doutrina espírita baseada numa universalidade que não resiste a uma análise racional e imparcial.
Eu, por exemplo, sou espírita porque creio, não porque tenha certeza. Digo e repito que o Espiritismo é minha verdade provisória.
Kardec direcionou o espiritismo para uma religião (ou, ao menos, para uma “moral”, como exigem alguns), talvez porque tivesse consciência da fraqueza de nossas provas. Os fatos espíritas podem ser reproduzidos sob teorias ou técnicas que o negam. Apesar do Quevedo não ser um cientista e, sim, um religioso que usa a ciência para provar sua tese de que os milagres acontecem (“aconteciam dentre os judeus até o advento do Cristo; aconteciam dentre os cristãos até o advento do protestantismo; e, a partir de então, só acontecem no meio católico” – risível, não?), não podemos negar que ele reproduz quase todos os fenômenos espíritas servindo-se da mágica e da sugestão. A quase totalidade dos fatos espíritas são explicados também por outras teorias, incluindo as que tratam dos desvios e complexos inconscientes consequentes do processo de estruturação da personalidade. Como concluía Flammarion, não temos meios de comprovar cabalmente a identidade dos espíritos comunicantes. O fenômeno mais estonteante, capaz realmente de abalar as estruturas de certas teorias, é o fato Chico Xavier. Ninguém como ele reproduziu tantos estilos diferentes, produziu tantos livros, deu, enfim, tantas indicações precisas para um pesquisador atento. Foi um fenômeno sem precedente; sem reprodução na história; portanto, convenhamos, de difícil avaliação; o que ele torna evidente para nós, que cremos, é passível de outras interpretações por outros.
Seria ideal que grupos capazes investissem mais na comprovação da comunicação e da reencarnação e no aperfeiçoamento de métodos para identificação de espíritos.
Enquanto isso, nós todos, que cremos, continuemos buscando nossas experiências pessoais na exteriorização de nossa mente, na visão espiritual e no contato com os espíritos, através da leitura do Livro dos Médiuns (e demais literatura especcífica) e de exercícios programados, bem como, continuemos nos esforçando para a aplicação moral dos conhecimentos acumulados e na ampliação de nossa mundividência espírita.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ESPIRITISMO NO CARNAVAL

Os "espíritas ortodoxos" (ainda bem que só existem no orkut!) vão ter surtos de ira, rasgar as vestes e jogar cinzas sobre a cabeça ao lerem a notícia abaixo, no site da globo.com. E isso porque eles dizem que não são "religiosos"; apenas "ortodoxos"... (sic!)
Bem, o que fica evidente nesse fato é a modernidade e a descontração saudável das instituições que realmente representam o espiritismo. Enquanto outras agremiações religiosas impediram o Joãozionho Trinta de usar o cristo em andrajos, na avenida, num ato medieval de censura, as instituições espíritas não apenas aceitaram, como irão até colaborar.
Afinal, convenhamos, o carnaval é a festa de Deus, pois nele reina a alegria e a felicidade entre os seres humanos. Festa do diabo é o natal, quando todo mundo fica estressado, tenso, fazendo contas que nunca fecham na compulsão em comprar (dar presente é um ato nobre, mas se espontâneo e sem ferimentos), alguns pais desesperados chegando a roubar para cumprir a determinação da mídia...
Além do mais, ninguém é dono de Deus, de Jesus ou dos Espiritos.

RIO - Fugir do convencional para voltar ao Grupo Especial. Essa é a estratégia da Unidos do Viradouro para este carnaval, de acordo com o carnavalesco Jack Vasconcelos. E dentro dessa proposta, uma das apostas da vermelha e branca é um setor inteiro, no fim do desfile, dedicado ao espiritismo. No enredo "Quem sou eu sem você", Jack fará, no último carro, uma homenagem a Chico Xavier. O médium será representado por uma escultura em que aparecerá psicografando, cercada por 60 componentes, alguns deles espíritas, que farão uma performance de mediunidade.
- Nosso enredo é sobre a comunicação usada para unir as pessoas. No último setor, vamos mostrar o contato entre os diferentes planos, com o além. De forma carnavalesca, mas com muita responsabilidade. Tenho certeza de que será um momento emocionante - diz Jack, filho de mãe espírita.
Em termos plásticos, o setor será todo inspirado na estética do filme "Nosso Lar", de Wagner de Assis, baseado na obra de Chico Xavier. A última alegoria, inclusive, terá uma espécie de pirâmide, reproduzindo o Ministério da Comunicação do filme. O ator Renato Prieto, protagonista da produção, também participará do desfile. É ele que faz a ponte entre a agremiação e a Federação Espírita, para evitar que qualquer preceito do espiritismo seja desrespeitado na apresentação da vermelha e branca.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VOLTANDO AO FLAMMARION

Alguns dizem que Camille Flammarion oscilava entre explicações espiríticas e explicações pelo inconsciente. Na verdade, ele vivia e valorizava a dúvida. Por isso, se irritava com todos os que têm certeza absoluta das coisas. Criticava a postura não científica dos espíritas que têm certeza de que foi realmente Sócrates, Platão e companhia a trazer-lhes a doutrina. Mas, criticava principalmente a postura anti-científica dos próprios cientistas, que negam a priori, ou com pouquíssimos elementos para tal.

São suas palavras nas sombras da dúvida:
"Não encontro nada do que procuro, o Espiritismo não me satisfaz, e eu sou tentado a dizer com Dante: A floresta que me envolve é obscura, áspera e selvagem".

Para logo se erguer na dúvida construtiva:
"Devemos compreender que não podemos tudo compreender".

FLAMMARION E OUTROS CIENTISTAS ESPÍRITAS

As Memórias do Camille Flammarion citadas na postagem anterior são deveras interessantes. Mereciam uma tradução completa para o português. Mostram uma alma inquieta; alguém que deseja ardentemente o conhecimento do nosso destino após a morte, mas mantém-se suficientemente lúcido para não abandonar o critério estritamente científico e não cair em certezas precipitadas, mesmo tendo que pagar o preço da angústia permanente da dúvida.
Espiritismo ou animismo? Animismo ou espiritismo? É a gangorra onde ele balança sua angústia por toda a vida.
No Capítulo XIII ele aborda suas experiências espíritas. Faz, também, um breve relato e uma análise dos três cadernos resultantes das experiências realizadas sob a direção do Victor Hugo, quando na ilha de Jersey. Chega a elaborar a hipótese de que a soma dos presentes cria as personalidades comunicantes sob o domínio da mente prodigiosa de Hugo.
Vamos a alguns trechos desse capítulo:

"Ação inconsciente da alma. Mas como?
Existem espíritas de uma fé cega, que têm certeza de estarem em comunicação com os espíritos. Não há como chamá-los à razão. Eles não me perdoam de não compartilhar suas certezas, que se tornaram entre eles crenças religiosas. Mas há outros que compreendem que apenas o método científico pode nos conduzir ao conhecimento verdadeiro. Esses continuam meus amigos. Eu acabei de encontrar numa coletânea de correspondências a carta seguinte que me permito reproduzir, e que parece ter seu lugar aqui. Ela é datada de Bordeaux, 29 de março de 1904:

'Caro mestre,

Há cerca de quarenta anos, ouvi, em Bordeaux, um velho fazer o elogio de um jovem, por volta dos dezoito anos, portador de condições de fato excepcionais. Segundo ele, esse jovem seria um prodígio, que deveria remexer o mundo.
O jovem, era o senhor.
O velho, era Allan Kardec.'
(...)
(J.Bayard).

