segunda-feira, 27 de maio de 2013

PASSEIOS BIBLIOGRÁFICOS: LALANDE, CASTELLAN, HERCULANO...


Quando "O Livro dos Espíritos" completou o centenário do lançamento, Herculano Pires publicou sua tradução com uma digestiva "Introdução", onde aborda, de forma rápida porém abrangente, os variados aspectos da doutrina que nos auxiliam na compreensão de sua identidade.

Em defesa da existência de uma filosofia espírita ele cita Yvone Castellan, no livro "O Espiritismo", editado pela Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1961, como parte da coleção "Saber Atual". Na França o livro foi publicado em 1955, como parte da coleção "Que sais-je?", contendo, da mesma autora, "A Metapsíquica" e "A Parapsicologia". É um livro interessante para o estudioso do Espiritismo e, hoje em dia, pode ser encontrado em sebos, bastando uma busca pelo Google.

Outro livro de que se serve Herculano para justificar uma filosofia espírita -- conforme ele o faz em sua "Introdução à Filosofia Espírita", Paideia, São Paulo, 1983 -- é o "Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia", de André Lalande (o meu exemplar, e provavelmente o de Herculano é da Librairie Felix Alcan, Paris, 1932, de onde retiro as citações. Parece-me, porém, que desde os anos 90 existe em português, onde, portanto, minhas "criminosas" traduções poderão ser conferidas). Herculano diz que Lalande "consigna a filosofia espírita". Será que também o kardecismo?

O livro de Yvone Castellan tem pouco mais de cem páginas onde se discorre de forma recorrente sobre a história do espiritismo, os médiuns, a filosofia com Kardec, os movimentos concorrentes, e o espiritismo ante a ciência, a Igreja, o ocultismo e a medicina. O que Herculano destaca é o fato dela, ao contrário da literatura oficial de filosofia, concordar com a existência de uma filosofia espirita: "O sistema é completo e compreende uma metafísica inteiramente repleta de considerações físicas ou genéticas, e uma moral".

Sobre Lalande, o Vocabulário possui mais de mil páginas e é uma obra bastante conceituada entre os estudantes de filosofia. Vejamos o que ali se diz sobre o assunto:


"ESPIRITISMO - Alemão Spiritismus; Inglês Spiritism, Spiritualism; Italiano Spiritismo. E, claro, Francês Spiritisme.

Doutrina segundo a qual os espíritos dos mortos sobrevivem conservando um corpo material, extremamente tênue (perispírito) e, se bem que ordinariamente invisíveis, podem entrar em comunicação com os vivos graças a certas circunstâncias, notadamente graças à ação dos médiuns.
A esta tese fundamental se agrega todo um conjunto de crenças, que passam por serem reveladas pelos próprios espíritos, e que são expostas dogmaticamente em diversas obras, das quais a mais célebre é: Allan Kardec, (H.Rivail), O Livro dos Espíritos, 1853 (sic).

Radical internacional: Spiritism."



Na palavra "espíritos" há um asterisco remetendo ao verbete correspondente onde, na acepção B, diz: "Princípio da vida e, consequentemente, alma individual... -- Deus, os anjos, os demônios, as almas dos homens desencarnados depois da morte são os espíritos".

No verbete ESPIRITUALISMO o dicionarista volta a falar em Espiritismo quando, na acepção D, faz a distinção entre as duas palavras (o que também é referido por Herculano em uma das vezes que citou Lalande). Vamos ao texto do Vocabulaire:


"D. Impropriamente, por espiritismo. Diz-se, algumas vezes, neste caso, 'novo espiritualismo', 'espiritualismo experimental'. Esta acepção é mais frequente em inglês, onde ela pertence, segundo Jastrow, à linguagem popular. (Baldwin's Dictionary, vº Spiritism, 585 B). No entanto, o artigo da Enciclopédia Britânica consagrado ao espiritismo, e devido a Henry Sidgwick, é intitulado 'Espiritualismo'. -- Immanuel Hermann Fichte escreveu uma obra sobre o espiritismo tendo por título: 'Der neuere Spiritualismus'."


Abrindo um parênteses. No sentido A o dicionarista dá a acepção de espiritualismo como a doutrina que sustenta, do ponto de vista psicológico, que as representações, as operações intelectuais e os atos da vontade não são inteiramente explicáveis pelos fenômenos fisiológicos; e, do ponto de vista ético e sociológico, que há no homem e na sociedade dois sistemas de fins diferentes -- ou, mesmo, em conflito -- sendo que um representa os interesses da natureza animal e outro os interesses da vida propriamente humana. A acepção B é colocada do ponto de vista filosófico, como sendo a doutrina segundo a qual existem duas substâncias distintas por seus atributos: o espírito, tendo por caracteres essenciais o pensamento e a liberdade; e a matéria, cujos caracteres são a extensão e o movimento. No C, ele registra a doutrina de que tudo é espírito, de uma forma mais ou menos platônica. E aqui fecho este parênteses.

Mas a discussão filosófica envolvendo o espiritismo ocorre mesmo nas observações sobre espiritualismo colocadas no rodapé das páginas. O Vocabulaire do Lalande foi construído ao longo de vários anos através de fascículos nas publicações da Société Française de Philosophie, e cada verbete ensejava um debate entre os membros e correspondentes dessa Sociedade. Quando foi editado em livro (a primeira edição foi em 1926), o Vocabulaire incorporou todas essas revisões, correções e observações.

Assim, no rodapé, L. Brunschvicg observa que, primeiro, a questão se a vida depende da matéria ou somente da alma, importante para o desenvolvimento e aplicação do espiritualismo, não é decisiva para o princípio mesmo da doutrina; e, segundo, a conexão de espiritualismo e sociologismo deriva, lhe parece, do novo-espiritualismo que ocupa cada vez mais lugar no pensamento de Comte. Mais diretamente sobre o espiritismo é a sua terceira observação, que coloco na íntegra: "3º Não vejo a menor razão para eliminar o espiritismo como uma das significações próprias do espiritualismo. Você desconsidera, assim, a influência profunda e persistente das crenças e das práticas espiritas nas crenças e nas práticas religiosas, desde as mais distantes ou rudimentares, até as mais recentes. Se os comentadores de W. James não tivessem velado a franca confissão que termina a "Experiência Religiosa", teriam visto que a evolução do novo-espiritualismo de Comte para o neo-fetichismo é semelhante à evolução do neo-espiritualismo de W. James para aquilo que ele chama, creio, supernaturalismo grosseiro". Depois, ele tece várias considerações conciliando as acepções A e B, terminando por dizer: "A verdade é que elas recobrem uma imaginação tão realista, tão material como a noção dos espíritos animais. Com isto se vê aparecer à luz do dia o que a literatura clássica da filosofia tem tanto trabalho em esconder: o parentesco secular do espiritualismo no sentido A e do espiritismo".

Lalande finaliza as notas sobre o termo espiritualismo dizendo que não há como fugir do que foi consagrado pelo uso ou, "se a acharmos imprópria ou equívoca, renunciar a dela nos servirmos", e cita uma decisão determinada neste sentido por Maurice Blondel, em sua "Lettre sur l'Apologétique": "Apenas no Século XVII se encontra este termo (espiritualismo) na linguagem dos teólogos, em um sentido pejorativo, para designar um abuso da espiritualidade e uma falsa mística. Colocado em voga pelo Ecletismo para designar seu dualismo superficial, ele evoca, por uma natural associação de idéias, a lembrança dessa escola, e partilha o descrédito assaz justificado em que ela tombou. É aqui, agora, que, por aventura, esse termo de origem equívoca e de sentido suspeito parece confiscado por alguns dos que comerciam com os "espíritos" e não se contentam mais em serem espíritas, porque talvez o título de espiritualistas seja melhor aceito. Havia se deixado de usar esta palavra até Cousin para designar coisas melhores que aquelas que ele resumia. É tempo de ver que não é senão uma etiqueta de escola".

Bem, fico feliz de constatar que, tal como eu já colocara em um artigo, também os filósofos estabelecem uma relação de descendência entre o espiritualismo de Cousin e o espiritismo.

Podemos, então, concluir com Herculano que, de certa forma, Lalande "consigna" o espiritismo numa discussão filosófica. Porém, o espiritismo kardecista é tratado como um conjunto de crenças expostas dogmaticamente.

Já em nosso país, Jorge Jaime, em sua extensa "História da Filosofia no Brasil", Editora Vozes, em quatro volumes, dedica duas páginas ao Herculano, chamando-o de "o filósofo do espiritismo", o que, indiretamente, confirma o espiritismo como filosofia. Apesar disto, é comum encontrarmos nos diálogos das redes sociais estudantes, bacharéis ou licenciados em filosofia que não engolem o Herculano como filósofo. No entanto, Herculano se enquadra em algumas das acepções de Lalande no verbete "filósofo"; enquanto que o mesmo não se poderia dizer deles:


"FILÓSOFO. ...E - Aquele que se ocupa profissionalmente da filosofia enquanto professor, estudante, etc. Este uso da palavra não é de boa linguagem, a não ser quando implica uma nuance de ironia."

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Alguns apontamentos para posterior desenvolvimento.

Qual a relação entre Abrahão/Moisés e o "Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho"?

Do ponto de vista espírita (que, queiramos ou não, é o nosso ponto de vista sectário) o livro citado é uma obra cheia de erros doutrinários, tendente a gerar e alimentar um misticismo condenado na kardequiana, além de enaltecer nosso demonizado Roustaing.
Porém, de um ponto de vista puramente humano (eu diria antropológico, se não fosse este um termo corporativo), é a obra mais importante já aparecida no Brasil; e, em si, um fato inédito em nossa história cultural. Pois representa a primeira (e, talvez, pelas mudanças culturais dos últimos tempos, permaneça a única) tentativa de construção de uma brasilidade mitológica, tal como o foi a construção de todas as civilizações. Assim, ele equivale, numa perspectiva histórica e cultural, à Iliada para os gregos,  à Eneida para os romanos,  aos Lusíadas para os lusitanos e, ao Velho Testamento em relação ao povo judeu. É o mito de origem do Brasil. E, como todos os mitos de origem, insere nossa civilização nas intenções e planos de Deus. Aliás, isto até sugere que tenhamos uma civilização. Será que temos?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Algumas rápidas e iniciais considerações sobre as “Reflexões sobre a Ciência Espírita” feitas por A.Xavier.

https://docs.google.com/file/d/0BwP5l2F8N4s3RnBKaW9idHl4RVE/edit?pli=1


Logo de início o autor parece abdicar da possibilidade de uma “ciência espírita” ao exigir a aceitação da existência do Espirito como um “princípio”, dada a inexistência de evidências “diretas” desse novo elemento. A seguir afirma que Kardec se antecipa várias décadas às considerações epistêmicas de seus contemporâneos apenas por dizer que “a ciência é incompetente para tratar do espiritismo”; sem dúvida nenhuma, uma afirmação dogmática, fundamentada apenas no fato de que os cientistas da época queriam reduzir todos os fenomenos a interações dos átomos e princípios elementares da matéria. E, não é exclusivamente neste campo que encontramos as consequencias do fenômeno mediúnico, portanto onde apenas poderemos lidar com ele?
É verdade que o Euclides chegou no barzinho do cais em Alexandria com uma série de “princípios” e disse aos amigos que aceitassem aquilo como verdade axiomática e sobre eles poderiam construir uma ciência. Mas, construíram efetivamente uma ciência que resolveu os problemas geométricos que os homens suscitavam. O “método kardecista” não consegue resolver em definitivo uma coisa tão simples como a existência de colônias no plano espiritual.
Veja o caso dos ovnis e das civilizações extra-terrestres. A ciência “propriamente dita” (para me valer de uma expressão kardeciana), considera que é possível existirem civilizações extra-terrestres. E, em cima deste princípio – que é, na verdade, uma possibilidade – saem procurando as tais civilizações. Você pode efetivamente fundar uma ciência sobre isto. Agora, veja uma outra consideração: existem civilizações extra-terrestres. Em cima deste novo princípio você só pode construir uma ciência hipotética, daquelas que costumam chamar arrogantemente de pseudociência. O primeiro princípio ("é possível que existam") gerou a exobiologia e sei lá que outras ciências. O segundo princípio ("claro que existem") gerou a ufologia. Eu penso que seja mais ou menos essa a diferença que se formou, no início do século XX, entre metapsíquica e espiritismo. De qualquer forma, em termos epistêmicos atualmente disseminados no meio acadêmico, estas duas últimas podem ser encaradas como protociências, que poderão quiçá um dia se tornarem ciências.
Enfim, tanto espiritismo como ufologia exigem crenças; partem de uma certeza; não são buscas, são o estudo de coisas já encontradas. Daí, permanecem válidas para aqueles que viram tais coisas; quem ainda não viu, fica de fora. Como não conseguem fazer ver à maioria dos cientistas, permanecem, na maior concessão, como protociências.