A carta continua, tecendo elogios ao espírito científico do Flammarion.

Ao final, ele ajunta:

"Publico esta carta, dentre várias, para mostrar que nem todos os espíritas me guardam ressentimento em função do meu método científico. Pode-se repelir o espiritismo, pode-se repelir o cristianismo, sem deixar-se de ser espiritualista. São doutrinas claramente distintas."

A informação desta carta, a análise na Revue à sua obra, e outras manifestações de Kardec deixam clara a predileção e o carinho que o fundador do Espiritismo nutria por ele; e compartilhava com a Amelie que, ao herdar seu espólio, tudo fez para que o jovem astrônomo se tornasse o continuador da obra. Certamente, viam nele o filho que desejariam ter tido. Por mais independente que fosse, ante tanta consideração seus sentimentos não lhe permitiriam apartar-se totalmente da hipótese espírita, e, é bem provável, condicionaram sua abordagem delicada e suas críticas amenas à "obra de feição pessoal", ou à "religião" do amigo, externadas no discurso do sepultamento.
Mas, ainda que sutil, tal abordagem serve como evidência histórica de que os homens de ciência contemporâneos do surgimento do espiritismo criticavam e denunciavam o encaminhamento religioso que Kardec dera ao assunto. Ou seja, para os cientistas, o espiritismo kardecista já nascia religioso.
Comprova isso a manifestação mais dura de Aksakoff, livre de qualquer laço de amizade, conhecida pela recente divulgação de algumas cartas onde critica o aspecto religioso do kardecismo. Também o comprova a introdução de Richet ao seu Tratado de Metapsíquica, onde, apesar de prestar homenagem a Kardec, critica sua vocação religiosa.
René Sudre, em sua Introdução à Metapsíquica Humana, após expor sua tese da prosopopese-metagnomia, primeira edição da hiperestesia indireta do inconsciente do Quevedo, e inventariar as últimas descobertas da psicologia sugerindo sempre o animismo como motor dos fenômenos, finaliza: "Assim o Espiritismo dito "científico", inaugurado por Delanne, parece haver entrado em falência, nada mais sobrando para a grande massa do que o velho Espiritismo moral de Allan Kardec que, em si, não é, de todo, mau, e que serve para levar aos aflitos ilusões consoladoras".
Tudo isso indica que havia, no final do século XIX e começo do XX, duas veredas espíritas: o Espiritismo científico e o Espiritismo religioso. O primeiro, representado por Delanne, Lombroso, Bozzano, Aksakoff, Crookes, Zollner, Geley e outros, reúne os pesquisadores que adotam a hipótese espírita para explicar os fenômenos. O segundo, representado pelos seguidores de Allan kardec (Leymarie, Dennis, Meyer e outros), reúne os que, além, claro, de adotarem a hipótese dos espíritos provocando os fenômenos, têm a certeza de sua identidade e de sua superioridade moral, absorvem respeitosamente seus ensinamentos, e crêem que o Espiritismo é uma revelação divina, consolador prometido, ressuscitador do cristianismo, destinado a inaugurar uma nova era da humanidade. Enfim, se não religião, algo bem parecido.
Como eu já disse em postagem de 01.07.2009, o segmento religioso sobreviveu por uma questão de seleção natural. Vale repetir:

A morte do espiritismo científico e a sobrevivência do espiritismo religioso deveu-se, simplesmente, a uma lei de seleção natural (no caso, na epistemologia, porém equivalente àquela da biologia: é só fazer as necessárias analogias - assim, se não for verdade, ao menos rima, ou seja, se non è vero è piu trovato).
E qual foi a mudança no ambiente (ambiente intelectual, claro) que provocou o desaparecimento do espíritismo científico?
Emergiram, no oceano do conhecimento humano, as pesquisas do inconsciente, trazendo para o meio científico explicações muito mais convincentes para os fenômenos mediúnicos, do que as explicações espíritas. Ante a aceitação de uma nova teoria e prática albergada sob o nome de psicologia -- palavra até então utilizada para a designação de uma disciplina filosófica, e que passa a designar uma ciência --, o espiritismo foi perdendo todas as esperanças de ser aceito como ciência. Consequentemente, sua vertente científica extinguiu-se. Já a vertente religiosa, conseguindo não só aparar como revidar os golpes dados na área do conhecimento em que transitava (a religião), sobreviveu e multiplicou-se.
Hoje, o espiritismo apreendido e praticado como religião é claramente hegemônico em todo o mundo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

EU SOU ESPÍRITA.

O Espiritismo é a minha religião.
Só peço às pessoas inteligentes que me perdoem o fato de que um dos dogmas fundamentais da minha religião, é ela dizer-se ciência.
Mas, é um dogma como outro qualquer; talvez até mais bem arranjadinho do que o dogma da virgindade de Maria, ou o de que Jesus ressuscitou levando o corpo para o céu.
Assim como nenhuma pessoa inteligente vai impedir que católicos e protestantes acreditem nessas coisas, apesar de saberem que não são verdadeiras, espero que também não me impeçam de acreditar que o Espiritismo seja uma ciência, apesar de todos nós sabermos que não o é.
Afinal, é apenas a minha religião.
O que deverá preocupar as pessoas inteligentes, será se eu começar a arregimentar poder para impor minha "ciência" às universidades, ou empurrá-la goela abaixo dos estudantes, como têm feito os adeptos de outras religiões com seus dogmas criacionistas ou sobre os "desejos" de Deus.

Agora, àqueles confrades que ainda acreditam ingenuamente que o Espiritismo não seja uma religião, que é realmente uma ciência (e, não, que a afirmação de "ele é uma ciência" seja apenas um dogma kardeciano), nada melhor que a leitura de refutações de ateus para temperarem suas crenças: http://ateus.net/artigos/critica/espiritismo-ciencia-e-logica/

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FLAMMARION ESPÍRITA?

"Em 31 de março de 1869, o chefe da escola espírita, Allan Kardec, morreu subitamente, aos 65 anos, e em 2 de abril seria sepultado no cemitério do Norte. Relatei mais acima como havia entrado em relações com ele no mês de novembro de 1861. Embora meu trabalho não me permitisse nenhuma assiduidade às reuniões da sociedade espírita da qual ele era o presidente-fundador, o comitê dessa sociedade convidou-me, em seu nome e no de Madame Allan Kardec, para presidir as exéquias civis e pronunciar um discurso. Eu estava me mantendo à distância desde algum tempo sobretudo, não admitindo que o espiritismo pudesse ser a base de uma religião antes que os fenômenos fossem cientificamente demonstrados e explicados. Contudo, rendi-me a tão honorável convite... (...) O Comitê me propôs suceder Allan Kardec como presidente da Sociedade Espírita. Recusei, sabendo que nove entre dez de seus discípulos continuariam a ver ali, durante ainda muito tempo, uma religião, em vez de uma ciência, além do que a identidade dos "espíritos" está longe de ser provada. Quarenta anos se passaram desde então. Os seguidores de Allan Kardec pouco mudaram sua fé; a maior parte recusa ainda a análise científica, única que poderia nos esclarecer exatamente".
(Camille Flammarion
"Memórias biográficas e filosóficas de um astrônomo"
Ernest Flammarion Editeur, Paris, 1911 -- Em facsímile da Gallica.bnf.fr).

Flammarion era um geniozinho de 19 anos quando encontrou-se com Kardec e começou a frequentar a sociedade espírita de Paris. Aos 27 já o vemos afastado do espiritismo, e recusando convites da própria Amelie Boudet para retornar em posição de destaque. Ele morreu aos 83. Seu afastamento precoce se deu por não concordar com os rumos que o presidente-fundador dava ao movimento: sem ter ainda construído uma metodologia que identificasse os espíritos de forma rigorosamente cientifica, ele não só os aceitava como tais, como os recebia na condição de sábios, enviados por Deus para procederem a uma nova grande revelação para a humanidade. Uma humanidade que, àquela altura, já prescindia de revelações divinas, pois adquirira maturidade suficiente para desvendar os segredos da natureza por si mesma. Aliás, poucos anos depois aposentaria o próprio Deus.
É incrivel como ainda hoje, no século XXI, encontramos pessoas que dizem ser científico sentar-se à frente de uma jovem em transe e acreditar-se estar recebendo de um Galileu ou Leonardo, profundas revelações ou soluções de problemas que temos condições e obrigação de buscar pela filosofia e pela ciência.
Agora, como religião, é outra coisa. Como religião, aceitamos de bom grado, principalmente se mantém nossa auto-estima, nossa felicidade e nossa saúde, até a revelação de um mendigo.
Daí porque Kardec, ao fim da vida, entregou os pontos e admitiu que era presidente-fundador de uma religião, ainda que, relutava, "em sentido filosófico".
Mas, o mais incrível de tudo é a teimosia cega com que os intelectuais espíritas repetem o lugar-comum de que o espiritismo era científico na Europa e foi transformado em religião no Brasil, ante toda essa evidência histórica em contrário!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CIÊNCIA DA ALMA? ou O QUE É O ESPIRITISMO?

Logo após lançar O Livro dos Espíritos, onde pretendeu estabelecer a doutrina espírita, Kardec fez a pergunta acima, talvez a mais importante, crucial e angustiante pergunta feita em toda a historia do espiritismo. Ele a colocou como título de um livro onde tentou respondê-la; mas a prova de que não foi bem sucedido é que a pergunta não se calou até hoje e, a julgar pelo título e as preocupações colocadas num texto que recebi, temos ao menos mais cem anos de discussão pela frente.
Em mãos o discurso A Identidade do Espiritismo no Século Vinte e Um, proferido pelo Jaci Régis em 4.9.2010, em Bento Gonçalves-RS, num encontro promovido pela CEPA para discutir justamente essa identidade. (Veja comentário).
Ele começa o discurso sugerindo que Kardec tornou o espiritismo refém do cristianismo; estruturando uma religião pensando que estruturava uma ciência; e atrelando-o ao dogma escatológico e teleológico universalmente vigente fora do pensamento científico, de que o mundo é um quintal do demiurgo e todos os acontecimentos tendem a comandar o homem para um destino pré-determinado (leitura minha, claro!). Após essa análise profunda, fria e contundente, ele assopra: "Seria diminuir seu gênio reduzir sua obra a essa análise simples".
Faz um bom diagnostico; o espiritismo atualmente é cristão, dividido em duas facções: o religioso e o laico. O primeiro, apesar de colocar-se como ciência, filosofia e religião, relaxa e desliza pelo terceiro aspecto, assumindo-se descontraídamente como religião, e gozando os benefícios das asceses místicas compensatórias. O segundo, substitui o vértice religião por moral, e arvora-se em científico; mas não consegue mais que o epíteto de pseudo-ciência pela inteligentzia, e o reconhecimento como filosofia dogmática, enquanto prega uma moral não perquirida, mas, sim, ditada por espíritos superiores pela graça de Deus.(Sempre leitura minha!)
E prescreve como cura para esses males o espiritismo pós-cristão: a ciência da alma.
"Esse espiritismo pós-cristão não apenas abandonará a retórica e a teologia católica, como se organizará como uma ciência humana", diz. E, nesse jogo de morde e assopra, talvez com medo de romper de vez com o eleitorado, diz que essa ciência da alma continua sendo kardecista .
Nunca uma proposta avançou tanto como a do Jaci:
- abandonar a ilusão de ser revelação divina;
- ombrear-se com as demais ciência humanas para entender o ser humano, suas limitações, problemas e futuro;
- compreender o ser humano como uma alma, sua estrutura, sua atuação e sua evolução;
- desenvolver espírito crítico e explorar a realidade do ser humano dentro da lei natural, da naturalidade dos processos evolutivos, através da reencarnação, como alma atemporal e em crescimento; e, para isso,
- dispor de recursos e meios para provar insofismavelmente a imortalidade, renovando o exercício e os objetivos da mediunidade, superando a fase meramente moralista e religiosa em que esta se situa atualmente. (Eu diria mais, provar insofismavelmente a reencarnação).
Mas, termina num anticlímax, dizendo que "o objetivo maior será introduzir na cultura o sentido sério, basicamente defensável dos postulados puros do espiritismo", e que a proposta ciência da alma "é kardecista na medida em que se apoiará nos alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário".
Quais são "os postulados puros do espiritismo"? Quais são "os alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário"? Que são "os acessórios das interpretações e extensões contextualizadas"? E por que ficar preso a essas questões ao invés de meter um carimbo de histórico em tudo isso, arregaçar as mangas e lançar-se à pesquisa, à busca dos objetivos antes delineados?
Ou seja, continua atolado no século dezenove; pois, a discussão para a resposta a essas perguntas nos levará seguramente mais um século de debates estéreis.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PRONTO, ENVOLVERAM O ESPIRITISMO!