Mais adiante vai aparecer a constatação (desde Kardec) que o método (CUEE) só se aplica aos princípios, não a coisas secundárias. Então, torna-se necessária uma relação exata daquilo que seja princípio, na Doutrina Espírita, e daquilo que seja secundário; penso que esta demanda ainda não foi atendida. E isto tem permitido uma saída pelos fundos: quando se demonstra que a aplicação do método falhou em algum ponto, imediatamente os “cientistas/crentes” retrucam que aquilo não era Doutrina Espírita, eram coisas secundárias. O “ensino” dos espíritos de que a sociedade não pode dar à mulher profissões “rudes”, pois que ela tem que cuidar do “interior”, não é Doutrina; o “ensino” de que a espécie humana surgiu em lugares e épocas diferentes, em “fornadas”, também não é Doutrina. E assim vai, lembrando bem o caso do “dragão na garagem” do Sagan. Então, qualquer discussão sobre a validade do método, ou sobre a atualidade dos princípios espíritas, exige, antes, a definição exata desses princípios.

Voltaremos ao assunto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

ATUALIZAÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA


Um título como este causa apreensão em muitos espíritas. Pura bobagem.

As atualização e a incorporação de contribuições, sejam ou não de ateus e materialistas, já ocorre, à revelia de quem as crê inconvenientes. Hoje em dia não há espírita que defenda que a mulher deve cuidar do interior e o homem do exterior, ou que os trabalhos rudes são para os homens e os leves para as mulheres, como pregam os instrutores no Livro dos Espíritos. Homens e mulheres trabalham onde querem e possam, ao mesmo tempo que ambos devem se comprometer tanto com o exterior como com o interior.

Também, nenhum espírita com um minimo de conhecimento de biologia vai acreditar que a espécie humana surgiu em diversos pontos do globo e em várias fornadas, como, também aqui, afirmam os mesmos instrutores na mesma obra. Nem mesmo vão achar louco quem tenta conhecer a idade da Terra e a época do aparecimento da espécie humana, como, ainda, afirmam os Espíritos.

Enfim, como podemos ver, a Doutrina Espírita se atualiza. A diferença ocorre apenas no posicionamento frente a isto. Alguns preferem a racionalização, a exegese, que nos leva a ficar procurando subterfúgios -- quando não sofismas -- para continuar acreditando que os espíritos disseram o que diz a ciência de hoje, é "só questão de interpretarmos". Outros, observam o contexto histórico em que a Codificação se deu, reconhecem as limitações de médiuns, espíritos e filósofos, e remetem à história o que lhe é devido, seguindo adiante com o progresso do conhecimento humano.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DO ESPIRITISMO, FORA DOS CATECISMOS.

Comecemos pelo neologismo espiritismo. Segundo a primeira edição do Houaiss vem do francês spiritisme (1857), que por sua vez vem do inglês spiritism (1856). Pesquisas recentes recuam sua utilização em livros e revistas de língua inglesa de 1853 e 1854. A trajetória do neologismo indica o caminho da idéia: o espiritismo é um movimento que surgiu nos Estados Unidos da América sob os nomes de new-spiritualism e spiritism (o primeiro acabou por adquirir predominância), foi trazido pelos seus entusiastas para a Inglaterra, onde se disseminou sob o nome de spiritualism, e, logo a seguir, para a Europa Continental, onde atingiu várias camadas da sociedade sob os nomes franceses de spiritualisme e spiritisme (este último adquiriu predominância no continente). Na França o movimento encontrou-se com a filosofia. Havia uma certa disponibilidade de filósofos ociosos provocada pela ditadura de Luís Napoleão Bonaparte. Aliaram-se os órfãos do até então "ditador filósofo", o espiritualista e eclético Victor Cousin, com alguns socialistas utópicos impedidos em suas tertúlias políticas, e passaram a interrogar os espíritos de forma mais consistente. O escritor Victorien Sardou juntou toda a produção resultante desses diálogos e solicitou ao Professor Rivail, talvez o mais sério e maduro do grupo, que a pusesse em ordem. Rivail construiu com o material toda uma metafísica, ainda que no estilo literário do diálogo com a manifesta intenção de fugir ao espírito de sistema, e a publicou sob o título de "O Livro dos Espíritos", tendo como subtítulo "Filosofia Espiritualista" -- o que denuncia a influência eclética do Cousin. Reinvindicou para esse corpo doutrinário o nome de spiritisme, identificou os espiritos dialogantes como grandes nomes do passado -- São João, São Luís, Santo Agostinho, Sócrates, Platão, Lammenais, etc. --, e ultrapassou a vã filosofia enveredando para o terreno tipicamente religioso, declarando que tais espíritos tinham sido enviados pelo próprio Deus para inaugurar uma nova era para a humanidade, inserindo-o na sequencia das revelações ocidentais: o judaísmo, o cristianismo e, agora, o espiritismo -- como se fora o primeiro, o segundo e, agora, o terceiro testamento. Iniciou dessa forma o grande movimento do espiritismo filosófico; ou, espiritismo moral, segundo Sudre; ou, espiritismo religioso, segundo Flammarion, Aksakof, Richet, e outros; ou, simplesmente, espiritismo kardecista, segundo Sausse, Leymarie, e todos os citados anteriormente -- e todo mundo. Este Espiritismo sobreviveu aos demais. Os demais foram: o espiritismo científico, representado por Aksakof, Flammarion, Delanne, Bozzano, Lombroso e Geley, desaparecido com a morte deste último; o espiritismo místico do Roustaing; e o espiritismo envergonhado que se chamou de "pesquisa psíquica", "metapsíquica" e "parapsicologia", de Crookes, Richet, Rhine e outros. Hoje em dia, graças à democracia, à crescente liberdade individual e à ausência de qualquer direito autoral sobre o nome, existem, ao lado do espiritismo kardecista, uma série de espiritismo à moda da casa ou do sujeito. Fim.
Fontes: "A Mesa, o Livro e os Espíritos", de Aubrèe e Laplantine; "Revista Espírita", de Kardec; "Memórias Biográficas e Filosóficas de um Astrônomo", Flammarion; "História da Filosofia", de Padovani e Castagnoli; mais pesquisas citadas neste mesmo blog, sob o título "Da-auto-geracao-de-mitos-ou-da-geracao de auto-mitos, etc." sendo imprescindível não ignorar o comentário corretivo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

SOBRE O DIÁLOGO COM OS ANTI-RELIGIOSOS II

Mais algumas considerações que me surgiram nas conversas facebookeanas. A coisa é tão simples e tão fácil de compreender. Vamos nos abstrair, por alguns momentos, de toda esta discussão falaciosa, cheia de piadinhas desconectadas e de respostas de efeito plagiadas dos gurus orientais. Vamos a um acontecimento recente, conhecido de todos, para entender as diferenças entre a ciência e o espiritismo pretendido pelos ortodoxos kardecianos. Todos conhecem a NASA. Uma instituição respeitadíssima nos meios acadêmicos, industriais e tecnológicos de todo o mundo, responsável pelos inúmeros avanços da comodidade moderna, conseguidos como sub-produtos de sua exitosa corrida espacial que na semana passada conquistou mais uma vitória colocando um novo equipamento de pesquisa no solo marciano. Pois bem, em dezembro do ano passado a NASA manifestou-se em canais de comunicação que cobriam todo o mundo -- e conseguiu a atenção de todo o mundo --, para comunicar que descobrira uma nova forma de vida num lago americano, vida essa que incorporara em seu DNA o arsênio em lugar do fósforo. Apesar de toda a autoridade conquistada no trabalho árduo anterior, não posaram -- e nem seriam aceitas se tal -- como reveladores cujos conteúdos deveriam ser incontinenti incorporados aos anais doutrinários da ciência. Não. Expuseram ao vivo a síntese do trabalho, e, numa publicação científica -- Science -- detalharam a metodologia empregada, as fundamentações, os testes, os resultados, etc. Imediatamente, vários outros laboratórios e centros de pesquisas puseram-se a reproduzir seus experimentos, a fazer a necessária análise e crítica ao método, a, enfim, tentar confirmar ou refutar os resultados. Dois centros de pesquisas, dois estudos independentes, puseram por terra as afirmações dos eminentes cientistas da NASA, demonstrando exatamente onde estava o erro: a presença mínima de fósforo, tão mínima que desprezada pelos cientistas, era suficiente para manter a forma de vida e sua resistência ao arsênio, tornando-a um extremófilo. Bem, vamos ao espiritismo ortodoxo kardeciano. Seus adeptos (como afirmam categoricamente se tratar de uma ciência, poderíamos dizer: seus "cientistas"), afirmam com ares de certeza que os conteúdos filosóficos e morais de sua doutrina foram transmitidos a Kardec -- rebaixado à condição de simples secretário -- pelos Espíritos Superiores comandados pelo Espírito de Verdade. Quais as fundamentações epistemológicas, a metodologia empregada, os testes, etc., para chegar-se a este resultado? Ah, o Controle Universal do Ensino dos Espíritos! Pulando certas verdades inconvenientes, como o fato de que ciência não se faz de "ensino" e, sim de pesquisa -- a educação é que se faz de "ensino", mas o educador, como dizia o próprio Kardec, é um "revelador secundário", e a ciência é feita pelo "revelador de ponta" -- , ou, ainda, o fato de que um princípio não se torna verdadeiro por eleição ou plebiscito, vamos, por obséquio, aos detalhes da metodologia. É mister uma crítica ao método, a fim de superar suas falhas. Como reproduzimos os experimentos, para verificarmos os resultados? Quais os passos necessários? Foram seguidos? Por quem? Ah, por Kardec. Ele disse que fez assim, que tinha mil centros e coisa e tal, e Kardec é um homem honrado, a sociedade espírita de Paris é respeitável, merecem credibilidade. (Alguém aqui duvida da respeitabilidade da NASA e da honradez das meninas que fizeram o experimento?). Bem, então, por mais honrado que ele seja, suas alegações no Item II da Introdução do ESE não podem ser tomadas como conhecimento científico, uma vez que não há a menor demonstração do método utilizado. Vamos, então, tentar reproduzí-lo? Hoje é difícil, diriam, os médiuns são todos religiosos, têm idéias divergentes, muita liberdade. Será que Kardec os tinha totalmente homogeneizados numa unanimidade nelsonrodrigueana? Não, é que os planos de Deus previam a revelação ali, naquele momento, por isso as condições foram divinamente reunidas; a nós, pobres pósteros, resta o consolo de aceitarmos, acreditarmos, estudarmos humildemente as obviedades ditadas pelos espíritos superiores, e, com isso, "evoluirmos" -- seja lá o que isto signifique. Igualzinho ao caso do Moisés, a quem Deus concedeu apenas duas audiências, e a partir daí a humanidade é que engolisse e praticasse religiosamente suas leis machistas e capitalistas. Ufa! Precisa escrever mais para discorrer sobre as diferenças práticas entre ciência e religião; entre espiritismo e ciência?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