Era o que faltava nesta campanha política. Católicos, evangélicos, liberais, conservadores, todos envolvidos até o pescoço e completamente divididos. Amigos de longa data se digladiando, no dramático esforço de demonizar o candidato adversário. Poderiam os espíritas continuarem serenamente sem envolver seus conteúdos doutrinários ou místicos (como queiram) nessa contenda? Difícil. Bem que tentamos, cada um com seu candidato, com sua preferência, sem conspurcar os humildes arraiais das nossas atividades. Não deu. O Carlos Vereza, por "encarnar" nas telas e vídeos o personagem mais badalado do espiritismo brasileiro, o Bezerra, julgou-se o próprio, e passou a lançar "vidências" na mídia, afirmando, do alto de sua reticente e rouca autoridade, que a Dilma e sua equipe estão cercados por uma multidão de obsessores!
Vê se pode!
Primeiro, cansaram de acusá-la de não ter biografia. Será que eu tenho biografia? Você, prezado leitor, tem biografia? Você, prezada leitora, tem biografia? O que é preciso fazer prá se ter biografia? Ser político profissional? Ganhar milhões na especulação financeira?
Olha, dá até prá fazer aqui um desafio: votem na Dilma os sem-biografia.
Os devidamente biografados fiquem com o Serra.
Agora, acusam-na de obsidiada. Será que eu sou um obsidiado? Tchan... Tchan... Tchan...! Você, prezada (e agora assustada) leitora, tem certeza de que não está obsidiada? O que seria estar obsidiado no entendimento do Vereza: estar cercado de espíritos inferiores?
Olha (de novo), dá até prá fazer outro desafio: espíritos inferiores, juntem-se a este outro inferior que ora escreve, e votemos na Dilma. Deixemos votarem em Serra os espíritos que se julgam superiores, da elite, saudosos de seus privilégios e exclusividades.
Afinal, o próprio Vereza bradava colérico com o microfone nas mãos: "Onde já se viu deixar um pobre comprar um carro em 70 prestações?" E, certamente, calava o que pensava em seguida: "Ele que enriqueça como eu, ganhe uma biografia, e compre à vista, ou ande a pé! Pobre quer carro prá quê?!"

terça-feira, 17 de agosto de 2010

DA AUTO-GERAÇÃO DE MITOS, OU DA GERAÇÃO DE AUTO-MITOS, OU SEJA O QUE FOR NESTA ESTONTEANTE ORGIA DE PALAVRAS NOVAS!

Já lá se vão umas quatro décadas (tempo suficiente para se lavarem as pretensões), aprendi um negócio interessante chamado de janela johari. Era uma técnica de feedback; uma ferramenta para conhecermos o que achamos de nós mesmos, em confronto com o que os outros acham de nós. Desde então, tenho levado ela em conta em minhas meditações, o que deve ter aumentado, um pouco que seja, minha capacidade de empatia e exercício de alteridade.
Certas críticas que faço à “mitologia” espírita, se inserem nesse contexto.
Há um certo “autismo intelectual” de alguns companheiros em relação a esse caso do recenseamento: “quando vamos conseguir ensinar (sic) as pessoas que kardecismo não existe?!” E continuam com a ladainha de que o termo kardecismo foi criado pelo movimento espírita brasileiro para destacar a “apropriação” do termo espiritismo por outras práticas e crenças.
Já mostramos, algumas postagens atrás, que os termos kardecismo e kardecista eram livremente utilizados na Europa muito antes do movimento espírita brasileiro ter qualquer expressão; e pelos próprios espíritas. Aliás, o termo começou a ser empregado ainda no tempo de Kardec ( veja Revista Espírita de outubro de 1865, página 289 da Edicel), apesar de seus protestos de que não era “autor” da doutrina, mas, apenas, um “facilitador de Deus” (expressão minha, e irônica, sim!), com a missão de diminuir as preocupações do Demiurgo na implantação de sua "terceira revelação" neste insignificante grão de areia cósmica. Basta dizer-se espiritismo, pois se Kardec criou o termo, só o que é kardecista o merece!
Realmente, Kardec diz tê-lo criado. Não no Livro dos Espíritos, na Introdução. Lá, basta lermos bem, Kardec não diz que o criou, diz que o usa. Mas, num texto publicado em Obras Póstumas, quando ele fala da Constituição do Espíritismo, é categórico: "Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender, a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita".
Era no que ele cria. Mas, é a verdade?
O primeiro alerta me veio do Dicionário Houaiss, o mais badalado do momento na língua portuguesa. No verbete espiritismo, ele diz mais ou menos assim (digo "mais ou menos" porque não o tenho no momento para uma transcrição literal: e quem for conferir, o faça também nos verbetes espírita e espiritista): "espiritismo, do francês spiritisme (1857) e do inglês spiritism (1856)" (!). Escrevi à editora pedindo que me dessem disto as fontes: não mereci resposta.
O segundo alerta veio de um blogueiro onipresente, o Vitor Moura, que mantém blogs, páginas, comunidades, e o que mais tem de direito, criticando ferozmente Kardec e o Espiritismo. Mas, certo de que se eu quero me conhecer devo ouvir meus inimigos, trago sua pesquisa:
- Já em 1854 a palavra era utilizada por Orestes Augustus Brownson, em seu livro, "The Spirit-Rapper. An Autobiography", para ser referir à necromancia.
E, mais: No mesmo ano, 1854, Leonard Marsh (1800 – 1870), da Universidade de Vermont, em seu livro "Apocatastasis, or Progress Backwards", editado em Burlington por Chauncey Goodrich, usava o termo spiritism. Talvez fossem essas as fontes que a editora do Houaiss me indicariam, caso me respondessem.
E agora? Kardec, que já havia perdido o direito legal, pois os direitos autorais vencem 60 anos após a morte do autor, perde também o direito moral de "lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita"?
E nós, vamos continuar alegando antipaticamente que apenas os kardecistas (ops! kardecismo não existe!) podemos ser chamados de espíritas, e os demais estão usurpando o termo?
Ou, é mais um mito que cai?
De qualquer forma, pelo exposto, torna-se não apenas admissível, mas necessária, a expressão "espiritismo kardecista", pois todas as outras formas, doutrinas ou crenças que têm por base o contato com os espíritos são, também, de pleno "direito histórico", espíritas!
Henri Sausse mostrou que era bom linguista quando fundou, em 1918, em Lyon, Le Spiritisme Kardeciste.

P.S. Este texto está mesmo a exigir um post scriptum, pois, além da necessária correção feita nos "comentários" sobre o verdadeiro autor da pesquisa citada (fontes que eu não verifiquei), é preciso anotar que o Dicionário Houaiss, em edições posteriores à minha consulta, não mais coloca a data de 1856, nem se reporta ao inglês sobre a origem do vocábulo espiritismo. Talvez a editora tenha recebido mais cartas, além da minha, e verificado a precariedade de suas fontes.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

SOCIALISMO E ESPIRITISMO

Leia abaixo as conclusões do primeiro congresso internacional dos espíritas.
Pesquise sobre Robert Owen; Charles Fourier e seu falanstério; Jean-Baptiste André Godin e seu familistério de Guise. Isto, em enciclopédias e na Revista Espírita.
Leia, na Revista Espírita, as referências aos fourieristas e aos saint-simonistas.
Leia, no livro A mesa, o livro e os espíritos, sobre as relações entre espíritas e socialistas no século XIX.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CONCLUSÕES DO PRIMEIRO CONGRESSO ESPIRITA INTERNACIONAL, EM BARCELONA, 1888

Conforme eu informei na postagem anterior, houve, nesse Congresso, duas redações de "conclusões": uma pelos delegados espanhóis, outra pelos delegados franceses, belgas, cubanos e italianos. Ambas as redações foram aprovadas pelos congressistas e incorporadas ao relatório do Congresso. A seguir, em tradução livre, a redação que finaliza o relatório:

"Por unanimidade, os dirigentes do encontro e todos os delegados, aceitaram o que segue, afirmado e proposto pelos senhores Eulogio Prieto, Juan J. Garay, Tomas de Ona, Ercole Chiaïa, Giovanni Hoffman, Efisio Ungher, José Nicolau Bartomeu, Pierre Gaëtan Leymarie, delegados belgas, cubanos, franceses e italianos:"

"O Congresso Espírita Internacional, reunido em Barcelona, em 8 de setembro de 1888, afirma e proclama a existência real e indiscutível das relações entre as almas encarnadas e desencarnadas.

"Considerando esse fato em suas fases diversas, o Congresso declara o seguinte:

1o. O Espiritismo é uma ciência positiva e experimental sancionada pela investigação constante e pela história;
2o. O Espiritismo é uma ciência filosófica superior que satisfaz mais que qualquer outra a consciência, a razão e a justiça;
3o. O Espiritismo é uma ciência psicológica que nos prova a existência da alma e nos dá a explicação mais lógica das relações mútuas da alma e do corpo;
4o. O Espiritismo é uma ciência divina que leva a uma crença racional em Deus e à certeza de uma vida futura, que estabelece a responsabilidade dos nossos atos segundo a estrita justiça, e prova a necessidade das reencarnações sucessivas como meio de progresso indefinido, seja sobre o nosso planeta, seja pelos mundos siderais;
5o. O Espiritismo deve se tornar uma ciência social, visando resolver os problemas humanitários seguintes: - de educação e de instrução integral para os dois sexos; - de legislação; - de propriedade; - de mutualidade; - de associação; - de fraternidade;
6o. O Espiritismo é a verdadeira escola do respeito devido a todos os pesquisadores de verdades, mesmo que eles não sejam adeptos do fundador de nossa filosofia, de nosso vulgarizador Allan Kardec;

"Em consequencia, o Congresso adere à proposições seguintes, que os delegados se propõem a executar em seus respectivos países, desde que circunstâncias favoráveis o permitam:

A. Tender continuamente a unir, a federar todos os espíritas de um mesmo país, a federar entre si todos os centros espíritas nacionais;
B. Introduzir os elementos da doutrina espírita no ensino popular, e implantar cadeiras de filosofia espírita em nossas escolas superiores;
C. Propagar a doutrina entre as massas, as oficinas, os centros industriais, as mais humildes comunidades, através de brochuras, de conferências gratuitas ou por meio da imprensa;
D. Prevenir os grupos e os centros espíritas, pois que o mestre Allan Kardec nos deixou especialmente prevenidos, quanto à credulidade excessiva nos ensinamentos hauridos com a ajuda das comunicações com o além: é preciso submetê-los a um critério severo, dizia ele; a credulidade sem controle, desacredita o Espiritismo;
E. Convidar a todo amigo sério do progresso para o estudo aplicado e imparcial das obras e fatos espíritas, e da ciência em geral;
F. Estabelecer que, se é logicamente preciso uma federação espírita local, departamental, regional, cada qual deve ter, segundo suas tendências e seu talento, completa liberdade de ação nos domínios do Espiritismo;
G. Ensinar o desdém ao ostracismo, devendo nossas fileiras ficarem sempre largamente abertas;
H. Interessar os espíritas no estudo da cooperação e da associação prática, segundo o modelo instituído em Guise, França, pelo Sr. Godin, fundador do familistério. Para extinguir o ódio de classes, e tornar impossível as revoluções e suas violências, visar a associação do capital e do trabalho, tal como aquele homem de bem;
I. Transformar as prisões penitenciárias em instituições de moralização, para reabilitar o homem caído no mal, exatamente como o faz em Paris a Sociedade dos Libertos de Saint Lazare, sob a direção da honorável e corajosa senhora Isabelle Bogelot;
J. Estabelecer um movimento de idéias para secundar toda ação que tenha por fim modificar os sistemas civis e penais de cada país no sentido da caridade e da justiça segundo o Espiritismo;
K. Unir-se a toda sociedade constituída para impedir os conflitos entre as nações por meio da arbitragem internacional permanente;
L. Tender progressivamente a desarmar as nações, a abolir as fronteiras, com a ajuda da palavra e da imprensa;
M. Propugnar pela supressão da pena de morte em todo lugar onde ela exista;
N. Trabalhar para destruir a escravidão sob todas as suas formas.

15 de setembro de 1888.

Os delegados belgas, cubanos, franceses, italianos e espanhóis."

segunda-feira, 19 de julho de 2010

NOVAMENTE O PRIMEIRO CONGRESSO ESPIRITA INTERNACIONAL

Conforme prometido, de vez em quando "posto" aqui, a título de curiosidade, a tradução de alguns trechos do relatório do Congresso Espírita Internacional de Barcelona, 1888. Agora,vamos colocar as afirmações e conclusões.
Atendendo pedidos, principalmente de correspondentes (ou seja, os que não estando presente, assim se faziam por cartas), os organizadores resolveram elaborar dois textos conclusivos: um pelos espanhóis; outro pelos franco-belga-italianos. Talvez tenha sido uma estratégia para contornar a famosa teimosia espanhola que, por certo, impediria uma redação definitiva. (Brincadeirinha, claro!).
A comissão franco-belga-italiana era constituída por Pierre-Gaëtan Leymarie (França), Efisio Ungher e Ercole Chiaia (Itália), José Nicolau Bartomeu (Cuba!).
A espanhola: Joaquin Huelbes Temprado, Manoel Sanz y Benito, Miguel Vives e Juan Chinchilla (Espanha), Eulogio Prieto (Cuba!), Pedro Fortoult Hurtado (Venezuela).