SOBRE O DIÁLOGO COM OS "ANTI-RELIGIOSOS"

Eu peço perdão se minha argumentação inadvertidamente ofende alguém. Mas, minha intenção é apenas demonstrar a alguns nossos irmãos de humanidade o quanto são religiosos sem o saberem. A diferença entre certos espíritas que se consideram laicos e aqueles outros que se assumem religiosos é a mesma diferença existente entre o luteranismo e a igreja católica. Lutero deu uma limpada no cristianismo da igreja católica, excessivamente influenciado por elementos paganistas, mas continuou defendendo as mesmas crenças básicas. Certos espíritas que arremetem, às vezes até colericamente, contra o movimento espírita, apenas o limpam de um excesso de práticas místicas acrescentadas ao longo do tempo, mas continuam defendendo religiosamente certas crenças básicas, como a missão divina do espiritismo e a eficácia de um controle de "ensinos" do qual nem mesmo a aplicação foi demonstrada historicamente. E reagem a qualquer tentativa de questionamento ou falseamento, tanto quanto o reagem os religiosos. A única diferença entre os seguidores da reforma protestantes e certos espíritas auto-denominados "não religiosos", é que o reformador daqueles não afirmou que estava fazendo uma "ciência". Na verdade, quem teima em manter o espiritismo como uma religião, são os que se aferram a uma "Codificação" transformada em cânone sagrado: inquestionável e irrefutável. É possível transformar o espiritismo em ciência. Mas, prá isto seria necessário entender a contribuição de Kardec como importante, porém cheia de falhas e anacronismos que precisam ser substituídos pela livre e descontraída discussão, tanto quanto pela pesquisa e refutação. O Espiritismo baseado em crenças, tal como professado pelos ortodoxos religiosos ou ortodoxos laicos, é religião. "Duela a quin duela", como disse certo presidente. E Kardec identificou isto claramente quando relacionou as crenças espíritas no famoso discurso da RE-dez-1868, finalizado com a afirmação categórica, porque expressão da realidade: "eis o Credo, a religião do Espiritismo". Esta é a mais pura e cristalina realidade que qualquer inteligência mediana retira da kardequiana ou publicações posteriores e que nenhum discurso eivado de insinuações sobre a ignorância doutrinária do interlocutor, ou ancha de piadinhas cuja relação com o texto é difícil estabelecer, irá obscurecer. Agora, saindo do terreno das crenças dogmáticas, colocando-se Kardec e os Espíritos Superiores no seu devido lugar -- apenas uma escola da filosofia espírita --, e ampliando-se a abrangência do espiritismo para outras contribuições, teorias, pesquisas e experimentações, teremos conseguido guindá-lo à condição de ciência ou filosofia. Não sou contra ou a favor deste ou daquele; apenas constato a realidade. É preciso ter consciência das coisas. O Espiritismo entendido e praticado como religião encontra respaldo na própria kardequiana; já demonstrei isto à exaustão. Por isso, as pessoas que assim o praticam têm o direito de serem respeitadas em suas louváveis e consequentes crenças. Os que o querem "puramente" filosófico e científico, laico e sem crenças, que saibam vivenciarem-no assim.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MAIS UMA OBSERVAÇÃO À EPISTEMOLOGIA ESPÍRITA

Veja este trecho de Kardec, na Gênese, no capitulo "Caráter da Revelação Espírita", onde ele trata das formas de aquisição e acumulação do conhecimento espírita, o que, em termos técnicos, seria a epistemologia:
"Em filosofia, em psicologia, em moral e em religião, só é verdadeiro o que não se afaste, nem um iota, das qualidades essenciais da Divindade". Kardec, G,II,19.

Mais adiante, no capítulo III do mesmo livro, quando ele discute sobre o instinto,apresenta várias hipóteses e, depois, diz com muita propriedade:
"Todas essas maneiras de encarar o instinto são necessariamente hipotéticas e nenhuma tem uma característica suficiente de autenticidade para ser tida como a solução definitiva. A questão, por certo, será resolvida, um dia, quando estiverem reunidos os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, é preciso nos limitarmos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça."

Científico? Então vejamos como ele finaliza:
"A solução que mais se aproxima da verdade será, com certeza, a que melhor corresponda aos atributos de Deus, isto é, à soberana bondade e à soberana justiça". Kardec, G,III,17.

Talvez resida em coisas assim a rejeição de muitos acadêmicos ao espiritismo: o medo de que, pela generalização do kardecismo, toda a ciência e a filosofia se vejam obrigadas a subordinar-se a princípios como estes. A ciência -- ou o que a ela se assemelhava na época --, já esteve subordinada à religião, à fé, à crença em coisas reveladas estabelecidas como verdades incontestáveis. E o saldo foi de atrasos e dores. Quando a ciência conseguiu o direito a ser laica, cética e irreverente, permitiu ao homem acesso a conhecimentos importantes na física, química, astronomia, saúde, etc. Agora, aparece uma revelaçao que, dizendo-se ciência, ameaça subordinar a pesquisa a premissas sobre atributos de uma divindade que nem todos aceitam.
Não me estranha que, dez meses após ter publicado isto, Kardec baixou a bola e reconheceu que o espiritismo é "religião em certo sentido".

quinta-feira, 31 de maio de 2012

LINHA DO TEMPO ESCLARECE EDIÇÕES DA "GÊNESE"

(Texto revisado da postagem de 14.7.2010, com o título "A Gênese, os Milagres e as Predições, e as espiritices brasilianas II).
("Revista, corrigida e aumentada").


Ante a polêmica a respeito das alterações feitas na Gênese de Kardec (as autorizadas, do autor, e as desautorizadas, dos que querem "atualizá-lo"; vejam postagem de 11.7.2010)), tentei elaborar uma LINHA DO TEMPO, que aqui disponibilizo para que completem, corrijam, critiquem ou desprezem...

06.01.1868 - Lançamento do livro A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, pela Librairie Internationale - A. Lacroix, Verboeckhoven et Co. Editeurs. Segundo Desliens - secretário de Kardec, médium da Sociedade Espírita de Paris e, posteriormente, membro da Comissão Central que sucedeu o fundador -, o contrato inicial previa uma tiragem com três edições; as fôrmas de impressão seriam de propriedade de Kardec. (Revista Espírita, jan/1868; mar/1885). OBS.: A Rouge Frères, Dunon et Fresné, citada por alguns articulista como "editores" é, na verdade, a tipografia onde foram impressas as quatro edições de 1868, da Librairie Internationale, bem como, a quinta edição de 1872, já então da Librairie Spirite.

xx.02.1868 - Kardec determina uma tiragem em brochura à parte do capítulo Caracteres da Revelação Espírita. (Revista Espírita, fev/1868).

xx.02.1868 - Kardec inicia a tiragem da segunda edição. (Revista Espírita, fev/1868).

22.02.1868 - Os espíritos apoiam Kardec na intenção de promover alterações na Gênese e o alertam para que conte com o esgotamento rápido dos volumes. (Obras Póstumas, publicação de fac-símile do próprio manuscrito de Karddec no suplemento de final de ano da Revue Spirite de 2018 e, Adair Ribeiro no Facebook).

04.07.1868 - Os guias de Kardec o incitam a apressar o trabalho de remodelação da Gênese: "Acréscimos em diversos pontos (...) e condensação aqui e ali para não tornar mais extenso o volume". E, ante a possibilidade do esgotamento das edições no mercado, dizem: "Não perca tempo: é preferível que os volumes esperem pelo público, do que este por eles". (Obras Póstumas)

xx.07.1868 - Artigo na Revue sobre a "Geração Espontânea e a Gênese".

xx.09.1868 - Correspondência na Revue sobre o capítulo "Aumento e diminuição do volume da Terra" e publicaçao do texto "A alma da Terra", que Kardec incluiria na revisão da obra, e sairia apenas na 5a. edição.

25.09.1868 - Rascunho de carta escrito de próprio punho por Kardec, encontrado no acervo de Canuto de Abreu, dirigida a um intermediário nas traduções para o alemão, onde ele diz claramente que revisou a Gênese e a obra se encontra em fase de impressão.
(https://espirito.org.br/material/nem-ceu-nem-inferno-carta-para-intermediario-da-traducao-de-ag-para-o-alemao/)

xx.10.1868 - Última alusão na Revue à Librairie Internationale, por ocasião do lançamento da brochura contendo a correspondência de Lavater.

xx.xx.1868 - Antes que o ano termine a Librairie Internationale, de A.Lacroix, Verboeckhoven et Co.Editeurs, teria ido à falência! (Revista Espírita, mar/1885).

xx.02.1869 - O tipógrafo Rouge Frères solicita, junto ao órgão competente, em nome de Kardec, autorização para a impressão de 2.000 exemplares da Gênese.

31.03.1869 - Kardec planeja entregar os encargos do movimento espírita a uma Comissão Central e dedicar-se apenas a atividades intelectuais em sua residência na Avenue et Villa Ségur, 39, atrás dos Inválidos. Cria a Librairie Spirite, que passará a publicar e distribuir a Revue e suas demais obras, na rue de Lille, 7. O Sr. Bittard, antigo funcionário da  Librairie Internationale é indicado para ser o gerente. A Sociedade Espírita de Paris também se transfere provisoriamente para o mesmo endereço. Tudo isso é planejado por Kardec para ter início em 01.04.1869.
Em meio à mudança de coisas para sua casa na Avenue et Villa Ségur e coisas para a rue de Lille, no já quase deserto escritório da Passage Saint'Anne, em 31 de março, Kardec morre! A Sra. Allan Kardec, única proprietária legal de suas obras e da Revue, após uma tentativa frustrada de convencer Camille Flammarion a sucedê-lo, decide:

"Primeiro: Doar anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros provenientes da venda dos livros espíritas e das assinaturas da Revue, isto é, das operações da Livraria Espírita; mas com a condição expressa de que ninguém, a título de membro da Comissão Central ou outro, tenha o direito de imiscuir-se neste negócio industrial, e que os recebimentos, sejam quais forem, sejam recolhidos sem observação, desde que ela pretende tudo gerir pessoalmente, determinar a reimpressão das obras, as publicações novas, regular a seu critério os emolumentos de seus empregados, o aluguel, as despesas futuras, numa palavra, todos os gastos gerais;
Segundo: A Revue está aberta à publicação dos artigos que a Comissão Central julgar úteis à causa do Espiritismo, mas com a condição expressa de serem previamente sancionados pela proprietária e a Comissão de Redação, o mesmo se dando com todas as publicações, sejam quais forem;
Terceiro: A Caixa Geral do Espiritismo é confiada a um tesoureiro, encarregado da gerência dos fundos, sob a supervisão da Comissão Diretora. Até que seja o caso de usá-los, esses fundos serão empregados na aquisição de propriedades imobiliárias para enfrentar todas as eventualidades. Anualmente o tesoureiro fará uma detalhada prestação de contas da situação da Caixa, que será publicada na Revue."
.
Por incrível que pareça, ela "foi objeto de felicitações unânimes".
(Revista Espírita, 1868/1869; Obras Póstumas).