Por unanimidade, as seguintes conclusões da "escola espanhola" foram adotadas:

"O primeiro Congresso Espírita Internacional afirma e proclama a existência e potencialidade do Espiritismo, integral e progressiva.

"Seus fundamentos são: - A existência de Deus. - A infinidade dos mundos habitados. - A pre-existência e a persistência do Espiritismo. - A demonstração experimental da sobrevivência da alma humana através da comunicação mediúnica com os espíritos. - A infinidade de fases durante a vida infinita de cada ser. - Recompensas e penas como consequencias naturais dos atos. - O progresso infinito. - A comunhão universal dos seres. - A solidariedade.

"O caráter atual do Espiritismo se formula assim:
1o. Ele forma uma ciência positiva e experimental;
2o. Ele é a forma contemporânea da reparação;
3o. Ele consagra uma etapa importante do progresso humano;
4o. Ele dá solução aos problemas mais profundos, morais e sociais;
5o. Ele realça a razão e o sentimento, e satisfaz a consciência;
6o. Ele não impõe crença alguma, apenas convida ao estudo;
7o. Ele realiza uma grande aspiração, que é consequencia de uma necessidade histórica.

"Consequente com os princípios enunciados, o Congresso entende que toda Sociedade e todo adepto, deve, pelos meios legais à sua disposição, prestar apoio e colaboração às individualidades ou coletividades que se ocupam de civilizar os homens; assim, o Congresso aconselha:
A. O estudo completo da doutrina espírita.
B. Sua propagação incessante por todo meio lícito.
C. Sua realização constante pela prática das virtudes públicas e privadas.

"Para obter tal resultado o Congresso entende que cada Sociedade e cada adepto espírita deve encarar todo homem de boa vontade como um irmão durante a luta da vida, o combate contra o vício, o erro e o sofrimento. Para isso, aconselha:
D. O respeito a todos os investigadores, a todos os propagadores de verdades, mesmo se eles não forem espíritas.
E. O esforço constante no sentido de laicizar a sociedade em todas as esferas da vida;
F. Procurar obter a liberdade absoluta de pensamento, de ensinamento integral para os dois sexos, de cosmopolitismo abraçando todas as relações sociais;
G. A federação autônoma de todos os espíritas, todo adepto pertencendo a uma sociedade constituída, cada sociedade devendo manter relações constantes com o centro de sua localidade, todo centro local com o centro nacional, e cada centro nacional com os de outras nacionalidades.

"Enfim, o Congresso nota que não é conveniente aceitar sem exame as doutrinas de uma individualidade ou de uma sociedade que não queira admitir tais conselhos.

"È preciso ainda remarcar que Allan Kardec demonstra em suas obras o perigo da crença excessiva nas comunicações mediúnicas, e que é preciso, diz ele, submeter ao cadinho da razão e da lógica, uma vez que o simples fato da morte não confere progresso.

Barcelona, 15 de setembro de 1888".


Pretendo postar em breve as afirmações e conclusões dos delegados franceses, belgas, italianos, e aquele cubano perdido no meio deles.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A GÊNESE, OS MILAGRES, AS PREDIÇÕES e as espiritices brasilianas...(II)

(Esta postagem foi revisada pelo autor em 31.05.2012, e publicada nesta data sob o título: LINHA DO TEMPO ESCLARECE EDIÇÕES DA GÊNESE).

Ante a polêmica a respeito das alterações feitas na Gênese de Kardec (as autorizadas, do autor, e as desautorizadas, dos que querem "atualizá-lo"; vejam a postagem anterior), tentei elaborar uma LINHA DO TEMPO, que aqui disponibilizo para que completem, corrijam, critiquem ou desprezem...


06.01.1868 - Lançamento do livro A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, pela Librairie Internationale - A. Lacroix, Verboeckhoven et Co. Editeurs. Segundo Desliens - secretário de Kardec, médium da Sociedade Espírita de Paris e, posteriormente, membro da Comissão Central que sucedeu o fundador -, o contrato inicial previa uma tiragem com três edições; as fôrmas de impressão seriam de propriedade de Kardec. (Revista Espírita, jan/1868; mar/1885). OBS.: A Rouge Frères, Dunon et Fresné, Rue du Four Saint-Germain, 43, citada por alguns articulista como "editores" é, na verdade, a tipografia onde foram impressas as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, bem como, a quinta edição de 1872, já então da Librairie Spirite.

xx.02.1868 - Kardec determina uma tiragem em brochura à parte do capítulo Caracteres da Revelação Espírita. (Revista Espírita, fev/1868).

xx.02.1868 - Kardec inicia a tiragem da segunda edição. (Revista Espírita, fev/1868). OBS.: Sem qualquer alteração; idêntica à primeira.

22.02.1868 - Os espíritos apoiam Kardec na intenção de promover alterações na Gênese e o alertam para que conte com o esgotamento rápido dos volumes. (Obras Póstumas).

04.07.1868 - Os guias de Kardec o incitam a apressar o trabalho de remodelação da Gênese: "Acréscimos em diversos pontos (...) e condensação aqui e ali para não tornar mais extenso o volume". E, ante a possibilidade do esgotamento das edições no mercado, dizem: "Não perca tempo: é preferível que os volumes esperem pelo público, do que este por eles". (Obras Póstumas)

xx.07.1868 - Artigo na Revue sobre a "Geração Espontânea e a Gênese".

xx.09.1868 - Correspondência na Revue sobre o capítulo "Aumento e diminuição do volume da Terra" e publicaçao do texto "A alma da Terra", que Kardec incluiria na revisão da obra, e sairia apenas na 5a. edição.

xx.10.1868 - Última alusão na Revue à Librairie Internationale, por ocasião do lançamento da brochura contendo a correspondência de Lavater.

xx.xx.1868 - Antes que o ano termine a Librairie Internationale, de A.Lacroix, Verboeckhoven et Co.Editeurs, vai à falência! (Revista Espírita, mar/1885).

xx.xx.1869 - Ano novo, mudança total. Kardec planeja entregar os encargos do movimento espírita a uma Comissão Central e dedicar-se apenas a atividades intelectuais em sua residência na Avenue et Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos. Cria a Librairie Spirite, que passará a publicar e distribuir a Revue e suas demais obras, na rue de Lille, 7. O Sr. Bittard, antigo funcionário da falida Librairie Internationale é indicado para ser o gerente. A Sociedade Espírita de Paris também se transfere provisoriamente para o mesmo endereço. Tudo isso é planejado por Kardec para ter início em 01.04.1869.
Em meio à mudança de coisas para sua casa na Avenue et Villa Ségur e coisas para a rue de Lille, no já quase deserto escritório da Passage Saint'Anne, em 31 de março, Kardec morre! A Sra. Allan Kardec, única proprietária legal de suas obras e da Revue, após uma tentativa frustrada de convencer Camille Flammarion a sucedê-lo, decide:

"Primeiro: Doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes da venda dos livros espíritas e das assinaturas da Revue, isto é, das operações da Livraria Espírita; mas com a condição expressa de que ninguém, a título de membro da Comissão Central ou outro, tenha o direito de imiscuir-se neste negócio industrial, e que os recebimentos, sejam quais forem, sejam recolhidos sem observação, desde que ela pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas, regular a seu critério os emolumentos de seus empregados, o aluguel, as despesas futuras, numa palavra, todos os gastos gerais;
Segundo: A Revue está aberta à publicação dos artigos que a Comissão Central julgar úteis à causa do Espiritismo, mas com a condição expressa de serem previamente sancionados pela proprietária e a Comissão de Redação, o mesmo se dando com todas as publicações, sejam quais forem;
Terceiro: A Caixa Geral do Espiritismo é confiada a um tesoureiro, encarregado da gerência dos fundos, sob a supervisão da Comissão Diretora. Até que seja o caso de usá-los, esses fundos serão empregados na aquisição de propriedades imobiliárias para enfrentar todas as eventualidades. Anualmente o tesoureiro fará uma detalhada prestação de contas da situação da Caixa, que será publicada na Revue."
Por incrível que pareça, ela "foi objeto de felicitações unânimes". (Revista Espírita, 1868/1869; Obras Póstumas).

xx.xx.1870 - Segundo seus biógrafos, Pierre-Gaetan Leymarie assume a direção do movimento espírita (Sociedade, Revista e Livraria). Leymarie conviveu e colaborou com Kardec, como médium e como divulgador do espiritismo, recebendo total confiança de Amelie Boudet. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

01.06.1871 - Segundo informação de Desliens, esta é a data limite em que a Sociedade, a Revista e as impressões das obras de Kardec estiveram diretamente a cargo de Bittard, Tailleur e Desliens. Presume-se que só a partir desta data Leymarie tenha assumido efetivamente tal mister. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1872 - Lançamento da QUINTA EDIÇÃO da Gênese, agora pela Librairie Spirite (conforme se pode verificar por noticie bibliographique da Bibliothèque Nationale de France). A BNF mantém esta edição em seu acervo com a identificação: FRBNF30010935.
A quarta edição foi, ainda, publicada pela Librairie Internationale.
Aliás, hoje em dia, pela internet, pode-se encontrar o original de todas essas edições (1a2a3a4a5a) em várias bibliotecas francesas, assim como disponibilizadas em sites brasileiros.

xx.xx.1883 - Fundição dos clichês da Gênese. (Revista Espírita, 1885).

xx.xx.1884 - Henri Sausse, espírita, polemista, biógrafo de Kardec e iniciador da utilização midiática da expressão "espiritismo kardecista", após comparar os textos das edições da Librairie Internationale com o texto da edição da Libraire Spirite, acusa Leymarie de ter feito alterações na Gênese, gerando ruidosa celeuma no meio espírita. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google).

15.03.1885 - Desliens, que estava afastado do movimento espírita desde 1871, escreve uma carta à Sociedade com a intenção de defender Leymarie.
Segundo ele, Kardec contratou com a Librairie Internationale as três primeiras edições, e, ainda em 1868, autorizou a 4a, 5a. e 6a. E que as matrizes destas três últimas serviram para as edições de 1869 a 187l (período em que ele esteve à frente do negócio) "e em diante". E sugere que Kardec tenha feito as alterações objeto da celeuma nestas placas, uma vez que eram fôrmas de letras soltas. Diz ainda que a última edição de 1868 era idêntica à primeira. (Revista Espírita, 1885). OBS.: Esta última afirmação de Desliens pode, hoje, ser comprovada por qualquer pessoa que se disponha a cotejar as edições de 1868.

Contradições: Segundo fac-simile apresentado pela Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, a 4a. edição é de 1868 e da Librairie Internationale. Segundo notice bibliographique da BNF, a 5a. edição é de 1872 e da Libraire Spirite. Não encontramos outras 5a. e 6a. edições de responsabilidade de Desliens; aliás, não encontramos ainda nenhuma edição entre 1869 e 1871!

xx.xx.1911 - Guillon Ribeiro torna-se espírita, vindo a ocupar a presidência da FEB e a produzir inúmeras traduções, incluindo a Gênese de Kardec, que ele diz ter traduzido a partir do original da QUINTA EDIÇÃO. (Sites brasileiros, encontrados via Google).
É evidente que a tradução de Guillon Ribeiro foi feita após 1911; portanto, no mínimo, 27 anos após as denúncias de Henri Sausse, 38 anos após a publicação da edição que lhe serviu de base, e 41 anos após as alterações objeto das denúncias.

xx.xx.00 - Carlos Brito Imbassahy, espírita brasileiro, refaz, cento e tantos anos depois, o caminho de Henri Sausse: compara a TERCEIRA EDIÇÂO da Gênese francesa, de 1868, com a atual edição brasileira da FEB; constata as diferenças e acusa o tradutor brasileiro, Guillon Ribeiro, de ter feito as alterações. Disponibiliza na internet uma tradução do original da terceira edição ("ao pé da letra", segundo sua advertência) que diz ter em seu poder. (Sites e blogs brasileiros, encontrados via Google).

xx.xx.2007 - A empresa Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, publica uma tradução da Gênese, de Albertina Escudeiro Sêco, afirmando ser baseada na QUARTA EDIÇÂO, de 1868, ainda da Librairie Internationale, da qual exibe fac-simile apenas da folha de rosto. Ousadamente, perpetra uma série de alterações no texto de Kardec, a pretexto de "atualizá-lo". (A Gênese, Léon Denis Gráfica e Editora).

Assim, temos atualmente duas versões da Gênese disponíveis no mercado editorial brasileiro. Uma, baseada na versão francesa fixada desde a quinta edição de 1872, traduzida por Guillon Ribeiro, Herculano Pires, Salvador Gentille, e outros. Outra, baseada na versão de 1868, traduzida e alterada por Albertina Escudeiro Sêco. Além dessas, existe a tradução de Carlos Brito Imbassahy, baseada, segundo ele, na terceira edição, de 1868, e disponibilizada gratuitamente na internet.