01.06.1869 - A quarta edição de "O Céu e Inferno" e a edição atualizada de "Caracteres da Revelação Espírita", COM O MESMO TEXTO DA EDIÇÃO REVISADA DA GÊNESE, estão à venda na Livraria Espírita, tudo publicado por Amélie Boudet. (https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/photos/a.289399475157175/1176215856475528)

xx.08.1869 - A Revista Espírita de Agosto de 1869 noticia que a Madame Allan Kardec, no desejo de continuar a obra moralizadora à qual ela e seu esposo têm dedicado os últimos anos, resolve assumir a tarefa da continuidade do trabalho, incluindo a publicação das obras fundamentais e póstumas de Kardec, pelo tempo que lhe resta de vida, promovendo os planos deixados por ele, pois ela, mais que qualquer outro, possui os elementos indispensáveis para determinar solidamente as bases constitutivas.  Assim, após superar as numerosas formalidades decorrentes da sucessão e estudando cuidadosamente o espírito de tais planos, resolve, com o concurso de outros seis espíritas, constituir a Sociedade Anônima de Ações de Interesse e Capital Variável da Caixa Central do Espiritismo, conforme o preconizara Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1868. Segundo Berthe Froppo, em seu opúsculo "Muita Luz", "a Sociedade anônima fundada pela Sra. Allan Kardec tem por objetivo tornar conhecido o espiritismo por todos os meios autorizados pelas leis.   Ela tem por base a continuação da Revista Espírita fundada por Allan Kardec, a publicação das obras deste, incluindo suas obras póstumas e todas as obras que tratam do espiritismo".(Revista Espírita, agosto, 1869; Berthe Froppo em "Muita Luz")).

xx.07.1870 - Descliens anuncia na Revista Espírita que a Livraria Espírita recebeu em depósito um certo número de exemplares dos Quatro Evangelhos, do Roustaing, obra provavelmente esgotada, e os coloca à disposição dos assinantes interessados, mediante o pagamento de "10 fr.50", à ordem de M. Bittard.


19.07.1870 - Desaba o teto! Estoura a Guerra Franco-Prussiana que dura até maio de 1871, destruindo o Segundo Império, precipitando a França num caos social e político, suscitando a Terceira República, terminando na Comuna de Paris, primeiro governo operário da história cujas lutas praticamente incendiaram a cidade.  Os alemães vencedores só deixariam definitivamente a França em 1873 após o pagamento de pesadas "dívidas de guerra".  O período de ocupação alemã foi bastante sofrível para os franceses, em todas as áreas, mas particularmente no campo editorial, tanto devido à censura, quanto devido ao altíssimo custo provocado pelos pesados impostos destinados às reparações de guerra.

01.06.1871 - Segundo informação de Desliens, esta é a data limite em que a Sociedade, a Revista e as impressões das obras de Kardec estiveram diretamente a cargo de Bittard, Tailleur e Desliens. (Revista Espírita, 1885).  Presume-se que só a partir desta data Leymarie tenha assumido efetivamente tal mister. Algumas informações dão conta que Leymarie teria assumido o movimento espírita ainda em 1870.  Porém, esta informação do Desliens é bastante plausível  se considerarmos que Leymarie, em seu ativismo político, era partidário da república de Thiers, o que tornava Paris um local perigoso a ele durante toda a guerra e, principalmente, durante a Comuna que só terminou em 28.05.1871.    

xx.12.1872 - Lançamento da segunda impressão da QUINTA EDIÇÃO da Gênese, agora pela Librairie Spirite (conforme se pode verificar por noticie bibliographique da Bibliothèque Nationale de France). A BNF mantém esta edição em seu acervo com a identificação: FRBNF30010935.
A quarta edição tinha sido, ainda, publicada pela Librairie Internationale.
Aliás, hoje em dia, pela internet, pode-se encontrar o original de todas essas edições (1a2a3a4a5a) em várias bibliotecas francesas, assim como disponibilizadas em sites brasileiros.
Considerando que não há nenhuma correspondência de Amelie Boudet ou ata que modifique suas disposições contantes na Ata de 01.04.1869 (confirmadas na Revue de agosto do mesmo ano) de "tudo gerir pessoalmente e determinar a reimpressão das obras e publicações novas" podemos supor que a publicação desta quinta edição contou com sua participação.  A Convenção de Berna, em seu artigo 6-bis, onde estabelece o direito do autor à paternidade e integridade de sua obra mesmo após sua morte, diz que tais direitos serão exercidos pelas pessoas ou instituições às quais a legislação nacional do país em que a proteção é reclamada dá legitimidade.  No caso da França, são seus testamenteiros, quando houver e, quando não houver,  seus herdeiros legais.  Portanto estavam, a Amelie, tanto quanto a Comissão Central, perfeitamente legitimados para publicarem quaisquer textos ou revisões que Kardec tenha deixado no baú.

xx.xx.1873 - Neste ano Leymarie se encontra pela primeira vez com Helena Blavatsky.  Podemos presumir, portanto, que sua aparente adesão (ou, ao menos, simpatia) à Teosofia deu-se após este ano e, não antes da publicação da Gênese revisada.

xx.xx.1875 - Neste ano ocorreu o famoso "Processo dos Espíritas", fartamente contado e documentado em vários livros e artigos, que levou Leymarie à prisão e submeteu Amelie Boudet a terríveis humilhações, o que tem sido atribuído por alguns articulistas espíritas como causa de uma certa senilidade precoce que teria permitido ao Leymarie apropriar-se do espólio de Kardec.

xx.xx.1876 - Publicação do "Catalogue Général de la Librairie Française" de Otto Lorenz, Tomo I, 1866-1875, que registra a publicação da 5a. edição da Gênese em 1873.

xx.xx.1883 - Segundo Desliens, fundição dos clichês da Gênese. (Revista Espírita, 1885).

xx.12.1884 - Henri Sausse, espírita, polemista, biógrafo de Kardec e iniciador da utilização midiática da expressão "espiritismo kardecista", após comparar o texto das edições da Librairie Internationale com o texto da edição da Libraire Spirite, acusa Leymarie de ter feito alterações na Gênese, gerando ruidosa celeuma no meio espírita. (Sites brasileiros, encontrados pelo Google; jornal Le Spiritisme, de Gabriel Delanne, dezembro 1884; O Legado de Kardec, de Pivato).

15.03.1885 - Desliens, que estava afastado do movimento espírita desde 1871, escreve uma carta à Sociedade com a intenção de defender Leymarie.  Analisada historicamente, esta carta consegue mais confundir do que explicar, tendo em vista suas contradições.
Segundo ele, Kardec contratou com a Librairie Internationale as três primeiras edições, e, ainda em 1868, autorizou a 4a, 5a. e 6a. E que as matrizes destas três últimas serviram para as edições de 1869 a 187l (período em que ele esteve à frente do negócio) "e em diante". E sugere que Kardec tenha feito as alterações objeto da celeuma nestas placas, uma vez que eram fôrmas de letras soltas. Diz ainda que a última edição de 1868 era idêntica à primeira. (Revista Espírita, 1885).  Esta última afirmação de Desliens pode, hoje, ser comprovada por qualquer pessoa que se disponha a cotejar as edições de 1868. Porém, nunca foram encontradas as tais "5a. e 6a," edições que teriam sido feitas sob sua gerência. Aliás, não se encontrou nenhuma edição feita entre 1869 e 1871.
Quanto à possibilidade de Kardec ter feito as alterações nas próprias placas "de letras soltas" pode ser descartada pois a comparação tipografica das quatro primeiras edições com a edição de 1872 (mesmo se feita precariamente pelas imagens) indica que  foram feitas a partir de matrizes diferentes.


xx.xx.1911 - Guillon Ribeiro torna-se espírita, vindo a ocupar a presidência da FEB e a produzir inúmeras traduções, incluindo a Gênese de Kardec, que ele diz ter traduzido a partir do original da QUINTA EDIÇÃO. (Sites brasileiros, encontrados via Google).
É evidente que a tradução de Guillon Ribeiro foi feita após 1911; portanto, no mínimo, 27 anos após as denúncias de Henri Sausse, 38 anos após a publicação da edição que lhe serviu de base, e 41 anos após as alterações objeto das denúncias.

xx.xx.1914: Sausse usa AG5 em artigo na Revista Espírita, 30 anos depois da denúncia. (Revista Espírita)

xx.xx.1925: Sausse se redime no Congresso Espírita dizendo que A Gênese revisada traduz o último pensamento do mestre. (Revista Espírita)

Século XXI - Carlos Brito Imbassahy, espírita brasileiro, refaz, cento e tantos anos depois, o caminho de Henri Sausse: compara o texto da terceira edição francesa da Gênese, de 1868 (da qual afirma possuir um exemplar), com a atual edição brasileira da FEB; constata as diferenças e acusa, inexplicavelmente, o tradutor brasileiro, Guillon Ribeiro, de ter feito as alterações. (Sites e blogs brasileiros, encontrados via Google).

xx.xx.2007 - A empresa Léon Denis Gráfica e Editora, do Rio, publica uma tradução da Gênese, de Albertina Escudeiro Sêco, afirmando ser baseada na QUARTA EDIÇÂO, de 1868, ainda da Librairie Internationale, da qual exibe fac-simile apenas da folha de rosto. Ousadamente, perpetra uma série de alterações no texto de Kardec, a pretexto de "atualizá-lo". (A Gênese, Léon Denis Gráfica e Editora).

xx.xx.2010 - Este blogueiro, em pareceria com o historiador Felipe Gonçalves, trava debate com Imbassahy no grupo "Espiritismo - Estudos Avançados", do Facebook, e empreende intensa pesquisa, que resultou na primeira publicação desta postagem.

xx.xx.2012 - Este blogueiro faz um cotejo completo entre as duas versões da Gênese, em francês e portuguÊs, e o disponibiliza na internet sob o título "A GÊNESE - ATÉ QUE PONTO - DE KARDEC".

xx.xx.2018 - Publicação do livro "O Legado de Kardec", de Simoni Privato Goidanisch, seguido de uma intensa campanha em vídeos, teasers e seminários, com a participação de escritores e palestrantes espíritas, visando convencer o público que  Leymarie alterou a Gênese de Kardec na quinta edição francesa da obra.  O movimento culminou com a edição em livro da tradução  de Carlos B. Imbassahy, com inúmeras alterações em relação à versão antes disponibilizada na internet além de adulterações em relação ao original francês.

26.02.2020 - O pesquisador brasileiro Carlos Seth Bastos localiza um exemplar da 5a. Edição da Genese, "revue, corrigée et augmentée", na Biblioteca da Universidade de Neuchâtel, Suiça, datada de 1869, em sintonia, portanto, com a Declaração de Impressão de fevereiro de 1869.  Esta descoberta coloca a última pá de cal sobre o esquife da teoria conspiratória iniciada com a publicação do livro "O Legado de Kardec".


Assim, temos atualmente duas versões da Gênese disponíveis no mercado editorial brasileiro. Uma, baseada na versão francesa fixada desde a quinta edição, publicada inicialmente em 1869 e com reimpressão em 1872 (quando então os impressores concluíram os trâmites burocráticos franceses com o depósito legal na BNF),  traduzida por Guillon Ribeiro,  Julio Abreu Filho,  Salvador Gentille, e outros. Outra, baseada na versão primitiva de 1868, traduzida e alterada por Albertina Escudeiro Sêco.  Além dessas, existe a tradução de Carlos Brito Imbassahy, baseada, segundo ele, na terceira edição, de 1868, e disponibilizada gratuitamente na internet (a partir de 2018 também em livro, conforme citado acima).


Bem, aí está o resultado de uma pesquisa histórica orientada por princípios científicos. Qualquer pessoa poderá comprovar ou refutar minhas afirmações acessando todo o material correspondente, hoje disponibilizado em bibliotecas e sites, conforme detalhei ao longo do texto.
Evidentemente, tal pesquisa contraria toda a mitologia estabelecida nas redes sociais sobre o assunto. Mas, isto é porque toda essa boataria foi motivada mais por disposições ideológicas do que pela pesquisa e análise racional dos fatos.
A 5a. edição, definitiva, está, em alguns pontos, muito melhor redigida que as anteriores. Algumas revisões foram, sem dúvida, para melhor. Outras podem ser acusadas de não estarem à altura de Kardec. Os trechos suprimidos no Capítulo XV não enfraquecem em nada a posição anti-roustainguista deixada clara por Kardec no item anterior. Tanto é que Guillon e a FEB obrigaram-se a notas de pé de página defendendo suas posições. Neste ponto, a revisão de Kardec atende ao princípio de que "não há nada menos convincente do que insistir ou exagerar um bom argumento".

sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS SEITAS

Não é fácil definirmos uma seita.
Respeitáveis religiões constituídas, associadas a governos ou a impérios universitários, foram, em sua origem, seitas.
No final do milênio, quando algumas dessas coisas assustaram o mundo com pactos suicidas e loucuras do gênero, houve uma mobilização da ONU e de governos, preocupados em protegerem a sociedade e o indivíduo. Esbarraram nessas dificuldades.
Afinal, como o constataram os deputados franceses que, em 1995, se debruçaram sobre o assunto, não é fácil distinguir, seja pelos estudiosos ou pelos próprios adeptos:

- a livre associação - do grupo coercitivo;
- a convicção - da certeza essencial;
- o engajamento - do fanatismo;
- o prestígio do líder - do culto ao guru;
- as decisões voluntárias - das escolhas completamente induzidas;
- a integração leal a um grupo - da fidelidade incondicional;
- a hábil persuasão - da manipulação programada;
- o discurso motivador - da lavagem cerebral;
- o espírito de equipe - da fusão do grupo.


Se nos socorrermos na filosofia, vamos encontrar em Lalande uma definição sintética de "secte", semelhante ao conceito hoje generalizado: um grupo de pessoas que aderem estritamente a uma doutrina bem definida, e cuja adesão provoca uma forte união entre elas, ao mesmo tempo que as separa dos outros espíritos.

Os espíritas tendem a definir com inusitado rigor o rol de suas crenças. Fixam-se em posições cientificas, laicas, religiosas, agnósticas, teístas, deístas, cristãs, ecléticas, ortodoxas; e uma série de outras derivadas das inúmeras combinações possíveis entre estas.
Infensos ao diálogo, nas redes sociais temos visto a tendência em se reunirem por tais afinidades, segregando os que apresentam qualquer mínimo desvio da matriz eleita pelo grupo.
Estaremos nos dividindo, nas redes sociais, literalmente falando, em seitas?

Seria bom que verificássemos se não podemos identificar os critérios de Lalande ou as dificuldades dos deputados franceses nos diversos grupos que integramos.

domingo, 15 de abril de 2012

A DECISÃO SOBRE OS ANENCÉFALOS À LUZ DO ESPIRITISMO

A recente decisão do Supremo Tribunal Federal, permitindo à mulher, se o quiser, interromper a gestação de um feto anencéfalo, não contraria a Doutrina Espírita.
Ao contrário, a Doutrina Espírita a antecipou como um dos momentos na evolução da humanidade a caminho da regeneração.
De tal forma estavam os ministros sintonizados com a Filosofia Espírita que pareciam, em suas justificativas e votos, verdadeiros médiuns da equipe de Espíritos superiores que coordenaram a Codificação Kardequiana.

No Livro dos Espíritos, cuja primeira versão foi publicada por Allan Kardec em 1857, nas abordagens sobre o aborto, a par de considerá-lo uma transgressão das leis de Deus quando praticado voluntaria e desnecessariamente, é dada uma atenção especial aos natimortos, considerando-os "crianças sem espíritos", conforme podemos constatar pelo diálogo na Questão 356:

"- Existem natimortos que não foram destinados à encarnação de um Espírito?
- Sim, há os que jamais tiveram um Espírito designado para os seus corpos: nada deviam realizar por eles. É, então, somente pelos pais que essa criança veio.
- Um ser dessa natureza pode chegar a termo?
- Sim, algumas vezes, mas não vive.
- Toda criança que sobrevive ao nascimento, necessariamente tem um espírito nela encarnado?
- Que seria sem ele? Não seria um ser humano.
"

A expressão "essa criança veio", é um detalhe nos indicando que eles estão se referindo a uma criança, a um corpo de criança, semelhante a todas as crianças e, não, como poderia alguém supor, a uma massa disforme. Então, podemos ver que, mesmo sem um espírito -- e, consequentemente, sem um perispírito --, os mecanismos da codificação genética são suficientes por si mesmos para gerarem um corpo. (Não vem ao caso, neste artigo, discutirmos a integração entre estes dois fatores -- código genético e perispírito -- na formação do corpo).
Na sequência, Kardec pergunta aos Espíritos se "um ser dessa natureza pode chegar a termo", e estes confirmam, indicando claramente que, por natimorto, apesar do termo, não se entende necessariamente uma criança que tenha morrido "antes" de nascer. Conceituação que coincide com o léxico, como podemos constatar servindo-nos do dicionário mais divulgado da Língua Portuguesa, o popular Aurélio:

"Natimorto, s.m. Aquele que nasceu morto ou que, vindo à luz com sinais de vida logo morreu."

Esta sobrevida deve-se, talvez, a uma energia residual decorrente do próprio metabolismo que o entreteve durante a gestação; ou, olhando-se pelo lado espiritual, ao fluido vital da mãe que retorna ao manancial primitivo.

O Ministro Marco Aurélio Mello, relator do processo de legalização da interrupção da gravidez do feto anencéfalo explicou muito bem, amparado nos pareceres dos especialistas, que se trata de um natimorto: não há ninguém ali para nascer; aquele ser não tem condições de estar no mundo; e nasce morto ou sobrevive apenas algumas horas. Segundo ainda o ministro -- neste caso amparado não apenas nos especialistas, mas também no Ministro da Saúde --, qualquer médico, minimamente preparado, munido de uma ecografia, consegue diagnosticar precocemente o anencéfalo.
O relator, ainda, descreveu o feto anencéfalo; disse o quanto do cérebro deve faltar para que realmente "não tenha ninguém ali" (aspas e expressão minhas), e o quanto são diferentes os casos que podem ser encarados como simples deficiências, as quais permitem ao recém-nascido "estar no mundo", ainda que com limitações.
Os casos apresentados com estardalhaço pelos ativistas contrários à liberação não se enquandram, segundos os professores médicos consultados, em anencefalia.

Portanto, baseado nos pareceres dos doutores médicos especialistas no assunto, referendados pelos Ministros do Supremo, podemos ter a certeza de que o anencéfalo se enquadra naqueles casos em que O Livro dos Espíritos nos diz que não havia espírito reencarnante.

Os espíritos dizem que Deus permite uma gestação inútil, com um natimorto, para provação e expiação dos pais.
Kardec define "provas e expiações" como a suportação das vicissitudes da vida. Diz também que nosso planeta é um mundo de provas e expiações. Mas, diz que não ficaremos eternamente nesta condição. Estamos prestes, segundo ele, a galgar um degrau na escala dos mundos e nos tornarmos um mundo de regeneração; onde seguramente as vicissitudes da vida serão mais brandas.
Entre as vicissitudes que nos serviram de expiação nós já tivemos a peste bubônica, a poliomielite, a varíola, e outras doenças; sem falar das inúmeras gestações frustradas por incompatibilidade sanguinea. Com a descoberta das vacinas, e a detecção prévia de muitos desses males, estas coisas foram afastadas como mecanismos de expiação.
Podemos afirmar, no caso em discussão, que o progresso científico que permitiu a detecção do natimorto ainda no ventre materno, só pode ter sido permitido por Deus (caso contrário, não ocorreria).
Logo, temos forte razão para pensar que, pela vontade de Deus, extinguiu-se na humanidade a provação e expiação através da gestação dos natimortos, tal como foram extintas aquelas outras. Isto porque os homens responderam à altura aos desafios impostos por Deus, inventando os diagnósticos e os tratamentos adequados, e, dessa forma, aproximando cada vez mais nosso planeta da condição de um mundo regenerador.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A FILOSOFIA ESPÍRITA

Apesar de não ter, ou mesmo aparentar, a menor pretensão em tornar-se uma "escola filosófica", o espiritismo é, sem sombra de dúvida, uma filosofia. O filósofo espírita J. Herculano Pires demonstrou isto fartamente em toda sua obra, mas, principalmente, na "Introdução à Filosofia Espírita", em "Ciência Espírita", e, na sua "Introdução ao Livro dos Espíritos". Kardec coloca sobre o título de "O Livro dos Espíritos" a identificação "Filosofia Espiritualista", e inicia "O Evangelho Segundo do Espiritismo" com um resumo da doutrina de Sócrates e Platão, pretendendo, segundo o Herculano, inseri-lo na tradição filosófica do espiritualismo. Mas, eu diria mais: apesar do intenso diálogo travado por Kardec com o positivismo dominante na filosofia francesa de sua época, acredito que sua filiação se dá mais intimamente com o espiritualismo de Victor Cousin, o eclético "ditador filósofo" que dominou as cátedras correspondentes em Paris durante grande parte do século. E, já em sua fase juvenil, o espiritismo, levado por Gustave Geley, retoma uma trajetória em sintonia com o espiritualismo restaurado no século XX pelo filósofo e prêmio Nobel Henry Bergson. Chegando ao final do século como uma filosofia da ética -- cuja praxis é tanto individual como social --, cuja vivencia é buscada expontânea e naturalmente pelos seus adeptos, mas sistematizada pelo próprio Herculano e mais o filósofo argentino Humberto Mariotti. Não é surpresa essa evolução constante no período, com a contribuição de várias mentes, pois Lalande já observava que Kardec não é o único, mas apenas "le plus célèbre".
E as credenciais filosóficas do Herculano para iniciar -- e avançar razoavelmente -- nessa sistematização, caso não fossem confirmadas pelo Professor Jorge Jaime em sua extensa "História da Filosofia no Brasil", o seriam pelo seu enquadramento nas diversas acepções do verbete "philosophe", do "Vocabulaire" do Lalande, principalmente a acepção "E" (Herculano bacharelou-se e licenciou-se em filosofia pela USP), apesar da advertência do dicionarista francês de que "cet usage du mot n'est pas d'une bonne langue, si ce n'est quand il implique une nuance d'ironie" (ou seja, o uso do termo filósofo para profissionais professores e estudantes, comum em nosso país, só se justifica quando implica uma nuance de ironia).
Herculano faz uma afirmação ousada em sua "Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas", de 1978, que tem recebido crítica de alguns estudantes de filosofia: "A Filosofia Espírita foi reconhecida pelo Instituto de França e figura no 'Dicionário Técnico da Filosofia', de Lalande".
Este dicionário é o "Vocabulaire Technique et Critique de la Philosophie", que André Lalande elaborou e publicou em fascículos durante as duas primeiras décadas do século XX. Não elaborou só. Travou profícua correspondência com vários filósofos contemporâneos -- Henri Bergson, Émile Meyerson, Édouard Le Roy, Maurice Blondel, Jules Lachelier, Léon Brunschvicg, Henri Delacroix, Frédéric Rauh, Georges Sorel, Pierre Janet, Edmond Goblot, Louis Couturat, Victor Delbos, e outros --, cujas contribuições se transformaram em notas de pé de página na edição definitiva. Herculano, sem dúvida, teve acesso à edição francesa, publicada apartir de 1926, em dois tomos (um terceiro, "Nouveau Supplement", foi acrescentado a partir de 1932), totalizando mais de mil páginas, uma vez que ainda não havia a edição brasileira, utilizada agora pelos seus críticos. No momento, tenho acesso à edição francesa de 1928, e à edição argentina de 1953, contendo, ambas, toda a discussão com os filósofos.
O verbete "spiritisme" já seria suficiente para permitir ao Herculano sua afirmação de que "figura no dicionário". Mas, é no verbete "spiritualisme" e, principalmente, na discussão entre os filósofos, ao pé da página, que a doutrina espírita ganha status de assunto filosófico.
Na acepção "D", Lalande repete a distinção feita por kardec entre "espiritismo" e "espiritualismo". Nas discussões, Brunschvicg, depois de observar que a conexão entre espiritualismo e sociologismo lhe parece derivar do "novo espiritualismo, que ocupa cada vez mais lugar no pensamento de Comte", escreve: "Não vejo, de forma alguma, que haja a menor razão para eliminar o espiritismo como uma das significações próprias do espiritualismo. Desconhece você assim a influência profunda e persistentes das crenças e das práticas espiritistas nas crenças e práticas religiosas, desde as mais antigas e rudimentares até as mais recentes". Mas, na sequência, Maurice Blondel acusa "alguns dos que comerciam com os espíritos" de confiscarem a acepção eclética do termo "porque não se contentam em ser espiritistas, ou porque o título de espiritualista é melhor aceito".
E Andre Lalande finaliza dizendo que ultimamente a palavra voltou a ter prestígio, mas "unicamente o uso que dela se tem feito anteriormente e os interesses filosóficos que ela representa em nossos dias podem determinar sua significação".