Bem, penso que esta linha do tempo absolve o Guillon Ribeiro. Quando as alterações foram feitas, seja por Kardec ou por Leymarie, ele não havia nem nascido. Quando ele fez sua tradução, passados quarenta anos dos fatos, ele só poderia agir como todos os outros tradutores, de todos os idiomas: utilizar a versão definitiva, disponibilizada pelos que ainda detinham seus direitos autorais.
Dispensam absolvição, porque não foram acusados, os demais tradutores brasileiros, bem como os vários editores franceses, que utilizam a versão fixada a partir da quinta edição.
Quando eu publiquei este post a primeira vez, eu disse que "nossas conclusões seriam enormemente facilitadas se fossem disponibilizadas ao público, em fac-simile, digitalizados, os originais da terceira edição (pelo Carlos Imbassahy), da quarta edição (pela LDGE) e da quinta edição (pela FEB)". Vejam como as coisas evoluem rapidamente na web: não precisamos mais disto. O historiador Felipe Gonçalves gentilmente me forneceu cópia da 4a. edição francesa; e, por informação dele, consegui junto ao site do IPEAK - Instituto de Pesquisa Espírita Allan Kardec, a 1a., 3a. e 5a. edições francesas. Tais fac-similes originais fazem referência aos locais onde estão armazenados e disponíveis.

Fiz a pretendida comparação, o cotejo, das edições francesas entre si, e delas com as traduções brasileiras -- de forma completa nos trechos polêmicos; mais rapidamente nos demais capítulos --, e posso afirmar que:

a) as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, tal como disse Desliens, SÃO IDÊNTICAS, o que demonstra que NENHUMA FOI REVISADA POR KARDEC.

b) a tradução do Guillon Ribeiro está rigorosamente fiel à 5a edição francesa de 1872, o que demonstra que ele NÃO É RESPONSÁVEL POR ALTERAÇÃO ALGUMA NA GÊNESE.

Agora, a situação do Leymarie complica um pouco, tendo em vista as inconsistências no depoimento do Desliens, feito 14 anos após os fatos.
A seu favor temos os inúmeros escritos e publicações de Kardec anunciando que preparava várias alterações na Gênese: acréscimos e supressões. Considere-se também o trabalhão que Leymarie teria para fazer todas as alterações no curto espaço de tempo entre o dia 01 de junho de 1871 e o dia do início da impressão, provavelmente já em 1872. Pergunte-se também, qual seria a motivação (o velho "a quem interessaria o crime?") que lhe justificasse tanto trabalho.
O mais provável, que ressalta da presente linha do tempo e da leitura e comparação das edições francesas e traduçoes brasileiras, é que Kardec, após autorizar que Bittard usasse a massa falida da Librairie Internationale para, em fins de 1868, fazer uma quarta edição a toque de caixa e antes mesmo que se esgotassem as demais, reuniu-se com ele e fez as alterações anunciadas diretamente nas matrizes, a fim de imprimir com elas uma quinta edição, definitiva, e já em casa, na Livraria Espírita. A morte, entretanto, interrompeu seus planos, e a natural confusão estabelecida entre esse trágico episódio e a assunção das edições pelo Leymarie, período em que este último segundo Desliens não teve acesso às matrizes, foi suficiente para que esquecessem as alterações, até que o Sausse as identificasse muitos anos depois. Isto só será definitivamente esclarecido se aparecer algum exemplar da suposta 5a. e 6a. edições feitas pelo Desliens: se elas forem iguais à 5a. de 1872, fica provado que a revisão foi feita por Karec; se elas forem iguais às anteriores (1a2a3a4a de 1868), a suspeita volta sobre o Leymarie.

Bem, aí está o resultado de uma pesquisa histórica orientada por princípios científicos. Qualquer pessoa poderá comprovar ou refutar minhas afirmações acessando todo o material correspondente, hoje disponibilizado em bibliotecas e sites, conforme detalhei ao longo do texto.
Evidentemente, tal pesquisa contraria toda a mitologia estabelecida nas redes sociais sobre o assunto. Mas, isto é porque toda essa boataria foi motivada mais por disposições ideológicas do que pela pesquisa e análise racional dos fatos.
A 5a. edição, definitiva, está, em alguns pontos, melhor redigida que as anteriores. Os itens suprimidos não enfraquecem em nada a posição anti-roustainguista deixada clara por Kardec. Tanto é que Guillon e a FEB obrigaram-se a notas de pé de página defendendo suas posições.

domingo, 11 de julho de 2010

A GÊNESE, OS MILAGRES, AS PREDIÇÕES e as espiritices brasilianas...

Saudades do Herculano... Em meados dos anos 70 a FEESP lançou uma tradução do Evangelho Segundo o Espiritismo substituindo algumas palavras usadas pelo autor francês. Por exemplo, como o termo "odiar" é - oh! - muito forte, mudaram para "amar menos"; e outras infantilidades do mesmo nível. Herculano saiu a campo para denunciar tamanha ousadia dos que se julgam melhores que o autor a ponto de acharem que ele foi infeliz na escolha das palavras de sua obra. Ora, escrever é um ato de escolha. Um autor é ou não bem sucedido justamente em função das palavras que escolhe. Isto é escrever! Como alguém pode se arrogar competência para alterar as escolhas de um autor de sucesso, principalmente alguém que não tem sucesso?
Claro que um tradutor também tem uma ampla área de escolha; mas, sempre balizada pelo autor original.
Agora, trinta e tantos anos depois, me deparo com outra dessas. A Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, lança uma tradução da Gênese "atualizando" Kardec: substituindo "léguas" por "quilômetros"; figuras de linguagem bonitas, como "a velocidade do relâmpago", por "velocidade da luz"; e aí afora. E não é, a velocidade do relâmpago, a mesma velocidade da luz? Além do quê, não era usual, na época de Kardec, medir as distâncias em "anos-luz". O pior é o título do capítulo "Uranografia Geral", nome então em moda e escolhido pelo autor, Camile Flammarion, que o atribuiu a Galileu: virou "Astronomia Geral". O "Caráter da Revelação Espírita" vira "Fundamentos da Revelação Espírita"!
A Gênese de Kardec, por transitar na área científica, é a mais pontual de suas obras, a mais datada; cheia de teorias ultrapassadas a respeito da Lua, de Marte, da geração espontânea; daí que seria impossível "atualizá-la" completamente. Ante isto, em grande parte da obra o tradutor ou revisor opta por notas de rodapé, explicando as desatualizações. Ora, por que não fez logo isso em todos os pontos do livro, evitando cair no crime moral de adulterar um autor morto, de desfigurar sua obra e retirá-la de seu contexto histórico e cultural?
Louve-se, claro, a boa intenção da tradutora e da editora em resgatar o texto comprovadamente kardeciano do livro "A Gênese...". De passagem, informamos que Kardec, em vida, providenciou quatro edições da sua Gênese, todas idênticas, feitas com as mesmas matrizes.
Três anos após sua morte, seu sucessor, Leymarie, lança uma 5ª edição "revista, corrigida, aumentada", com enormes diferenças para com as três primeiras. Henri Sausse denuncia o fato em 1884; assunto que abordo em outro artigo. Mas, mesmo sendo elogiável o ato da editora e tradutora em fazer o devido resgate, isto não lhes dá o direito de adulterar a linguagem do autor a pretexto de "atualizá-la"