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A PREOCUPAÇÃO COM A QUALIDADE DA PRODUÇÃO MEDIUNICA

No final dos anos 60 e começo dos 70, os ares no movimento espírita eram outros. Ainda não tínhamos visto o "despertar dos magos" que já coloria a Europa e os EUA, e nossas manifestações culturais populares, de matrizes indígenas ou africanas, eram vistas com preconceitos. O espiritismo era, então, a mais procurada oferta em termos de espiritualidade. Eclodiam manifestações mediúnicas fantásticas, surrealistas, curadoras ou de efeitos físicos; os centros organizavam-se em torno de médiuns queridos em suas comunidades porém, duvidosos quanto à autenticidade do fenômeno; todos distanciados da abordagem sistemática da teoria, da doutrina ou do conhecimento. Para complicar as coisas, a FEB -- que por força do Pacto Áureo e de uma tendência centralizadora e autoritária que tomava conta da sociedade brasileira da época coordenava o movimento espírita com forte influência sobre o comportamento das federadas --, tinha, como seus dirigentes, pessoas refratárias a qualquer sistematização do ensino ou do aprendizado espírita; pessoas que combatiam mesmo iniciativas como cursos e escolas, fossem de doutrina espírita, ou de educação e orientação da mediunidade. Diziam temer a academização e a perda da singeleza buscada nas primícias do cristianismo
Em consequencia dessa situação, restava aos espíritas o aprendizado pelo esforço individual; pois nos centros raramente se ofereciam programas sistematizados; na imensa maioria deles os estudos era feitos aleatoriamente, com leituras de textos, conversas, etc.
Para o aprendizado teórico da doutrina espírita as consequencias não eram tão danosas, pois o estudo individual supria as deficiências de sistematização. Mas, para a prática mediúnica os efeitos eram realmente danosos. Os interessados no desenvolvimento mediúnico, os que viam-se às voltas com a emersão dos fenômenos, e até os obsedados, todos eram geralmente lançados em sessões de quase duas horas de duração, para que desenvolvessem a mediunidade na prática, na observação dos mais antigos. Se o candidato tivesse a sorte de integrar um bom grupo, com bons médiuns, feliz dele: pela imitação chegaria a um bom resultado. Mas, caso contrário, ele fatalmente assimilaria os condicionamentos, a falta de critério na identificação dos espíritos, as megalomanias, enfim, todas as viciações que costumam assediar a prática mediúnica. Some-se a isso uma crença errônea que ameaçava se generalizar, de que os médiuns eram seres privilegiados por conviverem com os espíritos, estando, portanto, dispensados das necessidades de estudo imposta aos demais mortais.
Neste cenário, um grupo de espíritas paranaenses resolveu seguir as sugestões de Kardec de que se fizessem cursos de espiritismo, enfim, que se sistematizasse o ensino. Como integravam órgãos federados, evitaram choques usando sempre denominações alternativas: cursos doutrinários eram "programas"; cursos de educação mediúnica eram "centros de educação mediúnica"; aulas eram "sessões".
Criaram, então, o Centro de Orientação e Educação Mediúnica - COEM, um programa composto de 30 sessões teóricas e 30 sessões práticas, intercaladas. As sessões teóricas contêm todo o conhecimento reunido sobre mediunidade nas diversas obras publicadas; as sessões práticas, como o próprio nome evoca, reúnem conhecimentos sobre as atividades práticas como concentração, passe, irradiação, sensações, psicografia, psicofonia, etc. Mas, a grande sacada foi o desenvolvimento gradativo nas sessões práticas. Estas sessões se iniciavam com uma rápida preleção sobre o assunto do dia, seguindo-se o exercício, que apresentava complexidade e duração crescentes. Nas primeiras práticas as pessoas se concentravam durante cinco minutos, depois passavam para dez, quinze, e assim sucessivamente,até um ponto em que se iam introduzindo as práticas citadas, chegando-se, ao final do curso, com sessões mediúnica completas, com vários minutos de duração. Ao final de cada sessão prática os participantes contavam suas sensações, percepções e, nos estágios mais avançados, liam suas produções mediúnicas. Este simples esforço de verbalização da experiência permitia a conscientização sobre suas reais potencialidades. A crítica, ostensiva, velada ou sugerida pelos companheiros, permitia a auto-crítica e a separação do joio do bom trigo. Por isso que uma prática corriqueira em todos os centros que aplicaram o COEM era a suspensão de todos os trabalhos práticos da casa, para que todos os médiuns participassem do programa. Após o término do programa, que durava no máximo dois anos, reorganizava-se os trabalhos da casa, agora embasados na consciência e conhecimentos adquiridos.
Na década de 70 esse programa teve uma aceitação muita grande. Centenas de centros, no Brasil e no exterior, o desenvolveram, coordenados pelo núcleo gerador sediado no Centro Espírita Luz Eterna, em Curitiba. A disseminação do programa foi tanta que um jornalista espírita chegou a separar o movimento espírita em "antes" e "depois" do COEM. E esta sigla tornou-se sinônimo de programas de desenvolvimento mediúnico, mesmo que redigidos por outras equipes que nem conhecem sua história, e aplicado das mais diversas maneiras, à revelia de seus criadores.
Ainda na década de 70 o programa passou por turbulências provocadas pela política interna do movimento espírita. Um dos expoentes da equipe chocou-se com um dos expoentes do movimento espírita, a coisa cindiu-se, quem antes divulgava o programa passou a combatê-lo. As novas gerações foram se formando dentro dessas facções, aceitando ou rejeitando o programa. Os que passaram a combatê-lo alegavam que o programa inibia os médiuns; não formava novos médiuns. Na verdade, o programa se contrapunha a uma prática que os deformava. O fato é que os Centros que o aplicaram naquela época, e as dezenas que até hoje o aplicam, vacinaram-se contra as aberrações, viciações e megalomanias surgidas da prática mediúnica desorientada.
Eu não participei da elaboração do COEM. Era muito jovem, tinha lá meus dezenove anos quando o elaboraram. Foram os "mais velhos", já na faixa dos trinta. Mas, eu participei do primeiro experimento; e da sua divulgação. Além disso, coordenei, mais recentemente,uma aferição que resultou na elaboração de uma nova versão, o COEM II. Hoje, o Centro Espírita Luz Eterna disponibiliza as duas versões do programa. A primeira, o COEM, propriamente dito, se bem que revisto, corrigido e atualizado pela equipe autora, é oferecido de forma impressa, através do site do CELE: www.cele.org.br. E o COEM II - a nova versão -, disponbilizado gratuitamente no site www.carlosparchen.net/coem2.html.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

RELAXE... FAÇA AUTO-CRÍTICA... RELIGIOSEIE, ATÉ, SE TE APATECE...

Uma das diferenças entre uma ciência e uma religião, é que esta última é um sistema fechado, do qual se você contesta qualquer segmento, seus adeptos reagirão, seguindo um instinto de sobrevivência, como se você tivesse contestado o sistema todo. Outra característica da religião é o apego emocional a um único livro, ou a um único autor, enfim, a um conjunto de princípios que não podem ser contestados. Eu nunca neguei a grandiosidade e importância do espiritismo. A mundividência apresentada e permitida pelo pensamento de Kardec nos abre uma perspectiva inédita não só de compreensão, mas, principalmente, de transformação do individual, do coletivo e do universal. No entanto, o progresso caminha do inconsciente para o consciente. É mister abandonarmos o mito pela razão, a fim de que retornemos ao mito instrumentalizados. Quando o espírita se fecha em Kardec e reage passionalmente a qualquer tentativa de questionamento, está se aferrando ao inconsciente; está resistindo ao desatracamento do mito que o sustenta; está temendo e fugindo da liberdade de pensamento; está, enfim, exercendo com a maior intensidade possível sua subordinação à religião. E a sua repetitiva, reiterada e irracional afirmação de que não é um religioso, é, na verdade, consequencia pura e simples do fato de que o mecanismo é inconsciente. Sendo inconscientemente um místico, temendo abandonar a segurança de suas crenças, aferra-se à afirmação de que não é místico, no mecanismo evidente de afirmar subliminarmente através de uma negação manifesta. Ele vive permanentemente um sonho e se recusa acordar. É um documentário vivo de como o conteúdo manifesto enconde o conteúdo inconsciente.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

GNOSE ESPÍRITA

O espírito é o ser consciente do universo; é a consciência individualizada. E o homem é um estado do espírito.
Seja o espírito um produto final da complexificação dos processos da matéria, ou tenha surgido pronto, anterior ou independente da matéria, produzido por um demiurgo, partimos da premissa de que, em algum momento, ele surgiu. E uma das suas faculdades inerentes e constitutivas, sem a qual ele não seria espírito, é a possibilidade de conhecer. Conhecer é a condição e o desiderato do espírito. Assim, o espírito conhece simplesmente por estar no mundo. Esse conhecimento ocorre lenta, gradual e permanentemente, dentro de um longo - ou até infinito - processo evolutivo. Sendo, o espírito, em seu inicio, simples e ignorante, ele apreende e compreende a realidade como pode. Durante a sua existência, como conseqüência da interação com a realidade, ele aperfeiçoa seus meios de apreensão e compreensão. A realidade aqui compreende todo o meio que o cerca, tanto as coisas diferentes dele, como os outros espíritos, semelhantes a ele; além daquilo que lhe é próprio, que se refere a si mesmo.
O espírito é capacitado a priori para o conhecimento; e essas capacidades são: a percepção, a individuação - e consequente vontade de preservação da individualidade -, e a divinização, ou impulso à divinidade.

Percepção é a capacidade de perceber a realidade, incluindo aí os mecanismos necessários, tais como, observação, análise, raciocínio e outros.
A vontade (ou necessidade) de preservação da individualidade alimenta na personalidade o egoísmo.
O impulso à divinidade é a ética interior e anterior que, no contato com as outras duas capacidades irá determinar as ações e reações do espírito.

PARADIGMAS

Primeiro era o teísmo. Durante muito tempo a ênfase das ações e atenções humanas era Deus. A vida se organizava em rituais, festas, governos, tudo girando em torno de Deus. Quanto sangue derramado pelas religiões em nome da divindade.
Depois, veio o humanismo. E a ênfase passou a ser dada ao homem, que se tornou o centro de todas as atenções, intenções, políticas e revoluções. Quanto sangue derramado pelas revoluções em nome da humanidade.
Agora, desde 1857, o mundo tem a chance de implantar um novo paradigma: é o espiritismo. A ênfase pode passar ao espírito, seu conhecimento, sua evolução, suas relações e comunicações. O futuro dirá se haverá derramamento de sangue também em nome da espiritualidade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

HÁ EVIDÊNCIAS DE UM ENCONTRO ENTRE MARX E KARDEC?

Refiro-me a um encontro pessoal entre eles.
Encontro ideológico até existe e seria passível de uma discussão interminável.
No meu tempo de mocidade, lá por 1970, alguém aventou a possibilidade de Marx ser o Sr. M..., referido por Kardec em um texto publicado em Obras Póstumas, com o título de "Primeira revelação da minha missão", e relativo a uma sessão na casa do Sr. Roustan, sendo médium a Srta Japhet, em 30 de abril de 1856, realimentado em uma sessão de 12 de maio do mesmo ano, desta vez na casa do Sr. Baudin. Vão na prateleira buscar o livro, abram na página 277 da edição FEB, e acompanhem o que digo.
Depois de uma breve pesquisa concluímos, na mocidade, que não havia evidências históricas; ao contrário, havia sim muitos indícios da impossibilidade do encontro; e não se falou mais nisso.
Agora, vi no youtube um vídeo de certo cidadão afirmando categoricamente tal encontro, e ainda jactando-se de ser o primeiro a encontrar as evidências "lá em Paris" e revelar tal novidade ao povo brasileiro. Como decepcionante confirmação, apenas cita o que o Leymarie publicou nas Obras Póstumas em 1890, conhecido de nossa gente desde que o Guillon Ribeiro as traduziu há muitas décadas.
Vamos aos fatos históricos. Em 1856 Marx morava em Londres, tinha enormes dificuldades para manter-se, a si e a à família, o fazia com a ajuda de seu amigo Engels e com bicos a jornais, além de sofrer enormemente com a saúde abalada, o que dificultaria qualquer viagem, ainda mais para o outro lado do canal. Ele havia sido expulso de Paris em 1845; foi viver em Bruxelas, na Bélgica, de onde foi expulso em 1848; voltando à Alemanha de onde foi expulso em 1849; tentou voltar a Paris mas o governo francês o impediu de fixar-se ali; então, no mesmo ano, com a ajuda de amigos, rumou para o exílio definitivo em Londres. Era, a esta altura, já um lider comunista bastante conhecido, não passaria, portanto, incógnito em Paris em 1856, onde poderia ser até preso pela ditadura de Napoleão III.
Vejamos alguns traços do perfil do Sr. M..., traçados por Kardec:. "O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas, envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar em evidência. Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte nela e a combinar planos de reforma. Era, aliás, homem brando e inofensivo". Alguma coisa até poderia bater com Marx; mas nunca o "homem brando e inofensivo". Muito menos seria ele alguém que precisasse de conversa com espíritos para "acreditar em alguma subversão e aprestar-se a tomar parte". Àquela altura, ele e Engels já haviam lançado o manifesto comunista e fundado a Liga dos Comunistas; portanto, eles faziam as subversões, não apenas "tomavam parte nelas". Prá completar, na sessão do dia 12 de maio, o próprio Espírito Verdade teria dito sobre o Sr. M...: "Muito ruído. Ele tem boas idéias; é homem de ação, mas não é uma cabeça". Marx, por seu lado, era a principal cabeça do socialismo científico que, naquela época e em quase todas as instâncias, substituía o socialismo utópico dos quais muitos adeptos integravam a equipe de Kardec.
Pode até ser que o moço do youtube tenha razão. Eu não creio; só vejo nisso o nosso afoito pesquisador criando uma história a partir de uma simples inicial.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A DEMOCRATIZAÇAO DA PRÁTICA MEDIÚNICA

A mediunidade está na base de todas as religiões. De uma forma ou de outra, todas elas tiveram seu início com alguém entrando no tal "estado alterado de consciência" e recebendo uma revelação de um ser espiritual, quer o chamemos de deus, de deusa ou de espíritos, e sejam estes "dos mortos" ou "da natureza". A partir dai, cria-se uma religião em torno da revelação, com seus mistérios, seus rituais, seus mestres e, principalmente, seu mercado. Os interessados são apresentados a uma série de exigências para iniciação e acesso àquela pretensa verdade; exigências que lhes custam tempo, dinheiro e submissão. O investimento em tempo sempre será necessário; mas, em dinheiro e submissão a templos e gurus pode se dispensado. Nossa sociedade e mesmo nossa evolução individual caminha para uma situação de independência; de certeza na igualdade de direitos e possibilidades de todas as pessoas. Portanto, dispense intermediários. Encontre você mesmo seu deus, sua deusa, seus deuses, seus espíritos guias, seus duendes, gnomos, et's, ou simplesmente mergulhe num oceano interior indevassado. Desenvolva sua mediunidade sem necessidade de alucinógenos nem de mistérios avaros protegidos por qualquer seita.
Como?
Reúnam um grupo que esteja a fim; e, de preferência, que seja afim. Se não forem afins, que ao menos estejam a fim. Qualquer número; mas, pensemos, por exemplo, em uma dúzia de pessoas. Escolham um local, estabeleçam um dia na semana e uma hora determinada para a reunião. Como eu já disse, tempo é necessário. Nessas reuniões estudem a vasta literatura disponível sobre a mediunidade, para conhecerem o terreno em que pisam, os mecanismos envolvidos e os possíveis inconvenientes. Mas, ao lado desse estudo teórico, iniciem a prática. Comecem com exercícios simples de concentração e vão, ao longo das semanas, aumentando-os em duração e complexidade. A prática da concentração também pode ser orientada pela literatura a respeito, onde sobejam exercícios de relaxamento e abstração. As reuniões podem começar com uma prece, ou uma leitura agradável; podem ter música suave ao fundo. Após os estudos teóricos, parte-se para a prática, onde se experimenta uns cinco minutos de concentração, que em algumas semanas será estendido para dez, depois para quinze, e, assim, sucessivamente, até uma duração de uns noventa minutos, mais ou menos, segundo os interesses do grupo. Terminado o exercício, dá-se um tempo para que as pessoas "retornem" (alguns terão "viajado" mais que outros). Assim que todos estiverem bem, cada um faz aos demais um relato do que sentiu e observou durante o exercício. Para efeito de ordem e organização, escolhe-se um dos participantes para dirigir a reunião, uma espécie de piloto ou monitor.
Todos esses passos, bem como a teoria a respeito, existem em programas pré-estabelecidos e disponibilizados gratuitamente na web. O mais popular deles é o COEM, o Centro de Orientação e Educação Mediúnica. Foi elaborado há mais de quarenta anos, pelo Centro Espírita Luz Eterna, de Curitiba, mas tem uma versão moderna, o COEM II, que pode ser encontrado para download simplesmente lançando-se esse nome no google. Para facilitar, indicamos dois sites que o disponibilizam: www.carlosparchen.net/coem2.html e pt.scribd.com/doc/61851789/1/COEMII---A-NOVA-VERSAO-CENTRO-DE-ORIENTAÇAO-E-EDUCACAO-MEDIUNICA. Mas, repito, consultem o google e encontrarão outros. Ou, se o preferirem, elaborem seus próprios programas.
Daí, meus amigos, seja com o COEM, com outro programa, ou o seu "personal program", vocês poderão fazer sua própria experiência. Ficarão sabendo se têm mediunidade, poderão decidir se isto realmente existe, se a alma sobrevive, se existem outros planos de realidade espiritual ou não.
Que acham?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

DEU NA TV

Eu estava assistindo ao Discovery Science, e aquele japonesinho que apresenta a série atual dizia que a matéria escura é a responsável pela coesão das estrelas nas galáxias e das galáxias nos aglomerados. E que a energia escura faz o papel contrário à matéria escura, ou seja, é responsável pela expansão do universo e o consequente distanciamento das galáxias.
Isto me lembra a questão 27 do Livro dos Espíritos onde escreveram que o fluido universal "é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá".
E o japonesinho explicava que a matéria escura foi descoberta justamente porque a gravitação sozinha não era suficiente para explicar a coesão das estrelas e galáxias.
Bem, pode que uma coisa não seja outra coisa (ou seja apenas o medo de admitir que o seja), mas não deixa de ser impressionante o fato de que duas adolescentes em transe anteciparam em 150 anos a necessidade da existência de um certo tipo de matéria invisível (ou escura, como queiram) para manter a coesão da matéria visível.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

ALEXANDRIA, O FILME

Alexandria, no Brasil, ou Ágora, em Portugal, ou Agora, no original,é o título de um filme espanhol dirigido por Alejandro Amenábar, lançado na Espanha em 9 de outubro de 2009. O filme é estrelado por Rachel Weisz e Max Minghella e relata a história da filósofa Hipátia, que viveu em Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415 do nosso calendário.
O embate é entre a filosofia e a religião. Entre o livre-pensar e a fé intolerante. Tem a política, claro; mas, a política é sempre a arena onde todas as coisas se chocam. O filme se ambienta na esquina de pedras onde a historia regrediu da ciência para o fanatismo. Onde a filosofia, representada pela cultura greco-romana, foi derrotada pela religião, representada pelo cristianismo, e a humanidade foi lançada na noite fria e tenebrosa da Idade Média. E onde metade da raça humana foi rebaixada a animal irracional: as Epístolas de Paulo, transformadas em lei, calaram as mulheres, proibindo-as de pensar ou ensinar, condenando-as à morte se o ousassem, no crime mais imperdoável do cristianismo.
O âmago do filme, o instante em que o debate milenar entre filosofia e religião se manifesta, é quando dois ex-alunos de Hipátia -- Orestes, o prefeito, e Sinésio de Cirene, bispo de Ptolemaida --, tentam convencê-la a aderir ao cristianismo para salvarem a pele e o poder, e ela responde clara e definitivamente porque não pode fazê-lo: "Sinésio, você não questiona sua fé; você não pode; e eu devo..."
Na época atual, quando julgávamos consolidadas as conquistas libertárias iniciadas com o Renascimento, mas, na verdade, vemos a pobre e condenada humanidade resvalando novamente para o abismo escuro do fundamentalismo -- seja mouro ou cristão --, impõe-se a importância desse filme. Que todos o aluguem, reúnam familiares e amigos, e salvem-se vendo-o. Pois não diz o poeta que os que desconhecem a história estão fadados a repetirem seus erros?

domingo, 31 de julho de 2011

AINDA AS CREDULIDADES.

Há pouco me referi à credulidade dos espíritas aceitando sem criticas pretensas profecias de Chico Xavier. Alguns chegam a atacar o pobre médium -- que não está entre os encarnados para se defender com facilidade -- por "fazer profecias com datação exata", sem se darem ao trabalho de verificar a autenticidade do texto ou da pretensa entrevista, saturada de pistas que a tornam bastante suspeita. Esse não é o primeiro acontecimento que demonstra a credulidade excessiva de uns, a má intenção de outros, e a justa indignação de um grande número de espíritas ante as fantasias, exageros, aberrações intelectuais, relatos de supostas reencarnações -- onde o general sempre reencarna como general, o médium como médium, o político como político, o escritor como escritor, num vai-vem vicioso -- que se agregam ao movimento espírita. Nosso caro amigo Sergio Brandão, num atencioso comentário ao texto, chegou a sugerir a necessidade de uma fiscalização mais rigorosa por parte dos órgãos representativos do movimento. Ele também não é o primeiro a pensar assim, numa justificável irritação dos espíritas estudiosos ante tudo isso.
Mas, convenhamos, essas coisas não acontecem apenas no espiritismo e, sim, em todos os campos do conhecimento e do pensamento. Qual não será a irritação dos professores sérios, dos físicos dedicados, dos engenheiros inteligentes ante as heresias científicas usadas, por exemplo, pelos que disseminam teorias conspiratórias sobre a "farsa da conquista da Lua"; dos cientistas quando constatam que suas descobertas recentes de raios de electrons ou coisas assim saídas dos buracos negros dos centros de galáxias são associadas com as expectativas místicas de 2012; ou dos astrônomos, amadores ou não, ao verem suas previsões já concretizadas de aproximação marciana servirem anualmente de alarmismos e frenesis em mensagens eletrônicas? Se é assim na ciência, imaginemos na religião! Como não devem sentir-se os adeptos conscientes da umbanda quando vêem sua religião associada indevidamente a charlatões que sacrificam animais ou até pessoas em rituais esdrúxulos de pretensa magia negra?
Teria fim, uma luta encetada por organismos representativos para entregarem prontinho aos interessados o que é ou não da doutrina?
Penso que, aqui, repete-se a necessidade do ensino da pesca ao invés do fornecimento do peixe. Cada pensante ou pensador deve aprender a separar o joio do trigo, a verdade e a mentira, nas idéias e movimentos que abrace. Quem se acha de posse de uma boa ceifadeira ou um bom método de separação, que o ofereça aos demais.
O importante é que desenvolvamos a responsabilidade pelas nossas crenças. E isso acontece através do estudo, da leitura do maior número possível de autores, da vivência de experiências e convivências em atividades de grupos, sempre com o olhar crítico, mantendo um equilíbrio saudável entre o ceticismo e a aceitação
Porque eu, particularmente, não me sinto credenciado para fiscalizar ninguém. Assim como não conheço ninguém suficientemente graduado para me fiscalizar no campo das idéias; e no campo da prática, faço concessão apenas no tocante àquilo que já foi objetivado consensualmente em forma de lei.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O VERDADEIRO CARÁTER DO ESPIRITISMO

Os Espíritos do Senhor,
que são as virtudes dos Céus,
qual imenso exército que se movimenta
ao receber as ordens do seu comando,
espalham-se por toda a superfície da Terra
e, semelhantes a estrelas que tombam,
vêm iluminar os caminhos
e abrir os olhos aos cegos.

Eu vos digo, em verdade,
que são chegados os tempos
em que todas as coisas
hão de ser restabelecidas
no seu verdadeiro sentido,
para dissipar as trevas,
confundir os orgulhosos
e glorificar os justos.

As grandes vozes do Céu
ressoam como sons de trombetas,
e os cânticos dos anjos se lhes associam.
Nós vos convidamos, a vós homens,
para o divino concerto.

Tomai da lira,
fazei uníssonas vossas vozes,
e que, num hino sagrado,
elas se estendam e repercutam
de um extremo a outro do Universo.

Homens, irmãos a quem amamos,
aqui estamos junto de vós.
Amai-vos, também, uns aos outros
e dizei do fundo do coração,
fazendo as vontades do Pai, que está no Céu:
"Senhor! Senhor!"...
e podereis entrar no reino dos Céus.



Esta belíssima e poética mensagem foi colocada por Kardec como prefácio de seu livro mais lido: "O Evangelho Segundo o Espiritismo". Segundo ele, porque a mensagem, transmitida por via mediúnica, resume, ao mesmo tempo, o verdadeiro caráter do Espiritismo e o objetivo da obra.
Temos aí, portanto, resumido, o verdadeiro caráter do Espiritismo, segundo seu fundador.
O que é caráter? Os dicionários da língua portuguesa, assim como os dicionários filosóficos ou especializados, trazem várias acepções, tanto relativas às coisas como às pessoas. No tocante às idéias, poderíamos dizer que caráter é o conjunto de qualidades ou especificidades próprias de uma idéia e que a distingue das outras.
E a primeira qualidade notada neste texto é o seu estilo: poético e místico.
Está pleno de imagens e metáforas poéticas, como os sons de trombeta representando as vozes que trazem conhecimentos novos e inusitados; as liras que talvez sejam os discursos; e excelências abstratas como as virtudes não pertencendo mas em sinonímia com os espíritos do senhor, que para os espíritas são seres concretos. Além de cântico de anjos simbolizando o apoio e amparo de espíritos puros.
E apesar do convite ao arroubo místico - no qual diremos do fundo do coração "Senhor!Senhor!" -, parece concluir a mensagem que o principal caráter do Espiritismo é o incitamento à prática da ação básica e mantenedora do universo: a prática do amor!
Mas, não se desesperem aqueles que vêm no Espiritismo apenas razão e ciência, e sentem a pressão da natural rejeição dessas instituições a afirmações irrefutáveis como as da mensagem. Em outros textos de Kardec sobejam justificativas também para os "espíritas científicos". E todos nós, uma vez convidados à prática do amor, vamos continuar nos considerando igualmente espíritas, sem exclusão.
Bem, tendo em vista a importância dada pelo fundador do Espiritismo (ou "codificador", como preferem muitos) a esta mensagem, atribuindo a ela o "verdadeiro caráter" da doutrina, sua exegese não se esgota aqui, e não poderia ser diferente.
De minha parte, fica aberta a temporada de comentários a respeito.
Aliás, estranho muito o generalizado desconhecimento ou desconsideração que o texto tem merecido dos espíritas.

terça-feira, 28 de junho de 2011

MÉTODO DE LEITURA

Gostaria de sugerir aos leitores de blogs, entre os quais com prazer me incluo (refiro-me a todos os blogs, claro, não apenas a este aqui), que não se atenham apenas à leitura das postagens; mas, que leiam também os comentários que elas suscitam. Tais comentários enriquecem bastante as postagens, e, não raro, são mais ricos que elas próprias.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

INCRÍVEL A CREDULIDADE DOS ESPÍRITAS

Circula por aí uma suposta entrevista com o Chico Xavier. Teria sido dada lá pelos idos de 1986, e o cára esperou a morte do entrevistado para divulgar. Por quê? Nenhuma resposta seria provável ou refutável.
A suposta fala do Chico faz previsões com datas marcadas. Inconcebível.
Mas, o mais tragicômico é que alguns espíritas que se dizem científicos aproveitam para destilar seu venenozinho na memória do médium mineiro por conta das barbaridades contidas na conversa. Ninguém dá o benefício da dúvida a quem não está mais aqui prá se defender. E nem acha estranho uma mensagem levar tanto tempo assim prá ser divulgada, e acertar tantos fatos ocorridos entre a pretensa data e os dias de hoje. Aliás, as mentes incautas até acham que o restante das "previsões" têm chance de acontecer porque acertou naquilo que já passou.
Ninguém nota que, qualquer um que crie um absurdo destes, terá, claro, a história a seu favor para "acertar" a previsões passadas. Em grande parte, a mensagem é isto: uma "profecia do passado".
Em algo assim tão polêmico, o divulgador que apresente a gravação, ou a mensagem assinada, ou, cale-se para sempre.
Se bem que, não faltarão "médiuns" para receberem "comunicações" do Chico confirmando a autoria da entrevista; nem inocentes para acreditarem...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

JUSTIÇA "ABENÇOA" COMPROMISSO HOMOAFETIVO

Na maioria das vezes eu me rendo à mania kardecista de pensar por tríades, por influência, tanto quanto Kardec, da bela literatura celta da qual ele era entusiasta. Assim, na construção da personalidade transitória que arrastamos pela existência (refiro-me a "personalidade transitória" como segmento da "individualidade permanente" que todos somos) eu vejo três grandes fatores resumindo todas as influências: a genética, o ambiente e, por falta, no momento, de palavra melhor, as reminicências. Este último fator seria a soma de todos os conhecimentos, experiências, aferições de experiências e as consequentes tendências que já somávamos naquele fatídico dia em que papai e mamãe resolveram transar e o capítulo atual começou. Procurando fugir de um quarto fator que demoliria a tríade, eu diria que esses três elementos são misturados no caldeirão da vida pela consciência (ainda que inconscientemente, entenda!); esta consciência nos conferiria a liberdade individual, o tal livre arbítrio, sem o qual seríamos marionetes nas mãos de forças cegas. Pois bem, parando com enrolação, o que eu pretendo mesmo dizer é que, independente da quantificação da contribuição de cada um desses fatores na determinação de nossa orientação sexual (e a favor de que essa discussão prossiga indefinidamente, pois só aumenta o conhecimento de nós mesmos), eu fico muito feliz com a decisão do STF (que mais uma vez agiu no vácuo deixado pela covardia dos legisladores, a quem competia a responsabilidade pela decisão) valorizando a liberdade das pessoas se juntarem e desjuntarem segundo suas próprias vontades e consciências.
Mas eu queria também, na oportunidade, lembrar o quanto o Chico Xavier e seus Espíritos foram proféticos nisso tudo, reproduzindo parte de um artigo que publiquei há algumas décadas nos murais espíritas.

"No século XIX, quando surgiu o Espiritismo, a homossexualidade não era uma questão em debate. Vivia-se ainda numa sociedade que reprimia o sexo e, portanto, o assunto não se apresentava na filosofia ou na ciência como um premente problema humano exigindo discussão. Por isso que não foi abordado exaustivamente por Kardec. Mesmo assim, no "Livro dos Espíritos", nas questões 200, 201 e 202, está escrito que o espírito não tem sexo, podendo reencarnar ora como homem, ora como mulher, conforme suas necessidades de progresso. Mais tarde, em 1866, na Revista Espírita de janeiro, no primeiro artigo, Kardec volta ao assunto explicando "certas anomalias aparentes" pela reencarnação do Espírito em sexo diferente depois de "percorrer uma série de existências no mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher, cuja marca nele ficou impressa". E reitera que "não existe diferença entre o homem e a mulher, senão no organismo material, ... porque não há duas espécies de almas".

"Já no século XX, podemos apresentar, na bibliografia espírita, opiniões mais definidas.

"André Luiz, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, mostra-se bastante aberto e tolerante em relação ao assunto. No livro "Evolução em dois mundos", de 1958, Segunda parte, cap. XII, encontramos: "Quanto à perda dos característicos sexuais, ... ocorrerá expontaneamente, quando as almas humanas tiverem assimilado todas as experiências necessárias à própria sublimação, rumando, ... para a situação angélica, em que o indivíduo deterá todas as qualidades nobres inerentes à masculinidade e à feminilidade..." E no livro "Sexo e destino", de 1963, cap. IX, podemos ler: "... que inúmeros espíritos reencarnam em condições inversivas, seja no domínio de lides expiatórias ou em obediência a tarefas específicas, ... homens e mulheres podem nascer homossexuais ou intersexos, ... que nos foros da Justiça Divina ... as personalidades humanas tachadas por anormais são consideradas tão carentes de proteção quanto as outras que desfrutam a existência garantidas pelas regalias da normalidade, segundo a opinião dos homens, observando-se que as faltas cometidas pelas pessoas de psiquismo julgado anormal são examinadas no mesmo critério aplicado às culpas de pessoas tidas por normais, notando-se ainda, que, em muitos casos, os desatinos das pessoas supostas normais são consideravelmente agravados, por menos justificáveis perante acomodações e primazias que usufruem, no clima estável da maioria ... e sobre preceitos e preconceitos vigente na Terra... os homens não podem efetivamente alterar, de chofre, as leis morais em que se regem, sob pena de precipitar a Humanidade na dissolução, ... no entanto, no mundo porvindouro os irmãos reencarnados, tanto em condições normais quanto em condições julgadas anormais, serão tratados em pé de igualdade, no mesmo nível de dignidade humana, reparando-se as injustiças assacadas, há séculos, ... porquanto a perseguição e a crueldade com que são batidos pela sociedade... lhes impedem ou dificultam a execução dos encargos que trazem à existência física, quando não fazem deles criaturas hipócritas, com necessidade de mentir..."

"Esse "mundo porvindouro", a que André Luiz se refere, é, sem dúvida, o nosso, uma vez que já se passaram 47 anos da publicação do livro e, hoje, vivemos num mundo onde o preconceito contra os homossexuais é encarado como uma anormalidade. As leis, cada vez mais, procuram garantir os direitos das minorias, permitindo que vivam suas vidas à sua maneira, sem os antigos prejuízos."